Num dia claro de sol, mar calmo, barco atracado no cais, na hora do café da tarde, não se imagina que nada aconteça. Mas no mar sempre existem surpresas.
Eu estava passando um café e escutava as risadas no barco ao lado: um bando de garotas tomando cerveja no convés.
Então escuto um “SOCORRO”, e mais risadas. Pensei: estão brincando, vou tomar meu cafezinho em paz. Mas veio aquela voz da responsabilidade e disse: e se for um pedido sério de socorro? A palavra é muito forte, resolvi sair para ver o que era, foi quando vi que uma das garotas estava na água, trajando um colete salva-vidas, em pânico, se debatendo e tossindo, enquanto as amigas continuavam a rir no convés do barco. Imaginei que as tais amigas pudessem estar bêbadas, sem se dar conta da situação, e chamei a moça que se debatia, pedi que olhasse para mim, ela atendeu, então eu disse para ela dar mais uma braçada e agarrar o cabo da nossa poita. Ela agarrou e continuou chorando, com medo de que os dois barcos se encostassem, com ela entre estes.
Eu não ia pular na água para trazê-la para borda, a não ser em último caso, pois pessoas em pânico ficam com uma força descomunal, e ela bem poderia me afundar. Gritei pelo Dorival, que trouxe um cabo com uma alça de costura de mão, pediu que ela agarrasse, e veio puxando-a entre os barcos. O mar aqui em volta tinha ficado mais agitado, com as marolas de um catamarã, e ela se assustou com o movimento.
Motivo para o pânico, não havia nenhum, mas ela não sabe nadar, e se apavorou a tal ponto que não tomava atitude positiva nenhuma. Ajudar pessoas nessa situação exige técnica; quando nada dá certo, dão uma bofetada para sossegar o afogado. Não sei nada sobre isso.
Sei de relatos de pessoas que não aparentavam nenhum medo de mar e barco, e a bordo, começaram a ficar nervosas, quando deixaram de ver a terra, ou quando caiu a noite. Se fossem pensar racionalmente a respeito, veriam que com o barco afastado da costa são melhores as chances de deixar o equipamento e a tripulação em segurança, em caso de pane no motor, ou problemas com as velas, ou mesmo mau tempo, antes que o mar jogue o barco para a arrebentação, ou pior, para as pedras. E à noite, sem a ação do sol, o mar fica, em geral, bem mais calmo.
Mas cada pessoa tem o seu limite. Eu não posso ver uma barata, o máximo que faço é quase estourar os tímpanos de quem está ao lado, via de regra, o Dorival. Tem gente que passa mal em elevador. Outros suam frio para dirigir um automóvel. São as tais questões de foro íntimo, mistérios da personalidade humana.
Afora estas pequenas surpresas do dia-a dia, as coisas por aqui estão dentro da rotina, incluindo as manutenções e melhorias feitas no barco pelo Dorival, que anda bastante ocupado, revendo de fusíveis a catracas, justamente para não ter surpresas lá fora. Numa das melhorias, ele colocou mais peso na popa, e agora vamos ter que distribuir melhor os pesos a bordo, para deixá-lo trimado.
De qualquer forma, o barco já está bem mais pesado, pois fizemos um bom supermercado, de quase 300 kg, para não esquentar a cabeça por um bom tempo, porque temos uma longa viagem pela frente. Duro foi arrumar lugar para tanta coisa a mais.
E como formiguinhas se preparando para o inverno, fizemos um bom estoque de gás de cozinha, de óleo de motor, de artigos de perfumaria, de tudo! Isso vai atrapalhar a nossa “performance” na Refeno, mas não podíamos deixar de aproveitar a oportunidade de abastecer o barco num cais e numa cidade com boa estrutura para tanto.
Continuamos subindo e descendo ladeiras (da Água Brusca, da Preguiça, da Barroquinha, etc…), para resolver pendências e burocracias, parando nos centros de perdições que são as barraquinhas. Nessa região quase não se vêem padarias, mas de manhãzinha são montadas umas tendas com caldinhos de milho, bolo e outras guloseimas, para o pessoal que trabalhou à noite, ou o que está saindo para trabalhar, tomar seu café da manhã. Tudo com uma aparência ótima, numas panelas de inox brilhantes, colocadas sobre
toalhas brancas, e cobertas com panos também brancos limpíssimos; menos de 2 horas depois, desmontam tudo e vão embora.
E veja só aonde fomos parar atrás de burocracias. Imagina do que se trata?
Na semana próxima, mais trabalho, pois vamos encarar a pintura de fundo do barco, antes de subir para Recife.
Mas hoje é sexta-feira, dia de sair para aproveitar as comidas típicas baianas, que por tradição, hoje são servidas dos restaurantes. Também é o dia em que muitos saem vestidos de branco, dos pés à cabeça, muitos vão à missa, e muitos tomam cerveja, e todos convivem com um sorriso no rosto, mesmo quando chutam uma pedra na calçada.
Catarina