Passamos a semana em Gamboa do Morro, um povoado próximo do famoso “Morro de São Paulo”, ambos pertencentes ao Município de Cairu, na Bahia. É um lugarejo bastante simples, formado por poucas Gamboa do Morro - 1ruas. Parte da orla está tomada por algumas casas singelas, ao lado de um cais de desembarque de concreto com intenso movimento de embarcações e pessoas.
Quando chegamos, havia um único veleiro além do nosso, numa ancoragem distante, e muitas pequenas embarcações ao largo. A primeira dúvida que surgiu para lá permanecermos foi quanto à segurança, pois tínhamos a informação de que estava sendo iniciada uma greve de policiais na Bahia. Apesar da simplicidade, o distrito de Gamboa do Morro nos pareceu tranquilo, pacato, com origem numa pequena vila de pescadores que hoje vive, também, do turismo. Todas as vezes que íamos prender o bote inflável com cadeado no cais, nos diziam, quase ofendidos, que ali não precisava daquilo, que ninguém iria “bulir” com ele.Gamboa do Morro
É um lugar arborizado, que mantém grande parte da vegetação natural de mangues e matas baixas, a perder de vista, com praias limpas, de água transparente. A jóia do lugar é a Coroa do Meio, com piscinas de água morna na maré baixa, ou melhor, de água quente, porque a temperatura média tem sido de 29º C.
Há muitas poitas em frente à praia, logo após o cais de desembarque, para as embarcações de passageiros, de pesca, lanchas e canoas. Ficamos em uma delas, cedida por um amigo. Ali o mar rola um pouco, principalmente por conta do grande tráfego das embarcações, fazendo marolas, e pelo movimento das marés.
Os catamarãs com destino a Morro de São Paulo, partindo de Salvador,  também param nessas poitas. Soubemos que estas embarcações gastam, a cada viagem, cerca de 100 sacos para vômitos, fornecidos aos Coroa do Meiopassageiros. Elas andam muito rápido, e batem bastante no mar quando este está pouco mais alto, daí os passageiros chamarem o “Raul”. São lavadas a cada viagem de ida e volta. Ave-Maria! Imagine só quanta inspiração num só lugar, em dia de mar alto, tanto auditiva quanto olfativa!
Em Gamboa não há caixa eletrônico de banco, para sacar dinheiro tivemos que ir até Morro de São Paulo com o nosso bote inflável. Ali chegando, nos deparamos com um portal de pedra, que compõe a estrutura de uma fortaleza centenária, o que deu a idéia aos governantes locais de cobrarem R$12,00 por turista que por lá passe, a título de “taxa de turismo”. Falamos que queríamos apenas sacar dinheiro, a Morro de São Paulo poucos metros dali, e nos deixaram passar sem pagar. É uma medida ao menos antipática, sendo que deve haver formas mais criativas de se angariar dinheiro junto aos turistas.
A internet em Gamboa esteve fora do ar, e só no último dia conseguimos um acesso wi-fi, que dá mais conforto para rodar os aplicativos que estão em nosso próprio computador. Consultamos as previsões de tempo e vimos que entraria um vento contra para descer a costa; resolvemos adiar a nossa ida.
 
Voltamos para Salvador. Na viagem para cá, ouvimos os avisos-rádios para assistir ou informar quanto a 3 tripulantes desaparecidos de uma lancha que bateu nos recifes nas proximidades de Itaparica, no último Ponta do Curral dia 24 de janeiro. Na nossa viagem até Morro estivemos olhando atentamente, procurando por eles, sem sucesso. Foi um acidente ocorrido numa área abrigada de uma baía, num dia de tempo bom; independentemente das causas, revela a seriedade da navegação, pois um simples passeio pode se transformar num transtorno, e   numa tragédia.
Em Salvador, vamos aguardar uma condição de tempo favorável para partir, além de buscar umas peças de reposição e dar um jeito no nosso eólico, que está falhando, ele que é essencial para a nossa geração de energia à noite, em travessia. E quem disse que é preciso um motivo para voltar a Salvador? A onda de insegurança vai passar.

Catarina

Caramba! Já tínhamos esquecido o quanto esse lugar é bonito! O mangue intacto, as coroas de areia expostas na maré baixa, as árvores frondosas espalhadas pela orla, o mar morno convidando ao banho, a rica vida marinha: essas são as paisagens da costa oeste da Ilha de Itaparica.
Itaparica 1 Pensamos em parar aqui por uns dois dias para mergulhar, verificar o fundo do barco, e seguir viagem para Morro de São Paulo e Porto Seguro, onde amigos nos esperam. Mas, as coisas não são bem assim na Baía de Todos os Santos, é difícil deixar qualquer lugar daqui para trás. Já foi um drama a despedida de Salvador; apesar de sofrida, a cidade continua com seus muitos encantos. E cantos, porque vive e respira a música.
Mas, estava na hora de tomar um banho de mar, nadar em volta do barco, ver o pôr do sol no horizonte, as estrelas à noite do cockpit do barco, e explorar um outro lugar.
Nessa época do ano o vento é menos intenso Itaparica 2na baía, então, a vinda para Itaparica foi à base da paciência, do “tac-tac” e da troca de lados das velas. Qualquer oportunidade que temos, velejamos, sempre aprendemos alguma coisa (mais eu),  praticamos e nos divertimos. Acreditem, achamos mais difícil velejar com pouco que com muito vento; realmente, aí reside uma arte.
A ancoragem nesta face da ilha está com menos embarcações que há cerca de dois anos, quando estivemos aqui nesta mesma época, por conta do menor número de embarcações estrangeiras (leia-se CRISE internacional). Há alguns Coroa e mangueveleiros de bandeira brasileira, convivendo com embarcações de pesca, lanchas potentes e outras menores, além de pequenos saveiros e canoas.
O desembarque é no cais da Marina da Ilha, onde, diferente do Caribe, ninguém prende o bote com cadeados e correntes. Ao lado da marina é mantida a fonte de água mineral da ilha, de acesso gratuito. Da ancoragem conseguimos acessar a internet wi-fi aberta da marina. Tudo isso não é um luxo?
Numa volta pela cidade de Itaparica, notamos que a ela está mais arrumada e limpa, com varredores de rua logo pela manhã, sinal de que faz diferença a atuação da administração local; continua singela, como uma cidade do interior, mas bonita. A igreja centenária foi pintada e, pelo visto, recuperada. Continua vagando pelas ruas uma senhora argentina que mora na praça, levando suas Luxo tralhas e seu gato por onde anda; certamente, foi acolhida pelo povo da ilha, não sobreviveria sozinha.
Saímos da rotina de cais de marina para viver com a nossa própria energia. Também deixamos de contar com o conforto da cidade, com lavanderias à disposição, então, o jeito é lavar roupa a bordo, atacando de vez o problema, para não acumular.
Como é que faz, já tem frente fria chegando no Rio de Janeiro. Será que esse ano essa estória vai antecipar? Logo, logo, bem sei, teremos que ir. Mas, aqui está tão bom. Não tenho vontade de ir embora, não.

Catarina

“Marinheiro, não deixe a barca virar!” É um ditado popular, bem anterior ao GPS e aos alarmes de segurança de última geração das grandes embarcações. Lembra da responsabilidade daquele que está no comando da embarcação.
Nos contava o Décio, do Veleiro Hot Day, que estava subindo a costa para Cabedelo em seu barco, fazendo um bom progresso na travessia, com as velas ajustadinhas, quando avistou os tripulantes de uma embarcação pesqueira fazendo sinais com as mãos. Chamou-a pelo VHF No Pelourinhoe… nada. E agora? Poderia ser uma armadilha, um falso pedido de socorro; além de tudo, teria que mudar o seu rumo para alcançá-la. Mas, a obrigação de homem do mar falou mais alto. Recolheu a genoa, ligou o motor, e foi em direção à embarcação. Ao se aproximar, ouviu dos tripulantes que o cigarro deles tinha acabado. Depois de quase xingar a mãe dos sujeitos, passou uns maços de cigarro para eles e voltou ao seu rumo. Estava sozinho, e teve que lidar com o medo, o cansaço e o imprevisto.
Ser um homem do mar é coisa séria. As decisões são difíceis, e devem ser tomadas com rapidez, por pessoas com preparo para o comando.
O acidente com o navio de cruzeiro na Itália tem causado muitas reflexões sobre comandantes e embarcações. Uma delas, o mito de que quanto maior, mais segura é a embarcação. Existe, obviamente, um tamanho mínimo para que a embarcação saia de águas abrigadas para mar aberto; o projeto da embarcação deve ser compatível para o que se propõe, ter autorização da marinha para tanto, tripulantes habilitados, e cumprir as normas de segurança. No mais, não há embarcação grande o suficiente para o tamanho do mar.
Não gosto da idéia de grandes aglomerações humanas, o que, por si só, podem ser um problema num momento de evacuação.
Em Salvador, temos visto destes navios de cruzeiro encostarem com frequência no Porto. Os comerciantes dizem que eles trazem poucos recursos à cidade, pois os passageiros se hospedam e fazem as refeições no navio, e nas compras, se limitam às lembrancinhas, pois ainda terão muitas prestações da viagem para pagar.
Quem procura, acha. O nosso barco só ia tomar um banho, daqueles

detalhados, com polimento do aço inox, lavagem de redes e cabos, eis que, ao desmontarmos a bóia salva-vidas, descobrimos que o seu cabo estava em estado não adequado, apesar de relativamente novo. Ao tirar a balsa salva-vidas do lugar, vimos que o peso dela estava marcando a pintura do barco, e expondo o epóxi ao sol. Também tivemos a idéia de colocar a segunda âncora do barco junto à outra, no lançante, só faltava um cabo forte para prender o apoio da corrente. A necessidade destas providências, e de mais algumas, adiaram a nossa saída de Salvador. Queremos sair nos trinques.
O acarajé é uma comida boa, mas, às vezes, damos azar de pegar uma barraca que vacilou na higiene ou na conservação dos alimentos. O Dorival foi uma vítima delas na última terça-feira à noite, quando fomos com uns amigos assistir ao show do Gerônimo no Pelourinho.
Até ele ficar bem, vamos dar um tempinho. Afinal, ele é que é o capitão, no comando da nossa embarcação.

Catarina

O Ensaio do Gerônimo acontece todas as terças-feiras, no Pelourinho. É de graça, bastante popular e informal, mas é muito bem produzido. Muita gente se acomoda na escadaria do Paço, aquela em frente à igreja onde foi filmado “O Pagador de Promessas”.

Dorival

Bateria femininaO dia da lavagem das escadarias da Igreja do Bonfim começou cedo. Às 7:30 da manhã, helicópteros de redes de televisão já passavam sobre as ruas da cidade baixa, e pessoas se concentravam em frente à Igreja de  N.SRA. da Conceição da Praia, de onde sairia a procissão às 10:00 horas da manhã. Em frente à igreja, montou-se um altar com a imagem de  Nossa Senhora, de onde seria celebrada uma missa. Coisas da Bahia: uma procissão puxada por baianas de vários candomblés, Gaitastrazendo água perfumada preparada em seus terreiros, com participação da igreja católica. Cada um na sua. O importante é pedir a proteção de Nosso Senhor do Bonfim, aquele que, segundo a crença, salva náufragos, cura doentes, e afasta, de última hora, as lâminas de punhais assassinos.
E de última hora, a nossa vizinha Rúbia, do Veleiro “Hot Day”, resolveu participar da festa; fomos atrás de camiseta e pulseira para ela, que se revelou uma ótima companhia, uma Baianasfesteira de primeira. O gerente da marina já tinha vindo nos chamar para o agito, ele que ia no meio da multidão, sem participar de bloco nenhum.
Quem não podia participar olhava com cara de desalento, afinal, este é um dia sagrado para muitos baianos; um dos que tinha que trabalhar nos disse, chateado: “é, meu amigo, o sistema é bruto”, parodiando um apresentador de programas policiais.
Filhos de GandhySaímos às 8:30 e o nosso bloco já estava nas ruas, depois de uma série de exercícios de alongamento feitos em frente à Marina, e uma oração.
Passando pelo Mercado Modelo, pudemos ver várias barracas montadas com comidas, e algumas pessoas comendo feijão com farinha, um prato reforçado para aguentar a caminhada.
Ao som da batucada das mulheres do bloco, e das gaitas tocadas por Beijinhohomens, fomos caminhando pelas ruas de acesso à igreja, antes das baianas; a intenção da organização era fugir do tumulto, chegando primeiro no Bonfim. Muitas barracas de ambulantes estavam montadas pelas ruas, com bebidas geladas, tabuleiros com acarajé, abará, cocada,  bolinhos de estudante, e mais delícias; os que não podiam sair de seus pontos de venda tiravam fotos do cortejo.
Não sei como seria ir no meio da multidão, mas o fato é que o bloco conta Chegandocom pessoas que tomam conta do movimento, isolam carros e pessoas alheias, e isso traz tranquilidade e segurança para curtir a festa. De estranhos, entravam no bloco os cachorros de rua, que desfilavam abanando o rabo, acostumados às festas e às multidões da Bahia. De qualquer forma, havia tantos policiais, em palanques e pelas ruas, que acho difícil que alguma ocorrência mais grave acontecesse. 
Assistindo a chegada Muitas pessoas acompanhavam das sacadas das casas, acenavam, e o Dorival até ganhou um beijo soprado por de uma senhora de cabelos brancos.
Passamos pela casa da imaculada Irmã Dulce, sentindo o cheirinho dos pães fabricados no local. Nos esperavam num portão diversas crianças com necessidades especiais, e o bloco parou para saúda-las. Tenho guardado comigo as fitinhas em branco e azul, distribuídas por uma irmã da casa; vão ser Cortejopenduradas na roda de leme do barco.
E foi assim, dançando, conversando, que nem vimos os quilômetros passarem; quando nos demos conta já estávamos a dois ou três de chegar. 
A emoção foi grande quando avistamos a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, cercada por uma multidão de branco.
Neste ponto, já estávamos extasiados com o cheiro de dendê onde os Igreja do Bonfim acarajés estavam sendo fritos, e como estávamos adiantados, paramos para comer numa tenda.
Não pudemos chegar perto das escadarias, a igreja é pequena para a  multidão estimada em um milhão de pessoas, com os lugares privilegiados para os políticos, os clérigos, e as próprias baianas, além da tropa de policiais. Então, fizemos o nosso pensamento, pedimos por todos e pelo nosso planeta, que já vimos, não é tão grande assim para aguentar tanto desaforo dos homens.
ConfraternizaçãoA festa continuou à beira da praia, onde sentamos com amigos e pessoas que ali conhecemos para tomar uma cerveja super gelada.
Aqueles que tinham vindo para a igreja de escuna, ou outra condução,  sofreram críticas do grupo, afinal, “quem tem fé, vai a pé”.
Foi um bom dia, de boa companhia, bom tempo, e bom astral. Um dia para ficar na memória.

Catarina

Festa? Que nada! Para que pequenos problemas não se tornem PROBLEMAS, resolvemos encarar a lista das fainas pendentes do barco. Foi uma semana de trabalho duro. Poderíamos adiar tudo para resolver depois, no sudeste, mas as coisas sempre podem se complicar no caminho.
A nossa lista começou pelo costado, para tirar a meleca dos decalques de regatas, principalmente, a de Horta à Terceira, nos Açores. As outras pendências: reparo no gerador eólico, que se negou a funcionar em determinada posição, dependendo da direção do vento; o nosso bote inflável, que precisava de acabamentos para que a madeira em que vai preso o motor não estragasse com o atrito; limpeza dos nossos tanques de água, que estavam com barro no fundo, mesmo com o nosso cuidado Lelê da Catarinade
filtrar a água na entrada. Etc, etc, etc…
Os serviços sempre demoram além do planejado porque em barco tudo é mais complicado, até para achar o material apropriado, como parafusos de aço inox. As instalações também nunca são triviais, precisamos fazer um contorcionismo que toma tempo.
As fainas do lado de fora têm sido sofridas, por conta do sol escaldante. Diferente do sudeste, que recebe chuvas pesadas nesta época, aqui acontece uma chuvinha de 10 minutos, e o céu torna a ficar totalmente aberto.
Em Salvador, tivemos uma boa surpresa: há internet wi-fi grátis, e de qualidade, bancada pela Prefeitura do Município.
Notamos que os preços dos produtos aqui variam muito de um supermercado para o outro. Os preços praticados por um atacadista próximo à Marina não são ruins, mas há muitos produtos no limite da data de vencimento. Em um outro supermercado, de varejo, tudo é mais caro, caso de um simples balde a R$38,00; por conta disso, chamamos a rede de “mau preço”. Nessa mesma rede, o serviço prestado é ruim, incluindo o açougue, que não faz cortes das carnes. Até o taxista que faz ponto no local criticou o estabelecimento; gosto da sinceridade do baiano. Nos resta tentar um terceiro supermercado antes de partir daqui.
Não entendi o preço da castanha do Pará em Salvador, de R$70,00 o quilo, no próprio país que as produz, se em Portugal eu pagava o equivalente a R$33,00. Era para as tais castanhas estarem em liquidação, depois que um famoso seriado sobre casos médicos, que meus pais assistem na TV, relatou uma intoxicação fictícia por selênio, nelas contido. No seriado, um paciente estaria às raias da morte por ter comido muito dessas castanhas, apresentando sintomas como se tivesse tomado uma forte radiação de selênio; nunca soube de um caso destes no Brasil. Tudo é estatisticamente possível, até discos voadores visitando nosso planeta, entretanto, nestes anos de viagem pelo mar, observando atentamente o céu à noite, nada vimos além de astros, estrelas cadentes e aviões. 
Também por estes dias recebemos a visita das irmãs francesas que aqui conhecemos há dois anos. Elas e seus amigos reclamaram do tempo que podem permanecer no Brasil, dizendo que o nosso governo é mau para com os velejadores. Não é bem assim, o governo brasileiro reduziu a permanência deles no Brasil em reciprocidade à mesma redução imposta aos brasileiros na França. Por conta desta medida, tem muito francês aqui escondido no Rio Paraguaçu, longe dos olhos da imigração.
Encontrei o lelê, aquele meu doce preferido, que vai bem com um cafezinho. Não paro de comer nem para posar para a foto.
Há uma febre na cidade de um brinquedo de duas bolinhas presas por um cabo, e o lance é bater uma bola na outra. As crianças, e até os adultos, andam pelas ruas batendo essas bolinhas.

Se for para se divertir, temos um convite para ir à lavagem das escadarias do Bonfim nesta quinta feira, no bloco do Gerônimo, que abre a procissão. Isso significa andar 3 km até a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, sendo que o lema é “quem tem fé vai a pé”. A amiga que nos convidou recomendou: “dinheiro, só na calcinha”. Ô loco! Isso não pode ser! Então, que vá na cueca!
Nosso Senhor do Bonfim é Oxalá, pelo sincretismo religioso.
Já compramos o ingresso que dá direito à camiseta e à volta ao Comércio de escuna. Com fé em Deus, estaremos lá.

Catarina

Vão dizer que em todos os lugares em que chegamos tem festa, assim foi em Portugal. Em Salvador, não poderia ser diferente. Todo o dia primeiro de cada ano acontece a procissão marítima de Bom Jesus dos Navegantes. É uma festa de devoção, em que a imagem do Bom Jesus é transportada da Capitania dos Portos até a Igreja de Boa Viagem, pela Galeota Gratidão do Povo, há 120 anos. Contam que tudo começou pelas mãos de capitães que transportavam mercadorias da África para o Brasil e queriam pedir proteção contra a pirataria, em meados do séc. XIX. AGaleota Gratidão do Povo procissão tem foguetório, barcos enfeitados, pessoas acompanhando em terra a imagem, realmente, um conjunto de passos emocionante de se ver.
O dia anterior, às vésperas do ano-novo, também foi de festa, porque viemos para uma vaga com água e energia na marina, e porque eu voltei para o Luthier.
Todo marinheiro é um observador perspicaz, até para coisas que nada tem que ver com a navegação. Assim, todos, mas todos da marina, da administradora à moça da lavanderia, vieram me falar que notaram a minha ausência, e que o Dorival estava cabisbaixo. Será que me contariam se ele não estivesse nesse estado de ânimo? Aí, já duvido, porque para esses assuntos impera a lei do silêncio.
O moço é bonzinho, eu sei. Só não encontrou nada do que eu deixei para ele na geladeira ou nos paióis, nem comprou frutas no Comércio; a cerveja, sim, ele encontrou e até colocou mais para gelar.
Para osMainha e Painho meus pais, a minha presença também foi uma festa, modéstia à parte. Eles se sentiram aliviados com o término de minha travessia.
Foram os meus primeiros dias dormindo em terra, na casa de meus pais, depois de mais de um ano balançando. Na hora de fazer as refeições, escolhi um prato fundo, sem pensar, e minha mãe me corrigiu, disse só se usava aquele prato para sopa, mas eu fiquei com a sensação de que ali a comida ia escorregar. No mais, o de sempre, “mainha” acha que eu estou em idade de crescimento, e preciso me alimentar.
Em Salvador, notamos que o Comércio, bairro em que está localizada a marina pública, na região central da cidade, está mais pobre, com mais lojas fechadas, ao lado dos imóveis abandonados. Mas, isso tem acontecido em várias cidades do país, com o advento dos “shopping centers”. Dizem que há um projeto de revitalização para as cercanias do Em Salvador porto, no Comércio, a exemplo do que foi feito em Lisboa, na Marina de Alcântara. Também há uma verba prometida para a marina pública, por conta da Copa do Mundo, ela que está com um cais em frangalhos, por conta do último inverno.
A temporada de verão chegou na cidade: há filas para tomar o Elevador Lacerda, muita gente nas ruas, muito calor, muita água de coco vendida como gelada em estado de morna, e preços em alta. Talvez seja a hora de se preparar para sair da cidade para um dos paraísos da Baía de Todos os Santos. Atrás de festas, pois!

Catarina

 

O Luthier dispõe das seguintes fontes de geração de energia: eólico de 400W; 400W em painéis solares; alternador de 80 ampéres e um gerador à gasolina de 2000W.
O sol na Bahia de Todos os Santos – Kirimuré-Paraguaçu para os índios Tupinambás, é suficiente para que os painéis solares gerem energia para o consumo do dia e para repor o gasto durante a noite. Mas, não é sempre assim.
Há dias em que o sol passa muito tempo escondido atrás de nuvens, ou temos chuva o dia inteiro. Nesses dias, o painel solar repõe apenas parte da energia. Nossas baterias são suficientes para três dias desses, o que, em geral, é suficiente. Se o tempo ruim durar mais que 3 dias, temos que ligar o motor ou usar o gerador à gasolina. O gerador eólico é pouco útil nas ancoragens porque elas são abrigadas de vento, na maior parte do Bahia de Todos os Santos tempo.
Navegando, o consumo é maior por conta dos equipamentos de navegação, principalmente, o piloto automático. Nessa condição, dependendo da direção do vento, o gerador eólico ajuda bastante.
Já deu para perceber que, para viver a bordo e velejar por aí, é importante dispor de múltiplas fontes de energia. As baterias só armazenam energia, portanto, tem que haver um balanço entre consumo e geração para que a vida seja confortável e não falte energia a bordo.
Na travessia de Saint Marteen até Flores, o Sol estava no mesmo hemisfério. Nessa passagem, não tínhamos sombra das velas sobre os painéis. Por outro lado, na navegação entre a Ilha da Madeira, Canárias e Cabo verde, com rumo 180º, tivemos sombra das velas sobre os painéis a maior parte do tempo e, além disso, nessa época o sol estava no hemisfério sul, portanto, os raios chegavam com um ângulo baixo, tornando os painéis menos eficientes. Somou-se a isso o vento de popa, muito ruim para o gerador eólico, o que nos obrigou a usar o gerador à gasolina todos os dias.
Durante nossa passagem pela ITCZ, usamos o motor. Nosso alternador com regulador externo de 3 estágios manteve as baterias carregadas e supriu toda a nossa necessidade de energia.
Depois que assumimos o rumo direto para Salvador, desde 5ºN até 5ºS, foi uma maravilha para gerar energia. Navegamos com vento aparente de 60º a 70º. O gerador eólico produziu metade das nossas necessidades de energia. Com o sol no mesmo hemisfério, e sem sombra das velas, os painéis solares produziram o que faltava com sobra. Nessa etapa, não usamos o gerador à gasolina, nem o motor. De 5º S até Salvador, o vento rondou para alheta, e o eólico passou a gerar bem menos, nos obrigando a economizar.
A volta do Atlântico coloca o navegante em todas as situações possíveis, obrigando o uso de diferentes formas de geração de energia.
Mas, não é só isso não. Há dias em que sobra energia, então, dá para falar no SSB bastante, assistir a um filme, entre outros pequenos luxos, enquanto que, em outros dias, é preciso se contentar com uma lampadinha LED, e com a leitura de um livro, porque a energia fica destinada à navegação e à geladeira.
Nós, do Luthier, tentamos, por opção, usar ao máximo as formas limpas de geração: eólico e solar, mas nem sempre é possível. Damos preferência ao gerador à gasolina a ligar o motor apenas para gerar energia.
Para não ter problemas com energia, procure identificar e listar o consumo de seu barco, navegando e ancorado, e verifique se as disponibilidades de geração estão equivalentes. Quando for comprar um novo eletrônico para seu barco, considere o consumo na escolha entre as diferentes opções disponíveis no mercado.
Durante a Volta do Atlântico, nas ancoragens os painéis solares supriram 90% das nossas necessidades de energia. O restante foi fornecido pelo gerador à gasolina. Nos dias de sol abundante aproveitávamos para fazer água com o dessalinizador.
Navegando, os painéis solares supriram 50% da energia; o eólico gerou 30%; 15% o gerador a gasolina e 5% o alternador do motor. Embora tenhamos usado o motor mais ou menos 25% do tempo, normalmente, as baterias já estavam carregadas. Com o motor ligado, abusamos do consumo: torradeira elétrica, secador de cabelos, computadores ligados, muito papo no rádio, etc.. Pelo menos, compensa um pouco o calor que esse monstrinho gera.

Dorival

“É PROIBIDO BAIANA A BORDO”, são os dizeres da placa que eu vou afixar no Luthier. Ela é necessária porque o Dorival vai ficar sozinho por Serginhouns dias, enquanto eu for viajar para ver mainha e painho.
A maioria das mulheres baiana é bonita, delicada, com rosto de boneca de porcelana, pele de seda e corpo de violão. Bem humoradas e carinhosas, conquistam qualquer um.
Conto com amigos para me ajudar. O Serginho, figura conhecida daqui do TENAB, seria um deles: boa-praça, um cara supergente fina. Mas, ele é um bom baiano; além disso, faria qualquer coisa pelo Dorival, eu bem sei. O pessoal do Veleiro HOT DAY também é super gente-fina, e esse é o problema dos velejadores: ninguém se envolve.
Já me sugeriram usar o spot, mas não ia adiantar muito, neste caso.
As mulheres daqui já me advertiram: “os homens se protegem, minha filha!”, como disse a vendedora da padariaBanca de frutas no Comércio aqui perto, que anda prometendo fazer meu doce predileto, o lelê, para depois do Natal.
A realidade é que eu arrasto as minhas duas asas por esse homem! Para piorar meus sentimentos, ele disse que não vai se alimentar direito nesses dias, só vai beber água gelada e bolacha água e sal no café da manhã, então, já fui ver uma baiana que serve café e mingau de manhã, num carrinho em frente ao Mercado Modelo. Também enchi a geladeira  de porcarias. Tirei o AAS da nossa caixa de farmácia, para ele não se confundir quando tiver dor de cabeça, pois estamos no verão, com risco de dengue.
Um pouco de saudades não vai matar ninguém, vai reforçar a PAIXÃO.
Recebemos mensagens de pessoas dizendo estar com saudades de  nossos relatos de viagem. Mas, nós não estamos, não. Acabamos de chegar, pessoal, queremos descansar das fainas de bordExposição de saídas de praiao e curtir a Bahia. 
Daqui da  Bahia vamos sentir saudades demais. Aqui tudo é festa, tudo é luz. Frutas coloridas, povo sorridente, comida saborosa, música animada.
Em que lugar do mundo se vê sair uma escuna apinhada de gente cantando e dançando para passear?  Onde se vêem tantas frutas frescas vendidas nas calçadas, de tantas variedades? Tantas pessoas se divertindo, mesmo sem dinheiro?
Acompanhamos a saída de um saveiro levando um pessoal para passear. No dia anterior encostaram no TENAB, e o mestre do saveiro, de 75 anos, deu a maior conversa para o Dorival, que no dia seguinte foi ajudar a largar o barco. Chegaram umas 15 pessoas com um monte de comida: Saveiro com turistas baciadas de pão delícia, amendoim em casca, umbu, latas de cerveja, e outras delícias em panos de prato branquíssimos. Fiquei com vontade de participar da festa.
A única coisa que aqui está demais: o calor. Até os franceses do Rally Illes du Soleil vieram “reclamar”. Aquele conhecido ventinho da Bahia está em falta, para por horas, completamente, principalmente de madrugada.
Chega que já estou me derretendo de saudades, antes da hora! Fica proibida essa palavra.

Catarina

Por que eu gosto de Salvador? Porque aqui se deixa para depois de amanhã o que pode ser feito amanhã.
Padaria Cayru - ComércioO Comércio, bairro que fica na cidade baixa, está um pouco mais abandonado que há um ano atrás. Dizem que haverá uma renovação, mas ninguém sabe quando, e o que é. No Comércio há um prostíbulo que fica ao lado de uma loja de Crédito e de uma padaria, sem problemas de convivência.
O som alto nos carros,  por toda a cidade, não tem hora para acabar. Ontem ouvi uma gritaria por conta de um roubo. O ladrão pegou alguns produtos de um camelô descuidado. A bronca no camelô foi grande, mas se a turma pega o ladrão ia precisar da polícia para salvá-lo.
Vejo pais felizes por comprar brinquedos simples e baratos para seus fForró atrás do Mercado Modeloilhos.
O motorista do ônibus dá informação sorrindo para não rir do meu sotaque de paulista.
No supermercado, comentei com um baiano que havia muitos produtos para vencer, ele não gostou não, chamou o gerente e lá foi bronca!
Isso é Salvador da Bahia, um lugar que vive e respira de uma forma  simples e calma.
Parece, mas não é verdade: o baiano não é indolente, trabalha e muito, mas não se aborrece não, atende o cliente sem pressa e sempre tenta encontrar o que lhe agrade. Não faz hora extra, vai para a festa, está errado?Artezanato atrás do Mercado Modelo
Fui até a padaria para ver se tinham feito o LELÊ que  a Catarina está querendo. A baiana me disse que só será feito depois do Natal porque agora estão com muitas encomendas, mas perguntou sério: “a menina está com desejo?”. Demorei um pouco para perceber e disse “não, não está grávida, não”, ao que ela respondeu, “porque, se estiver, nós damos um jeito”.
Não sei porque eu gosto daqui. Aqui estou feliz.

Dorival

Em Tempo: em Janeiro, faremos resumos temáticos da Volta do Atlântico, cobrindo comunicação, navegação, meteorologia, etc.. Aguardem.

Desde Cabo Verde até Salvador percorremos 2.150 milhas náuticas em 19 dias. Foi a viagem mais lenta do Luthier; desenvolvemos, em média, 5 nós de velocidade. Dava desânimo relatar as milhas navegadas no relatório do dia. Os responsáveis: o mar alto, com ondas de período Com nordeste de 20 nós curto, ou desencontrado, e as tempestades tropicais.
Foi uma viagem segura, sem acidentes ou incidentes. O mar mexido sempre deixa uma preocupação com quedas ou queimaduras a bordo, já vimos muitos acidentados graves chegarem em portos e serem transportados em maca. Felizmente, não entramos nesta estatística. É muito importante sempre manter uma mão segurando em apoios firmes no barco, e o uso de cintos de segurança para as fainas no convés; a qualquer momento, uma onda mais alta pode tirar o nosso equilíbrio.
Não tivemos avarias nos equipamentos. Contou para isso rizar o velame com antecedência, mesmo que, desta forma, perdêssemos em velocidade. Também não tivemos nenhum dano no casco ou nos móveis internos, não houve nenhuma porta quebrada ou rachadura no casco pelo esforço da embarcação.
Quase não usamos motor. O fizemos na região dos doldrums, para carregar baterias, e na chegada sem vento a Salvador. No total, foram Ventilação Forçada100 litros. Voltamos com o tanque cheio.
Com os instrumentos eletrônicos de baixo consumo que temos, e os painéis solares, o gerador eólico, e o gerador à gasolina, pudemos manter o conforto a bordo com o uso da geladeira e do dessalinizador.
Os víveres foram suficientes e sobraram, como é a regra dos terços. Não conseguimos adquirir muitos produtos frescos na nossa última parada, em Cabo Verde, mas tínhamos um bom estoque de alimentos industrializados em conserva, grãos, frutas secas e castanhas.
A pesca foi um item importante para o moral da tripulação e para o suprimento de boa proteína a bordo. Fazer pão dá trabalho, mas o resultado traz satisfação e ocupa a tripulação.Albacora
Contribuiu para o ânimo a bordo o contato com o mundo externo e, para isso, o rádio SSB foi essencial.
Constatação: diferente do que ocorreu o hemisfério norte, no hemisfério sul os navios tomavam a iniciativa de manobrar assim que avistavam o Luthier no AIS, a cerca de 8 milhas; depois de nos passar, retornavam à sua rota original.
Para uma viagem tão longa, é muito importante manter o bom humor, a tranquilidade, e os pensamentos positivos. Ouvir música, assistir a um filme ou ler alguma coisa de seu interesse são atividades que distraem, e não deixam que o desânimo tome conta. Vale a pena tirar algumas horas por dia para simplesmente admirar o mar, o céu, e a vida lá fora, pois mesmo bravo o mar é bonito.
Aqui terminamos uma viagem para a qual nos preparamos durante toda a construção do barco, que nos deu a oportunidade de conhecê-lo e sermos capazes de fazer as manutenções que ele exige. A construção foi um período de estudo e de habilitação para as travessias. A paciência, a observação da situação, e o hábito de fazer uma coisa por vez são habilidades que se adquire com ela, e que são cruciais para a navegação.
Esperamos que nossos relatos diários tenham divertido a quem os leu, e que sirvam de parâmetro para quem se interessa em fazer algo semelhante, de forma segura.

Um bom Natal, feliz ano novo para todos.

Catarina e Dorival

 

Um parêntese para as mancadas:

Não é fácil orçar durante dias em mar alto, e fazer a rota que fizemos de forma segura; sem falsa modéstia, exige preparação, conhecimento e equipamento. Isso não significa que não tenhamos dado furos, bobeiras ouPão da travessia mancadas, como queiram chamar.
A mais grave, a do gás de cozinha. Quem é responsável por seu controle, aquele que cuida do combustível a bordo ou quem cozinha? Cachorro de dois donos passa fome, foi o que aconteceu. Contribuiu para o lapso a  carga de gás do botijão novo, comprado no Caribe: a conceituada empresa que nos vendeu fez o serviço e nos cobrou por 8 KG, mas em Cabo Verde viemos a saber que ali só cabem 6 KG; são os piratas do Caribe, que estão em outros lugares também (aliás, em todos). A mancada continua sendo nossa, de não dimensionar os recursos por outros meios.
Os coletes voadores: sim, voaram do cockpit para o mar, com luzes e tudo, assim que se soltaram da rede em que estavam presos. A causa do vôo foi o vento mais forte ou o nó mais folgado da rede. “Who knows?”.
A faca deslizante: ganhamos o peixe e perdemos a faca (o Dorival,  aprendiz de pescador).
A vasilha que baba: uma dessas vasilhas de plástico cuja tampa não é assim tão vedada tombou na geladeira com leite de coco, e fez a maior meleca, difícil de limpar. Por que eu não jogo fora essas tranqueiras?
Por fim, o tira-umidade que eu achei que estava devidamente preso e que tombou sobre os estofados na proa, deixando uma mancha com química que era quente, sobre o seu forro. Eu não aprendo…

Acho que já deu…

Catarina

CHEGAMOS EM SALVADOR – BA. CHOVE NA CAPITAL BAIANA.

VALEU PESSOAL! PELAS MENSAGENS DEIXADAS, POR QUEM NOS ACOMPANHOU (TODOS VOCÊS), QUEM POSTOU NOSSOS TEXTOS (JC), PASSOU OS BOLETINS DA PREVISÃO (JC), E POR QUEM REZOU POR NÓS (MAINHA).

TEMOS MUITAS FAINAS DE BORDO PARA SEREM FEITAS, DEPOIS CONTAMOS MAIS SOBRE A VIAGEM.

ESTAMOS MUITO FELIZES POR ESTAR AQUI, E MUITO CANSADOS.

CATARINA

Próxima Página »