“Vocês são assim, meio indigentes, né?…” Foi como a atendente da empresa de telefonia celular nos definiu, quando dissemos que não tínhamos comprovante de endereço para contratar o serviço de internet 3G. Para nós, isso não foi ofensa nenhuma, até rimos. Se a nossa “casa” é o barco, o nosso endereço é o oceano em que estamos, mas isso, poucos entendem. Eu não tinha uma fatura do cartão de crédito, nem de contas a pagar, porque deixei tudo digital e em débito automático antes de sair do país, enviando o que assim não fosse para o endereço de mainha, que toma conta de tudo.
Tivemos que contratar uma internet porque os nossos amigos do Brasil têm milissegundos de paciência com aqueles que não a tem, e ficam dando bronca por demorarmos a responder e-mails ou atualizar a nossa página na web. Para eles, a internet é como a cafeína, uma cachaça que cai na corrente sanguínea e vira necessidade. Depois de passarmos até 20 dias no mar sem ela, realmente, a internet não se torna um item de primeira necessidade.
Por motivos parecidos, compramos um chip da telefonia local. O brasileiro virou um fanático por celular, apesar (e talvez por isso) da ligação no país ser caríssima, comparada à de Portugal, e à de outros países da Europa.
Para resumir, somos os E.T.´s da nave branca, recém chegados em terra.
Nós, os marcianos, fizemos uma excelente viagem de Búzios ao Rio, aproveitando o vento ENE antes da frente fria. A chegada ao Rio é sempre deslumbrante, mesmo à noite. O arranjo harmônico dos morros, as luzes da cidade, o desenho da baía, tudo é fascinante. De dia, podemos confirmar a beleza do lugar, da mata que resiste nos morros, de árvores frondosas favorecidas pelo clima, apesar do avanço das construções. A única pena é a água tingida de marrom, um efeito qualquer causado por algas, pela saturação de matéria orgânica e poluição, um problema que chateia os fluminenses, e que poderia ser resolvido, a exemplo do que foi feito em outros países, mas exige a tal vontade política, além da educação do povo. Eu creio: ainda vai aparecer algum E.T. que vai rasgar a camisa por esse mar!
Viemos para o Rio Yacht Clube – Sailing, a convite da diretoria, o que
muito nos honra, porque os daqui são realmente amantes da vela, desportistas e vencedores, inclusive medalhistas olímpicos, em várias categorias.
E se antes em todo o lugar que chegávamos havia FESTA popular, agora há GREVE. Aqui é a do transporte, que tem causado transtornos no trânsito. Para piorar a nossa situação, não podemos alugar um carro, estamos sem carteira de habilitação, que está vencida. Vamos de táxi, pegando trânsito.
Justiça seja feita, aqui teve festa, sim, e das boas, pelo pessoal do clube que conhecemos em uma situação não muito comum, na Refeno de 2010. O nosso encontro foi no próprio dia em que chegamos, no meio da semana, um esforço para eles, que são trabalhadores. É um pessoal gente boa, interessado em mar, em natureza, em uma sociedade melhor para criar seus filhos, em andar de barco de um lado para o outro, em competir de forma saudável, e em celebrar a vida. Ficamos com saudades deles só de pensar que a nave branca vai partir, e vamos ficar longe. Mas, atenção, a nave vai voltar, acreditem, trazendo os marcianos de volta para encontrar o que a vida tem de melhor: os amigos unidos pelo mar.
Catarina
Se os amigos têm milissegundos de paciência, não existe unidade para medir o tempo que tive para atender à determinação: “EU QUERO UMA SOLUÇÃO PARA INTERNET, HOJE!”, que recebi da Catarina. Missão cumprida, agora tenho milissegundos para publicar este texto.
Dorival