julho « 2010 « Bem-vindo a bordo!

Archive for julho, 2010

Depois de alguns dias balançando no porto da Aracruz Celulose, por conta do humor do mar, resolvemos explorar as redondezas do lugar, digo, eu resolvi, o Dorival foi por minha insistência.
Tínhamos sido informados, pelo pessoal local, de que não há ônibus que faça o trajeto até à cidade mais próxima, e de que andar pelas redondezas a pé não era aconselhável, daí a relutância do Dorival em sair.
Aqui tem uma lancha que faz o transporte de pessoal de embarcações a trabalho para o molhe, com o auspicioso nome de “Cabo Velho”, dirigida por um cara muito gente fina, que se auto-denomina “Capitão Jaque Sparral” (é como ele fala), e é nosso contato por aqui. Veio dele a informação de que não poderíamos desembarcar nas imediações do porto.
Do alto do molhe, pudemos ver a carranca do mar, com ondas próprias para surf, fazendo tubos. Dali pegamos um táxi, que normalmente serve o pessoal do porto.
O taxista que nos levou até à cidade mais próxima deu um panorama da região, apontou os lagos para tratamento dos resíduos da fábrica, que usa sal para clarear a celulose, e ressaltou os empregos gerados por ela, que ocupa pessoas de várias cidades da redondeza.
Na chegada à cidade, ele já foi explicando que aquela primeira rua, a da entrada, é o ponto da prostituição, ou, a “casa das raparigas”, onde ele deixa os gringos que chegam no porto; que o supermercado era ali perto e que, além disso, a cidade tinha uma praça, bem no centro, onde poderíamos passear.
Logo ao desembarcar, pudemos ver algumas prostitutas na área, além de pessoas bebendo em bares, logo pela manhã, e alguns desocupados.
O fato de usarmos mochila para transportar as compras, fundamental para o sobe-desce das embarcações, porque deixa os braços livres, faz com que todos percebam que somos forasteiros, independente de sermos brasileiros.
Vimos que estávamos sendo observados, quer dizer, o Dorival viu, e foi me empurrando para dentro do supermercado.
Fiz uma compra rápida, que cabia nas mochilas, e pegamos o mesmo taxista para voltar.
No trajeto da volta, o taxista então contou que a cidade, de 8.000 habitantes, teve 17 homicídios o ano passado, em geral relacionados ao tráfico de drogas, mas que era gente “de fora”; me perguntei que diferença isso fazia, o fato de não serem “locais”. Disse que, este ano, a coisa estava melhor, mas um taxista, colega seu, foi assassinado a facadas, há um mês, para roubarem R$300,00.
Dá para imaginar a cara do Dorival com os relatos do taxista; ele me disse, depois, ter passado o maior estresse, por minha causa. Não preciso dizer que ele cobrou o sufoco que passou, a começar exigindo comer guloseimas na mesa de navegação, enquanto fuçava no rádio e na internet, o que eu nunca deixo ele fazer, por medo da provável sujeira.
Muitos dizem que cruzeirar à vela, hoje em dia, não é a mesma coisa que há anos atrás, justamente por conta da violência, e da poluição. Realmente, por conta do avanço do crack, do aumento populacional, do desemprego, e da educação precária, lugarejos bucólicos tornam-se potencialmente perigosos, forçando-nos a nos recolher, pensar duas vezes antes de explorá-los.
É certo que não entramos pela porta da frente dos lugares em que chegamos que, no caso, seria pelas modernas instalações do Porto, do parque fabril, e das cidades mais ricas da região, a nossa sina é desembarcar pelo acesso disponível, ficar em suas redondezas, nos lugares mais próximos, onde seja mais fácil carregar nossas distintas mochilas.
Contudo, minha maior preocupação agora é com o Pão dos Monges, feito pelo Dorival, porque hoje eu introduzi leite na receita tradicional dele, e a “bolinha” (usada para testar o crescimento da massa), que não quer subir no copo d’água. O que será que aconteceu? E o que será que vai acontecer?

Catarina

Dessalinizador: tem gente que não tem e quer ter; tem quem tem, e adora; não tem, e não quer ter; tem e odeia, etc… Vejam os comentários no post “Povo do Mar”.
Observo que os estrangeiros que navegam aqui pela nossa costa lidam com a água doce de diferentes formas: os paranóicos, que acham que a nossa água vai matá-los, não a usam nem para lavar roupas; os sossegados, que nem cloram a água; os que vivem somente com água coletada da chuva e tratam a água do píer, e os que usam água mineral para beber, e tratam a água do píer, e assim vai.Pássaros na bóia
Os paranóicos usam dessalinizador, muitos filtros, e diesel para produzir a água, mesmo em portos. Não usam a energia do píer porque suas máquinas de fazer água, em geral, usam motores AC 50 hz, não compatíveis com nossos 60hz. São barcos grandes, com muita capacidade ociosa de armazenamento.
Durante nosso cruzeiro pelo nordeste no ano de 2009 até abril de 2010, não tivemos dificuldades com a água doce. Em Camamu, durante o mês de janeiro/10, vivemos tranquilos, por quase um mês, coletando água da chuva; abastecemos apenas uma vez com a água pública de Maraú. Como brasileiros, lá tomamos banho todos os dias, e lavamos nossas roupas na cachoeira.
O Luthier tem um total de 500 litros de capacidade de armazenamento de água. Confesso que, consumir somente a água necessária foi uma das coisas que mais demoramos a nos acostumar. No início, nossa capacidade de armazenamento só durava uma semana, hoje dura de 15 a 20 dias, sem problemas.
Dois viajantes que conhecemos em Vitória argumentaram que, quando em viagem pela costa, em qualquer lugar em que estiveram, sempre encontraram água doce, de graça ou a preços razoáveis (não sei o que é razoável para eles, a referência que eu tenho de brasileiros é que não é barata), e que o custo de operação e manutenção dos dessalinizadores não compensa. Nas passagens, dizem que não se pode confiar nos tanques para água de beber porque podem se contaminar; não se pode  confiar no dessalinizador, que pode não funcionar, e assim, levam água mineral suficiente para a travessia, e acabam por não usar o dessalinizador.
Opiniões a respeito variam muito, inclusive na Internet. Os modelos dependem da capacidade de produção, os com motor AC, para grande produção, não têm a preocupação de recuperação de energia, usando a pressão da água descartada. Esses modelos, para funcionar, dependem de gerador a bordo. Os com motor DC usam algum tipo de recuperação de energia e, com isso, gastam menos, também produzem menos.
As únicas declarações, Porto da Aracruz pessoais ou na internet, que são unânimes são: usar todo dia é a opção mais barata de manutenção; o principal problema é vazamento de água salgada nos tubos de alta pressão; as bombas de multiplicação de pressão (recuperação de energia), feitas de material plástico ou fibra de carbono, dão muito problema; e são equipamentos muito caros.
Ainda não sei se quero, ou não, ter um. Acho que, nesse caso é uma questão pura de economia: fazer contas de custo de produção, manutenção e comparar com a aquisição de água doce.
Você acha que as fotos em um “post” têm sempre que ilustrar o assunto?

Dorival

Mordi a língua durante a viagem de saída de Vitória, rumo a Salvador. Não que estivesse falando mal de alguém, estava só, inclusive, eu com minha maçã, e os soquinhos do mar; foi numa dessas pancadinhas do mar que finquei meu dente na língua.
Não tive tempo de passar remédio, porque o vento leste logo foi aumentando, e passou dos 15 nós, que estavam previstos, para a casa dos 20/25 nós. A partir de então, foram horas de decisões e correrias, por conta do vento de 30 nós, que entrou para ficar.
Era final de tarde e a vela mestra já tinha sido rizada, para passarmos a noite; com o vento aumentando, decidimos colocar o 2º rizo e, meia hora depois, ela foi toda baixada. Deixamos só a genoa, com pouco pano, numa situação que nem o barco, nem o piloto automático, gostam muito, e seguimos nosso rumo, vendo a chuva se aproximar, vinda de leste.
Todas as previsões que tínhamos visto apontavam para um mar de 2 a 2,5 metros, mas não aquele vento todo, que estava tornando o mar ainda mais alto.
Hora da decisão: arriscar continuar, ou procurar abrigo no Porto da Aracruz, que se avistava de onde estávamos, pela sua fumacinha branca. Pelo sim, pelo não, rumamos para terra, com as ondas e vento de leste pela popa, nos empurrando a 6,5 nós, só com um pedacinho de genoa aberta. Entrar em abrigos desconhecidos à noite tem sido a nossa sina. Menos mal que este é bem sinalizado, e entramos sem problemas.
Quando estávamos avaliando onde lançar ferro, já dentro da piscina formada entre os molhes, aproximou-se a embarcação do prático e disse que podíamos pegar uma bóia, que são uns tonéis flutuantes, e ainda nos ajudou com o cabo. Muito boa recepção!
O porto é particular, da Aracruz Celulose, mas eles não hesitam em dar abrigo às embarcações que chegam, tanto que foram ajudar outros barcos de pesca, que entraram para se abrigar.
Esse ano está custoso subir a costa: corrente contra, de quase 1 nó, mar alto, e um vento leste que traz junto a umidade do mar, e a chuva.
Antes do vento apertar, lá pelo meio da tarde, vi uma enorme baleia, pela popa do barco, mas numa distância segura, que dava uns dois barcos do nosso. Era acinzentava, e passeava tranqüilamente, sozinha, soltando uns borrifões, e mostrando a cauda, toda branca. Foi tudo muito rápido, e não deu tempo para a foto. Na aproximação com o Porto, vimos outras baleias, mas já era de noite, e não tínhamos condições de pensar em outra coisa se não nos abrigar, quem dirá em poses de fotografia. Não houve nenhum estresse da parte delas conosco.
A indústria de celulose trabalha o tempo todo, inclusive nos finais de semana, e há fila de barcos para carregar. Parece que há um vilarejo próximo, mas não fomos conferir.
O mar continua alto, e está previsto que fique pior, a partir de terça. Pensamos em sair hoje, rumo à Caravelas, mas embicando ali fora vimos que não ida dar, pois além do mar bem alto, o vento é contra.
Vamos virar monges tibetanos, meditar e ter muita paciência, além de fazer pão, que está acabando. Já nos informamos, e tem como ir de táxi, ou ônibus, até Barra do Riacho, aqui perto; quem sabe, vamos até lá.

Catarina

Estávamos velejando legal em direção a Abrolhos mas, o tempo fechou e ficamos com ventos ESE de 35 nós com mar E de 2,5 a 3 metros. Resolvemos nos abrigar aqui, onde há um Porto da Aracruz. Fomos bem recebidos pela lancha do prático, que nos ajudou a pegar uma poita. Outros dois pesqueiros também vieram se abrigar.

Dorival

Anteontem chegaram dois barcos no Iate Clube do Espírito Santo, de bandeira estrangeira, vindos do Estado do RJ, um de Cabo Frio, outro de Búzios; ambos vieram no motor, e com vento contra.
Um dos barcos é de bandeira irlandesa, e traz um casal com história de vida que se repete: o comandante era um profissional que trabalhava mais de 12 horas por dia, não tinha tempo para nada, adoeceu por conta do estresse e resolveu dar um tempo na vida; a esposa é funcionária pública licenciada. Agora, ele diz que trabalha sem parar nas fainas do barco, que é quase impossível um dia em que não tenha que fazer alguma manutenção ou tarefa. Como bons irlandeses, tomam café da manhã em xícaras de louça, no cockpit.
Do comandante irlandês, ganhei um presente inesperado: um bom pedaço de atum fresco, que ele pescou no caminho. Aliás, ganhei o dia, porque peixe fresco é comida para rei! Já foi para a panela. Incrível como o atum não tem o cheiro forte dos outros peixes.
O comandante alemão que chegou contou que passou muito mal no mar, na vinda para cá, como nunca antes, e que, inclusive, vai procurar um médico em Vitória. Além do mar ruim, o piloto automático dele pifou no caminho, e ele não lembrava como manobrar o “de vento”, o que o deixou nervoso, além do superaquecimento do motor, pelo excessivo esforço. Mas isso, de passar mal, como se diz no interior, “acontece nas melhores famílias”, ou, em qualquer mar. Falamos a ele do “stugeron”, para enjôo, e ele contou que o remédio está proibido na Alemanha, por conta dos efeitos colaterais danosos. Eu não sabia!
O outro vizinho, o português, é o tipo de pessoa que, se acordar um dia sem falar pelos cotovelos, pode crer, está enfermo. Ele mesmo assume que fala demais. Mas, a conversa dele é boa, de quem tem a sabedoria da idade, e da experiência. Ele diz que não há que se temer o mar, há que respeitá-lo, e que o mar traz saúde. Diz também para fazer uma coisa de cada vez nos momentos difíceis, como no caso de uma tempestade. É dele também a tese de que, com três mulheres a bordo, duas ficam amigas, e brigam com a terceira: é a psicologia feminina nos pequenos espaços confinados.
Ele já perdeu parte de seu dedo numa tempestade, teve costela fraturada, e passou muitos outros maus bocados. Aí eu me pergunto: por que essas pessoas continuam no mar? Parece um certo masoquismo, optar por uma vida com limitações de energia, de espaço, de conforto, às vezes, até rude para conosco. Então, por que será que um “gaijo” continua nessa vida, assim mesmo? Normal, não deve ser.
Ontem, todos nós, os vizinhos, nos reunimos para um “drink” no barco irlandês, em uma despedida, para nos encontrarmos de novo sabe-se lá quando, e onde. Sempre se aprende alguma coisa nestes encontros, e a nova polêmica é: ambos os comandantes estrangeiros condenam o dessalinizador, ou “watermaker”, mesmo para cruzar o oceano. Os motivos são vários, bem interessantes, mas abordamos outra hora, porque o tempo urge.
Nesses dois últimos dias, estamos com o barco fechado, porque está soprando o nordeste, que traz o pó preto do minério de ferro, vindo do porto, que estraga os equipamentos eletrônicos, e suja o ambiente.
A cidade é boa para o cruzeirista: supermercado e shopping por perto, que se chega a pé, clube com boas instalações e preço bom, feirinha nas proximidades, nos finais de semana, onde o Dorival vai comer seu “yakisoba”, e eu, a minha pamonha.
O yakisoba é um prato prático para se fazer a bordo, então, perguntei à cozinheira da barraca, de origem nipônica, qual macarrão usar, e como fazer. Achei que ela não fosse responder, por ser segredo de seu negócio, mas ela explicou. Detalhe: para mexer o macarrão na chapa, ou na frigideira, tem que ser com o palitinho, aliás, com os dois palitinhos em punho, sem parar, para não grudar, e esse é um dos “segredinhos”.
No sábado, amanhã, o vento deve mudar, e o mar deve estar mais baixo, então, pretendemos sair, bem cedinho. Acompanhe-nos pelo spot.

Na viagem do ano passado, e agora também, encontramos muitos “skippers” profissionais, levando barcos para todo lado do planeta.Todos têm algumas características em comum: sempre fazem bastante propaganda pessoal, provavelmente, porque dependem da divulgação boca a boca de seus serviços; reclamam muito do contratante que, normalmente, acerta o serviço para uma época do ano ruim para navegar ao destino; reclamam do barco que, em geral, está com problemas dos mais variados; não gostam de ficar muito tempo parados, porque ficam com o sentimento que estão perdendo alguma oportunidade, em algum outro lugar. Claro que tempestades, mar ruim e ventões fazem parte da conversa.
Aqui está um “skipper” profissional português. Ele foi contratado para levar até Lisboa um veleiro de 49 pés, abandonado por um grupo de europeus, que o alugou. Quando estavam voltando, por conta de um problema com o motor, entraram em Vitória e seguiram de avião para Europa.
O problema do motor já foi arrumado, mas só para complicar a vida do português, a licença de permanência do barco no Brasil venceu em maio. Para poder sair tem que pagar uma multa de 10% do valor declarado na entrada. Não é só isso não, tem toda uma burocracia envolvida.
O skipper português é muito experiente, com quase 70 anos, já não faz mais propaganda pessoal. Como todos, já está ficando doido por estar aqui há um mês e meio, e não poder sair por conta da burocracia.
É impressionante como ele conhece todos os portos, por toda parte. Sabe o nome de todas as figuras que conhecemos na viagem do ano passado, onde ficam as oficinas de reparo de velas, motor, os supermercados, bons e maus prestadores de serviços, etc…
Fala várias línguas e, em qualquer uma delas, conta suas aventuras em mares com ondas de muitos metros, e ventos de bastante nós.
Ele pretende ir direto para Lisboa. Isso mesmo, 30 dias sem parar, em solitário. Sempre viaja em solitário. Vai sair com 400 litros de diesel, tem que velejar muito para ir só com isso. Também reclama da falta de duas talas na vela mestra.
Quando olhou o Luthier, me questionou porque eu coloco a linha da vida por dentro do guarda mancebo, e não por fora do barco. Ele argumenta que, se a linha está por fora, caso você caia no mar, poderá deslizar por ela até a popa, aonde é mais fácil subir no barco. Disse ainda que já foram encontrados velejadores solitários, mortos, presos à linha da vida, ao lado do barco, por não conseguirem subir pelo bordo. Faz sentido.
Sempre vi a linha da vida colocada por dentro, uma de cada lado. Estou pesquisando esse assunto, mas está difícil encontrar referências. Eu acho que, com a linha por fora, fica mais difícil se deslocar pelo convés conectado a ela, o cabo vai enroscar em todos os paus do guarda-mancebo; por outro lado, não será melhor enroscar quando estamos em cima do barco do que se estivermos na água? Talvez seja melhor que a linha esteja por dentro, mas bem folgada, de forma que possa passar por cima do guarda mancebo.
Se você tem alguma opinião ou conhece alguma referência sobre o assunto, saia da moita, mande um comentário.

Dorival

Pessoal,

Tinhamos planejado sair hoje com destino a Salvador. Porém, o dia amanheceu sem vento, com mar chato e chovendo.
Preferimos esperar na preguiça.
Cruzeiro à vela é assim mesmo.

Dorival

Vitória - ES

Existe uma verdade universal: o gás de cozinha sempre acaba durante o cozimento do alimento, nunca antes do início, nem depois de pronto. Essa lógica perversa me pegou na saída de Búzios rumo a Vitória, com o barco pronto para partir. Estávamos com certa pressa, porque a janela de tempo era curta, e o vento tinha acabado de virar para sudoeste, depois de dias soprando E/NE, intensamente. Tínhamos um problema adicional com o fim do gás, por conta de um adaptador para a nossa válvula do botijão de gás, metida à besta, ou da falta dele, e pensávamos em resolver o problema só em Salvador; por fim, foi feita uma passagem do gás de um botijão pequeno para o grande, que deu certo.
Logo na nossa saída, vimos que as ondas estavam mais altas, vindas de leste, talvez por conta da frente fria que já atuava no litoral sul do Rio. Adotamos um rumo mais rente à costa, onde as ondas eram mais baixas. O vento, aos poucos, foi miando, frustrando um pouco nossas expectativas, e levamos o barco no motor, com a mestra para ajudar.
Na região entre Búzios, e as cidades de Macaé e Campos, há muito tráfego de embarcações próximo à costa, por conta da exploração do petróleo e da pesca. No ano anterior, passamos bem mais afastados da costa, e logo percebemos as diferenças.
Durante a noite, eu acordei para render o Dorival no turno e vi que ele estava na roda de leme, olhando para trás, dizendo ter mudado propositalmente o rumo do barco. Contou ele que uma traineira, com apenas dois tripulantes, sem equipamento de pesca visível, começou a aproximar-se do nosso barco. Ele mudou o nosso rumo, e a embarcação fez o mesmo, mantendo-se em aproximação por bombordo. Outras alterações no rumo foram acompanhadas pela traineira, e quando eles se aproximaram demais, o Dorival resolveu dar toda a máquina, para afastar-se ao máximo dela. Ainda era possível ver as luzes da embarcação na nossa popa, nos acompanhando por quase uma hora. Não sabemos quais eram suas intenções, mas preferimos não ficar para conferir.
Mal passado o susto, eu ainda estava lá fora com o Dorival, e vimos um rebocador de alto mar avançando rapidamente em nossa direção. Em contato pelo rádio com sua comandante, o Dorival passou nossa posição e velocidade, e ela ficou de passar pela nossa popa. Eis que, para nossa surpresa, ela não fez o combinado e veio para cima de nós, buzinando e dando luz. Aí sim, foi uma mudança rápida e radical no rumo. Em novo contato pelo rádio, pedimos explicação, ela disse que tinha um outro barco na sua proa, que fez com que ela adotasse outro rumo. Não vimos o tal barco. Nesse meio tempo, um navio já avançava entre nós e o rebocador. O Dorival então avisou que iria reduzir a velocidade, para que ela pudesse passar. A dona agradeceu, e se mandou.
Mais adiante, outra mudança de rumo, para desviar de uma enorme rede de pesca, com cerca de uma milha, sinalizada com piscas, posicionada entre duas embarcações.
Bem, depois dessas situações, eu acordava sobressaltada dos meus descansos, achando que um navio estaria no caminho, ou uma rede, ou sei lá o que mais. Não dormi direito, e por conta disso, a viagem, relativamente curta, foi extremamente cansativa.
As coisas se acalmaram ao amanhecer, na proximidade com o Cabo de São Tomé, com poucas embarcações. Nesse trecho, o problema foi com as ondas vindas de NE, não tão altas, mas com período curto. Reduzimos a velocidade, para passar com mais conforto.
Daí para frente, nós seguimos com mais tranquilidade. A atenção só voltou a ser maior nas proximidades de Vitória, por conta dos muitos rebocadores e chatas. De longe, já era possível avistar uma fila de navios, esperando sua vez para entrar no porto.
A sorte estava conosco, neste trecho: vimos passar um espinhel bem do nosso lado. Ufa!
Chegamos no Iate Clube do Espírito Santo de madrugada. Eram 4 horas da manhã quando fomos finalmente dormir, com o gostinho da vitória, afinal, chegamos!
No Iate Clube, nós atracamos ao lado de uns argentinos, que contaram ter visto muitas baleias em Abrolhos, e ao lado de um barco alemão, com um “skiper” português, de 70 anos, que merece um capítulo à parte: é uma figura boa-praça, que atravessa o oceano sozinho, há anos. Foi a primeira pessoa que ouvimos fazer a defesa de que a linha da vida fique para fora do barco. Os porquês, o Dorival fala depois, estamos pensando a respeito.
Nestes dias, temos descansado e preparado o barco para a outra perna, até Salvador. Vai ser difícil escapar do mar um pouco mais alto, e da chuva. A nossa saída deve ser na segunda-feira, dia 19/07, antes de começar a soprar o nordeste. Acompanhe-nos pelo spot.

Catarina

Sobre navegar próximo à costa: é certo e sabido que junto à costa o vento e as ondas são mais calmos. Vento, não tivemos, mas como navegar a motor com ondas de proa/amuras é desconfortável, tentamos navegar, até o Cabo de São Tomé, o mais próximo da costa possível. Isso teve seu preço. Muita atividade, embarcações indo e vindo, de todo tamanho, e muitas redes e espinhéis. Durante a  noite não há descanso, manobra-se o tempo todo. A cada meia hora um evento qualquer pedia uma ação de mudança de rumo, diminuição ou aumento de velocidade, etc… Mas, nas condições de mar que tínhamos, tivemos que pagar esse preço.
Depois do Cabo de São Tomé, o rumo para Vitória é mais ao norte, facilitando lidar com as ondas, pois não havia vento. Assim, adotamos uma rota mais afastada da costa, o que permitiu descansar um pouco mais. A atividade de navios é menos intensa e a de pesca é mais arrasto que redes. Próximo a Vitória, muita atividade.
Se possível, prefiro navegar mais afastado da costa.
De Vitória para Salvador teremos vento, espero. Vamos mais afastados para passar pelo canal de Abrolhos.

Dorival

Saímos na última terça-feira, dia 9/07, pela manhã, com destino a Vitória, para aproveitar uma pequena janela de tempo que as previsões apresentavam, com uma trégua do vento NE.
Nas primeiras horas de viagem, pouco vento e mar calmo. Por volta das 15 horas, o vento foi passando dos amigáveis 7 nós para a faixa de 15 a 20 nós, de proa. Quando o vento bateu nos 25 nós, chamei o Dorival, que tinha ido descansar para a vigília noturna; foi quando o piloto automático deu um alarme de erro, e parou de funcionar.
Enquanto o Dorival descia para ver o que era, eu fiquei na roda de leme. Com o vento e ondas de proa, que iam aumentando, levei alguns banhos de água salgada. Foi tudo muito repentino, e eu estava sem capa, além de tudo. Também começou a ficar difícil levar o leme nesta situação, com o mar grosso.
O Dorival resolveu o problema de mau contato no painel e o piloto voltou a funcionar, então, decidimos colocar o barco no rumo de terra, para não pegar aquelas ondas de frente, e termos a possibilidade de velejar, mesmo que numa orça apertada.
O piloto apresentou novamente problema e o Dorival deu um jeito, mas por conta disso, e do mar grosso, resolvemos nos abrigar na Ilha do Francês, em frente ao Município de Macaé. O piloto nos levou bem até lá.
Na chegada à Ilha, senti um forte cheiro de urina e fezes de pássaros, como o que exala de uma jaula de animal, sem limpeza, em zoológico. Era possível ouvir piados de pássaros, mesmo à noite, então, imagino que aquela ilha seja um grande poleiro, sem nenhuma cobra, ou outro predador, para equilibrar a causa do fedor.
A aproximação com a terra à noite é sempre mais complicada, principalmente, se não conhecemos o local. Eu só conseguia enxergar algumas pedras mais claras, justamente pelos dejetos dos pássaros, e o barulho da arrebentação.
A enseada formada a oeste da Ilha é muito pequena, e para ficar ao abrigo que ela propicia, a proximidade com as pedras e a arrebentação é um pouco assustadora.
No local, havia alguns barcos de pesca, que acenderam a luz, com a nossa chegada.
Ancoramos e fomos dormir, para sair no dia seguinte, ainda com a intenção de passar pelo Cabo de São Tomé.
Então, fui pegar um cobertor no paiol de proa, para dormir, e eis que vejo que o saco que o protege estava molhado. Meu Deus, o barco está fazendo água! Com o coração a 1000, chamei o Dorival, e fui tirando tudo às pressas, e vinham mais sacos molhados. PÂNICO!! Até que, o Dorival viu uma destas embalagens de retirar umidade tombada, e logo concluiu que essa deveria ser a causa da molhadeira. Que alívio! A brilhante idéia de colocar a embalagem lá tinha sido minha, e pus ali uma de tamanho “jumbo”, que tinha sido comprada especialmente para nossas viagens, quando deixamos o barco fechado. Com tanta pancada do mar pela proa, deu no que deu: o recipiente tombou e a água armazenada vazou.
Tudo sob controle, nós fomos dormir. Durante a noite, a âncora garrou diversas vezes, e acordávamos sobressaltados, com o alarme, com medo de o barco estar derivando em direção às pedras. Lá pelas duas da manhã, perguntei ao Dorival se ele estava dormindo, e ele disse que não, então, propus que fôssemos embora: melhor era navegar que ficar acordando toda hora, também porque vimos as previsões, que diziam que no Cabo de São Tomé estava tudo “administrável”.
Na nossa saída, o piloto não funcionou. Aí desistimos de avançar: com mar de proa, mais alto, é muito desconfortável pilotar, ainda mais com apenas duas pessoas para revezar. Todo esse nosso “passeio” ficou registrado no SPOT, dêem uma olhada.
No caminho de volta, o Dorival lembrou o que pode ter sido a causa do nosso azar: saímos, inadvertidamente, numa sexta-feira. Simplesmente, no afã de aproveitar a oportunidade, relegamos a cautela com o intangível ao segundo plano.
Por outro lado, tivemos sorte, pois nada efetivamente de grave aconteceu. Particularmente, passei pela experiência de levar o barco com o mar ruim, que é importante, e de navegar à noite, na aproximação com a costa, que é “punk”. Outra grande novidade: o Dorival não enjoou, mesmo com aquele mar, sinal de que alguma coisa está mudando. Então, tudo depende da ótica que se vê. Mas, melhor não facilitar com a sorte…
O Dorival avaliou o piloto, parece tudo bem, e também tirou uma folga do leme; mesmo assim, vamos dar uma volta para testar.
Parece que vai surgir uma janelinha de tempo na terça-feira, dia 13/07, antes do mar subir demais, como conseqüência da frente fria. Vamos nos preparar. Acompanhem-nos pelo SPOT, a partir desta data. Nos desculpem, pois, às vezes, não temos tempo para avisar sobre nossa saída, porque decidimos no próprio dia, para sair em algumas horas, e acontece da internet estar indisponível. Por favor, não entendam como pouco caso nosso da nossa parte, com quem nos lê: nem sempre temos banda larga no barco, são as limitações da vida a bordo.

Catarina

SOBRE O PILOTO: As falhas sempre foram informadas pelo piloto com sendo de energia no comando do motor da bomba hidráulica, que aciona o leme. Na primeira ocorrência, achei um mau contato no fio que sai da chave de alimentação da unidade de potência, localizada no painel elétrico. Simplesmente mexendo no conector, o sistema voltou a funcionar. Logo, a falha apareceu novamente, então, substituí a alimentação do módulo de potência pela fornecida por outra chave, a da luz de fundeio, e troquei o fusível por um adequado à corrente de consumo do piloto. Depois disso, ele funcionou bem, sem problemas. Assim, o piloto levou o barco por 13 milhas, até à ilha do Francês, onde fomos descansar. Usei uma luz de fundeio que temos na targa, não a de “top”, cuja chave estava alimentando o piloto. De madrugada, quando decidimos continuar para Vitória, o piloto simplesmente não funcionou, dando o mesmo alarme de falta de energia no comando do motor. Desisti e voltamos para Búzios. Já em Búzios, quando fui iniciar o diagnóstico do problema, vi a chave da luz de fundeio desligada, e só então me lembrei de que a havia usado para o piloto, ou seja, ele não funcionou porque, ao sair, eu liguei as luzes de navegação e, automaticamente, desliguei a de fundeio, deixando o comando sem energia. Já está tudo reparado, e o piloto parece estar bem. Fiz uma revisão no sistema de governo, onde só retirei uma folga que havia nos cabos de comando. Vamos fazer um bom teste do piloto antes de seguirmos para Vitória.
O importante é que, se não der para seguir em frente, seja lá por qual motivo for, é melhor voltar que tentar ser herói.

Dorival

Seguimos em Búzios, onde tem ventado bastante nos últimos dias, E e NE, com rajadas de até 30 nós, como na noite passada. São tantas emoções! Eu ainda durmo com a toda a bagunça do vento, mas o Dorival, que é mais responsável, fica de vigia para o caso de precisar sair às pressas, se o cabo da poita em que estamos não aguentar. Aqui dá para mar aberto, e os morrinhos baixos da enseada não seguram quase nada.
Os barcos de pesca têm aparecido ao anoitecer, para se abrigar, e muitos ainda permanecem durante o dia. Barcos de pescaO mais surpreendente é que o dia amanhece cor de rosa, a cor do bom tempo, inocente, dando a sensação de que a noite foi plácida, mas a verdade é que foi um sufoco só. 
A ironia maior é este ventão nordeste no inverno, o mesmo que nos deixou na mão no verão, escafedeu-se naquela  época, para lugar incerto e não sabido. Sujeitos de sorte que somos!
Mesmo na poita, não estamos deixando lona nenhuma, aquele monte de panos em cima do barco para proteger do sol, muito usados na Baía de Ilha Grande, que aqui só servem de vela, deixando o barco como um cabrito.
Faz frio, e o sol baixo do inverno não deixa a temperatura passar dos 24ºC, a da água está 21ºC. Entrar na água, só com roupa e capuz, e o melhor é ficar na preguiça.
Enquanto esse vento não passa, não podemos passar pelo Cabo de São Tomé.
Como o barco tem sempre uma lista interminávelFainas de coisas a fazer, e temos que ficar tomando conta do ventão, vamos eliminando mais itens das tarefas. É faina que não acaba mais. O Dorival passa o dia com um tubo de “sikaflex”, ou “super-bonder”, e lixas na mão, vendo as previsões de tempo, e… lavando roupa. Eu dei um pente fino na sujeira , limpei até pá de ventilador, bem ao meu estilo “neura”.
Temos as limitações de uma poita: sem ponto de água ou energia, então, tudo é mais difícil, e o controle tem que ser maior.
Eu não tenho nada a reclamar: os dias estão lindos, com céu aberto, nada mau para esperar.
Até sábado, permanecemos por aqui, dando as manutenções “predativas” necessárias, esperando o céu amanhecer azul, com menos vento contra.

Catarina

Búzios