qui 29 jul 2010
Pela porta dos fundos
Escrito por: Catarina
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Depois de alguns dias balançando no porto da Aracruz Celulose, por conta do humor do mar, resolvemos explorar as redondezas do lugar, digo, eu resolvi, o Dorival foi por minha insistência.
Tínhamos sido informados, pelo pessoal local, de que não há ônibus que faça o trajeto até à cidade mais próxima, e de que andar pelas redondezas a pé não era aconselhável, daí a relutância do Dorival em sair.
Aqui tem uma lancha que faz o transporte de pessoal de embarcações a trabalho para o molhe, com o auspicioso nome de “Cabo Velho”, dirigida por um cara muito gente fina, que se auto-denomina “Capitão Jaque Sparral” (é como ele fala), e é nosso contato por aqui. Veio dele a informação de que não poderíamos desembarcar nas imediações do porto.
Do alto do molhe, pudemos ver a carranca do mar, com ondas próprias para surf, fazendo tubos. Dali pegamos um táxi, que normalmente serve o pessoal do porto.
O taxista que nos levou até à cidade mais próxima deu um panorama da região, apontou os lagos para tratamento dos resíduos da fábrica, que usa sal para clarear a celulose, e ressaltou os empregos gerados por ela, que ocupa pessoas de várias cidades da redondeza.
Na chegada à cidade, ele já foi explicando que aquela primeira rua, a da entrada, é o ponto da prostituição, ou, a “casa das raparigas”, onde ele deixa os gringos que chegam no porto; que o supermercado era ali perto e que, além disso, a cidade tinha uma praça, bem no centro, onde poderíamos passear.
Logo ao desembarcar, pudemos ver algumas prostitutas na área, além de pessoas bebendo em bares, logo pela manhã, e alguns desocupados.
O fato de usarmos mochila para transportar as compras, fundamental para o sobe-desce das embarcações, porque deixa os braços livres, faz com que todos percebam que somos forasteiros, independente de sermos brasileiros.
Vimos que estávamos sendo observados, quer dizer, o Dorival viu, e foi me empurrando para dentro do supermercado.
Fiz uma compra rápida, que cabia nas mochilas, e pegamos o mesmo taxista para voltar.
No trajeto da volta, o taxista então contou que a cidade, de 8.000 habitantes, teve 17 homicídios o ano passado, em geral relacionados ao tráfico de drogas, mas que era gente “de fora”; me perguntei que diferença isso fazia, o fato de não serem “locais”. Disse que, este ano, a coisa estava melhor, mas um taxista, colega seu, foi assassinado a facadas, há um mês, para roubarem R$300,00.
Dá para imaginar a cara do Dorival com os relatos do taxista; ele me disse, depois, ter passado o maior estresse, por minha causa. Não preciso dizer que ele cobrou o sufoco que passou, a começar exigindo comer guloseimas na mesa de navegação, enquanto fuçava no rádio e na internet, o que eu nunca deixo ele fazer, por medo da provável sujeira.
Muitos dizem que cruzeirar à vela, hoje em dia, não é a mesma coisa que há anos atrás, justamente por conta da violência, e da poluição. Realmente, por conta do avanço do crack, do aumento populacional, do desemprego, e da educação precária, lugarejos bucólicos tornam-se potencialmente perigosos, forçando-nos a nos recolher, pensar duas vezes antes de explorá-los.
É certo que não entramos pela porta da frente dos lugares em que chegamos que, no caso, seria pelas modernas instalações do Porto, do parque fabril, e das cidades mais ricas da região, a nossa sina é desembarcar pelo acesso disponível, ficar em suas redondezas, nos lugares mais próximos, onde seja mais fácil carregar nossas distintas mochilas.
Contudo, minha maior preocupação agora é com o Pão dos Monges, feito pelo Dorival, porque hoje eu introduzi leite na receita tradicional dele, e a “bolinha” (usada para testar o crescimento da massa), que não quer subir no copo d’água. O que será que aconteceu? E o que será que vai acontecer?
Catarina