agosto « 2010 « Bem-vindo a bordo!

Archive for agosto, 2010

Num dia claro de sol, mar calmo, barco atracado no cais, na hora do café da tarde, não se imagina que nada aconteça. Mas no mar sempre existem surpresas.
Eu estava passando um café e escutava as risadas no barco ao lado: um bando de garotas tomando cerveja no convés.
Então escuto um “SOCORRO”, e mais risadas. Pensei: estão brincando, vou tomar meu cafezinho em paz. Mas veio aquela voz da responsabilidade e disse: e se for um pedido sério de socorro? A palavra é muito forte, resolvi sair para ver o que era, foi quando vi que uma das garotas estava na água, trajando um colete salva-vidas, em pânico, se debatendo e tossindo, enquanto as amigas continuavam a rir no convés do barco. Imaginei que as tais amigas pudessem estar bêbadas, sem se dar conta da situação, e chamei a moça que se debatia, pedi que olhasse para mim, ela atendeu, então eu disse para ela dar mais uma braçada e agarrar o cabo da nossa poita. Ela agarrou e continuou chorando, com medo de que os dois barcos se encostassem, com ela entre estes.
Eu não ia pular na água para trazê-la para borda, a não ser em último caso, pois pessoas em pânico ficam com uma força descomunal, e ela bem poderia me afundar. Gritei pelo Dorival, que trouxe um cabo com uma alça de costura de mão, pediu que ela agarrasse, e veio puxando-a entre os barcos. O mar aqui em volta tinha ficado mais agitado, com as marolas de um catamarã, e ela se assustou com o movimento.
Motivo para o pânico, não havia nenhum, mas ela não sabe nadar, e se apavorou a tal ponto que não tomava atitude positiva nenhuma. Ajudar pessoas nessa situação exige técnica; quando nada dá certo, dão uma bofetada para sossegar o afogado. Não sei nada sobre isso.
Sei de relatos de pessoas que não aparentavam nenhum medo de mar e barco, e a bordo, começaram a ficar nervosas, quando deixaram de ver a terra, ou quando caiu a noite. Se fossem pensar racionalmente a respeito, veriam que com o barco afastado da costa são melhores as chances de deixar o equipamento e a tripulação em segurança, em caso de pane no motor, ou problemas com as velas, ou mesmo mau tempo, antes que o mar jogue o barco para a arrebentação, ou pior, para as pedras. E à noite, sem a ação do sol, o mar fica, em geral, bem mais calmo.
Mas cada pessoa tem o seu limite. Eu não posso ver uma barata, o máximo que faço é quase estourar os tímpanos de quem está ao lado, via de regra, o Dorival. Tem gente que passa mal em elevador. Outros suam frio para dirigir um automóvel. São as tais questões de foro íntimo, mistérios da personalidade humana.
Afora estas pequenas surpresas do dia-a dia, as coisas por aqui estão dentro da rotina, incluindo as manutenções e melhorias feitas no barco pelo Dorival, que anda bastante ocupado, revendo de fusíveis a catracas, justamente para não ter surpresas lá fora. Numa das melhorias, ele colocou mais peso na popa, e agora vamos ter que distribuir melhor os pesos a bordo, para deixá-lo trimado.
De qualquer forma, o barco já está bem mais pesado, pois fizemos um bom supermercado, de quase 300 kg, para não esquentar a cabeça por um bom tempo, porque temos uma longa viagem pela frente. Duro foi arrumar lugar para tanta coisa a mais.Parte das compras
E como formiguinhas se preparando para o inverno, fizemos um bom estoque de gás de cozinha, de óleo de motor, de artigos de perfumaria, de tudo! Isso vai atrapalhar a nossa “performance” na Refeno, mas não podíamos deixar de aproveitar a oportunidade de abastecer o barco num cais e numa cidade com boa estrutura para tanto.
Continuamos subindo e descendo ladeiras (da Água Brusca, da Preguiça, da Barroquinha, etc…), para resolver pendências e burocracias, parando nos centros de perdições que são as barraquinhas. Nessa região quase não se vêem padarias, mas de manhãzinha são montadas umas tendas com caldinhos de milho, bolo e outras guloseimas, para o pessoal que trabalhou à noite, ou o que está saindo para trabalhar, tomar seu café da manhã. Tudo com uma aparência ótima, numas panelas de inox brilhantes, colocadas sobreCapitan Miranda toalhas brancas, e cobertas com panos também brancos limpíssimos; menos de 2 horas depois, desmontam tudo e vão embora.
E veja só aonde fomos parar atrás de burocracias. Imagina do que se trata? 
Na semana próxima, mais trabalho, pois vamos encarar a pintura de fundo do barco, antes de subir para Recife.
Mas hoje é sexta-feira, dia de sair para aproveitar as comidas típicas baianas, que por tradição, hoje são servidas dos restaurantes. Também é o dia em que muitos saem vestidos de branco, dos pés à cabeça, muitos vão à missa, e muitos tomam cerveja, e todos convivem com um sorriso no rosto, mesmo quando chutam uma pedra na calçada.

Catarina

Para navegar, espera-se que você seja um pouco médico (louco você já é): tenha conhecimentos de primeiros socorros, saiba fazer diagnósticos e ministrar remédios.
As embarcações engajadas na Refeno tem que estar dotadas dos medicamentos que constam do item I da norma da Anvisa, formulada originariamente para embarcações com 15 ou mais tripulantes.
A lista dos medicamentos em questão é encabeçada por 150 comprimidos de Ácido Acetil Salicílico. Quero crer que esta quantidade deva ser proporcional ao número de tripulantes, ou seja, em uma embarcação com 2 pessoas a bordo, seriam exigidos 20 comprimidos.
Questiono a exigência do AAS, pois este medicamento é sabidamente não indicado nos casos de suspeita de dengue, e todas as regiões do litoral brasileiro onde aportamos têm focos da doença. Então, caso eu pudesse (parece que não posso) substituiria o AAS da lista pelo paracetamol, este como analgésico, ou pela dipirona, em caso de febre.
Da lista também consta o carvão ativado, que é usado em hospitais para fazer lavagem estomacal. Mas não se encontra essa forma de carvão nas farmácias comuns, e sinceramente, eu não saberia usar. Também não sei usar, porque não tenho costume, o leite de magnésia, que pode ser um poderoso laxante. Nem os antiácidos indicados, prefiro usar o bicarbonato de sódio para isso.
Ainda falando em remédios e doenças, estamos aproveitando a temporada na Bahia para renovar as vacinas, e de uma tacada, num só dia, tomamos a de febre amarela, que estava vencida, e é exigida em muitos países, e a tríplice (rubéola, sarampo, e caxumba). Essa última, completamente desnecessária para mim, pois eu já tive rubéola, e já tomei esta vacina quando criança, mas a atendente do posto insistiu, porque está havendo surto de sarampo, e também o Dorival, que me empurrou para tomar, se não eu não tomava, não. Menos mal que elas são subcutâneas, e não no músculo, por isso, não doem tanto, e a gente não perde os sentidos.
Melhor mudar o rumo do assunto, para não acharem que além de ligeiramente paranóica, eu sou hipocondríaca.
Então, sabe como o baiano pergunta “o que aconteceu”, ou, “do que se trata? Fala simplesmente “É o que?”. E como o expectador de uma conversa reage ao outro, que conta uma estória? Diz: “Foi?”, ao invés do “é mesmo?”, ou do “puxa vida!”, usados no sudeste, intermediado de “Ave Maria!”, ou “Misericórdia!”. Bonitinho, né?
Bonitinho mesmo é o jeito de baiano se preocupar com os outros. Em qualquer situação, eles se prontificam a ajudar. Foi assim no Cartório em que fui reconhecer a firma de um documento. Depois de uma fila de 40 minutos, o tabelião me informou que abrir firma era em outro lugar (na “Barroquinha”), para depois voltar lá. Em São Paulo, faz-se tudo num mesmo Cartório, mas a “burrocracia” varia, pelo visto, de um estado para o outro. Muitos na fila do cartório ficaram consternados com a minha situação, e tentaram ajudar, explicando como chegar ao outro cartório, e o que eu deveria levar. Realmente, os baianos não são do tipo que quer apenas resolver o seu próprio problema, e que se lixe o resto.
Falando sério, todas as normas de segurança têm sua motivação em casos práticos, e uma muito importante, também exigida para a Refeno, são as luzes do colete. Nossos amigos do Acauã dizem que elas, além do spot, salvaram a vida deles, por propiciar serem vistos à noite no mar. Quanto aos fogos, parece que nem sempre funcionam como prometem, e que disparam para qualquer direção, menos para cima.
Um esclarecimento: o doce do post anterior é o lelê, feito com canjiquinha de milho, leite de coco e coco ralado.

Catarina

Há tempos que observava pequenas manchas de umidade nos CD´s de música que levamos a bordo. Limpava, punha para tomar ar, e algum tempo depois, alguns deles estavam com o mesmo problema. Reparei que as manchas sempre apareciam na parte que fica em contato com os encartes de papel, que seria, então, o responsável por absorver a umidade, e passar para o resto.CDS
Com a chuva que cai em Salvador, tive tempo para tomar uma atitude: tirei os CD´s das embalagens originais e guardei-os em uma malinha com divisórias de tecido. Mas como as tais caixinhas que restaram tomavam todo o espaço de uma prateleira, fiz mais: me livrei delas, só guardei os encartes de papel, que relacionam as músicas. Então, ganhei um espaço importante, e ainda me livrei de peso, e do bolor. Sei que a solução parece radical, e muitos não vão querer adotar, pelo amor às caixinhas plásticas, e ao que elas representam, mas a dica pode valer para alguém, com pouco espaço como eu.
Nesses dias de chuva, também sobra tempo para ver televisão, e assistir a alguns programas locais. Vi que o jornal do meio-dia da Bahia abre um espaço para que pessoas com parentes desaparecidos possam apresentar fotos, e dar  detalhes do desaparecimento. É uma atitude humanitária, porque as famílias sem notícias de seus entes queridos vivem momentos de grande aflição, sem saber como eles estão passando, e se estão vivos. O programa confirma o jeito próximo e afetivo do baiano.
Em dias de chuva se come bem, ainda mais aqui. No café da tarde dá para aproveitar as delícias locais, e o meu doce predileto, o que está na foto, que vou deixar para você adivinhar qual é.Lelê
E acredite se quiser: por estes dias, apareceu por aqui uma baleia, nas imediações da Marina. Todo mundo parou para ver. Felizmente, ela conseguiu se safar das embarcações curiosas, e desapareceu no mar. Sinal de que este ano elas estão bombando.
O mau tempo desses dias, trazido pela frente fria, arrancou alguns cunhos do Tenab, e fez com que não saíssem os catamarãs para Morro de São Paulo, e as barcas para Itaparica.
Está na hora de dormir com o barulho da chuvinha, que é bom. Se preparar para bater perna na Calçada amanhã, de guarda-chuva.
A Calçada é um bairro que tem de tudo, de filtro para água a filtro para motor, mangueiras, eletrônicos, madeiras, qualquer coisa que se precise para manutenções, além de vestido de noiva, panela, e colchão. Tem até concessionária de carros com nome de hortifruti (Frutos Dias).

Assim como há um Código da Vince, para andar na Vinte e Cinco de Março, em São Paulo, também há regras para se andar na Calçada. Indo aos lugares certos, se encontra de tudo.
Então, com sua licença, vou descansar para o dia de amanhã, não sem antes deixar minha música selecionada, para acalentar o sono dos marmanjos, e dos anjinhos.

Catarina

Quanto é um segundo? E três horas? Você deve estar fazendo a conta de 18 milhas a 6 nós. Sim, é verdade, mas sem pensar na famosa teoria de Albert Einstein, acho que qualquer quantidade de horas depende muito do que está acontecendo, e do que estamos fazendo.
Quando saímos do Sítio Forte, na Baia de Ilha Grande, tínhamos como destino Salvador, mas quis a natureza que fossemos parando pelo caminho. Essas escalas já estavam mais ou menos planejadas, dependendo do vento, mar e do consumo de combustíveis e víveres.
Assim, fomos parando em Búzios, para onde voltamos por problemas técnicos, Vitória, Barra do Riacho e Santo André, além de uma escala rápida na Ilha do Francês.
Cada uma dessas aterragens foi feita tendo por trás delas uma necessidade de abrigo imposta pelo comportamento do tempo, mar, falta de vento, etc… Nenhuma delas era nosso destino. Assim que chegávamos, além do cansaço e da preocupação gerada pela necessidade de parar, tínhamos um certo alívio por ali chegar. Algumas dessas paradas foram feitas após desvios ou retornos de até 15 milhas, levando 3 a 4 horas para chegar, que em geral passavam rápido, por conta das fainas que a natureza impôs.
Todas as decisões, de parar ou voltar, foram tomadas na hora certa, muito antes que condições enfrentadas impusessem qualquer risco ao Luthier. Mas não foi fácil mudar o rumo e resistir à tentação de seguir direto ao destino.
Parece difícil, mas muito mais foi chegar em Salvador depois que saímos de Santo André. O mar estava bom, pouco vento, nenhum problema técnico, tudo certo, mas depois que avistei o Farol da Barra, parece que o relógio resolveu parar, não chegava nunca, foram 3 horas, mas demorou muito mais do que as mesmas três horas para entrar em qualquer uma das escalas que fizemos.
A cidade estava calma, poucos carros na rua, sábado 2:00 hs da madrugada, céu estrelado. Deixamos o farol por bombordo e seguimos para o Tenab (Terminal Náutico da Bahia). Para me ocupar e tentar fazer o relógio andar mais rápido, logo fui preparar o barco para atracação, colocar defensas e cabos, de nada adiantou, ainda estávamos longe e o relógio não andava.
Demorou 33 dias e 11 horas para chegar em Salvador e em um piscar de olhos já faz uma semana que aqui estamos.

Dorival

Você conhece o “sapoti”? E o “mangostão”? Não? Eles são frutos cultivados na Bahia, que se adaptaram ao seu clima e solo. Um deles parece o jambo, só que a casca é mais dura, e é bem menos carnudo. O outro tem muita polpa, muita frutose, e não se parece, nem tem gosto, de nada que eu tenha provado antes; é saboroso, e deve cair bem na culinária.Frutas 2
As frutas cultivadas aqui são uma atração, pela variedade e pelo sabor, e são mais doces que as do sudeste do país, além de bem mais baratas! Uma penca de bananas sai por R$2,00, o mesmo preço de um mamão formosa grande.
Nós seguimos em Salvador, entretidos em nossas fainas intermináveis a bordo, a começar pela lavagem da roupa suja acumulada. No mais, estamos procurando um lugar para tirar o barco da água, pois todas as marinas estão congestionadas, pela proximidade das regatas na região nordeste, com todos os zelosos comandantes querendo deixar seus barcos impecáveis.
Frutas 1As regatas da região são muito esperadas, e contam com grande adesão, como a Aratu-Maragojipe, que tem a participação prevista de 400 barcos. Elas têm um ponto em comum: sempre terminam em festa.
A Federação de Vela da Bahia parece muito ativa, na organização,  definição de regras e formação de árbitros, refletindo a grande atividade local da vela. Fomos a uma palestra organizada por ela, realizada no Terminal Náutico da Bahia, muito interessante. Por primeiro, apresentou-se um velejador solitário, que fez a travessia Salvador-Cape Town, com parada em Santa Helena, em seu veleiro de aço, no período que dispunha para tanto, incluindo a volta: três meses. A meu ver, foi um excelente aproveitamento do tempo limitado, para a realização de uma travessia oceânica. Ele me pareceu uma pessoa bastante tranquila, apesar de dizer-se nervoso em sua estréia como palestrante.
Durante a travessia, dormia 8 horas por dia, à noite, com uma espiada a cada duas, confiando no “AIS”, que captava os navios a mais de 16 milhas de distância, bem antes de serem visíveis no horizonte. Ele contou que a previsão do tempo pelo UGRIB sempre acertava, para o mar aberto, longe das interferências climáticas da costa.
Depois, seguiu-se a apresentação de outro velejador baiano, que recentemente participou da Fast-net, regata entre a França e a Bretanha, local em que o mar pode ficar bem agitado, por conta das tempestades vindas do Canadá. Muito legal o vídeo exibido sobre o seu curso de sobrevivência no mar, que antecede a regata. Treinam o pessoal, entre outras coisas, a jogar, abrir e subir na balsa salva-vidas, pois nada disso é trivial, ainda mais numa situação de estresse e/ou de mar alto. As roupas utilizadas para tanto são próprias para aguentar a baixa temperatura, e evitar a hipotermia, garantindo uma sobrevida de cerca de 11 horas; é um tipo de neoprene que não TENABencharca, sendo obrigatória a bordo. O vídeo mostrou a balsa mais moderna sendo lançada à água, que é auto-adriçante, ou seja, volta a ficar de cabeça para cima, caso caia para baixo. Realmente, é bom saber como jogar e manusear esse troço, caso precise. E deixá-las bem à mão para lançar ao mar, de preferência, sem a minha ajuda, pois pesam quase tanto quanto eu.
O palestrante foi muito sincero: relatou ter sido um dos últimos colocados na regata, apesar de todo o seu empenho, e o de seu tripulante, muito embora seu barco não tenha quebrado, como muitos outros que abandonaram a prova, por manobras desastradas. Contou que vomitava o tempo todo, inclusive a água que tomava para hidratar-se, e que passou muito estresse. Foi quando um simpático baiano comentou conosco: “Eu também passo mal. Por que será que a gente continua nessa vida?”.
Teve mais um palestrante baiano, que concorreu na Regata de Ilha Bela, e com raça pegou boas colocações.
Tudo terminou com a delícia de pão delícia, sobre uma mesa com tira-gostos.
Em Salvador chove, por conta da ondas de umidade vindas de leste. Atrapalham o comércio ambulante, as atividades ao ar livre e, por fim, as pinturas de fundo do barco, ou seja, mais fila de espera para subir o nosso.

Catarina

Qual será o próximo equipamento a quebrar a bordo? É a pergunta que nos fazemos, valendo apostas.
Em Santo André, depois de constatado o não funcionamento da geladeira, iniciou-se uma investigação, para ver se a origem do problema estaria no motor, ou se seria um vazamento de gás. Descartada a primeira hipótese, e sem qualquer material a bordo para resolver a situação, chamamos um técnico de refrigeração, que constatou o vazamento de gás, supostamente, em um ou nos dois conectores que ligam o motor à parte interna da geladeira; testou com uma máquina de fazer vácuo, encheu com o gás, e deu tudo por resolvido.
Como diz o Dorival, um diagnóstico detalhado é parte importante da solução de um problema, mesmo que isso seja demorado, justamente para evitar o re-trabalho, pois os sistemas são integrados, e o problema pode estar numa ponta, ou em outra oposta.
O problema em questão não estava resolvido. Um dia depois, novamente estávamos sem geladeira. Desta vez, o técnico voltou com maçarico, para fazer soldas, e o Dorival pediu para soldar tudo, não deixar nenhum conector, pelo qual o gás poderia escapar.
Essa confusão toda, com cilindro de gás e maçarico a bordo, atrasou nossos preparativos de viagem. Tínhamos uma janela de tempo pequena, então, foi uma correria para sair, encher os tanques de água, preparar os alimentos, e o próprio barco. Correria também na própria saída, porque a maré já estava vazando, e a nossa âncora de popa se enganchou numa poita, num indício de que alguma hora ela garrou, e foi parar lá, pois obviamente não jogaríamos ferro sobre uma poita sinalizada.
Na saída, pegamos um bom vento sudeste, que permitiu uma boa velejada, até o entardecer, deixando para trás o mar cor de bala de menta, de Santo André.
Eis que, pela nossa proa, avistamos uma pesada cortina de chuva, que avançava no horizonte, deitada de lado, num sinal de que trazia vento. Com receio de pegar ventão, rizamos toda a vela mestra, para assim passar a noite. A dita cuja chuva veio pesada, por toda a noite e o amanhecer; menos mal que não trouxe ventão, nem raios.
Depois desse evento, restou o marzão de leste, alto e curto, que nos fez rolar de um lado, para o outro, por toda a viagem, com muito pouco vento. Quando o vento aparecia, acelerávamos o barco com todos os panos, para andar na mesma velocidade das ondas, o que deixa a navegada mais confortável.
No segundo dia de viagem, eu fiquei com uma tremenda dor de cabeça, e com umas cólicas. O Dorival só foi melhorar do mal estar geral depois que pôs a comida para fora, e 5 minutos depois já estava pedindo comida, sinal de que não se tratava de enjôo. Conclui que houve intoxicação alimentar a bordo.
Sinto-me responsável pelo fato, por não ter descartado todos os alimentos que podem ter sofrido com a falta de refrigeração. Dei mancada porque fiquei em mente (curta) que jogar alimento é pecado, esquecendo do risco que representa a doença no mar. Aprendi na marra a regra a ser seguida: na dúvida, descartar o alimento.
Enquanto a plataforma continental se fazia presente no nosso trajeto, tivemos que desviar de alguns barcos de pesca à noite. Próximo de Salvador, por conta das profundidades de mais de 1.000 metros, os pesqueiros sumiram, mas os navios apareceram, e estes não desviaram de suas rotas nem por um segundo, então, nós que, apesar der termos a preferência (estávamos por boreste), temos juízo, nos desviamos de nossa própria rota, por mais de uma vez.
Foi a terceira vez que chegamos em Salvador por mar, e a emoção se repetiu. Mesmo à noite, é tudo tão bonito, avistar o Farol da Barra, os navios em fila para entrada no porto, o Forte São Marcelo, os veleiros ao fundo da marina, tudo com aquele perfume no ar, das águas de colônia e alfazema usadas por aqui, misturadas ao cheiro de comida boa sendo feita. É uma terra com muita gente festeira, que ri de qualquer coisa.
Foi duro chegar, mas agora estamos em casa, podemos descansar.

Catarina

Ponha para cozinhar numa mesma panela o repolho, a batata-doce e grão de bico. Ponha, também, fumaça de óleo queimando. O cheiro que vai sair deve ser parecido com o que exala daquelas chaminés da fábrica de celulose próxima do porto em que estávamos, e que já estava nos enjoando, com uma força tanto ou mais poderosa que a do mar. E o mar anda meio chato. Mas entre enjoar com o cheiro doce fétido, ou com o mar, optamos pelo segundo, e saímos do porto com ondas ainda um pouco altas, de 2 metros e pouco, e curtinhaGolfinhos - Abrolhos 1s, de cerca de 8 segundos. Eu contava 1.001 até 1.008, e aí, de tempos em tempos, vinham 3 grupos de ondas, de quase o mesmo tamanho.
Saímos com o vento de terra, que não durou muito tempo. O vento que veio depois ainda era muito na cara, então, dá-lhe motor! Quando mudamos um pouco nosso rumo, pudemos vir numa orça apertada, mas com muito pouco vento. Às vezes, nos arrastávamos a 4 nós.
No cair da tarde desse mesmo dia, um pescador nos chamou, e avisou que estávamos na rota de um de seus piscas luminosos, ou seja, de sua rede sinalizada, e pediu que desviássemos para o seu boreste. O desvio que tivemos que fazer foi de quase 4 milhas, deixando o vento na nossa cara, o que brecava o barco. Além do diesel, e do transtorno para a tripulação, isso nos custou duas horas a mais no trajeto, só para voltar à nossa rota original. Golfinhos - Abrolhos 2 Achei o pescador meio fominha, do tipo que quer o mar só para ele. Ele está trabalhando, mas nós estamos navegando, com uma quantidade de diesel limitada, que pode nos fazer falta.
Durante a noite, outro desvio de barco de pesca teve que ser feito, não tão drástico quanto o anterior.
Chegamos na manhã do dia seguinte no canal de Abrolhos, cuja água estava translúcida. Avistamos algumas baleias, soltando borrifos. Pedimos a previsão do tempo para o Farol de Abrolhos, para a área E, e nos passaram que as ondas iriam aumentar para 2,5 metros.
No final da tarde desse dia, depois de já termos deixado as ilhas do Arquipélago para trás, começamos a ver um movimento de baleias por todo o lado que se olhasse, sempre em grupos, soltando borrifos, dando saltos, todas bem grandes, de cabeça com formato irregular. Nós estávamos observando o movimento delas, quando se aproximou do nosso barco um grupo de golfinhos totalmente diferentes dos que temos visto: mais compridos, com pintas Baleia - Abrolhos 1marrons no dorso cinza, e barriga branca. Um deles deu um salto e pôs à mostra uma a barriga branca com manchas cor-de-rosa. Que gracinha! Que lindos! Quanta festa!
Mal passado o bando de golfinhos, vimos que um grupo de baleias estava se aproximando, cada vez mais. O que fazer? Não dava para desviar, pois deveria haver mais de 50 por ali, então, desviar de qual? Nossa única decisão foi diminuir o giro do motor, para não parecer que estávamos afrontando o bando. Pasmem: elas se aproximaram, sumiram, e apareceram do outro lado do barco, deixando na água uma marca como se ali não tivesse vento nenhum, uma área lisa, do formato delas. Acho que nos integramos à natureza do lugar! Não houve nenhum estresse.
Depois de tanto presente do mar, o céu baiano nos trouxe uma noite estrelada, cheia de estrelas cadentes. Estas “estrelas” podem ser lixo  espacial, ou até, rabos do Cometa Baleia - Abrolhos 2Harley, pela época em que estamos, mas valem pedidos.
O amanhecer já não foi tão plácido, porque as ondas começaram a aumentar e ficar muito picadas. Já sabíamos que em Ilhéus as coisas poderiam se complicar, pois o mar ruim vinha de norte. Também tínhamos dúvida quanto ao combustível, se daria para chegar em Ilhéus, caso o mar engrossasse, então, decidimos rumar para Santo André, empurrados pelas ondas e vento, vindos de leste.
A entrada em Santo André é sempre uma emoção: um descuido e você vai parar na praia, ou nos corais, ou encalhar no meio disso tudo, com pessoas nadando por perto. Mas emoção por aqui é o que não falta.
Depois de fundearmos, o Dorival constatou que a geladeira não funcionava, pela indicação do sensor externo. Sabe como é, o barco trabalha, os equipamentos trepidam, o gás vaza, etc… Esse era um problema para resolver. O outro, estava bem ali ao lado: um barco de pesca que garrou e foi parar no nosso bordo, coisa comum por aqui, em que a tensa é uma aventura.

Baleia - Abrolhos 3

Catarina