setembro « 2010 « Bem-vindo a bordo!

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Muitas vezes, iniciamos uma atividade, projeto, viagem, etc…, imaginando um determinado fim, e a coisa toda toma outros rumos. A viagem à vela é mestra nisso. Saímos com um destino, mas chegaremos aonde for possível, e quando der.
Regatas, a versão esportiva da vela, é uma atividade com começo, meio e fim bem definidos, cheia de regras (não conheço todas) e, principalmente, no caso da oceânica, a única coisa certa é a largada.
Largamos na REFENO rizados. Após alguns bordos, já estávamos montando a bóia norte, e rumando para Fernando de Noronha. Eu e a Catarina achamos o mar alto, mas parecia que dava para continuar até um outro ponto de decisão definido por nós, próximo a Cabedelo. Chegando lá, decidimos continuar.
Mais adiante, o mar começou a piorar muito, e rajadas de vento de 30 nós começaram ser frequentes. A Catarina começou a piorar da garganta e eu a ficar muito mareado. Os eventos começaram a ocorrer: barcos mais atrasados em relação a nós começaram a reportar perda de controle do leme, e arribaram para Cabedelo; muitos informavam que seus tripulantes estavam mareados; outros tiveram carrinhos da escota da mestra arrebentados; genoas rasgando; e apareceram os primeiros dois casos de pedido de resgate de tripulante em más condições de saúde, sendo um caso grave. Esses dois últimos pedidos de resgate demandaram uma das embarcações da Marinha.
O mar aumentou ainda mais, e o vento ficou sustentado em 30 nós. O Luthier ia bem, salvo engano, estávamos em segundo lugar, com somente um “Dufour 405” à nossa frente. A situação do mar e ventos não pareciam ser problema para o Luthier, mas eu já estava ficando sem forças, e a Catarina, cada vez pior da garganta, desenvolveu um quadro febril. Decidimos abandonar a REFENO e rumar para Natal, 40 milhas mais perto do que Fernando de Noronha.
Assim que acertei a rota para Natal, tudo melhorou, porque ficamos com mar e vento de alheta. Pouco tempo depois que avisamos o navio patrulha da Marinha, de que estávamos abandonando a Regata, fomos chamados no rádio por dois barcos: o trimarã Nativo, então sem mastro, e o veleiro SAMSARA, sem o leme, que quebrou e se perdeu no mar. A Marinha, que estava com um navio socorrendo os tripulantes resgatados, e outro muito adiante, perto de Fernando de Noronha, acionou um outro navio patrulha, que demandou de Natal para socorrer esses dois barcos.
O Veleiro SAMSARA, um 40 pés de regata (fibra de carbono), então sem leme, com 10Samsara tripulantes, dentre eles uma mulher e dois adolescentes, me pediu para fazer ponte de rádio com os navios da Marinha. A essa altura, a única possibilidade foi o SSB. Perguntado pelo operador do navio da Marinha se poderíamos assistir ao Samsara, respondi que sim.
Não sei de onde arrumamos forças para velejar no rumo para encontrar o SAMSARA, o mesmo da Regata. Voltamos a ter vento aparente de 30 nós, 60°, e ondas de amuras de 3 a 4 metros: o inferno havia retornado.
Falávamos com o Samsara a cada 30 minutos, pelo VHF, para trocar posições, e em seguida eu as passava (a nossa e do SAMSARA) para o Navio da Marinha, inicialmente pelo SSB, e depois por VHF.
A cada contato com o SAMSARA, eu percebia que eles estavam mais calmos, provavelmente pela certeza de que pelo menos comunicação, havia. Essa é a mágica do rádio.
Eles derivavam um minuto para o norte, a cada meia hora. Levamos três horas para chegar até eles, velejando a 6,5 nós, com poucos panos . Quando os avistamos, demos proa ao vento, baixamos velas, ligamos o motor e nos aproximamos para jogar uma retinida com uma pinha em uma das pontas, e dois cabos de seda de 40 metros cada, para amarrar em um cabo de fundeio deles, e dar início ao reboque.
Consegui jogar a retinida para eles, mas uma onda jogou o Luthier em cima do SAMSARA, e na manobra de evasão, acabamos por tocar os mastros, o que resultou, por sorte, só na perda das birutas do Luthier. Eles não conseguiram atar os cabos a tempo, e a manobra, muito arriscada, foi inútil.
O comandante do SAMSARA sugeriu que um tripulante dele mergulhasse e nadasse até o Luthier, trazendo um cabo para atar aos meus. Preparei tudo, e passei próximo ao mergulhador a 1,5 nó, velocidade mínima para que eu tivesse governo do Luthier. O mergulhador, por questão de centímetros, não conseguiu pegar o cabo que joguei.
Não deu, pensei (@#$%¨$$##@@# )! Já tinha um barco à deriva, sem leme, e agora tenho um homem ao mar!
O mergulhador usava um colete importado dotado de um sistema automático de inflar, e com uma forte luz piscante (strobo). Eram 4:00 hs da manhã, noite ainda. Eu pedi à Catarina que apontasse o tempo todo para o mergulhador e fiz, pela primeira vez a manobra que li nos livros: cheguei a sotavento dele, e quando ele estava perto da popa, cortei o motor, que estava lento, e dei um cavalo de pau no Luthier. O mergulhador ficou posicionado bem à popa do barco, então, joguei a retinida a ele, e o puxei para bordo. Mais uma vez, ainda bem que a popa do Luthier é aberta!
Depois dessa, decidimos que o Samsara colocaria uma bóia com uma luz atada a um cabo longo, e que eles teriam ainda outro cabo atado a esse para, assim que pegássemos a bóia, eles fossem “dando linha”, para que tivéssemos tempo de atar os cabos de reboque. Foram quatro passadas, até que, finalmente, conseguimos pegar a bóia e atar os cabos.
Meus cabos de seda elásticos, e os cabos de âncora do Samsara, juntos, davam uns cem metros; a bóia que ficou no meio deles foi muito útil.
Tudo certo, respiramos fundo e iniciamos a operação. Adotei um rumo direto para Natal e coloquei o motor a 2000 giros, o que nos permitia andar a 3 nós de velocidade. A popa do SAMSARA balançava para os lados, descontrolada. Eles lançaram cabos pela popa com uma porção de tralhas, inclusive esses galões plásticos para combustíveis, que funcionaram muito bem, estabilizando a popa. Dessa forma, com o cabo sempre esticado, sem tranco, e com o motor na temperatura normal, iniciamos os turnos no Luthier. Nessa hora, é que o anjo que eu tenho a bordo (Catarina) começou a trabalhar: fez os turnos com tripulante do Samsara a bordo, porque eu, depois que tudo estava bem, voltei a marear fortemente.
Foram 60 milhas de percurso até Natal, totalizando 20 horas, tempo para eu pensar em como entrar na Barra do Rio Potengi, em Natal.
Depois de algum tempo de percurso, percebi que o SAMSARA derivava para bombordo, o esperado, porque as ondas e vento vinham de SE, e a corrente também. A 5 milhas da barra, perguntei ao navio da Marinha, que já nos acompanhava, se eles também percebiam essa tendência do Samsara. Confirmado. Resolvemos encurtar o cabo de reboque, ficamos com uns 40 a 50 metros.
Adotei um rumo mais para o sul, de forma a fazer uma curva de aproximação que deixasse o Samsara a meu boreste na entrada do rio, e então, após eu passar, seria só controlar a velocidade para que ele derivasse mais ou menos para bombordo, e também passasse bem no meio do canal. O perigo são as pedras ao norte marcadas pela bóia 2.
Com cuidado, e a 3 nós de velocidade, o Luthier entrou bem no meio do canal. Fui acelerando para diminuir a deriva do SAMSARA e, a 4,5 nós, o SAMSARA entrou bem no meio do canal. Fiquei muito contente, porque as horas em que eu fiquei planejando essa entrada valeram a pena: tudo ocorreu como pensado.
Dentro do rio, a lancha do prático se posicionou a contra-bordo do SAMSARA, e largamos os cabos de reboque.
A experiência dos tripulantes do SAMSARA (o que estava a bordo do Luthier foi da equipe de terra do Brasil 1), o acompanhamento da Marinha pelo rádio, e a robustez do Luthier, fizeram com que tudo terminasse bem, sem maiores prejuízos, e, principalmente, sem feridos.
Fora a primeira tentativa de lançar os cabos, muito arriscada, todas as outras operações foram bem pensadas, por todos nós, dos dois barcos, realizadas com calma, e sem heroísmos.
O Mar às vezes é rude, judia, mas aproxima as pessoas. Estou feliz de ter feito parte deste resgate. Outras REFENOS virão.

Dorival

Quem viu nossa rota pelo spot não entendeu nada, pois fomos para cima de Natal, para depois voltar,  sem passar pelo nosso destino em Fernando de Noronha.
Estamos extremamente cansados para contar direito os acontecimentos, mas em resumo foram: viemos rebocando, a 3 nós, um outro veleiro de 40 pés  engajado na Refeno, que estava à deriva, sem o leme, com 10 pessoas a bordo, incluindo crianças.
Estão todos bem, as duas tripulações e os barcos, mas as manobras de reboque à noite, com mar alto e vento, que  envolveram,  inclusive, homem ao mar,  minou o resto de nossas energias, nós que já estávamos um bagaço.
Depois contamos detalhes, vamos descansar.
Catarina

Logo mais, às 15:20 hs, largaremos no grupo verde da REFENO. A previsão de mar não é das melhores, mas o vento está bom, na faixa dos 10 a 15 nós. Provavelmente, vamos largar com a mestra já no primeiro rizo, e com genoa. Não vamos usar Gennaker porque, devido à direção do vento, teríamos que baixá-la logo na saída do molhe, onde deverá haver um amontoado de barcos, e o mar na barra é “barra”.
Em frente a Olinda, vamos decidir se continuamos ou não, dependendo do estado do mar. Se continuarmos, mais à frente temos um outro ponto de decisão onde, se necessário, abandonaremos a regata, e vamos arribar para Cabedelo.
Nesses quase dois anos a bordo do Luthier, aprendemos quais são nossos limites para enfrentar mar ruim, e eles são alcançados muito antes dos limites do barco. Como não temos passageiros, a decisão de continuar ou abandornar a regata é muito mais fácil, porque não temos que nos preocupar com as expectativas de terceiros, e não temos nenhuma obrigação se não com nosso prórpio conforto e segurança.
Acompanhe nossa participação na REFENO clicando no Link “SPOT” na barra ao lado.

Dorival

“Viu? Deu tempo.”, foi o que o Dorival me disse, assim que passamos pelos muros do Cabanga Iate Clube, em Recife. Eu tinha dúvidas se, com tantas pendências de manutenções e melhorias que queríamos fazer no barco, e dos compromissos pessoais, íamos chegar a tempo de participar da Refeno. Não só chegamos, como já fizemos a vistoria da Marinha, e agora estamos na “piscina” do clube, nos preparando para a viagem até Fernando de Noronha.
Não foi fácil chegar aqui, por vários motivos, e o estado do mar é o principal deles. Ainda bem que, nesta última viagem, ele deu uma folga, com as ondas um pouco mais longas, e o vento a favor, nos empurrando com tudo até o nosso destino. Nada é perfeito: uma onda vinda pela proa lavou a cabine do barco e molhou o display do nosso ecobatímetro. O acrílico do instrumento estava com uma fissura, em consequência de um esbarrão anterior do Dorival, e a água salgada entrou, destruindo alguns circuitos. O Dorival está tentando dar um jeito no equipamento, vamos ver… Além disso, as batidas nas ondas do mar fizeram com que alguns produtos químicos, que estavam em uma prateleira do paiol, caíssem, e um litro de óleo para o motor do bote quebrou, fazendo sujeira.
Sabemos de barcos que, na subida para cá, perderam o bote inflável para a ventania, de outros que tiveram avarias nos estais, no leme, nos biminis e dodges, etc…
Curiosa a observação de uns argentinos, que subiram a costa conosco, de que não estão acostumados com um mar tão tormentoso assim. Estes argentinos integram uma flotilha que sobe para cá a cada dois anos, junto com o Cruzeiro Costa Leste. São extremamente amáveis, atenciosos, e interessados nos mesmos assuntos que nós, sobre meteorologia e navegação. Não agem como um grupo fechado, em que só entram os que portam a mesma credencial. Se formos pensar bem, a pátria do navegante é o mar, e as pessoas afins são as que passam pelas mesmas situações e dificuldades; o estado ou país de origem, e a língua que se fala, são meros detalhes.
O Luthier está a contra-bordo de outros barcos, nos fundos da área murada do clube. A água doce tem que ser compartilhada por mangueiras que são emendadas entre os barcos, e da mesma forma a energia.
A vantagem da vaga em que nos puseram é que estamos de proa para o vento predominante agora, sudeste/sul, o que faz a diferença para o calor desta latitude. Os vizinhos de vaga são ótimos, se ajudam mutuamente, e tentam manter a discrição, em que pese a pouca privacidade gerada pela condição em que estamos. Outra característica da vaga: encalhamos duas vezes por dia. Veja na foto: com profundidade de 1,3 metros, estamos adernados. Luthier
Temos gana de chegar ao Arquipélago de Fernando de Noronha, uma vez mais, para visitar os lugares que não pudemos ir da última vez, e mergulhar para ver a vida marinha daquelas águas. Até o “swell” da Ilha será bem-vindo.
Para a torcida animada, um aviso: este ano há mais barcos participando da Regata, muitos com área vélica bem superior à nossa, alguns com características de barcos de regata, trazendo equipes preparadas, então, para esse ano, não deve dar para receber prêmio, não. Conformem-se!
Além disso, parece que o mar vai estar alto, com vento forte, então, não vamos arriscar os equipamentos do barco, porque precisamos dele inteiro, terminada a Regata. Muito embora estas situações costumem despertar a besta que há dentro de nós, estamos nos propondo a ir na boa.
Vale pela festa toda, pela brincadeira, pela experiência de mar, pelo reencontro de pessoas que não víamos há muito tempo, e pelo Arquipélago em si. Parece conversa de derrotado, de quem não pegou colocação nenhuma, mas não é isso, não, apenas temos outros objetivos adiante. De verdade, desta vez, esses que listei serão os nossos prêmios, além da grata companhia de vosmecês.

Catarina

Estamos saindo de Maceió para Recife hoje, mais ou menos às 11:00 hs. Durante a viagem de Salvador até aqui mandamos sinais do SPOT a cada 6 horas, mas 4 delas não apareceram. Não sei se foi por conta do mar ruim ou qualquer outra coisa. Vamos mandar mensagens a cada 4 horas durante essa viagem de 24 horas, aproximadamente, para teste. Caso não apareçam, não se preocupem.
O mar continua chato e, por isso, vamos devagar, ajustando nossa velocidade para dar prioridade ao conforto a bordo.

Dorival

Levei um soco no estômago, e o Dorival foi a nocaute: esses foram os nossos primeiros dias no mar, na saída para Recife. Aliás, nós é que fomos levar as bordoadas, o mar não teve nada que ver com isso, pois já em terra deu todos os sinais de que a navegação não iria ser fácil. Perigoso, o mar não estava, nem contra, pelo contrário, o vento sudeste nos possibilitou velejar o tempo todo, mas as ondas altas e curtas, vindas de leste/sudeste, faziam do barco “milk-shake” espumoso. As ondas quebrando por cima do convés, escorrendo pelo cockpit, mais os caturros, e a chuva, fizeram o resto do serviço de acabar conosco.
Para não estressar o barco, nem a nós mesmos, deixamos a mestra e a genoa no segundo rizo, e levamos o barco a, no máximo, 5 nós. Eu fiquei lá fora grande parte do tempo, até o Dorival se recuperar, com a escota da mestra na mão, e folgava sempre que o vento mais forte ultrapassava o limite que consideramos confortável para o nosso barco. Ajudou bastante o presentinho que o Luthier ganhou: um par novo de escotas da genoa, com tecido macio ao toque, e mais fina, facilitando o encaixe na catraca. Gostei! A outra escota estava bem rota, com remendos, e ficou ainda pior depois da subida do barco. Quem sabe o Dorival resolva trocar também os cabos das defensas, que soltam pelos irritantes toda vez que eu preciso lidar com elas.
Na noite do segundo dia escutamos o aviso de mau tempo transmitido pela Aracaju Rádio. O sinal ficou bastante truncado, só ouvimos que havia ressaca para a área, e ondas de 2,5 metros. Na dúvida se viria vento forte, fomos conservadores, e baixamos totalmente a mestra, para passar a noite. Por fim, não veio o ventão, e tivemos que ligar o motor para as últimas 40 milhas, porque a cara do mar não nos animava a levantar a mestra novamente. O vento também diminuiu bastante.Saveiro 1
Ainda bem que em Salvador pudemos descansar bastante, o povo de lá é um alento para a alma. Se você encontrar alguma pessoa estressada por lá, certamente não é baiano. As coisas são feitas sem pressa, mas bem feitas. Os únicos que tem pressa por lá são os taxistas que pegamos: furam o sinal vermelho, correm, procuram os melhores caminhos para fugir do congestionamento, nos deixam em pânico dentro do carro.
Só saímos da Baía de Todos os Santos porque o barco quer navegar. Mas voltaremos para ver os saveiros encostar à vela, com maestria, na rampa do Mercado Modelo, trazendo a melhor farinha amarela da região. É um lugar em que a tradição dos saveiros, e das embarcações de um pau só, convivem com os modernos iates. Saveiro 2
Chegamos em Maceió ontem, com o por do sol às 17:30 hs, mais cedo que no sudeste, e com um bafo no ar parado, sinal de que o tempo pode mudar. De qualquer forma, vamos descansar pelo menos um dia, antes de seguir viagem, sem pressa, pois já somos baianos de coração,  e por opção.

Catarina

 

Vamos tentar sair para Recife. O mar está um pouco agitado, mas o vento é SE, o que ajuda. Amanhã, o vento previsto é ESE, e a partir de quarta feira será E, por alguns dias. Se não der, voltaremos. Acompanhe-nos pelo SPOT através do link ao lado.

Dorival e Catarina

Sempre que possível, nós mesmos fazemos as manutenções do Luthier. Claro que, para isso, dependemos de informação e estudamos muito como fazer. No caso da pintura do anti-encrustrante, abusamos de um amigo velejador que é químico, e li, várias vezes, as recomendações do fabricante impressas na lata, e os documentos que hoje, facilmente, são encontráveis na internet.Pintando
Compramos as tintas e o “primer” selador, pincéis, bandejas, rolos de lã de carneiro, lixas, máscaras, luvas, etc..
A subida do barco no Aratu Iate Clube já foi comentada pela Catarina. Eles sabem bem o que fazem, deu tudo certo, mas prefiro o “Travel Lifter”.
Para esse serviço, é preciso ter tempo, o que para nós não falta.
Antes de subir o barco, contratei dois irmãos baianos muito bons aqui do Tenab, para fazer uma boa limpeza do fundo.
Barco fora d´água, é hora de lixar, a parte triste do serviço. Contratei um garoto para me ajudar, mesmo assim, juntos, demoramos um dia inteiro para deixar tudo bem lixado e limpo.
O segundo dia foi gasto em pequenos reparos na quilha, troca de anodos,  marcar a linha d’água, colocar máscara nos anodos para que não sejam pintados, e lavar muito bem o casco.
Pronto 1 Depois ficou mais fácil e divertido. Foi só passar o “primer” selador, e uma primeira mão de anti-encrustrante, 3 horas depois. Importante esse tempo para que haja um boa aderência química entre eles. As outras mãos de anti-encrustrante ficaram para o dia seguinte, porque só podem ser aplicadas com mais de 6 horas de intervalo. Assim foi mais um dia, e outro ainda, para pintar debaixo dos apoios da carreta e mais 18 horas para secar bem antes de ir para água.
Fora lixar, não dá muito trabalho, não é nada diferente de pintar uma parede. Só demora por conta dos tempos de espera exigidos pela cura da tinta.
Agradeço o apoio que o Hugo e a Catarina (chará), do Veleiro Maruja, nos deram no Aratu.
Foram seis dias, onde o mais difícil foi ficar a bordo sem água e banheiro. Na última noite, tivemos que dormir em um hotel próximo, por conta da manobra dos apoios da carreta.
Agora já estamos de volta ao Tenab, vamos lavar o barco, engraxar as catracas, e continuar tentando diminuir a lista de tarefas, além de olhar a previsão do tempo para decidir quando vamos para Recife.

Pronto 2

Dorival

NERVOS DE AÇO: é o que precisamos ter para tirar o barco da água com carreta. Na véspera da operação já bate uma ansiedade, em pensar se vai dar tudo certo, se a carreta vai se encaixar direito debaixo do barco, se os cabos vão dar conta: não é desconfiança dos profissionais que tiram o barco, é paranóia total, para todo lado, afinal, o barco não foi feito para ficar nesta situação, além do que, não há espaço para erros. Então, esse evento tira a gente do sério.
O que me conformava era pensar que isso também faz parte da vida de um barco, que alguma hora tem que acontecer, que é uma oportunidade para verificar todos os itens do fundo, além de fazer a pintura nova, e que tudo isso traria paz de espírito no futuro. Mas futuro não é presente, e esse blá-blá-blá todo para mim mesma não impediu que eu pulasse da cama às 4 e meia da madrugada, para uma operação que iria acontecer somente às 10:00 da manhã.
O coração ficou realmente na mão quando o barco, já na carreta, parou na rampa inclinada, tudo para que ocorresse uma operação de retirada de lanchas de um galpão, onde irá acontecer uma festa, e o trator estava sendo usado para isso. Ficamos a olhar o telhado que dá para um salão do clube, e para o mar lá embaixo, vivendo momentos de angústia.
Quando o trator veio nos buscar, foi um alívio geral, que se completou quando nos colocaram na vaga de trabalho no pátio, ao lado de muitos outros barcos
No mesmo dia, o Dorival se meteu debaixo do barco para tirar o excesso da tinta velha, com lixa e água; em meia hora, parecia que ele tinha saído de uma carvoaria. Ainda bem que eu fui poupada dessa etapa molhada, minha função foi buscar ferramentas e o que mais precisasse, subindo numa escadinha que Deus me livre! Agora já me acostumei com a escada, embora não descuide de me agarrar nos ferros, o tempo todo.
Também estamos nos acostumando em viver nas alturas, lembrando os tempos de acampamento, sem água nem banheiro a bordo. Por tão poucos dias, nada diferente valeria a pena.
A etapa da lixa já passou, a linha d’água foi remarcada, para um pouco acima da anterior, tendo por base o limbo que se fixou ali. O Dorival também tampou alguns dodóis na quilha, passou EPA no hélice, etc…
Hoje é dia de “prime”, e primeira mão de tinta, se papai do céu ajudar os navegantes, porque em Salvador tem chovido bastante, todos os dias.
E tem ventado horrores: para vir para cá, no Aratu, pegamos rajadas de 25 a 30 nós, dentro da Baía de Todos os Santos, sendo que uma delas veio na direção totalmente oposta à anterior, fazendo com que o barco girasse; contam que nesse mesmo dia o vento jogou areia nas calçadas da orla, coisa pouco comum por aqui.

Luthier

O pessoal que trabalha no pátio é tranquilo, e todos me chamam de “senhora”, por educação, deferência, ou por umidade avançada, mesmo.
O Clube têm boas instalações de banheiro, e restaurante para fazermos as refeições, em que servem “pratos do dia”, ao gosto local, como a “quiabada”. Gostam tanto do legume que aqui tem um barco todo verde, com o nome de “Quiabo”; tem também um barco com um coração vermelho no nome, de tamanho grande, no lugar da letra “o”, por outras motivações. Fazem também o cozido, que é uma carne de panela com uns legumes cortados em tamanho bem grande, do tipo uma folha inteira de repolho, um quiabo inteiro, pedaços de batata e banana, grandes também, e o que acompanha é um pirão de legumes.
O Dorival está fazendo tudo o que pode para sairmos o quanto antes do seco, mas isso leva ainda alguns dias.
O que nós não fazemos por nosso “baby”! Falta alguma coisa para mimá-lo, ainda mais?

Catarina