outubro « 2010 « Bem-vindo a bordo!

Archive for outubro, 2010

Não sei porque, não gosto de ser chamado de comandante, mas vou pegar uma carona no texto da Catarina e falar dos capitães, afinal, sou um deles.
Nesses quase dois anos velejando por ai, já conheci todo tipo de capitão.
Há aqueles que dizem que jamais enjoaram, os que não enjoam mais, os que mentem, e aqueles que, como eu, vira e mexe passam mal. O divertido é que, os que mais passam mal são aqueles que menos tempo toleram ficar parados em algum lugar, logo querem sair para o mar; vão vomitar e voltar dizendo: “que inferno!”.
O papo entre capitães, quando não é sobre bateria ou eletrônicos, é sobre a privada (isso é que é manutenção suja!). Todos têm problemas de energia. Painéis solares, geradores eólicos e a combustível sempre são objetos de comparação entre os barcos.
Os mais novos de mar ficam sonhando com equipamentos e tralhas de todo tipo, que querem comprar para ter a bordo; os mais velhos sonham em diminuir a quantidade de itens de manutenção.
A declaração unânime é de que as horas e os dias passam rápido, porque sempre estamos ocupados, arrumando ou limpando alguma coisa.
Capitães gostam mesmo é de falar, comentar sobre a previsão do tempo e trocar cartas náuticas digitais. Nem sei mais quantos programas de navegação eletrônica eu tenho, mas cartas já são mais de 50 gigabytes.
Dias desses, estávamos eu e um capitão sueco, na dinete do Luthier, trocando cartas náuticas. Eu tenho dois “leptops”; o sueco veio com quatro. Foi quando chegou um outro capitão, para discutir comigo um problema com as baterias do barco dele, e logo quis saber o que estávamos fazendo. Surgiu, não me lembro bem como, um papo sobre sextante, na base do: Para que isso? Eu tenho 5 GPS´s a bordo! O sueco concordou com a auto-suficiência da parafernália eletrônica, mas comentou que um velho amigo dele lhe disse para ser amigo de capitães que soubessem usar um sextante, e para ele próprio ter um, e saber usá-lo; ele conta que não levou isso a sério.
Perguntei a eles se já tinham visto um sextante. Capitães e o Sextante Só em foto, responderam os dois. Peguei a caixa do meu, e abri para mostrar. Em segundos, os dois já estavam sentados ao meu lado e eu quase não podia me mexer. Comecei a mostrar o instrumento e como funcionava, e os dois quase o arrancaram da minha mão, para pegar e olhar as coisas à volta, alinhando as imagens. Expliquei rapidamente como se toma a medida de altura de um astro, o uso do cronômetro para marcar a hora da medida, e como fazer o uso dessas informações para estimar a posição, com tabelas ou um programa que tenho no PALM.
Nos dias de hoje, é difícil justificar que um sextante seja absolutamente necessário a bordo, mas eu acho este um brinquedo legal, que dá para passar o tempo, e se divertir um pouco, mostrando para os outros e fazendo contas nas passagens mais longas, tudo isso supondo que o sistema GPS não vá sair do ar, por qualquer motivo maluco. Claro que um dos capitães a bordo disse: “vou comprar um desses para mim”, logo o mais encantado com as novas tecnologias, e mais um membro do “clube da inveja é uma merda”. Afinal, a diferença entre adultos e crianças é o preço dos brinquedos. Vou ter que praticar as contas para não passar vergonha, pois já faz tempo que não faço isso.
Todos os capitães que conheci são apaixonados pelos seus barcos, o que gera o impulso de querer para o seu algo interessante que o outro tem. Isso não passa de uma brincadeira sadia, um pouco cara de ser mantida.
Todos os capitães são preocupados com segurança, e precavidos, evitam se meter em confusão lá fora. Já me disseram que velejar significa horas de tédio intercaladas por minutos de puro pavor. Pode ser.
O meu medo mesmo é, quando preciso, não conseguir ser duro sem perder a ternura, o que, me desculpe o autor da frase, é muito mais difícil de fazer que simplesmente declarar.
Meus amigos capitães, navegando, construindo ou comprando seus barcos, estejam certos de que eles nunca estarão prontos, sempre haverá algo para arrumar ou melhorar, e esse é o melhor brinquedo que as crianças que somos poderíamos ter. Os medos são a paga de valor intangível que temos que suportar.

Dorival

“É que no mar enfrentavam-se muitos medos, e pelos medos deflagravam-se motins.”

O bolo de aniversário não estava exatamente do gosto do Dorival, melado e com muito recheio, mas valeu pela festa. Valeu também o carinho de vocês todos, obrigada!Aniversário
A frase em destaque é do autor potiguar Lenine Pinto, no livro “Ainda a questão do Descobrimento”. O tema do livro não tem nada que ver com o medo, mas com a chegada de Pedro Álvares Cabral ao Brasil, que o autor defende ter ocorrido no Estado do Rio Grande do Norte, e não ao sul da Bahia, por conta das correntes marítimas que predominaram na travessia. Polêmica à parte, o texto traz várias passagens interessantes da história, e se vê que os problemas da navegação não mudaram tanto assim.
Sobre o MEDO, quem navega sabe que ele existe. Há o medo de que uma virada do tempo nos surpreenda, de tempestades, de que algum equipamento importante da embarcação se danifique, e de que, enfim, o barco deixe de prestar abrigo, quando o medo passa a ser do imponderável, do frio e do calor excessivos, da escassez de água doce e alimentos, do esquecimento, da doença, da solidão, e do nosso fim.
Guardadas as proporções para os barcos modernos, não é difícil presenciar situações de estresse da tripulação (ou parte dela) no mar, gerada pelo medo, com reações de rebeldia à decisão do capitão, que se vêem nas respostas ásperas, nos comentários atravessados, nos comportamentos inadequados, choros, histerias, etc… Quem se lasca, nessas horas, é justamente o Capitão, que deve ter a compreensão de que o medo é uma reação natural do ser humano, de sobrevivência, mas não pode deixar que este mesmo medo embote sua visão da realidade, ou o faça sucumbir à pressão do grupo, justamente para tomar a decisão que traga as melhores chances de sobrevivência a todos. Isso é que é falar sério!
Falo isso porque o barco é um laboratório: quando embarcam nele, as pessoas têm as reações as mais diversas, ao se verem sujeitas aos revezes do tempo e do mar, ou ante à uma falha do equipamento. Mesmo dentro de uma baía abrigada, podem estas pessoas adotar as reações mais inusitadas, motivadas pela paúra. Se você nunca viveu uma situação deste tipo, acredite, surgirá a oportunidade.
O livro em questão foi emprestado pelo Sr. Eilson, sócio do Iate Clube do Natal, que sabe muito sobre história, geografia, e agricultura locais. É dele o esclarecimento do porquê a castanha de caju ser tão cara, muito embora se vejam os frutos para todos os lados que se olhe, em Natal e redondezas. Resposta: a exportação, da própria castanha, ou do óleo que dela se extrai, utilizado para lubrificação de aeronaves a jato. E foi do Sr. Eilson que o Dorival ganhou uma cachaça de aniversário, com um detalhe especial: o fruto do caju por dentro, colhido de seu quintal, que confere um gosto e aroma especiais à bebida. Caninha Valeu, Sr. Eilson e Dona Izolda!
Quanto às corrente marítimas que trouxeram Cabral, confesso que estamos apenas começando a estudar o assunto, mas sei que são fundamentais para o sucesso de nossa travessia, e que podem chegar até a 2 nós, daqui para cima, como bem nos alertou o Fábio, do veleiro Planckton.
Existe um outro fenômeno social, que ocorre entre os cruzeiristas, e que segundo um professor meu de sociologia da Faculdade, é indicativo da integração social de um grupo: a FOFOCA. Geralmente, a fofoca que mais se vê nas rodas de conversas é sobre os “brações”, aqueles que dão um “show” de barberagem nas manobras com os barcos. Para as outras fofocas, em geral, eu não tenho tempo, ou não me interessam.
E há ainda um fenômeno social entre cruzeiristas que pode ser resumido em “o clube da INVEJA é uma merda!”. Dizem que a frase foi criada pelo Cabinho (Roberto Barros, fundador e projetista da Yachtdesign) e sua turma, e a inveja em questão ocorre quando você precisa urgentemente adquirir um sonho de consumo que o seu vizinho de barco tem, tipo um novo “laptop”, de baixo consumo, uma máquina de fazer pão, ou um aspirador de pó portátil. E o mais invejado (e criticado) de todos: um ar-condicionado.
Chega de análise social do bicho homem! Precisamos analisar as condições de tempo para nossa partida para Galinhos, e o fenômeno das correntes daqui para o norte, ciências um pouco mais exatas. “Bora” estudar!

Catarina

Cá estamos e continuamos, no Iate Clube do Natal, esperando o mar baixar lá fora para seguirmos rumo ao norte, com paradas em Galinhos e Fortaleza. Enquanto esperamos, preparamos o barco para a viagem, e cuidamos de burocracias. De nada adianta se afobar, pois podemos ser pegos pelos “swells” dos furacões de lá de cima, ou pela “mulher das canelas finas” (chuva em baianês), que cai sem piedade no Caribe.
Todo dia é dia de faina, mas sobra tempo para comer junto com o pessoal do clube, e com os embarcados, ocasião em que cada um mostra seus dotes culinários, incluindo os homens, que também se ocupam de trocar receitas. Aprendi algumas, a mais recente, de suco de tamarindo, fácil de fazer e rico em vitamina C, segundo um aficionado pela fruta, o Lúcio, do veleiro Temujim. O tamarindo é fruta da estação, e aqui não se paga mais que R$1,00 por um saco com dois quilos, que rende 1,5 litro de suco concentrado.
Natal é, sim, a terra do sol, e do sono também. O calor causa muito sono, depois do almoço, e depois de qualquer coisa; o apetite só volta depois que o sol se põe. Para quem pretende cruzar o Equador, o jeito é acostumar-se.
Tenho um segredo para contar: no dia 20 de outubro, na próxima quarta-feira, é aniversário do Dorival.
Vai ter bolo na comemoração, embora o aniversariante goste, mesmo, é de sorvete, de um único tipo: o GRANDE. E de doces melados, comidas boiando em azeite, lingüiça, paio e outros defumados. De bebidas, gosta do vinho tinto seco, e do verde tomado na hora, além da cerveja gelada.
Como libriano (ele não acredita nisso), gosta de música e das artes, e a de velejar é uma delas. Também gosta de estudar, sempre mais, porque as coisas mudam, e a natureza é dinâmica; está sempre cercado de livros ou vídeos sobre seus assuntos de interesse. Gosta ainda de animais, mas não tem nenhum a bordo, por falta de espaço.
Acho que ele gosta de mim, porque eu gosto um bocado dele. Aquele bocado que não cabe em linhas no papel.
Uma única certeza nos acompanha nessas horas, a de que lá se foi mais um aninho; por outro lado, é certo que só envelhece quem vivo está. Então, parabéns de vida, meu querido!
Venham cumprimentá-lo! Não precisa se preocupar com presentes, todos eles são bem-vindos! Tragam um bom papo, porque o aniversariante adora isso.
O meu presente vai logo abaixo, um pouco da alegria baiana, para contagiar o dia.

Catarina

Uma gargalhada: foi essa a reação do Dorival quando o dingue em que estávamos, na Lagoa do Bonfim, neste feriado, virou por cima de nós, logo que o leme quebrou, e poucos minutos depois de nossa saída. Que azar! Só me restou rir junto com ele.
O dia estava perfeito para o passeio, ensolarado e com vento na medida. O barco estava em cima, com velas novas, e leme recém reformado.
A lagoa é ideal para barcos pequenos à vela, por conta do vento constante, e por ter água limpíssima, que brota da terra.
Depois do capotamento, foi um tal de tentar virar o barco, e subir nele, que não por acaso, se chama “Gorducho”, é mesmo roliço. Foi preciso que o Fernando, dono no barco, fizesse um calço com as mãos, para eu conseguir subir. A água gelada me animou. O Gorducho
Já encima do barco, apareceu o reboque: a Marta no jet-sky, andando bem devagar. Fizemos o que dava para enrolar a vela durante o reboque, até chegar em seco, mas o vento forte atrapalhou. O jeito foi voltar logo para o Iate Clube, vendo as talas voarem na chegada, uma completa sensação de impotência.
Ainda bem que o Fernando não ficou chateado, se não, eu ia ficar com remorso por ter rido tanto.
A partir daí, o passeio foi de jet-sky até uma praia próxima. Para quem nunca andou de jet-sky, vou dar a minha impressão: parece andar de motocicleta, por conta do vento na cara, e por fazer curvas macias, tudo com a vantagem de não precisar usar capacete. É dez!! Um super-brinquedo!
As praias da Lagoa do Bonfim são forradas por cajueiros. Eu não sabia do mistério que envolve essa árvore, e assim que cheguei, pendurei os coletes nos galhos dela. Quando a Marta, nossa anfitriã, apareceu na praia, me avisou que em baixo dos cajueiros mora uma pulga pequena (bicho de pé), que se enfia por baixo da pele, e só abrindo um buraco para tirá-la. Sai correndo dali, para ficar com os pés na água gelada, Cajueiro muito mais segura. Só depois fui questionar se a tal pulga gosta do caju, e por isso fica por ali, ou se seria algum cachorro, que a deixava por lá. Parece que a pulga gosta mesmo é do calor, e que por ali passam vários animais, que devem transportá-la.
Pouco tempo depois que chegamos à praia, apareceu um outro dingue, que encostou com dificuldades para enrolar a vela. Juntaram-se todos os meninos em volta, para ajudar e dar palpites, estes não solicitados. Escutar palpites e palpitar, eis a vida do velejador.
Depois de tudo resolvido, com a vela do dingue já enrolada, os velejadores tiraram o colete salva-vidas, colocaram na água, puseram a bolina por cima, e fizeram dela uma mesa flutuante para colocar um… adivinhem! Um FRANGO, inteirinho!!! Aquele frango boiando na lagoa foi surreal!!! Não faltou a farofa, que o pessoal do barco ao lado tinha, torrada com carne de sol, e ofereceu para nós. Posso garantir, a farofa estava deliciosa, assim como a pinga que trouxeram em outro barco, e os frios que a Marta levou.Amigos
Passamos um bom dia: bom papo, bom divertimento, um ótimo feriado.
A Marta e o Fernando são um casal de médicos, associados do Iate Clube do Natal, ele paulista, e ela gaúcha. Não se abalam com nada, e repetem  uma certeza no que falam: a vida passa por um fio, todos os dias, melhor aproveitá-la, sem esquentar a cabeça.
Voltamos para a casa exaustos, para dormirmos como anjinhos, e sonhar com um frango assado boiando na lagoa.

Catarina

Uma boa macarronada tem que ter o queijo o parmesão ralado, para acompanhar. Mas nossos amigos do Veleiro Planckton, que estão nas Ilhas Canárias, já nos avisaram: no Caribe não se encontra o queijo parmesão. Acenderam-se os nossos alertas vermelhos, pois a macarronada é um prato coringa no barco, fácil e rápido de ser feito, para qualquer ocasião; prato único que sustenta com o carboidrato da massa, e a proteína do queijo, ou da carne. Esse vai ser um dos itens a comprar de baciada para levar, além da carne, que também não se encontra por lá.
Os itens necessários para a viagem só crescem na lista de compras: de remédios que não se adquirem sem receita médica, ao nosso café moído, este no ponto ideal de torra, e com aquela quantidade boçal de cafeína, que deixa qualquer norte-americano desperto a noite toda, e que se não tomarmos, ficamos com sérios problemas de abstinência.
Na realidade, vamos ter que nos adaptar ao que há nos lugares, pois vai ser impossível levar toda a carga de alimentos necessários (ou desejáveis), para o período em que estivermos fora do Brasil.
Temos gasto nosso tempo em Natal com o planejamento de locais de paradas para o barco, as datas apropriadas para tanto, os víveres a serem levados, além da aquisição de bandeiras dos diversos países, e os papéis necessários. Outros barcos também vão subir daqui para o Caribe, e a troca de informações entre nós tem ajudado no nosso planejamento. Se vamos todos juntos, é outra estória, pois cada tripulação e barco têm seu próprio ritmo, o que é natural.Navio Patrúlia Graúna
Fomos convidados para uma visita ao Navio Patrulha Graúna, que acompanhou o resgate do SAMSARA, e rebocou o NATIVO. Nos avisaram (ainda bem!) quanto aos trajes para a visita, para não sermos barrados; um vestido ou uma saia por ali não ia dar certo, por conta das várias escadinhas do navio, internas e externas, e do vento forte e constante de Natal.
Passamos um dia completamente diferente, porque conhecemos uma embarcação de guerra, com objetivos bem distintos das de recreio, mas com necessidades de água, energia, humanas e de equipamentos, e com limitações, bastantes semelhantes. A grande diferença de nossa rotina é o número de tripulantes, em 28, e o folgado turno de 4 horas, no ar-condicionado; em tempos de paz, nada mal! 
É muito interessante a forma como aproveitaram os espaços, visando à segurança a bordo, mas com razoável conforto para a tripulação. Parte da tripulação do comando é formada pela Escola Naval do Rio de Janeiro, então, era um tal de biSSScoito para cá, e para lá, o característico “S” Almoço no NP Graúna carregado do carioca (com todo o respeito), além da paixão pelos times locais, Flamengo e Vasco, essa comparável à nossa pelo Corínthians, então, sobre esse assunto, não teve conversa. Conhecemos pessoas comuns, embora bastante preparadas, que pessoalmente dão o máximo de si (não é conversa de jogador), em cada missão. Provamos da cozinha a bordo, especialmente preparada para nos receber, e recebemos um presente da tripulação, num momento de emoção para nós.
Também recebemos a visita dos rapazes, que quiseram conhecer o outro lado. Um deles participou conosco da regata promovida pelo Iate Clube do Natal neste final de semana, e mandou bem. Não fizemos a segunda regata do sábado porque a esposa do oficial, que também foi, começou a ficar verde-acinzentada, na cor e estado dos mareados. Valeu pela diversão, e para espantar a ferrugem do cais.
Horas antes de sair para a Regata, uma surpresa desagradável: o barco de uma operadora de mergulho abalroou o nosso, com a sua plataforma de popa, ao atracar no cais. Foi um rombo de 3 cm de diâmetro, próximo à linha d´água, por boreste, que afundou o casco em 0,5 cm. O dodói exigiu a aplicação de resina e fibra, para depois ser lixado e pintado. Chateou um pouco, mas são incidentes a que está sujeito um barco em uso. Afinal, quem está na chuva, é para se molhar, mas é sempre bom usar roupa de tempo para enfrentar.

Catarina

Passados alguns dias de descanso, minha garganta já está melhor, e posso falar com tranquilidade.
É chegada a hora de enfrentar os fatos, a começar pelo difícil comunicado à minha mãe, de nossa decisão de seguir adiante embarcados no Luthier, para uma viagem até o Caribe, Açores e Portugal, para então, voltar ao Brasil. Meu temor é que a notícia gerasse angústia e preocupação em quem tanto amo.
Comecei o comunicado dizendo que iria até Fortaleza, dali para o Caribe, e que para voltar pela costa norte do Brasil seria muito sofrido, por conta dos ventos alísios, que sopram contra o ano todo.
A primeira reação dela foi dizer que o Caribe está no Círculo do Fogo, que o lugar é barra pesada, pela situação econômica e política de muitos países, sem contar os furacões. Argumentei que não iria aos lugares sabidamente problemáticos, e que iria fora da estação dos furacões. Fiquei de mandar um e-mail com o nosso provável roteiro. Também disse que, neste momento, o barco está arrumado para a travessia, e que estamos com saúde. Depois de um tempo pensativa, ela me falou: “então vá, minha filha, porque a vida é um sopro, e vocês já deram mostra de competência no mar”. Sabe como é, para uma mãe, os filhos sempre são lindos.
Após a benção de mainha, tudo fica mais fácil, e posso começar a planejar a viagem.
Tenho que pensar em provisões para levar, pois dizem que não há carne no Caribe, e os industrializados são raros e caros. Também tenho que ver plano de saúde, seguros, e resolver algumas pendências em terra, esperando contar com a ajuda de amigos, a fim de que a viagem se viabilize no prazo.
Vamos passar algum tempo ainda em Natal, para nos organizar e refazer da esfrega que foi a última viagem. O sol e a luminosidade daqui são implacáveis, eu tenho andado meio escondida deles.
Nossos amigos do SAMSARA já se despediram de nós, e o barco seguiuFesta no SAMSARA com um leme temporário (de aço) para o Rio, com paradas em Recife e Salvador. Dias antes, no almoço de despedida a bordo do SAMSARA, a tripulação que aqui ficou já parecia mais calma, sorria e fazia planos para o futuro, o que nos tranquiliza. Agora, eles já sabem muito mais sobre a vida e a natureza. Sabem também que, quando o ambiente está apático, papai do céu manda uns golfinhos pularem na proa do barco, para a alegria das crianças a bordo. Todos têm um espaço guardado em nossos corações, e ficaremos esperando o dia de reencontrá-los, bem e com saúde, para a nossa FESTA carioca.Saída do SAMSARA
Nesses dias de nossa estadia em Natal, fomos à uma padaria próxima do Iate Clube do Natal, perto da Igreja dos Santos Reis, e vimos umas marcas de barracas no asfalto da rua. Perguntamos se havia feira no local, toda a semana, e nos informaram que ali há uma única festa, de 28 de dezembro a 06 de janeiro do ano seguinte, em que são comemorados os santos, o que faz todo o sentido. Mas fiquei pensando que os outros dias também poderiam ser aproveitados, para outras festas. Não sei se peguei o jeito baiano de querer festa para tudo, ou se tenho no sangueChegada da regata em Natal o espírito de meu bisavô, que veio da Itália, montou um hotel no Brasil, e o dinheiro que ganhava, gastava em vinhos para os amigos nas festas.
Hoje estão chegando muitos barcos em Natal, vindos de Fernando de Noronha. Os primeiros a chegar foram os catamarãs, que deram um show ao adentraram o canal, com velas perfeitamente reguladas. Quem sabe, mais tarde role uma FESTA para comemorar tudo isso, e estaremos lá, para celebrar mais esse dia de nossas vidas.

Catarina

Amigos, parentes e tripulação do SAMSARA
O que faz uma pessoa pular no mar à noite, com mar alto e vento forte, para nadar até um barco com tripulação que ele não conhece, e não sabe de suas habilidades? Possivelmente, o mesmo sentimento de dever que nos levou, a mim e à Catarina, até o SAMSARA. Mas é muito mais que isso, porque nós estávamos abrigados em um barco com governo, sem problemas, e sabíamos dos nossos limites. Luthier
O mergulhador da história é o Ricardo Freitas. A responsabilidade, determinação, coragem, a experiência e sangue frio, para se arriscar dessa maneira pelos outros, não têm paga. Depois de tudo, molhado e a bordo do Luthier, ele se transformou no mais ilustre tripulante que já tivemos. Sempre calmo, com excelentes idéias, com todo o respeito, nos ajudou a resolver todas as dificuldades para fazer o reboque. Sem ele a bordo, seria muito mais difícil para o Luthier.
Por isso, quando o Ricardo chegar ao Rio, levando o SAMSARA, façam uma grande festa para ele. Como ele foi nosso tripulante, será também nosso representante.Também celebrem a vida, entre vocês, pois todos os tripulantes do SAMSARA contribuíram para o sucesso da operação, cada qual ao seu modo, com idéias, auto-controle, participação e, principalmente, por não permitindo que o pânico tomasse conta de suas mentes. Enquanto isso, o Luthier estará seguindo os seus caminhos.
Ricardo, desejo a você que um anjo, igual à minha Catarina, te olhe com o rabo dos olhos, fisgue seu coração, e seja sua melhor amiga e amante, porque você já é um grande Capitão.
Ao SAMSARA, que com seu leme novo se transformará em uma grande máquina de regata, desejo muita sorte e pódios, porque agora ele tem alma, é um grande barco, irmão maior do Luthier.
Agradeço a todos, de coração, os comentários que temos recebido.

Dorival