novembro « 2010 « Bem-vindo a bordo!

Archive for novembro, 2010

Daqui a pouco vamos suspender do cais da marina aqui em Fortaleza. A saída da marina não é muito simples porque cabos e correntes das âncoras, lançadas pela proa,  dos diversos barcos, estão sobrepostas. Combinamos que, quem chegou por último, sai primeiro, e todos iremos fundear em frente ao estaleiro, de onde mais ou menos ao meio dia sairemos juntos.

Acompanhem-nos clicando na palavra SPOT, ao lado, na caixa “Onde estamos”.

Assim que encontrarmos sinal de internet mandaremos notícias.

Dorival

No total somos 10 barcos, dois japoneses, um alemão, dois franceses e cinco brasileiros. O preparo de tantos barcos para uma travessia até Tobago, com escalas em locais paradisíacos, mas onde nem água doce se encontra, não foi fácil. Aconteceu desde a manutenção de pilotos automáticos, leme de vento, vazamentos em tanques, bolinas móveis até  lavar roupa, muitas visitas a supermercados, horas acomodando compras nos paióis, revisão em motores, várias idas até um posto aqui perto para buscar diesel e por aí vai.
No fim disso tudo, o Bulimundo resolveu sair ontem (dia 26), sozinho, com rumo direto para Iles du Salut. Alguns barcos devem sair hoje, os japoneses, um francês e o Guga Buy. Os demais, cansados, resolveram tirar o dia de folga, e só largar amanhã (dia 28).
Nós resolvemos sair amanhã, na turma dos descansados, se é que é possível passar um dia sem achar alguma coisa para arrumar no barco. Ontem, eram 18:00 hs e estávamos lavando roupa, pode?
Não incluimos o Travessura nessa lista porque ele ainda vai demorar para sair de Fortaleza, para esperar dois tripulantes de Natal.

Dorival

Cruzeirar é dar manutenção no barco. Explico o porquê.
Estávamos prontos para a saída, no dia planejado, cuidando dos últimos preparativos, dentre estes, encher o tanque de diesel. Durante o procedimento, assim que o tanque encheu, o combustível transbordou pela tampa de inspeção, fazendo sujeira.
A tampa que usávamos é de material plástico, vendida nas “boas lojas doTampa empenada ramo” como resistente ao diesel, mas não é, ela empena, e o combustível vaza pelas bordas.
Para instalar uma nova tampa foi necessário tirar todo o diesel do tanque, limpar as bordas, além de “fabricar” a tampa em si, desta vez, de metal. E para ter certeza de que a nova tampa iria funcionar, o Dorival fez uma do tipo “fralda”, com o dobro do tamanho da anterior, e com borracha nitrílica por baixo, para suportar qualquer dilúvio. Deu certo!
Esse evento nos atrasou em alguns dias. Os outros barcos também se atrasaram, por conta de manutenções e surpresas de última hora.
Meu amigo, se você quer sossego, serviços 5 estrelas, não fazer nada que Tampa de alumínio dê trabalho, então, não saia para cruzeirar. Vá para um ressort, de preferência, de avião ou transatlântico de luxo.
O barco é um sistema complexo, integrado, com muitos itens sujeitos ao estresse, passíveis de quebra, e o mar é inclemente.
Por outro lado, cruzeirar é manter objetivos em mente, e a mão na graxa.
As caras dos cruzeiristas no cais, dias antes de sair para viajar, são de executivos estressados, andando de um lado para o outro, com lista de materiais para reparos e de metas a serem atingidas.
Há um grande movimento de troca de ferramentas, informações e pedidos mútuos, por parafusos e outras quinquilharias úteis.
No quesito manutenções, creio que o Dorival e outros daqui, como o Eduardo, do Guga Buy, vão precisar de uma agenda, para atender aos pedidos de socorro de última hora, pois há uma fila, que inclui alguns estrangeiros. Notei que, se um desesperado é atendido antes do outro, esse outro se magoa, achando que foi preterido; é o que vem acontecendo… Menos mal que a flotilha conta com bombeiros! Médico, não tem nenhum, o último que vinha integrar o grupo entrou em pânico na Regata Recife-Noronha.
Há os momentos de “relax”. Um desses foi a reunião no barco japonês,  para o comandante mostrar seu brinquedinho. É um caraoquê, com controle remoto no microfone. No início da apresentação, achei tudo muito engraçado: os dois amigos japoneses cantavam olhando para a tela, lendo aquelas letrinhas que não fazem o menor sentido para nós, com pompa e seriedade. Um deles se emocionou ao cantar uma música de sua cidade de origem. Passado o tempo, estávamos cantando também, assim como os franceses, mas só as músicas em inglês, obviamente. Não sabia, mas cantar assim é legal! Um baita divertimento!
Dias desses também teve um churrasco no cais, e cada barco levou um prato. Os japoneses levaram material para fazer sushi, incluindo pedaços de atum fresco, pescado na viagem, e raiz forte. Os sul-africanos, um pão caseiro, e saladas condimentadas. Os franceses, um vinho espumante e salada. Pergunto: o que fez sucesso? Resposta: o churrasco. Pudera, Churrasco no piereram boas carnes, bem preparadas, pelos especialistas gaúchos, e um paulista. Eu servia a bandeja com as carnes picadas, e todos esperavam  babando de vontade. Sobrou muito sushi e salada.
Ainda faltam alguns itens de manutenção, vários preparativos, mas uma nova data foi pré-agendada. Só não vou falar qual é para não ter que desmarcar depois. É dentro de alguns dias, se a previsão de tempo se confirmar.
Os japoneses estão querendo nos esperar, para ir juntos. Acho que amaram o nosso churrasco.

Catarina

Sempre se esquece alguma coisa de uma lista de compras. Como isso é uma verdade, eu não vou esquentar a cabeça, mas estou tentando não me esquecer dos itens mais importantes, como de remédios que podem fazer falta na hora da precisão, além do azeite de dendê, do leite de coco e da pimenta, para fazer uma moqueca de peixe. Também não podemos nos esquecer de dar saída do país na Polícia Federal; não parece, mas essa pequena burocracia evita problemas no Caribe.
Os dias têm sido de arrumação do barco, de organização de compras e dos espaços disponíveis para colocar os alimentos, a água e o diesel excedentes. 
Como ninguém é de ferro, tiramos um dia de descanso, para conhecer as JangadaCumbuco
praias da cidade, a convite do Eduardo e do José Zanella, do Guga Buy. 
A paisagem é de dunas, com pouca vegetação, à exceção de uns “oásis” que se formam ao lado de umas lagoas naturais, com cajueiros e mangueiras. Parece que havia mata no passado, a exemplo de uma parque tombado, no miolo da cidade, ao lado do atual Shopping Caminho da lagoaIguatemi, mas houve desmatamento e a vegetação não se fixa mais na areia fofa que ficou. Nos extensos terrenos arenosos, nas proximidades da cidade, o que se vê são sacos plásticos e embalagens, um problema que tem se agravado nos últimos anos, com os programas governamentais de inclusão social, principalmente no interior do nordeste, que até então, não tinha contato ou costume de consumir industrializados, e que não está preparado para dar um destino adequado às embalagens.
Foi num destes oásis que paramos para catar caju e manga. Eu comi o caju na hora, com uma boca boa, e sofri a consequência de criança que se lambuza: a fruta mancha a roupa, de uma forma que eu não sei como tirar. O Eduardo catou para fazer “caju amigo”, que é adicionar cachaça à Lagoafruta picada, e serviu para todos do cais; ficou é bom!
Por aqui chegam muitos estrangeiros, vindos da África do Sul, fazendo “delivery” de catamarãs com destino ao Caribe, além de franceses, italianos e noruegueses, a maioria, com o mesmo destino dos sul-africanos. Dias desses chegou um barco de bandeira japonesa, com um único tripulante a bordo. Depois da loucura que foi ajudar na atracação do barco, pois o tripulante tem sérias dificuldades de comunicação, ele Marchando contou como faz para passar o tempo sozinho, nas longas travessias. Adivinha o que é? Não é, como poderia se supor, ouvir música, ler livros ou jogar paciência. Tem tudo que ver com a cultura japonesa, e ele disse que vai levar a diversão para mostrar a todos do cais logo mais à noite. Se é para adivinhar, eu não vou contar aqui, certo? Vamos ver quem mata a charada primeiro.
Mas, vou matar a curiosidade de todos, com a foto do carrinho de mão, a Carrinho 1sensação do pedaço, que já nos ajudou a trazer compras e buscar a água mineral no Posto do lado da Marina. Chique, né? 
Devemos partir no dia 25 de novembro próximo. Mais tarde que isso, a tendência do vento é miar. Já estamos contando em montar a vela “gennaker” durante o dia, e andar, no máximo, a 5 nós em alguns trechos, por conta do pouco vento.
A partir de segunda-feira, vamos começar um regime de engorda, pois costumamos perder peso nas viagens mais Carrinho 2longas, o que para mim pode ser um problema: deixar ossos à mostra não é uma boa.
A novidade é que já estamos sem internet 3G, então, simplesmente, não sabemos como vai ser a nossa comunicação com o mundo externo na Ilha dos Lençóis Maranhenses, nem na Iles du Salut, na Guiana Francesa, pois nestes lugares vamos estar ancorados, sem chance do “Wi-Fi” das marinas. Não estranhem se nosso contato demorar. É a vida de cruzeirista.
Torçam por nós e nos acompanhem pelo “spot”.

Catarina

Está testado e aprovado: o tomate verde amadurece fora do pé. E se você puser um pouco de farinha de trigo no biquinho, dura ainda mais sem refrigeração. É mais um aliado da alimentação dos “sem geladeira”, ou dos “com pouca refrigeração”, que ficam com mais espaço disponível O Tomatenas caixas geladas para refrigerar outros alimentos, mais perecíveis, como laticínios e carnes.
Daqui para cima, vamos precisar desse e de muitos outros alimentos, que duram sem refrigeração, pois as próximas paradas vão ocorrer em  parques e lugares sem civilização, supermercado ou padaria por perto, e a as viagens devem durar mais que três dias. Aliás, o que nos espera numa das paradas, a de Ilha de Salut, são tubarões na água, apenas, e mato em volta.
A intenção é sair de Fortaleza com destino aos Lençóis Maranhenses, depois seguir direto para Ilha de Salut, na Guiana Francesa, antes de ir para Trinidad e Tobago, onde deveremos chegar para o “OH, OH,OH” (Natal).
Parte da flotilha pensa parar em Belém do Pará, pela oportunidade e por ser um lugar instigante. Não é o nosso caso, pretendemos ir direto e  esperá-los na Ilha de Salut. Nossos motivos para não ir são: precisar entrar demais em direção ao continente, e depois sair, num total de 200 milhas a mais; a forte correnteza do rio, e os bancos de areia mutantes das suas margens; os troncos boiando, que representam um perigo à navegação, e, por fim, e os ratos d’água (piratas).
Por enquanto, ainda não deu tempo de conhecer as praias de Fortaleza, só fizemos arrumar o barco e nos preparar para a viagem. E cuidar de burocracias.Luthier em Fortaleza.jpg
Já descobri que não vai ser fácil cancelar a nossa internet 3G, a começar que o site da operadora não disponibiliza essa opção pela internet, e nem por telefone; teremos que ir até uma loja.
No mais, volta e meia, algum dos barcos da flotilha aparece com uma novidade. Hoje mesmo, todos vão atrás de um carrinho de mão de alumínio que o Lúcio, do Temujin, encontrou numa loja; é o velho e conhecido “clube da inveja é uma merda!”

Catarina

Farol de GalinhosGalinhos é “O PARAÍSO”: praias limpas, que formam lagoas para banho na maré baixa; lugarejos pacatos, sem histórico de violência, e em que o transporte de pessoas é feito por mulas e burros;  canteiros jardinados e bem cuidados, com bancos para sentar; praça com igreja recém pintada e arquibancada para o povo assistir televisão à noite; escola para as crianças e posto de saúde. Tudo limpinho.
A explicação de um morador local para o sossego é que a comunidade bota para fora o sujeito que chega ali com crack, para proteger seus jovens e crianças do vício.
O paraíso em questão tem um problema para os barcos: é desabrigado para ventos, vindos de onde for, que não encontram resistência nas baixas dunas de areia. Também tem moscas, mas isso a tela mosqueteira resolve.
Tínhamos uma previsão de dias seguidos com ventos fortes. Se ficássemos em Galinhos, teríamos que permanecer no barco, tomando conta para que o ferro não garrasse. A ida à praia, nestas condições, Ancoragem Galinhos seria impraticável, pois o vento forte levanta a areia fina dali, que chicoteia nas pernas. Nessa condição, decidimos partir para Fortaleza, para procurar abrigo, cientes de que, na chegada, pegaríamos os tais ventos fortes, e mar alto.
Saímos em flotilha, os três barcos que lá estavam: o Luthier, o Temujin e o Guga Buy.
Na saída, com vento de alheta, pusemos o pau do balão para estabilizar a genoa, e velejamos assim em meio às muitas plataformas de petróleo, até o cair da tarde, quando adotamos um rumo para o vento ficar de través folgado. Nesse momento, o mar começou a subir, enunciando o que as previsões já diziam. Tiramos o pau do balão.
As ondas foram ficando mais altas e desencontradas, e os ventos mais fortes, com rajadas. Era hora de baixar os panos, e preparar-se para a noite. Uma rajada louca fez o esperado: o barco perdeu o rumo e deu um “jibe”. Não sei porque, mas eu gostaria tanto de uma viagem sem “jibe… Baixamos toda a mestra.
Barra de Galinhos À noite, ao passarmos por um barco de pesca bastante iluminado, escutei um miado. “Besteira”, pensei, por aqui não tem felinos. Escutei de novo o miado, e aí pensei, “será possível que seja um choro de criança?” Que nada! O cansaço deveria estar me fazendo escutar vozes. Chamei o Dorival lá fora, para averiguar; iluminamos o “cockpit” e vimos que quem miava era um… peixe! Um peixe voador, ou coisa parecida, bem grandinho, de uns 25 cm. O Dorival empurrou o bicho para a água, e pronto, acabou o choro.
A aproximação de Fortaleza foi feita com um pedacinho de genoa, a 5,5 nós de velocidade. Em velocidade maior, o barco ficaria ainda mais desconfortável, por conta das ondas desencontradas e curtas.
A marca destas últimas viagens, além do mar grosso, é o calor. Um calor que nem o vento forte espanta, aliás, o vento já é um bafo quente. Precisei tomar uma “Sonrisal” para a dor de cabeça que ele causa, e funcionou.
Estamos há poucos dias aqui em Fortaleza e eu já estou envolvida com burocracias, que me perseguem, em terra e no mar. Agora tenho que ir atrás de seguro para o barco navegar em águas internacionais, exigido por muitas marinas lá fora; seguro saúde; decidir o que faço com o meu plano de saúde no Brasil; devolver a internet 3G, mais as burocracias bancárias.
Charrete O Dorival tem os problemas de manutenções para resolver, a começar por limpar o casco forrado das cracas; em Galinhos, a forte correnteza não permitiu. Além disso, ele e o Eduardo, do Guga Buy, vivem envolvidos na atracação dos barcos que aqui chegam, não só para ajudar, como para tentar evitar que os que chegam não joguem ferro em cima das nossas amarras. A marina não dá suporte no cais.
O dia é curto para tantas tarefas e planejamentos, e há quem pense que a vida de cruzeirista é ficar dormindo numa rede.
Vou pensar nos paraísos que conheço, e os que ainda vou conhecer, para não me estressar com tantas burocracias e obrigações.

Catarina

As fotos abaixo também falam  sobre Galinhos (Dorival).

Galinhos 2 Galinhos 1

Galinhos 3 Praça Galinhos

Quem está nos acompanhando pelo SPOT talvez esteja perguntando porque fizemos uma curva para vir de Galinhos para Fortaleza.
Cada velejador tem seu próprio ritmo e preferências. Há os que preferem viajar perto da costa e os que, como nós, preferem viajar por fora da área onde há atividade de pesca, o que em geral significa navegar além da plataforma continental.
Os barcos de pesca costumam lançar suas redes em profundidades entre 40 e 80 metros, na borda da plataforma continental. Da Paraíba para cima as redes não têm sinalização luminosa.
A navegação de Natal para Galinhos foi feita mais junto à costa, até que tivemos que nos afastar por conta dos bancos de areia e corais. Já na vinda de Galinhos para Fortaleza, resolvemos sair da plataforma e depois aterrar lentamente. Duas vantagens nisso, a meu ver. Uma delas é que as ondas, em profundidades maiores, são mais longas e arredondadas, e a correnteza de 2,5 nós pode ser alcançada e usada a nosso favor.
Porém, e sempre há um “porém”, o regime de ventos e ondas aqui no norte do país é muito diferente do restante do nordeste e do sudeste.
Tivemos ventos, em média de 20 nós, tudo bem, não fossem as rajadas, e aqui são RAJADAS, de 30 nós. Pelo menos, as rajadas vem na mesma direção.
Outra coisa: é normal velejar com 20 nós por duas horas e ter períodos de meia hora com 25 nós, então, vem a rajada de 5 minutos, depois volta à casa dos 20 nós. Desde que dobramos o Cabo Calcanhar, tem sido assim. Na ancoragem em Galinhos também observamos isso, sendo que vento é mais calmo entre 5:00 hs e 10:00 hs.
Fizemos aquela curva para poder navegar em dois bordos com o vento sempre de alheta, 140º aparente, evitando popa rasa. A mestra, logo na saída, foi para o segundo rizo, e foi um tal de enrola e desenrola genoa, o tempo todo. Na chegada a Fortaleza, tivemos que andar com vento mais de popa, e para isso tiramos a mestra e viemos só com a genoa, bem enrolada.
Enfim, fizemos toda essa volta só para ficar com o vento e ondas em condições mais confortáveis.
As ondas tinham duas direções bem perceptíveis, estávamos com ondas de 1,5 metros, longas, de período de 12 a 14 segundos, vindas de NE, e ondas de 4 a 6 segundos com 2 metros, vindas de SE, a mesma direção do vento. Em profundidades maiores que 30 metros, quando as duas cristas se encontravam, subíamos e descíamos, mas, junto à costa, na chegada a Fortaleza, com profundidades de 15 metros, ou menos, quando as cristas coincidiam, lá vinha banho de água salgada. Nada que fosse perigoso mas,  bastante desconfortável.
Não sei se o mar e os ventos aqui são assim todo ano, mas essa foi a impressão que eu tive. Depois eu conto como eles se comportaram ainda mais ao norte.

Não esquecemos de Galinhos, vamos escrever um post bem legal sobre esse lugar especial.

Dorival

Sairemos amanhã, dia 7 de novembro de 2010, às 5:00 hs local – RN, de Galinhos com destino a Fortaleza. Acompenhem-nos clicando na palavra SPOT, na coluna ao lado.

Dorival

Nosso amigo

Você conhece este sujeito da foto ao lado? Olhe bem para ele. Será ele um vilão, ou um mocinho?
Veja a situação que passamos e tire as suas próprias conclusões sobre este rapaz.
Saímos de Natal com a mestra e genoa rizadas, com vento na casa dos 15 a 20 nós, de través. O mar estava chato, curto, mas não a ponto de desistirmos da viagem.
Seguimos velejando a 6,5 nós, em média, até o amanhecer, e em grande parte da manhã do dia seguinte, ajudados por uma forte correnteza.
Fomos acompanhados por bandos de golfinhos logo depois de dobrar o Cabo Calcanhar, e por um tubarão martelo. Avistamos muitos saveiros, que são embarcações pequenas à vela, com seus bravos tripulantes voltando da pesca noturna, mostrando para nós, com orgulho, o O peixe resultado do seu trabalho.
A cerca de 20 milhas de Galinhos, recolhemos a genoa, porque o vento tinha diminuído para a casa dos 7 nós, de popa. Pouco tempo depois, o Dorival comentou que o mar estava engrossando, apesar do pouco vento. Na verdade, o mar tinha dado o primeiro sinal de que a coisa estava feia para algum lado, talvez não muito distante.
De repente, o barco girou completamente, quase encostando o mastro na água. O piloto automático parou de funcionar, e o mar grosso fez o serviço de deixar o barco fora de controle. Foi uma correria para pegar o leme na mão, e baixar a mestra, às pressas, que na confusão ficou presa numa cruzeta do mastro, na altura de uma das talas. Esses são os reais momentos de terror. E é nessas horas é que fazemos uma real reflexão sobre a vida que levamos.
Depois do evento, veio a pauleira para entrar em Galinhos, porque o leme ficou muito pesado, como consequência do mar picado de lado, e do vento forte de 35 nós, com rajadas de 43 nós. O barco derivava, andava de lado, ao invés de seguir no rumo que queríamos. Tomamos muitos banhos de água salgada.
Na chegada, depois de ancorados, uma preocupação: como seguir viagem até Fortaleza sem o piloto automático, se ele realmente estivesse pifado. Não seria fácil em dois tripulantes, apenas. Fomos dormir com o problema, pensando em descansar bem para a viagem pesada que faríamos dias depois.
No dia seguinte, fuça daqui e dali, e o Dorival achou o rapaz da foto, com o bico aberto (queimado). Ele é um fusível, que desarmou o piloto antes que o equipamento queimasse, como consequência do excesso de corrente elétrica, por conta do mar grosso. Acho que, apesar do desconforto que o rapaz causou no mar, foi melhor assim, pois ele protegeu o equipamento. Na verdade, vejo este rapaz como anjo, da categoria dos Serafins.
Outra verdade é que, quem tem 1 equipamento, apenas, não tem nenhum, pois este “um” pode pifar e nos deixar na mão. Já tínhamos pensado em ter um segundo piloto automático, ou um leme de vento, para a travessia que vamos fazer, só adiamos a solução por conta do preço dos equipamentos no Brasil, e da dúvida cruel entre as duas opções.
Depois de solucionado o problema, fomos relaxar, conhecer o vilarejo deTurma na praia Galinhos e suas praias, com nossos amigos da flotilha. O pessoal local disse que, todas as tardes, bate essa ventania por aqui, tanto que os pescadores só saem de madrugada, com a maré alta, para fugir desse ventão.
Nada mau este lugar. Praias limpas, ruas sem lixo, sem ônibus, sem poluição da cidade. Acho que valeu a pena o sofrimento.
Mas, e você, o que acha do sujeito de que falei, o galã da foto?

Catarina

O mar estava mais grosso do que eu supunha quando deixei o turno para a Catarina. Isso demandou muito da bomba hidráulica que comanda o leme diretamente no quadrante. Essa demanda fez com que a corrente fornecida pela unidade de comando para a bomba fosse além dos 20 A máximos que ela suporta, provocando a queima de um dosSaveiro fusíveis internos da unidade. Eu sabia desse limite, mas não me dei conta de que havia instalado um fusível de 25 A no quadro de alimentação do piloto. Se fosse um de 20 A, ele queimaria e, provavelmente, eu não teria  que retirar toda a unidade de comando e desmontá-la para trocar um fusível, seria muito mais fácil a substituição no quadro de alimentação. Desculpem a chatice da explicação.
Viemos para Galinhos por indicação do João Carlos, do Veleiro Yahgan. Disse ele que Galinhos é imperdível. Ele usa uma foto do Farol deGuga Buy Galinhos na página www.veleiro.net, administrada por ele.
Vamos ainda tirar uma boa foto do Farol, ele merece. Tudo aqui é muito bonito, mas uma coisa chamou minha atenção: o céu é azul forte, o dia todo. Galinhos é imperdível mesmo, ainda vamos escrever muito sobre este lugar. Aguardem.

Dorival

Esta semana, vamos dobrar o Calcanhar. Refiro-me ao Cabo Calcanhar, localizado na virada geográfica do litoral do país para oeste.
Está na hora de sair da área urbana para paragens mais selvagens. A expectativa é pela água cristalina de Galinhos, no Rio Grande do Norte. Os acessos à península em questão só se dão por barco, fato que dificultou o seu povoamento e exploração.
É o início de nossa subida rumo ao norte, para lugares onde nunca estivemos antes.
Permaneceremos em Galinhos até quanto aguentar o nosso estoque de água doce, economizando ao máximo o recurso limitado. Vamos tomar banho, não se preocupem.
Este é um país de dimensões continentais, em que diferenças são maiores quanto mais nos afastamos do sudeste, no clima, na alimentação, nos costumes.
O dia no Rio Grande do Norte começa com o cuscuz e carne moída, além da tapioca e manteiga de garrafa, um café da manhã reforçado, que mais parece um almoço. O nosso não passa de pão, suco, café, e frutas com cereais.
Enquanto no sudeste o feriado de Finados inicia o período de chuvas, após a seca prolongada do inverno e primavera, no nordeste ele nada representa, a época das chuvas já passou.
Quanto aos usos e costumes, vi no canal de televisão local a propaganda de uma marca fósforos que alardeia a vantagem de trazer 5 unidades a mais que as outras, em cada caixa. Ou ainda não se usa o fogão com acendimento eletrônico, em larga escala, ou os fósforos são mais usados para acender cigarros, no lugar de isqueiro, que não sustenta a chama, por conta do vento forte de Natal. Fato é que há mercado para os fósforos, e para apartamentos de alto padrão, ao mesmo tempo. Sinistro, não é, não?
Vida de turista: dia desses, eu estava parada em frente ao shopping, e veio na minha direção uma equipe com câmera de filmagem e um microfone. Pediram para que eu declarasse algumas palavras para gravação do programa de um Instituto que estuda a linguagem e os sotaques, confirmando se eu era “de fora”. O detalhe é que eu nem tinha aberto a boca para eles, até aquele momento, então, como sabiam que eu não era daqui? É nessas horas que eu concluo que quanto mais eu rezo, mais assombração aparece, pois de nada adiantam meus esforços para parecer do local. A cara de turista traz uma consequência imediata, além da insegurança nos lugares públicos: o acréscimo no preço, principalmente, dos serviços.
Daqui para cima, o forte da pesca é a lagosta, e sabemos que ela representa um problema social e ambiental. É que o pescador se arrisca em condições precárias, com compressor comum e mangueira, para mergulhar a até 80 metros. A motivação do risco assumido é, muitas vezes, o vício do “crack”. As consequências são acidentes, embolias, e vários casos de perda de movimento nas pernas, como se vê na região do Porto, antigos pescadores hoje em cadeira de rodas. O tratamento é, via de regra, prestado pela Marinha do Brasil, que mantém em Natal a única câmera hiperbárica da região. A pesca costuma ser predatória e, por isso mesmo, vigiada pelos órgãos ambientais, que saem armados para as inspeções, sendo relatados casos de pescadores que foram abandonados lá embaixo, pelos “companheiros”, com a chegada da vistoria, e de outros que tomaram tiro nas pernas, por desafiar as autoridades, fatos que revelam uma verdadeira guerra.
Novos lugares, novos desafios.
A maior preocupação daqui para cima é com a pirataria, ou com a violência urbana, pois há notícias de problemas dessa ordem no Estado Maranhão, e no norte do país (que mamãe não me leia). Vamos estudar bem as nossas paradas depois de Fortaleza. Talvez valha a pena sair à noite, apagados, e em flotilha, como fizeram uns amigos suecos no Caribe.
E é em flotilha que devemos sair amanhã, rumo a Galinhos, por volta das 19:00 horas, para pegar maré enchendo do dia seguinte. Sairão 4 barcos brasileiros, incluindo o nosso (o Guga Buy, o Temujin, e o Tuareg). Uma francesa irá em solitário e, por isso mesmo, vai abrir bem, seguindo distante do grupo.
Outros barcos nos encontrarão em Fortaleza.
Aos amigos que fizemos nesse período, uma mensagem: a amizade pode ser grande quando não há interesse envolvido. Não precisamos andar colados para sermos verdadeiramente AMIGOS. O contato pode ser raro, mas deve ser bom. Se precisarem, contem conosco: vamos ter uma palavra, um ombro, uma idéia. E quando nos encontrarmos de novo, faremos uma festa.
Agora, precisamos ir embora.

Catarina

PS: Nos acompanhem clicando na palavra SPOT, em “Onde estamos”, na coluna ao lado. Mandamos nossa posição à cada 5 horas, mais ou menos. Nem sempre as posições aparecem no mapa, por isso, não se preocupem se falhar. Saíremos amanhã, 2 de novembro, às 19:00 hs.

Dorival