Esta semana, vamos dobrar o Calcanhar. Refiro-me ao Cabo Calcanhar, localizado na virada geográfica do litoral do país para oeste.
Está na hora de sair da área urbana para paragens mais selvagens. A expectativa é pela água cristalina de Galinhos, no Rio Grande do Norte. Os acessos à península em questão só se dão por barco, fato que dificultou o seu povoamento e exploração.
É o início de nossa subida rumo ao norte, para lugares onde nunca estivemos antes.
Permaneceremos em Galinhos até quanto aguentar o nosso estoque de água doce, economizando ao máximo o recurso limitado. Vamos tomar banho, não se preocupem.
Este é um país de dimensões continentais, em que diferenças são maiores quanto mais nos afastamos do sudeste, no clima, na alimentação, nos costumes.
O dia no Rio Grande do Norte começa com o cuscuz e carne moída, além da tapioca e manteiga de garrafa, um café da manhã reforçado, que mais parece um almoço. O nosso não passa de pão, suco, café, e frutas com cereais.
Enquanto no sudeste o feriado de Finados inicia o período de chuvas, após a seca prolongada do inverno e primavera, no nordeste ele nada representa, a época das chuvas já passou.
Quanto aos usos e costumes, vi no canal de televisão local a propaganda de uma marca fósforos que alardeia a vantagem de trazer 5 unidades a mais que as outras, em cada caixa. Ou ainda não se usa o fogão com acendimento eletrônico, em larga escala, ou os fósforos são mais usados para acender cigarros, no lugar de isqueiro, que não sustenta a chama, por conta do vento forte de Natal. Fato é que há mercado para os fósforos, e para apartamentos de alto padrão, ao mesmo tempo. Sinistro, não é, não?
Vida de turista: dia desses, eu estava parada em frente ao shopping, e veio na minha direção uma equipe com câmera de filmagem e um microfone. Pediram para que eu declarasse algumas palavras para gravação do programa de um Instituto que estuda a linguagem e os sotaques, confirmando se eu era “de fora”. O detalhe é que eu nem tinha aberto a boca para eles, até aquele momento, então, como sabiam que eu não era daqui? É nessas horas que eu concluo que quanto mais eu rezo, mais assombração aparece, pois de nada adiantam meus esforços para parecer do local. A cara de turista traz uma consequência imediata, além da insegurança nos lugares públicos: o acréscimo no preço, principalmente, dos serviços.
Daqui para cima, o forte da pesca é a lagosta, e sabemos que ela representa um problema social e ambiental. É que o pescador se arrisca em condições precárias, com compressor comum e mangueira, para mergulhar a até 80 metros. A motivação do risco assumido é, muitas vezes, o vício do “crack”. As consequências são acidentes, embolias, e vários casos de perda de movimento nas pernas, como se vê na região do Porto, antigos pescadores hoje em cadeira de rodas. O tratamento é, via de regra, prestado pela Marinha do Brasil, que mantém em Natal a única câmera hiperbárica da região. A pesca costuma ser predatória e, por isso mesmo, vigiada pelos órgãos ambientais, que saem armados para as inspeções, sendo relatados casos de pescadores que foram abandonados lá embaixo, pelos “companheiros”, com a chegada da vistoria, e de outros que tomaram tiro nas pernas, por desafiar as autoridades, fatos que revelam uma verdadeira guerra.
Novos lugares, novos desafios.
A maior preocupação daqui para cima é com a pirataria, ou com a violência urbana, pois há notícias de problemas dessa ordem no Estado Maranhão, e no norte do país (que mamãe não me leia). Vamos estudar bem as nossas paradas depois de Fortaleza. Talvez valha a pena sair à noite, apagados, e em flotilha, como fizeram uns amigos suecos no Caribe.
E é em flotilha que devemos sair amanhã, rumo a Galinhos, por volta das 19:00 horas, para pegar maré enchendo do dia seguinte. Sairão 4 barcos brasileiros, incluindo o nosso (o Guga Buy, o Temujin, e o Tuareg). Uma francesa irá em solitário e, por isso mesmo, vai abrir bem, seguindo distante do grupo.
Outros barcos nos encontrarão em Fortaleza.
Aos amigos que fizemos nesse período, uma mensagem: a amizade pode ser grande quando não há interesse envolvido. Não precisamos andar colados para sermos verdadeiramente AMIGOS. O contato pode ser raro, mas deve ser bom. Se precisarem, contem conosco: vamos ter uma palavra, um ombro, uma idéia. E quando nos encontrarmos de novo, faremos uma festa.
Agora, precisamos ir embora.
Catarina
PS: Nos acompanhem clicando na palavra SPOT, em “Onde estamos”, na coluna ao lado. Mandamos nossa posição à cada 5 horas, mais ou menos. Nem sempre as posições aparecem no mapa, por isso, não se preocupem se falhar. Saíremos amanhã, 2 de novembro, às 19:00 hs.
Dorival