dezembro « 2010 « Bem-vindo a bordo!

Archive for dezembro, 2010

No mar, um dia nunca (“never say never”) é igual ao outro. Há dois dias, estávamos com o VHF ligado nos canais 16 e 68, nas primeiras horas da manhã, e começamos a escutar a Guarda Costeira de Grenada, contatando pessoas para o resgate de um veleiro, nas proximidades da ilha, cujo capitão estava com problemas de saúde. Aos poucos, íamos entendendo a situação. O barco era de bandeira alemã, e trazia um casal. O comandante se acidentou ao tropeçar em uma gaiuta aberta, e quebrou algumas costelas. As informações iniciais eram de que sua mulher não conseguia conduzir o barco sozinha.
Foi um corre-corre. Em algumas horas, um outro veleiro que estava próximo, vindo do Rio de Janeiro (seu último porto), com um médico a bordo, ofereceu-se para prestar os primeiros socorros, e dirigiu-se até o barco. Os detalhes da operação não foram divulgados, ficávamos só ouvindo a conversa entre os oficiais, até que, perto do meio dia, houve uma comemoração entre eles: tinham sido bem sucedidos no resgate, e estavam a apenas duas milhas de uma marina da ilha.
Os oficiais, então, discutiam se deveriam levar um médico a bordo, considerando as dificuldades para tanto, já que aqui era feriado, o “boxing day”, o dia seguinte ao Natal.
No dia seguinte, no canal 68, a primeira notícia foi do sucesso do resgate, com várias palavras de apoio aos que ajudaram, incluindo o comandante do veleiro que veio de tão longe. Logo em seguida, pronunciou-se a esposa do capitão de costelas quebradas, agradecendo a todos, em um bom inglês. Essa foi uma grande prova de que a solidariedade no mar existe, em qualquer lugar, e que as pessoas envolvidas ficam satisfeitas apenas pelo fato de terem sido úteis. Acho que este é o espírito do Natal, presente em qualquer época do ano.
É muito interessante um serviço de rádio que o pessoal tem por aqui, no canal 68, sempre às 7:30 da manhã. Começa com notícias de fatos relevantes do meio (como o do resgate); depois, dão espaço para quem estiver indo embora da ilha se despedir; após, vem a previsão do tempo, com base no dados fornecidos pelo Centro de Controle de Furacões da Califórnia; só depois, entram as barganhas: pessoas vendendo produtos náuticos usados (ou semi-novos), outras procurando por; skipers oferecendo seus serviços; barcos oferecendo charter (essa palavra não é usada, convidam para um “passeio”, em que cada um traz sua comida e bebida, e depois conversam o resto); que mais? ah, restaurantes divulgando o cardápio do dia, o que vão oferecer para o final de ano; marido cumprimentando a esposa pelos seus 28 anos de idade, mais uma vez, etc…
Esse nome de barco é legal: “Good to go”.
É bom, também, eu ir direto ao que vim: desejar a todos os que nos acompanham um feliz 2011. Melhor ainda: que façam de 2011 um bom ano, de preferência, perto do mar, e das pegadas da natureza.

Catarina

Pegadas - Lençóis Maranhenses

Pegadas de um predador no mangue em Lençóis Maranhenses

O Caribe é sinônimo de tempestade. Muito calor, umidade e água do mar a 29ºC, que resultam em tempestade no fim do dia, nessa época do ano.
Ventos fortes, com rajadas de até 30 nós, e chuvas, entraram na “Prickly Bay”, em Grenada, no dia de Natal. Ainda bem que os barcos ancorados guardavam bastante distância, uns dos outros, e mantém bons equipamentos; nenhum garrou. Pudemos testar a nossa âncora Delta, que segurou a onda, um xodó.Luthier em Grenada
As piores tempestades são as que vêm com raios; vimos muitos deles nos horizonte, na vinda para cá, e ficamos refletindo sobre o que fazer se um deles nos elegesse. Batemos na madeira por 3 vezes, para isolar o perigo.
Imaginem esse lugar na temporada dos furacões. Não é à toa que telhados das casas são parafusados.
Chegamos em Grenada faz poucos dias, e já notamos as diferenças daqui em relação a Tobago. A população está preparada para o turismo: recebem bem, são solícitos, prestam informação, tudo com um sorriso no rosto.
Ainda não foi implementado o acordo do CARICON com o Brasil, que permitiria a entrada de brasileiros no país, sem a necessidade de visto. A multa por não ter providenciado o visto é de 40 dólares americanos. Do nosso ponto de vista, essa multa é compensada pela boa ancoragem na baía, próxima de uma marina com cais e serviços, e de supermercados, mas, principalmente, pelo preço dos produtos náuticos à venda, que são livres de impostos para o comandante do barco.
Um cuidado deve ser tomado: na chegada do barco, deve ser colocada uma bandeira amarela, antes de ser feita a papelada de alfândega e imigração; a multa para quem não cumpre a regra é de 2.000 E.C. dólar. Só depois de cumpridas as formalidades é que eles dão um passe (pedaço de papel com carimbos), autorizando a baixar a bandeira amarela e levantar a de Grenada.Prickly Bay
O real está mais valorizado que o dólar daqui, o E.C. dólar, na proporção de 1 para 1,5, então, está confortável para os brasileiros. No supermercado se encontram produtos do mundo todo, a preços muito bons, porque não taxam a importação, como se faz no Brasil, e porque eles não têm opção, não há indústria local. O frango vem do Brasil, em uma embalagem com dizeres até em árabe. O bacalhau vem do Canadá.
E foi com o bacalhau canadense e azeitonas gregas que fizemos a nossa humilde ceia de Natal. Mas, bacalhau canadense não é a mesma coisa que o português, e o peixe se desfez na panela, em um tapa. Deu para comer e, pelo menos, não comemos galinha doce, como fazem por aqui. Valeu pela companhia do Daniel, da Cristine e do Herman, o Yorkshire deles, que já virou nosso também, porque ficamos com ele quando os donos estão fora. Detalhe: aqui em Grenada cachorro entra, sem problemas.
É duro passar o Natal longe de casa. Já é uma data complicada, porque você sente a falta de muitos que não estão mais entre nós, então, é meio Almoço de Natal triste. A festa que fizeram na Marina não se compara à que passamos na Bahia, no ano anterior. Mas está tudo ótimo, cruzeirar é assim mesmo, você faz o que pode.
A água de Grenada não é do azul transparente, tão famoso no Caribe, que vai ser encontrada em Granadinas, mais ao norte.
Em “Prickly Bay” há hoje cerca de 50 barcos, todos estrangeiros (nenhum de Grenada). Na baía entra um pouco de “swell”, mas bem menos que em Tobago.
A Ilha é bastante arborizada, com ruas muito limpas, muitos jardins com flores, e dizem ser segura, tanto para andar pelas ruas, quanto para deixar o barco. A nossa única queixa é a falta de calçadas para pedestres, que sempre ficam de um só lado, quando há, e são muito estreitas.
Tem um barco por aqui chamado “Never say nevePraia em Prickly Bayr”. Fiquei pensando sobre o nome, e acho que eu digo “nunca” para algumas coisas, sim, mas cada um é cada um.
O Dorival está instalando uma antena de SSB e vai instalar um “dorade”, quando a chuva parar, para melhorar a ventilação do barco em viagem. Nós teremos que esperar aqui ainda alguns dias, pois o mar lá fora está ruim, aqui dentro da baía já dá uma mostra. Por ora, estas são as novidades.

Catrina

Depois de 8 dias e 7 horas de viagem, desde os Lençóis Maranhenses, fundeamos em Tobago, na “Pirates Bay”, de frente para a pequena cidade de Charlotteville. A profundidade média para ancoragem é de 15 metros, em fundo de areia.
A Ilha de Tobago tem o aspecto da Ilha Grande, no Rio de Janeiro, pela vegetação nos morros que cercam a baía, mas perde para a ilha brasileira quanto à exuberância da natureza, na variedade de plantas eCharlotteVille animais. A famosa trilha da “Pirates Bay”, tão bem indicada nos guias do Caribe, é muito singela se comparada àquela para se chegar à praia de Lopes Mendes, na Ilha Grande. Não é bairrismo, faço até uma ressalva: a água é bem mais transparente que na Ilha brasileira.
Como na Ilha Grande, Tobago tem problemas de desmoronamento das encostas no período das chuvas, que vai de julho a começo de dezembro.
A grande surpresa para nós, em Tobago, foram os preços dos alimentos e serviços, mais baratos ou, ao menos, equivalentes aos do Brasil. A moeda local é o dólar T.T. (Trinidad e Tobago), sendo que 1 dólar americano equivale a 6 dólares T.T.. Para obter a equivalência em reais, dividimos o preço por 3, considerando que um dólar americano equivale a 2 reais, aproximadamente.
Em Charlotteville não há supermercados, só pequenos mercados, com muitas prateleiras vazias, que não vendem frutas ou legumes, nem frango ou carne.
Algumas frutas podem ser conseguidas de um atravessador que as vende bem em frente ao píer da cidade, mas por um preço altíssimo, e de péssima qualidade. Já o peixe fresco, é barato e fácil de se obter, assim como refrigerantes e cervejas, pães e ovos. Para se conseguir melhores frutas e variedades, é preciso pegar uma condução e ir até à cidade de Scarborough, num trajeto de cerca de uma hora, rezando para que não ocorra nenhum acidente, pois a estrada é estreita, a serra Dunas íngreme, e os motoristas dirigem como uns loucos, na mão contrária, fato que impressiona ainda mais; uma aventura perigosa, que não queremos repetir.
Esqueçam: em Tobado não se encontram paio, linguiça, ou defumados, não é do costume local. Mas pode-se comer bem galinha ou alguma carne de panela, tudo muito apimentado e, às vezes, um pouco doce para o nosso gosto.
Aqui foi o lugar em que, disparado, paguei o menor preço para lavar a roupa, desde que estamos cruzeirando: R$12,00 o cesto grande. Nem no Brasil!
O tripulante de um barco ancorado nesta baía precisou de um dentista e foi muito bem atendido em Tobago, com eficiência. Pagou 200 dólares T.T., ou R$67,00, pelo serviço. Assim, não sei se vale a pena manter um seguro odontológico, talvez melhor seja pagar conforme a necessidade. Vamos ver daqui para frente, nos demais países.
Um mito precisa cair: o de que não se conseguem remédios sem receita médica no Caribe. Fomos a uma farmácia em Tobago, pedimos um antibiótico, explicamos que somos brasileiros, não temos receita local e…o remédio nos foi vendido, sem problemas. A Cristine, do Veleiro Irun, repetiu a experiência em outra farmácia, com o mesmo argumento e, novamente, não teve problemas. Não se preocupem, o antibiótico é só uma reserva, para ser usado por nós em caso de extrema precisão, no mar.
Com relação a animais embarcados, aqui não tem conversa, a tolerância é zero. Não deixam desembarcar, mesmo com toda a documentação e vacinas em dia e, se o animal é visto circulando, a população denuncia. Os donos de animais embarcados estão tendo que passear com os seus bichos em praias isoladas, em horários de pouco movimento, pois se os animais forem pegos, serão sacrificados.
A conversa por aqui é em inglês, ou melhor, no inglês deles, em que chapéu tem som de “hot” (quente), ao invés de “hat”; barco soa como “boot” (bota), ao invés de “boat”; duas horas eles falam “to hours”, ao invés de “two”, e assim vai… Quando resolvem falar em “creole”, melhor desistir, não se entende nada.
Estamos na baixa temporada, então, como bem explicou um comerciante local, há muitos desempregados, que ficam consumindo bebidas alcoólicas e drogas, na rua da praia; destes, é muito comum se escutar o “fuck you”, com a mesma naturalidade em que se fala “bom dia”, bradado inclusive por mulheres.
Sobre mulheres, são muito discretas para se vestir, se comparadas às brasileiras: nada de shorts curtos, ou blusas cavadas, apesar do calor que aqui faz. Gostam mesmo é de vestidos compridos, calças jeans, bermudas também compridas, e blusas na cor vermelha. Barra nos Lençóis
Talvez a religião contribua para a vestimenta discreta dos moradores, incluindo alguns homens, que levam muito a sério os cultos religiosos batistas, metodistas, ou de outras pequenas igrejas locais, dirigidas por pastores. A cantoria dos cultos é ao melhor estilo da música negra de igrejas, mas há sempre os desafinados, que carecem aulas de canto.
O lugar aqui é bonito, não tivemos nenhuma ocorrência de roubo ou violência, mas nos últimos dias tem balançado demais, com o “swell” que entra na baía. Às vezes, por conta da falta de vento, o barco fica de lado para as ondas, e é muito ruim, até para dormir.
Já estamos de saída, entre hoje e amanhã, para um outro país: Grenada, há 14 horas daqui. É possível que, lá, a Internet nos permita um contato mais frequente, mas, como não conhecemos o lugar, já vou me adiantar para desejar a todos um Feliz Natal, menos comercial, e mais espiritual, como o celebrado por aqui.

Catarina

Saímos de Fortaleza com destino a Tobago, tendo certeza da parada na Ilha dos Lençóis. A viagem foi tranquila, usamos motor só para sair da marina em Fortaleza e para entrar no canal da Ilha.
A ancoragem em Lençóis deve ser feita com algum cuidado. Na minha opinião, em fundos de areia é muito importante ter amarra exclusivamente de corrente, e deitar, pelo menos, 7 vezes mais corrente que a profundidade. Deve-se levar em conta, também, que a maré na Ilha de Lençóis tem 5,4 metros, quando morta. Na ancoragem, alguns barcos garraram e se bateram, por não guardar distância compatível com a quantidade de amarra, ou pior, por usarem pouca amarra.
Guarás A Ilha é imperdível, mas sempre a natureza cobra seu preço. A areia que invade o barco, vinda das dunas com o vento; causa algum desconforto e demanda limpeza constante. Aviso: pare o seu gerador eólico com um cabinho na pá da hélice (neste caso, hélice é feminino), e proteja o gerador com um pano bem amarrado, para não entrar areia nos rolamentos. Fora isso, é só curtir.
A viagem de Fortaleza até Tobago foi muito boa, porque aos poucos fomos nos acostumando com o mar e aos movimentos do barco. Tivemos pouca calmaria, mas foi bem nessa hora que a correia da bomba de refrigeração do motor quebrou.
Aos poucos, as ondas de NE, que tinham 3 metros, mas período de mais de 12 segundos, foram abaixando, e o período encurtando. É mais desconfortável ter ondas de 2 metros de com 8 segundos, que 3 metros com 12 segundos. Mesmo assim, cozinhamos, assamos pão, tomamos banho, e assim os dias foram passando, cada vez mais rápido.
Nos últimos dias de viagem, a coisa piorou um pouco por conta da chuva. A visibilidade não passava de uma milha. Foram dois dias inteiros de navegação com radar. Passar em frente ao Suriname sem radar, com chuva, é loteria. Passamos o dia marcando navios no radar, aguardando 6 minutos e calculando velocidades e possibilidades de colisão. Tivemos que manobrar uma vez e, em outra, um navio manobrou.
Ilha dos Lenç[ois No dia da chegada, uma tempestade local que durou 8 horas levantou o mar. Com vento muito forte, com rajadas de mais de 30 nós, tive que timonear o Luthier, o tempo todo. O leme estava leve, mas fiquei com medo do piloto atravessar o barco, por conta das enormes surfadas que estávamos dando.
A previsão do tempo nos foi fornecida pelo João, do Veleiro Yahgan. Recebíamos todo dia às 19:00 horas UTC, via SSB, um e-mail com a previsão muito precisa, resumida em texto apenas. Tudo aconteceu conforme a previsão; a tempestade do último dia foi um efeito local, que parecia nos acompanhar, o tempo todo. O Irum, que chegou de manhã no mesmo dia, viu a tempestade chegar depois que tinha ancorado.
Nos dias de melhor propagação, pudemos até mandar alguns pequenos textos para publicação.
Todos os barcos da flotilha já chegaram aqui. Os dois japoneses foram direto para Grenada. Aqui a flotilha se dispersa.
Três barcos foram perseguidos por pesqueiros rápidos de porte médio, certamente de aço, entre Belém e a foz do Amazonas, na divisa com o Amapá (Luthier, Utinan e Bogomill). Pela sequência dos casos, provavelmente foi o mesmo barco.
O barco que nos atacou vinha em direção ao leste, umas 6 milhas a nosso boreste; era noite e a Catarina estava dormindo. Percebi que ele mudou o rumo e adotou uma rota direta para nós, vindo pelo nosso través. Então, ouvimos no rádio “ VEEELEEEEEEEIROOOO” com uma voz bem cavernosa. A Catarina até acordou. Não dei muita atenção, achando ser brincadeira. Abri mais a genoa e acelerei o Luthier para 8 nós, tínhamos uma corrente de 1,5 nós ajudando. O barco que vinha em nossa direção apagou as luzes. Fiz o mesmo, imediatamente, com a diferença que eu apaguei tudo mesmo, até o eólico, que fica com um led vermelho aceso. Eles tinham alguma pequena luz acesa na cabine, e eu via sempre lampejos, que imagino serem de isqueiros ou fósforos usados para acender cigarros. Como não queira fazer barulho, e a noite era sem lua, achei que o mais fácil era colocar o Luthier para orçar de forma a passar ao lado deles, porque eu percebi que eles imaginavam que eu estaria na proa deles. Assim foi, até que eles acenderam uma potente luz e começaram a procurar pela proa onde eu estava. Nessa hora, eu já passava bem quieto ao lado deles, meia milha distante. Eles procuraram muito, eu os via pela minha popa procurando, mas ficando cada vez mais distantes de mim. Seguimos apagados por mais 3 horas. Na hora, acho até que fiquei razoavelmente calmo, mas depois de safo, as minhas pernas tremiam muito.Lençóis - fundeadouro
Por favor, não entendam essa manobra como uma recomendação de fuga. Na verdade, foi o que eu pude fazer na hora, porque estava totalmente apagado, sentia o ângulo da mestra com a mão na retranca, sobre minha cabeça, regulei a genoa caçando até parar de bater, sentindo a direção do vento pelo barulho no ouvido. Eu também os via o tempo todo, porque não estavam totalmente apagados, foi minha referência. Eu sabia o rumo em que eu estava porque contei o número de vezes em que apertei o botão de ajuste do piloto automático. Naquela escuridão, eu não conseguiria pilotar o barco.
Depois de passar alguns dias na Ilha dos Lençóis, a aparência bem menos exuberante de Tobago não me atrai. Já descansamos, e vamos para Grenada.

Dorival

Foram 8 dias e 7 horas de viagem, muito boa. Nos últimos três dias, tivemos muita chuva, com ventos na casa dos 30 nós, e visibilidade muito ruim. Navegamos com radar o tempo todo e com velocidade reduzida.
Estamos em uma biblioteca pública nesta pequena cidade de 1000 habitantes, a maioria muito simpáticos. Tivemos sorte com a imigração e alfândega, os oficiais que estavam de serviço foram muito amáveis.
Da flotilha, só chegou o Veleiro  Irum, os demais ainda estão navegando ou em Korou na Guiana Francesa.
Vamos descansar, e em breve colocaremos  posts sobre a travessia e responderemos os comentários.

Abraço,

Dorival

 

12 de dezembro de 2010, estamos há 6 dias navegando desde Ilha dos Lençóis Maranhenses com destino a CharlotteVille, na Ilha de Tobago. A grande notícia desta navegada é que ainda não enjoei apesar do mar de 3 metros que estamos enfrentando nesses últimos 3 dias. Por indicação da Dra. Marta, de Natal, estou usando o Meclin 25mg, tomando meio comprimido pela manhã, e meio à tardinha. Descobri, sem querer, que tomar café solúvel com chocolate corta o efeito de sonolência que o remédio dá.
Já estamos nos acostumando com o mar alto, por isso, o grande susto foi quando vi que, no centro de um Pirajá, que estava na minha frente, apareceu uma tromba d’água, minha mente ficou atrapalhada pensando: para que lado ele gira, o que fazer??  Enquanto isso, do mesmo jeito que ele apareceu, sumiu.
Preciso rever os livros de meteorologia.
Desde que saímos de Fortaleza, velejamos quase o tempo todo, só usamos o motor por 6 horas de calmaria, e para entrar e sair da Ilha dos Lençóis.
Ontem, eu fui ligar o motor para carregar bateria, e logo percebi que a correia da bomba de água salgada havia quebrado, fiquei 2 horas trocando a correia, sendo que a tarefa mais difícil foi lembrar onde estava guardada a sobressalente. Enquanto isso, o céu nublado se abriu e os painéis solares acabaram por dar conta de recarregar as baterias. Vínhamos fazendo um pouco mais de 150 milhas por dia, mas agora estamos fazendo 120 ou menos, porque estamos com pouco vento, e viajar a 5 nós, com o mar que está por aqui, é bem mais confortável. Vento de alheta, só genoa estabilizada com o pau do balão.
Está muito boa esta navegada, acho que estou começando a aprender a navegar com mar ruim.

Dorival

 

Nota da  editora: esse post foi recebido via SSB, dia 12/12/10 às 16:00 hora de Brasília

 

Tentarei escrever, apesar do balanço do barco. Vamos ver se estas linhas chegarão ao seu destino, tudo dependerá da propagação do rádio.
Hoje, dia 11 de dezembro, é o nosso quinto dia de viagem para Tobago. Saímos no dia 07 de dezembro da Ilha dos Lençóis, e ao fim do dia já tínhamos perdido o contato VHF com o restante da flotilha, que ficou a mais de 35 milhas de distância de nós, provavelmente porque escolhemos um rumo bem afastado da costa, e a corrente de 2,5 nós nos favoreceu.
No primeiro dia de viagem, durante a noite, fomos perseguidos por um pesqueiro, no través do Estado do Amapá, e estamos seguros de que isso tenha acontecido, porque a forma de escapar dele foi justamente rumarmos em sua direção, com as luzes apagadas, enquanto ele nos procurava com um farolete, na direção oposta, ora acendendo, ora apagando as suas luzes de bordo.
A nossa passagem pela linha do Equador foi na madrugada do primeiro dia de viagem, a uma hora não sei precisar, pois cochilamos, maior vacilo.
Uma marca da linha do Equador: o calor. A solução tem sido tomar banhos de água salgada no cockpit. Apesar do calor, fizemos pão logo no segundo dia de viagem, e ficou bom.
Fora alguns poucos navios que cruzaram nosso caminho, tivemos a visita de um grande pássaro a bordo, no meio da madrugada do terceiro dia, que dormiu em cima do bote inflável, e foi embora nas primeiras horas da manhã do dia seguinte.
No mais, algum grande peixe levou a melhor rapala do Dorival.
No quarto dia, pegamos muitos pirajás no entardecer. A diferença de estratégia, no hemisfério norte, é que, se possível, eles devem ser deixados por bombordo, e não por boreste..
Faz  três dias que o mar está mais chato, agora com ondas de lado de cerca de três metros, mas decidimos seguir viagem para Tobago. A Guiana Francesa exige visto de brasileiros e o pernoite em Salut parece que não é dos mais confortáveis.
Esgotaram-se as minhas linhas possíveis de serem transmitidas. Até mais ver, queridos amigos que nos acompanham.
Catarina

 

Nota da  editora: esse post foi recebido via SSB, hoje às 16:00 hora de Brasília

Chegamos na Ilha dos Lençóis Maranhenses no dia 01 de dezembro, às 5 horas da manhã, depois de uma viagem puxada, com mar alto e curto, e ventos fortes, com rajadas. Apesar do desconforto de mar, fomos ajudados pelo vento leste constante, em todo o trajeto, que permitiu uma velejada até nosso destino, além de uma forte corrente marítima.

Estamos ancorados ao lado de uma grande duna, na posição 01° 19.4 S e 44° 53.2 W.

O lugar é totalmente preservado, com mangues e muitas aves. O paraíso não oferece nenhuma facilidade ao cruzeirista: não tem internet, nem sinal de televisão, supermercado, nem ao menos água doce, que a população local tem em quantidade limitada, obtida da chuva, e de cacimbas cavadas na areia, mas o lugar é abrigado de mar e vento.

Ancorados aqui, temos hoje 9 barcos, sendo 5 brasileiros (Guga Buy, Irun, Temujin e Flyer), todos com destino ao Caribe.

Devemos partir no dia 05 de dezembro, com destino a Tobago; só pararemos em Iles du Salut, na Guiana Francesa, se  necessário.

Como estamos sem intenet, este comunicado só foi possível via rádio SSB, através de um programa denominado “WINMOR”, que faz as vezes do “PACTOR”, e pela gentileza do João Carlos, do Veleiro Yahgan, que providenciou a publicação. As fotos e os contatos por internet vão ficar para depois.

Catarina