janeiro « 2011 « Bem-vindo a bordo!

Archive for janeiro, 2011

Você já pegou o vento a zero grau? Não me refiro ao vento polar, mas ao vento exatamente na proa do barco, na cara. Foi esse vento, com chuva, que pegamos nas últimas horas de viagem para Carriacou, na casa dos 20 nós, com rajadas de 30.
As opções para fugir dele nessa hora eram, praticamente, nenhuma. Se déssemos um bordo para bombordo, íamos dar nas pedras de umas ilhotas; se fôssemos para boreste, íamos cair na zona de um vulcão subterrâneo ativo. Voltar estava fora de cogitação. O melhor era seguir bem comportado, no motor, com o vento na cara.Carricou 001
E assim chegamos a Tyrrel Bay, a baía mais abrigada de vento e mar que fundeamos no Caribe, até agora, apesar de pequena (“not vast”).
O tempo ruim não tem dado trégua. As frentes frias chegam até Cuba, afetando a direção dos ventos e o mar da região.
Se nós tivéssemos seguido as referências do famoso guia do Caribe, e deixado para fazer serviços do barco em Carriacou, teríamos nos dado bem mal. A marina daqui é constituída por um pátio de areia apertado, com espaço para uns 6 barcos. O super “travel lift” a que ele se refere está todo enferrujado, detonado, não teríamos coragem de levantar com ele nem nosso velho bote inflável, com seu mais velho motor. O escritório e a lavanderia estão instalados em containers caindo aos pedaços. Pelo estado de decadência, isso tudo está assim há muito tempo. Como o guia é atualizado todo ano, acho que o autor não passou por aqui nos últimos tempos.
O comércio à beira da praia de Tyrrel Bay é bem simples, com alguns pequenos mercados.
Como em Tobago, há alguns mal-humorados no comércio, principalmente, quando se tratam de mulheres. Algumas mulheres respondem rispidamente a perguntas simples, como o preço de um produto sem etiqueta na prateleira, ou nem se dignam a responder. Conheci um alemão que passou por Trinidad, notou essa situação, e tem uma explicação para o todo esse mau-humor: estas repúblicas do Caribe são matriarcados, em que as mulheres tomam conta dos negócios, do dinheiro, e da preservação dos costumes; agiriam dessa forma por conta do peso que todas essas responsabilidades significam. Pode ser… Como se diz no interiOR do Brasil, acho que puseram limão azedo na mamadeira delas, quando eram bebês. Falando sério, a meu ver, isso é mente curta, provocada pela falta de instrução.Carricou 002
Daqui para cima há dois perigos aos quais se tem que ficar atento. Como as águas são bem mais transparentes, o mergulho com “snorkel” é uma prática comum, para observação dos animais que vivem nos corais. Nessas horas de distração, acontecem muitos acidentes, todos os anos, com vítimas fatais, provocados pelas embarcações motorizadas que passam de um lado para o outro, incluindo os dingues e pequenos barcos de pesca.
O outro perigo é o consumo de peixe que se alimenta nos corais, e ingere uma toxina que pode ser letal ao ser humano (ciguatera). Só é indicado o consumo de peixes de mar aberto, ou peixes que entram e saem, mas são pequenos, não têm muito veneno acumulado. Uma espanhola me disse que, se não juntar mosca em cima do peixe, é sinal de que ele está contaminado, e deve ser descartado. Tudo isso é muito empírico, prefiro comer peixe nenhum.
A água já está mais gelada, não passa dos 27 graus, e o vento também sopra mais gelado. Já está sendo necessário velejar de blusa de manga comprida. Nosso banho de mar vai mudar de horário, do fim de tarde para o meio-dia.
Devemos dar saída do país nos próximos dias, e seguir para Union Island. Tomara que o vento esteja maneiro, até pode ser 30 graus da proa.

Catarina

Se o que tem que ser feito gera estresse, o melhor é fazer logo. Por isso, tiramos o barco da água logo no primeiro horário vago da segunda-feira passada.
Tirar da água não foi um problema, o travel lift da Spice Marina é para barcos de até 65 toneladas, largo o suficiente para pegar um catamarã de 50 pés, e o pessoal opera bem a máquina.
As emoções começam no momento de apoiar o barco, com a quilha em cima de uns tocos de madeira, sobre o chão fofo da marina, de areia e cascalho. Usam calços também nos apoios laterais. Nessa hora, a tripulação e o barco ficam estressados.
A marina cobra um preço fixo por pé para tirar o barco, mas o cálculo começa em 40 pés (não vimos este aviso no “site”). Cobram US$50,00 ou EC$135,00 por hora da mão-de-obra mecânica; se você mesmo fizer o serviço, também tem que pagar uma taxa: US$2,50 por pé (“own work surcharge”). E tem muita gente que faz o próprio serviço, principalmente, de pintura do barco e de anti-incrustrante.
É possível permanecer no barco nesses dias, pagando uma taxa fixa. Pelo menos, essa não é por pé, mas por pessoa, tudo para dormir ao som de muitos mosquitos.
A marina cobra também uma caução de EC$100 para fornecer a chave do banheiro, e devolve o dinheiro depois; não entendi o porquê disso. Os banheiros são poucos, apenas 3 para servir os 250 barcos que estão no pátio; não têm sabonete, nem toalha; são sujos; não têm separação por sexo.
Aliás, banheiro é um problema em toda a Ilha, pois diferente do Brasil, não há lei que obrigue os estabelecimentos comerciais disponibilizarem sanitários para os clientes, quanto mais fazer a separação por sexo.
Cobram ainda taxa pelo uso da energia e da água. Enfim, a marina é um caça-níquel, o melhor é ficar ancorado, sem custo, nem mosquitos.
Para fazer as refeições nesses dias, uma boa opção é ir aos pequenos restaurantes próximos, que servem ao pessoal local, dos escritórios e comércios, e pedir um ROTI, uma espécie de grande pastel de massa fina, com várias dobras, com recheio de galinha, ou peixe, e legumes. Saint GeorgesIsso é muito bom, e sai por apenas EC$10,00 (menos de R$10,00).
Conseguimos acelerar o serviço e sair da marina no dia seguinte.
A Ilha de Grenada nos acolheu, nos tratou bem, é segura, possui boas ancoragens “free”, só que está na hora de sair.
Viemos para a baía de St. Georges, esperar o prometido vento leste de amanhã, e seguir para Carriacou.
A navegação a sotavento da Ilha de Grenada têm como característica as rajadas repentinas, de 25 nós, tudo por conta do relevo irregular, dos vários morros de diferentes altitudes, que “sujam” o vento. Há os que optem por ir bem para fora da ilha, para pegar um vento mais constante, mas correm o grande risco de não conseguir orçar para chegar à ilha próxima, por conta da forte correnteza no espaço entre as ilhas. Esses são os nossos adversários de amanhã.
A minha mensagem de hoje, copiada de uma frase dita na net do canal  68: “Se você está pensando no custo de sair, pense no custo de não sair”.

Catarina

“Why Me?” é o nome de um barco de pesca de Grenada, fundeado na Baía de Saint Georges.
“Why us?” ou “why again?” é o que eu me pergunto. Estava tudo certo para sairmos de St. Georges para Carriacou, na nossa terceira tentativa, eis que vem a notícia de que temos um problema e que teríamos que tirar o barco da água. “Super!!!”, foi só o que pensei.
Na vida adulta, temos que aprender a lidar com as frustrações, é o que dizem. E também aprender reza brava, para desimpedir os caminhos, porque nossa estadia em Grenada está encantada, não conseguimos arredar o pé daqui.
Já voltamos para Pickly Bay, para agendar a retirada do barco da água na segunda, na Spice Marine. Menos mal que ali tem travel lift, então, não vou sofrer tanto.
Se for para garantir a nossa segurança, que seja feito. Melhor relaxar.
Não podemos hesitar com a segurança.
Sobre esse assunto de hesitações, é bom lembrar, se vir escrito numa porta qualquer a palavra “PUSH”, não hesite, EMPURRE! Outra coisa, se algum restaurante anunciar um “dinner” “special”, ou “delicious”, fique esperto, todos colocam isso na propaganda da comida, não significa nada demais.
A baía aqui tem, hoje, 80 barcos, e parece vazia. Muitos barcos saíram logo de manhã, para aproveitar o RARO vento sueste, e o RARÍSSIMO tempo bom. “Snif, snif.”…
“Why Me”?

Vamos ganhar o jogo

Catarina

Já ouvi muitas estórias de gente que abandona a vida de cruzeirista por conta dos problemas com o barco, ou dos desconfortos do mar e das ancoragens. Mas há muito mais gente que lida muito bem com isso.
Estou ficando acostumado a ficar ancorado e dormir bem com o vento soprando 25 nós lá fora, fico até contente porque o gerador eólico mantem as baterias carregadas durante a noite. Só ligo o gerador quando o vento é bem forte, assim, o barulho do vento é maior que o do gerador, e não incomoda os vizinhos.
Saint Georges
Viajantes normais, por terra ou ar, não conseguiriam ficar um mês em Grenada, hospedados com o conforto que temos a bordo, escolhendo se vão almoçar fora ou fazer uma comidinha especial; não teriam como receber pessoas ou sair na varanda e pular no mar para se refrescar. Trazer a casa nos ombros até diferentes paraísos tem seu preço, mas, se o paraíso não for tão bom assim, é só seguir em frente até outro logo ali, ou um pouco mais distante. Só assim se tem tempo de conviver com os locais, gostar ou não, e perceber as diferenças culturais que pairam no ar, e não estão escritas em lugar nenhum.
Veleiros demandam manutenção, desde troca de óleo do motor, reparos em velas, substituição de luzes que queimam, conserto de rodízio da cortina, de vazamento de água em vigia, etc… Têm ainda as instalações dos “praqueissos” que a gente compra, que são úteis, e às vezes, nem tanto, mas que, de uma forma ou outra, nos dá prazer até mesmo quando temos que responder à pergunta: “para que isso serve”?
Pequenos problemas surgem o tempo todo na nossa vida. Quando estamos em terra, basta chamar o “fulano de tal”, ou pedir para a “secretária” arrumar, limpar, fazer… No barco, cruzeirando, você tem que arrumar tudo o que desarruma, e limpar tudo que suja.
Sobra tempo para se divertir muito. Na verdade, tempo é o que não falta.
O catamarã do holandês (Salun) também voltou para Prickly Bay, o estai de proa estava quebrado. Do mesmo jeito que a pequena rachadura no suporte do apoio do pistão hidráulico do Luthier fazia um barulho enorme e não era um problema tão grande assim, no estai do catamarã foi só uma porca solta no enrolador, fácil de arrumar.
Nós somos do tipo de cruzeirista que não para, adora chegar em um lugar novo e depois de algum tempo, já quer ir para o mar e chegar em outro lugar; novos cheiros, sabores, conversas, ventos e chuvas.
No mar, há momentos muito bons: ver as velas cheias, o barco deslizando, o barulho da água e do vento, o céu azul ou cheio de estrelas, o por do sol, a lua nascendo, ficar rodeado de golfinhos, baleias, pássaros que às vezes pegam carona; só pescar que eu não consigo. Todo cruzeirista tem uma foto com um peixão. Comprei alguns “praqueissos” de pesca, para ver se consigo alguma coisa.
Assim, vamos seguindo, de ilha em ilha passaremos pelo Caribe e depois cruzaremos o Oceano Atlântico. Se você está pensando que eu estou muito preocupado com isso, se engana, estou preparando o Luthier e a mim mesmo para isso. Não estou preparado para, quando voltar ao Brasil, ficar um tempo sem viajar, não sei se vou conseguir ficar mais de um mês sem sair para mar aberto e chegar em outro porto, conhecido ou não.
Na quinta-feira, saímos de Prickly Bay com destino a Carriacou. Essa frase você já leu mais de uma vez. Pois é. Velejamos muito gostoso pelo lado de sotavento da Ilha de Grenada. Mas, quis o vento e o mar que voltássemos para Saint Georges. O vento ficou de proa, já esperava por isso, e por ter que usar o motor para fazer as dez m
Doca em Saint Georgesilhas finais, mas com ondas de 1,5 metros, 5 segundos, e corrente contra de 1 nó, aí não ia dar, seria muito chato, voltamos.
A ancoragem aqui rola um pouco, a água é muito transparente, e dá para ver a âncora a 5 metros de profundidade, uma beleza.
Tínhamos decidido ir para Carriacou hoje. Porém, ontem, quando fomos nadar à tarde, fui dar uma olhada no hélice e vi que a bucha no pé de galinha que suporta o eixo do hélice está descolada do seu anel de bronze. Não está desgastada, o eixo está firme. Deve ter soltado recentemente.
Ainda vamos viajar muito, por isso, decidimos voltar para Prickly Bay, tirar o barco da água e trocar a bucha.
Estão vendo como são as coisas? Fiquei chateado por umas duas horas, depois, tomei um rum com coca-cola, jantamos, fomos dormir, e já estamos planejando o que vamos fazer em Prickly Bay nestes próximos dias.

Dorival

Na noite de 12 de janeiro último vivemos o nosso dia de maior vento e mar em Prickly Bay. As rajadas de até 35 nós começaram no fim da tarde e, naquela noite, foi impossível conciliar o sono por mais de 1 hora, sem acordar com o forte zunido do vento. Lá pelas 2 horas da manhã, o Dorival resolveu ficar acordado de vez, de vigília.Amanhecer em Prickly Bay
Por volta das 4 da manhã, escutamos uma movimentação no rádio, e uma mulher, muito nervosa, dizia que o seu barco, ancorado nesta baía, tinha garrado e estava derivando em direção à praia. Pusemos um facho de luz naquela direção e não vimos nada. Nessa hora, muitas embarcações estavam com as luzes acesas, com seus comandantes em alerta. Vimos, então, que um catamarã estava se movimentando dentro da baía, próximo de nossa ancoragem; imaginamos que poderia ser este o barco que pedia socorro. O Dorival chamou no rádio a embarcação, dizendo que havia um lugar para ancorar próximo ao nosso barco, e que ele poderia colocar um facho de luz para facilitar a localização. Eles gostaram da idéia e vieram em nossa direção. Chegando perto, viram uma bóia e disseram que iam pegá-la; alertamos que não, que aquela era uma sinalização de águas rasas, até que eles vieram em nossa direção e, finalmente, ancoraram.
Amanheceu, e o casal do catamarã, de bandeira alemã, permanecia no cockpit do barco; um deles ia verificar, a todo momento, a corrente da âncora na proa, mesmo com a intensa chuva que caía. Quando o barco deles se aproximou do nosso, por conta do vento, o Dorival avisou que eles poderiam relaxar quanto à ancoragem, pois a tensa ali era boa. No fim da tarde, o casal veio nos convidar para um “happy-hour” na marina.
Juntou-se uma turma de alemães na marina, para o happy-hour, incluindo o casal do catamarã. O casal em questão é jovem e navega faz dois anos, desde que adquiriram o barco em Salvador, vendido a eles por uma sul-africana; antes disso, velejavam em uma baía abrigada. Conversa vai, conversa vem, a mulher contou que o barco tinha sido posto à venda. Indaguei o porquê, e ela disse que, no barco, eles viviam momentos de muita tensão, e que não conseguiam relaxar nas travessias ou ancoragens; a mesma conversa foi repetida pelo marido dela. Disseram que o motor não quis funcionar quando garraram, na primeira vez em que foi acionClássicoado, bem na hora em que eles mais precisavam, por isso, o pânico daquela noite. Concluíram que é melhor viajar de avião, para aproveitar os lugares, sem passar nervosismo.
Argumentei que, de fato, nessas ocasiões de muito vento, não dá para relaxar, mas, que estes eventos passam; que acontece de barcos garrarem, que a gente fica meio traumatizado, mas, que passa; que eles estavam bem e não tinha havido danos a outras embarcações, e que seria importante verificar as causas do ocorrido; que apesar de alguns momentos de tensão, o mar propicia outros de relaxamento; que o mar exige que a mente esteja ativa, o tempo todo, nos cuidados com a embarcação, e nos planejamentos de viagem, não deixando espaço para outros pensamentos. Em vão!
Saíram no dia seguinte, para pegar a poita de uma marina.
Parece que estas histórias são comuns. No começo, as pessoas se encantam com o barco, com as cenas lúdicas que vêem em propagandas e filmes, de um veleiro passeando em águas calmas, com vento na medida. A realidade é uma rotina dura, de cuidados e manutenções preventivas, de viagens em mar nem sempre de almirante, de noites mal-dormidas, e dias abafados. A única explicação para quem insiste nessa vida é ter sido picado um dia, tornando-se um viciado.
 BogomilOutra constatação: ninguém que está nessa vida é muito normal. Vejam só o que fizeram nossos amigos do Bogomil, o casal de alemães que conhecemos em Fortaleza. Quando estávamos voltando para Prickly Bay, por coincidência, eles passavam por aqui, a caminho de Union Island, e nos chamaram pelo rádio. Dissemos a eles que estávamos voltando por conta de problemas com o leme. Sem nos perguntar mais nada, eles desistiram de continuar sua viagem, e vieram atrás de nós, para ver o que estava acontecendo, e nos prestar assistência. Mas, não tínhamos pedido socorro nenhum, estava tudo sob controle.
Eles tinham feito uma viagem dura para cá, saindo de Trinidad, com mar grosso. Sabiam das condições do tempo, mas optaram por sair assim mesmo, porque nessa condição os piratas da Venezuela não saem. O casal está muito impressionado com as histórias contadas no “noonsite”, em que, para levar os eletrônicos, os piratas chegaram a atirar no comandante de uma embarcação. A Ellen me disse que estava preparada para, caso fossem surpreendidos, se colocar na frente do Frank, pois esse pessoal não atira em mulher. Ô loco, Ellen! Nesse clima, dá até para ficar com a cabeça confusa! Ou com muita dor de cabeça, como a que acometeu o Frank, assim que ancorou. Acho que estavam precisando, mesmo, é de descansar.
 Aniversário da Ellen - BogomilNo meu modo de ver, apenas dois casos de pirataria, em todo um ano, não são suficientes para dizer que toda semana vai haver uma abordagem deste tipo, com vítimas. Para se ter uma idéia, até hoje se comenta, entre os estrangeiros, sobre um velejador alemão que foi assassinado no Brasil, mais especificamente, na Bahia, há mais de 5anos, como se tivesse sido ontem e, por isso, o Brasil fosse um país perigosíssimo. Tem um detalhe, que ninguém se lembra de ponderar: tratou-se de um crime passional, cometido pela mulher com quem o estrangeiro estava envolvido.
Era aniversário da Ellen, no dia seguinte ao de sua chegada, então, fizemos um bolo para ela, para comemorar, com o chocolate de Grenada na cobertura. Hora de relaxar! O Frank tinha preparado um jantar tailandês. O casal recebe muito bem.
Viu? A vida no mar não é só dureza, é de amizades, de descobertas, de proximidade com a natureza. É importante que se abra os olhos, e se olhe além!
Agora, é hora de arrumar a bandeira de Union Island, nosso próximo destino. Seguimos viagem para ele nos próximos dias.

Catarina

Ontem, o clima deu uma trégua, o vento e as ondas diminuiram. Decidimos ir para Carriacou mas, assim que saímos da baia, ainda navegando ao sul da ilha, com ventos e ondas de popa, escutei um estalido e, depois, a cada movimento que o piloto fazia no leme, eu ouvia um “crack-crack”.
Desligamos o piloto e, com o leme na mão, sem fazer barulho, voltamos para Prickly Bay.
Descobri que o apoio do pistão hidráulico, usado pelo piloto para comandar o leme, não aguentou o mar desse ano e rachou.
Quando construí o Luthier, fiz esse apoio de madeira, bem reforçado, apenas impregnado com epoxi. Não foi suficiente.
Não é grave porque onde o apoio é ancorado no barco, não foi afetado. É um reparo fácil, mas vou reforçar ainda mais, e fibrar com epoxi. Serviço que eu mesmo faço e não preciso tirar o barco da água.

Dorival

PS: Mandamos 5 SPOTs mas, apenas dois foram registrados.

O dia amanhece às 6:30 hs local. Às 7:30 hs, enquanto ainda tomamos café, começa a VHF Cruisers Radio Net, uma rede de rádio, Canal 68, para divulgação e troca de diferentes tipos de informações entre cruzeiristas, operadores da rede, prestadores de serviço e negócios da região.
A rede é operada por voluntários que, é claro, tem interesse no processo. É informal, mas todos os operadores seguem o mesmo roteiro, todos os dias. Iniciam as operações verificando se o canal está livre, se alguém

Audio da Net de Grenada

tem alguma objeção ao uso do canal pela rede, e com um teste do rádio. O primeiro evento é a transmissão da previsão do tempo para a Ilha, e para o Mar do Caribe. Em seguida, a primeira seção é sobre emergências de qualquer tipo,

perigos à navegação e qualquer outro tipo de informação útil aos navegantes, do ponto de vista da segurança.

O operador anuncia a seção e abre espaço para que qualquer um se manifeste. O manifesto é feito inicialmente declarando-se o nome do barco e, depois de confirmado o nome pelo operador da rede, pode continuar falando. Na sequência, é dado espaço para quem precisa de peças ou serviços; anúncios de atividades sociais, desde yoga na praia, passeios na montanha ou jogo de dominó para mulheres; venda de coisas usadas que não mais são úteis a bordo, desde dingues, motores, bússolas, cartas náuticas, fios, etc. (essa seção é chamadada de “tesouros do porão”), e os anúncios do comércio local: menus de restaurantes, música ao vivo, vagas nas marinas, reparos de motores e geladeiras, etc..
Quando termina a rede, o canal 68 é usado para contato entre os interessados, para discutir preços e agendar serviços. Os operadores sempre solicitam que todos fiquem com o rádio ligado no canal 68 dia e noite, por motivo de segurança. Nunca se sabe se no meio da noite você não será avisado que seu barco está garrando, ou algum outro está garrando na sua direção.
Então, o dia começa, coloco as lonas para proteger o barco do calor do sol e saímos para comprar alguma coisa fresca para comer, buscar água doce na marina, tentar diminuir a lista de coisas a fazer no barco, lavar roupa e, quando damos conta, já é hora do almoço.
À tarde, temos mais tempo para conversar com outros cruzeiristas. Bandeira
Tem sido comum a pergunta: vocês vieram do Brasil navegando? Respondo que sim, e logo vêm perguntas sobre subir a costa no inverno, com as frentes frias. Está famoso o mar ruim de 2009. Outra coisa interessante é o sentimento de perda de oportunidade dos viajantes estrangeiros, que conversaram com os alemães ou com os japoneses que viajaram com a gente até Ilha dos Lençóis. O povo gostou mesmo de lá. Nós também.
A bandeira brasileira é muito conhecida, creio que por conta do desempenho das seleções de futebol e vôlei. Estou percebendo que o Brasil é um destino desejado pelos cruzeiristas. Que bom. Aqui somos dois brasileiros: nós e o Irun, o Fat Boy já foi embora. Não sei quantos noruegueses, holandeses, irlandeses, italianos, etc.. estão por aqui, sem falar nos ingleses e americanos. Franceses, não Menor veleiro na baiavale contar porque sempre são muitos, mesmo. A maioria dos barcos é monocasco, de mais ou menos 40 pés. Alguns são bem pequenos como o campeão da foto ai o lado que, apesar do tamanho (20 pés), tem dois geradores eólicos.
O fim da tarde é a hora do povo tomar banho na popa do barco, com água salgada, se enxaguando com um pouco de água doce, pelados, homens e mulheres.
Muitos, como nó, tiram as lonas do barco para passar a noite mais tranquilos.
Logo cai a noite, às 18:00 hs, e a vista da baia muda com a grande quantidade de luzes de fundeio balançando. As luzes das cabines ficam acesas só até às 20:00 hs, mais ou menos, quando se apagam, uma a uma, para o povo ir dormir, ou namorar.
Quase todo dia acordamos pouco depois da meia noite, com rajadas fortes de vento e muita chuva. Já acostumamos, damos uma olhada geral e vamos dormir com 25 nós de vento zunindo, e o barco balançando.
Em um piscar de olhos amanhece o dia. Nem terminei o café e escuto no rádio “Good morning Grenada! Is this frequency clear to be used by the cruisers net?”….

Dorival

PS: Esta madrugada, 13 de janeiro de 2011, ventou 25 nós com rajadas de 30, desde às 22:00 hs de ontem. Normalmente, o consumo do Luthier durante a noite é de 60 ah. Amanhecemos com –12 ah. O gerador eólico produziu 48 ah nesse período, o que significa 6 ampéres em média, o tempo todo. Às 5:00 hs a coisa piorou muito, e alguns barcos garraram, gerando um enorme tráfego no canal 68.
Ontem, ouvimos no canal 16 pedidos oficiais para que ninguém saísse para o mar, e para quem estivesse fora que procurasse abrigo rapidamente.

Há um famoso guia do Caribe para cruzeiristas, editado anualmente, que é adotado por, praticamente, todos os estrangeiros que para cá vem. A descrição de “Tyrrel Bay”, uma baía da Ilha de Carriacou, por esse guia, é de que a mesma é “vast and peaceful”. O guia diz que a baía em questão é muito grande; fica a pergunta: grande em relação a que, à qual baía; qual é o tamanho em milhas, afinal? Ele não diz… Se formos aferir o tamanho da tal baía, veremos que ela é bem menor que a Enseada de Sítio Forte, na Ilha Grande; o que dizer, então, de toda a Baía de Ilha Grande, ou da Baía de Todos os Santos, na Bahia? O autor deixou de fazer uma referência exata ao tamanho da baía, e a descrição ficou imprecisa.Veleiro Salun
Continuando, “peaceful” é um estado de tranquilidade, contrário ao de guerra, e pelo contexto, o autor quis dizer que a baía é “sossegada”. Mas, o que dizer de tal baía nos meses em que os furacões devastam o Caribe, ou mesmo, quando as ondas estão mais altas, como nessa época? 
Vão achar que eu estou sendo dura, que este é o estilo do autor, mas, a “dureza” não é minha, é do mar e da natureza.
Para os próximos dias, a previsão é de um estado nada “peaceful” para Tyrrel Bay, nem mesmo para Prickly Bay, por conta das ondas de 3 metros de pico lá fora, e do vento de até 30 nós; estamos cogitando até em jogar uma segunda âncora, e colocar as defensas a postos, para proteção do barco, além de não deixar nenhuma lona. A chave do motor vai ficar na ignição, e nossa roupa separada, para o caso de se vestir às pressas, à noite.
Todos estão sujeitos a pequenas, ou grandes, mancadas. Aqui neste barco tem havido um festival delas. Vou contar algumas:
– Deixar cair o cadeado que tranca o bote no mar, por três vezes, em menos de 15 dias. Autor: Dorival, o“mão-furada”;
– colocar água salgada para gelar (bem gostosinho….). Autora: Catarina;
– deixar o remo do barco cair irrecuperavelmente na água. Autor: Dorival, mais uma vez, o Saci;
– Trancar o barco por fora com cadeado e esquecer todas as chaves lá dentro. Autor: Catarina, a desmemoriada.
Acho que nenhuma dessas foi tão babaca  quanto a do vizinho de trás, italiano, que colocou querosene para acender a churrasqueira que, por sua vez, virou uma bola de fogo e queimou os painéis solares; poderia ter incendiado todo o barco!
Estamos de castigo, de vigília, esperando as decisões do Tempo, nosso patrão.
As últimas de Grenada: andam roubando dingues. Primeiro, foi um dingue de alumínio, que levaram do cais de um restaurante, na época do Natal. Depois, a tentativa de levar um bote inflável preso a um barco ancorado, como reclamado pelo dono na “net” do canal 68. Recentemente, levaram um moitão do turco (para levantar o bote na targa), de um catamarã ancorado na nossa frente. Todos já colocam corrente para prender o bote ao cais; cabo de aço ficou no passado.
A moda dos estrangeiros aqui é tomar banho pelados no cockpit, seios e Temperatura do Fornopartes íntimas à mostra, à luz do dia; no Brasil, isso é atentado ao pudor.
Nesses dias, recebemos a visita do pessoal do “Karma”, um barco irlandês que ficou ancorado ao nosso lado em Vitória, e está de passagem por esta baía. Eles arranham algum português, e disseram sentir falta das frutas do Brasil (só eles…). Combinamos um churrasco com o marlim que o comandante diz que pescou, é ver para crer. Palavra de irlandês!
Temos tido contato com nossos vizinhos da Holanda, Fritz e Marleen, do “Salon”, que construíram, eles próprios, um catamarã de strip-plancking de madeira, muito bem feito.
CronômetroPara terminar, contra a imprecisão, instrumentos de medida! Eu mesma adquiri dois recentemente, para medir a temperatura do forno, e o tempo de cozimento. Isso evita os “achismos” na hora de fazer o pão. Também melhora o relacionamento do casal que cozinha junto, nas longas discussões sobre o tempo em que o pão está assando (para casais desmemoriados), ou sobre deixar a chama no médio ou máximo. Eu recomendo!

Catarina

 

O veleiro Irum chegou ontem de Hog Island, uma ancoragem aqui perto. Nos disse que o mar está muito picado e difícil para orçar.
Nossa rota para Carriacou é por sotavento da Ilha de Grenada. Depois que sairmos da proteção da ilha teremos que orçar contra mar e corrente por 14 milhas. Não é muito mas, parece que o mar está pior que o previsto.
Além disso, fomos informados que em Carriacou o abrigo não é tão bom como aqui, e não tem muito o que fazer na ilha. É uma parada para ficar dois dias e dar  saída de Grenada.
Já contávamos com esperar o mar se acalmar em Carriacou, antes de sair para Tobago Cays, mas como amanheceu balançando bastante aqui em Prickly Bay e estamos bem acomodados, vamos esperar aqui mesmo.

Dorival

Amanhã, 8 de janeiro de 2011, iremos para Carriacou, uma ilha ao norte que pertence a Grenada. De lá, vamos para Union Island e Tobago Cais.Veleiro Shipping
Antes de sair, tenho algumas informações para a parte da flotilha que viajou conosco, e está em Trinidad, e para qualquer outro navegante, que esteja vindo para o Caribe.
O veleiro Shipping, da Aurora e Ximena, de bandeira Argentina, passou por aqui. Elas estiveram ao lado do Luthier no pier em Natal, e pretendem cruzar conosco para os Açores, em maio.
Para aqueles que pretendem vir a Grenada, na Prickly Bay, não custa avisar e mostrar a bóia (veja a foto mais abaixo), que marca o recife que existe aqui. Estamos ancorados perto e, por isso, vejo todos os dias alguém passar e tentar ancorar ali. A baia está cheia e esse espaço vazio em volta da bóia é convidativo. Na maré baixa, o recife fica a um metro da superfície, e jogar ferro ali é certeza de mergulho para soltar.
Pescar aqui é proibido, a lancha da guarda costeira passa todo o tempo olhando e vigiando.Boia marcando o coral
A água aqui está disponível em duas marinas, a preços de 0,3 EC dólar o galão na Prickly Bay Marina, e 0,1 EC dólar na Spice Island Marina. Dizem que é potável, mas o gosto não é bom, estamos clorando e filtrando para beber, pois é muito difícil encontrar e comprar água mineral, e aqui não há garrafão de 20 litros, no máximo, 5 litros.
As marinas custam em torno de US$ 1,00 o pé dia, água e luz à parte. Ficamos bem na âncora. As posições mais ao fundo da baia são mais protegidas de mar e vento e, por isso, concorridas. Busquei água com galões porque se saísse daqui com o barco para ir ao cais, perderia a vaga.
Vamos ficar em Carriacou até que os ventos e o mar se acalmem, para que possamos ficar mais tranquilos nas ancoragens de Tobagos Cais.
A temporada seca, e mais calma do Caribe, ainda não começou. Ainda temos temporais e ventos fortes, com mar agitado, o que deixa algumas ancoragens em ilhas mais ao norte não muito tranquilas, especialmente porque já estão lotadas.
Não sei que tipo de acesso à internet teremos nessas próximas ancoragens mas, no mínimo, mandaremos textos via SSB para serem publicados. Fotos ficarão para depois.
Acompanhem-nos pelo SPOT.

Dorival