seg 31 jan 2011
Luthier em Carriacou
Escrito por: Catarina
1 Comentário
Você já pegou o vento a zero grau? Não me refiro ao vento polar, mas ao vento exatamente na proa do barco, na cara. Foi esse vento, com chuva, que pegamos nas últimas horas de viagem para Carriacou, na casa dos 20 nós, com rajadas de 30.
As opções para fugir dele nessa hora eram, praticamente, nenhuma. Se déssemos um bordo para bombordo, íamos dar nas pedras de umas ilhotas; se fôssemos para boreste, íamos cair na zona de um vulcão subterrâneo ativo. Voltar estava fora de cogitação. O melhor era seguir bem comportado, no motor, com o vento na cara.
E assim chegamos a Tyrrel Bay, a baía mais abrigada de vento e mar que fundeamos no Caribe, até agora, apesar de pequena (“not vast”).
O tempo ruim não tem dado trégua. As frentes frias chegam até Cuba, afetando a direção dos ventos e o mar da região.
Se nós tivéssemos seguido as referências do famoso guia do Caribe, e deixado para fazer serviços do barco em Carriacou, teríamos nos dado bem mal. A marina daqui é constituída por um pátio de areia apertado, com espaço para uns 6 barcos. O super “travel lift” a que ele se refere está todo enferrujado, detonado, não teríamos coragem de levantar com ele nem nosso velho bote inflável, com seu mais velho motor. O escritório e a lavanderia estão instalados em containers caindo aos pedaços. Pelo estado de decadência, isso tudo está assim há muito tempo. Como o guia é atualizado todo ano, acho que o autor não passou por aqui nos últimos tempos.
O comércio à beira da praia de Tyrrel Bay é bem simples, com alguns pequenos mercados.
Como em Tobago, há alguns mal-humorados no comércio, principalmente, quando se tratam de mulheres. Algumas mulheres respondem rispidamente a perguntas simples, como o preço de um produto sem etiqueta na prateleira, ou nem se dignam a responder. Conheci um alemão que passou por Trinidad, notou essa situação, e tem uma explicação para o todo esse mau-humor: estas repúblicas do Caribe são matriarcados, em que as mulheres tomam conta dos negócios, do dinheiro, e da preservação dos costumes; agiriam dessa forma por conta do peso que todas essas responsabilidades significam. Pode ser… Como se diz no interiOR do Brasil, acho que puseram limão azedo na mamadeira delas, quando eram bebês. Falando sério, a meu ver, isso é mente curta, provocada pela falta de instrução.
Daqui para cima há dois perigos aos quais se tem que ficar atento. Como as águas são bem mais transparentes, o mergulho com “snorkel” é uma prática comum, para observação dos animais que vivem nos corais. Nessas horas de distração, acontecem muitos acidentes, todos os anos, com vítimas fatais, provocados pelas embarcações motorizadas que passam de um lado para o outro, incluindo os dingues e pequenos barcos de pesca.
O outro perigo é o consumo de peixe que se alimenta nos corais, e ingere uma toxina que pode ser letal ao ser humano (ciguatera). Só é indicado o consumo de peixes de mar aberto, ou peixes que entram e saem, mas são pequenos, não têm muito veneno acumulado. Uma espanhola me disse que, se não juntar mosca em cima do peixe, é sinal de que ele está contaminado, e deve ser descartado. Tudo isso é muito empírico, prefiro comer peixe nenhum.
A água já está mais gelada, não passa dos 27 graus, e o vento também sopra mais gelado. Já está sendo necessário velejar de blusa de manga comprida. Nosso banho de mar vai mudar de horário, do fim de tarde para o meio-dia.
Devemos dar saída do país nos próximos dias, e seguir para Union Island. Tomara que o vento esteja maneiro, até pode ser 30 graus da proa.
Catarina