março « 2011 « Bem-vindo a bordo!

Archive for março, 2011

Se você for visitar um barco de bandeira alemã, aceite qualquer bebida que lhe seja oferecida a menos da cerveja, porque ela é servida quente. Exagerei, ela vem morna, num quase sacrilégio para o gosto do brasileiro.
Luthier em St. Maarten A regra se confirmou na visita a um veleiro germânico de 125 pés ancorado na Simpson Bay. O barco opera charter para europeus. Apesar do luxo da embarcação, o charter não é dos mais caros, sai por US$2,500,00 por semana, com todas as refeições incluídas.
Nem tudo é luxo, nem glamour. O veleiro em questão, de apenas 4 anos, tem um problema de respiro dos holding tanks (o de dejetos humanos) que fica na proa, e a consequência é o cheiro exalado para a popa, trazido pelo vento. Soubemos que seu mastro tem diâmetro inferior ao recomendado, por medida de economia no final da obra, e que, por conta disso, já rachou uma vez. Por ter pego uma pedra certa feita, a água que entrou pela bolina danificou os sistemas de um dos lados da embarcação, inclusive, um segundo dessalinizador, essencial num barco em que os passageiros tomam banhos de 15 minutos, ou mais. Por conta dessas e de outras, a tripulação atual não quer cruzar o oceano com ele, incluindo o seu capitão.
Em St. Maarten se vêem superbarcos o tempo todo, chegando e saindo, veleiros ou não. Por conta disso, o ambiente é mais frio, com os donosSherakhan das embarcações de um lado e seus seguranças e skippers de outro. Um destes atracou bem do nosso lado, amarrado a uma carcaça de chata afundada. Difícil contar quantas portas e janelas ele tem, são muitas. Nos disseram que por dentro, no último andar, há uma jacuzzi transparente de onde se enxerga o andar de baixo. No meio náutico há vários mundos, aqui está a prova.
O nosso barco é “nada” perto destes outros, mas nos sentimos seguros nele. Tudo está dimensionado para o seu tamanho, sabemos o que ele tem e o que não tem. Por certo, ele não é uma noiva vestida.

Ainda estamos de castigo. Queremos que os equipamentos instalados conversem uns com os outros, apesar de serem de fabricantes diferentes, e que as informações de fora se repitam dentro do barco, daí o trampo todo. Falta fazer também a revisão do convés.
De vez em quando tiramos o dia para relaxar, nadar um pouco e jogar conversa fora.
Água na ancoragem A água daqui é transparente, e em dias tranquilos é possível ver o fundo. Quando abrem a “porteira” (ponte) para passagem dos barcos que entram no lagoon, a água fica muito mexida e turva.
A natureza da ilha em terra deixa um pouco a desejar para os nossos olhos, acostumados à Mata Atlântica brasileira, ou mesmo, ao que resta dela. As árvores, se plantadas fossem, não teriam como passar incólumes aos fortes ventos dos furacões, assim como os barcos, muitos largados no laggon por seus donos após estes eventos, afundados na lama com os estais e mastros quebrados.
Os supermercados de St. Maarten são um sonho de consumo de produtos industrializados vindos da Europa e Estados Unidos, de molhos a bolachas e chocolates. Não são baratos, mas não tem preço exagerado. Tem muita comida pronta para microondas, o que está me fazendo ter idéias a respeito. Exagerado é o ar-condicionado dentro do ambiente, em algumas seções é impossível permanecer sem paletó.
Para uma viagem estimada de até 20 dias no mar, o que se leva? O que não é fresco, não tem problema levar a mais: arroz, macarrão, farinha de trigo para pão, fermento, frutas secas. O problema são os perecíveis. O nosso espaço de congelador não dá para mais de 5 porções de carne congelada. Existe um freezer que se vende por aqui, de 40 litros, que poderia ser uma alternativa, mas o que fazer com um trambolho desses a mais depois da viagem? São essas as questões a ponderar… Pesca fácil
Neste final de semana chegou mais um barco brasileiro, o Fat Boy, seguindo viagem para a Flórida com o mascote da turma, o fofo do Gabriel, de apenas 4 anos de idade. Da flotilha que saiu de Fortaleza estão certos cruzarem o Atlântico nós, do Luthier, o Travessura, e talvez o Temujin, que deve chegar logo. O Guga-Buy vai para Cuba e volta para Trinidad. O Bogomil, dos alemães, já está voltando para Trinidad, passando por algumas ilhas no caminho. O Bulimundo segue para os EUA. 
Aqui no Luthier vamos em 5: eu, o Dorival, o piloto automático, o radar e o AIS. Acho que dá para dormir sossegados assim.
E se nós não vamos até o peixe, ele vem até nós. Um deles amanheceu no nosso bote, provavelmente atraído pela luz que deixamos acesa à noite. Quem sabe não seja essa a melhor forma de “pescar” na nossa travessia?

Catarina

“O MAR ABRE CORAÇÕES”. A frase é da Aurora, que chegou sozinha à St. Maarten no sábado passado, a bordo do Veleiro Shipping. “Cadê a Ximena?”, perguntei, a respeito de sua companheira de bordo, que conhecemos o ano passado em Angra dos Reis. “Se enamorou por um francês e ficou na Martinica”, respondeu ela, que também encontrou sua cara-metade no mar, a bordo do Veleiro Amigo.
Que lindo! Pessoas que no dia-a-dia jamais teriam a chance de se encontrar, tem essa oportunidade na vastidão do mar. A afinidade de corpos ou de mentes desconhece as fronteiras da nacionalidade, e da língua.
Em St. Maarten, reencontramos um grande amigo, o belga Dominique, que conhecemos em 2009 na Bahia. Foram muitas estórias juntos. Algumas peças que a vida nos prega, nos aproximou ainda mais.
Depois, o trimarã Atlantis, tripulado pelo Dominique, foi alugado paraDominique participar da Refeno 2009, e nos encontramos no Recife. Nos despedimos em Fernando de Noronha, e a partir daí a nossa comunicação foi por e-mail, ficando combinado nos encontrarmos no Caribe.
É muito bom abraçar um amigo depois de tanto tempo, vê-lo com vida e com saúde, e o melhor, vivendo neste meio aquoso que nos une.
Pode parecer estranho considerarmos amigo a alguém que se reencontra a cada ano, quando muito, mas o amigo é aquele em que se confia, com quem se tem afinidade, que se sabe poder contar nos momentos de necessidade.
Pássaros livres que se encontram quando pousam no mesmo galho, é o nosso caso.
Esse código de amizade não funciona com todo mundo, tenho notado. Muitos consideram amigo somente aquele companheiro do trabalho, ou do clube, da academia, ou da igreja, com quem se encontra com maior freqüência, e há interesses em comum. Pode parecer, mas não é de todo ruim uma amizade totalmente fora desse padrão, e de interesses sociais.
Seguimos trabalhando incessantemente na preparação do barco, agora com novidades, a última, um AIS, que demanda tempo para instalação de toda a parafernália eletrônica. Sobra tempo para a Sérgio´s feijoada de sábado, evento proporcionado pelo pessoal do Travessura, que reuniu todos os brasileiros do pedaço, com direito a uma imitação perfeita da couve-manteiga feita pela Paula do Veleiro Pajé, usando uma verdura local.
Na festa, conhecemos um brasileiro que trabalha como cozinheiro num destes mega yachts que se vê por aqui. Ele estava com o olho inchado, resultado de uma agressão sofrida num assalto. Soubemos que a violência graça no pedaço, talvez resultado do grande tráfico de drogas da ilha, que alimenta um vasto mercado. Ele nos contou sobre assassinatos recentes na área do lagoon, onde ficam as marinas. Coincidentemente, escutamos sobre as mortes na rádio local, uma delas com requintes de tortura. Parece que a violência se restringe à terra, pelo menos, não temos ouvido relatos de agressões a pessoas embarcadas.
A função de cozinheiro em barcos é uma das mais valorizadas, chegando a ser o maior salário depois do capitão. Não é para menos, exige planejamento, conhecimento da arte, e muitas vezes, estômago, para ficar num lugar quente e abafado da embarcação, além da responsabilidade envolvida.
Nos ambientes como as lojas náuticas de St. Maarten, em que fervilham cruzeiristas, às vezes o ar fica pesado, por conta de alguns tipos mal cheirosos, que por economia de água ou hábito ruim, deixam de fazer a higiene básica de qualquer ser humano.
Como em todo o Caribe, em St. Maarten há muitos indianos, que se instalaram aqui para trabalhar após a abolição da escravatura. Dominam o comércio de roupas e eletrônicos. Há também muitos chineses, que controlam os supermercados e os restaurantes. Ambos parecem manter a língua, os costumes e a religião de seus países de origem. Enfim, essa ilha é uma salada de raças, línguas e religiões.
Tenho escutado o pessoal de língua inglesa dizer “in my personal opinion”, para expressar determinada opinião. Isso está me parecendo um vício de linguagem, como dizer “subir para cima”, mas não sou letrada o suficiente para afirmar.
Vou fazer a nossa campanha: adote como amigo um louco manso do mar! Dê-lhe um crédito de confiança! Deposite esse crédito em nossa “Fundação Loucos Mansos do Mar”! Ficamos, desde já, muitíssimo gratos.

Catarina

Seguimos viagem no rumo almejado a fim de atingir os nossos objetivos, no prazo hábil para tanto, visando a melhor preparação do nosso equipamento. É fácil falar sem dizer nada… A fase seguinte seria pedir o seu voto, para me eleger para qualquer cargo, e representá-lo convenientemente perante absolutamente qualquer coisa, para fazer realmente NADA. Eis o nosso mundinho moderno! Fort de France
Traduzindo: viemos num tiro para St. Marteen, preparar o barco para a travessia do Atlântico, ficar em paz de espírito e desencanar; se sobrar tempo, passear. Aqui é o lugar: a ilha mais próxima dos Açores, com várias opções de material náutico, livre de impostos (duty free); um bom local para fazer serviços, e de compra e venda de usados (ou “semi-novos”, se preferir).
Fizemos uma ótima viagem para cá, aproveitando uma pequena janela de tempo. É fato que, às vezes, o vento diminuía bastante, mas quando isso acontecia ficávamos boiando a 4 nós, e até a 3,5 nós, até ele voltar. Não tínhamos porque nos apressar, e na travessia vai ser assim, pois não há diesel possível de ser transportado para vencer as 2.300 milhas totais.
Estamos ancorados na Simpson Bay, do lado holandês da ilha, para fora do “lagoon”, onde ficam as marinas e lojas náuticas. Não se paga nada para entrar no país a título de alfândega; por outro lado, cobram US$20.00 por semana, apenas para ancorar em suas águas, e outro tanto para passar com o barco pela ponte que dá acesso ao “lagoon”.Forte em Fort de France
A água do “lagoon” fede, principalmente na maré baixa, mesmo do lado francês da ilha, por conta do esgoto ali lançado. Os açoreanos do Veleiro Ganhoa fizeram uma observação pertinente: se as ilhas francesas do Caribe são a própria “França”, deveriam seguir as regras da comunidade européia e também tratar o esgoto, mas não é assim que acontece, nem aqui em St. Marteen, nem na Martinica.
Esses açoreanos que conhecemos nos deram água na boca, literalmente, pelo queijo curado que nos presentearam, feito na Ilha de São Jorge, e pelas fotos do lugar, realmente lindo. Pretendemos conhecer todas as nove ilhas de lá, a começar por Flores, onde há uma marina nova, e deixar o Luthier para ir a Corvo, a de latitude mais alta.
Conseguimos zerar uma pendência importante para a nossa segurança, a da balsa salva-vidas. Optamos por aquela que não vem com as rações, Vulcão Pelee mais leve de manusear; as provisões e demais itens vamos colocar à parte, numa bolsa estanque. Agora, falta achar um lugar para colocá-la no barco que não comprometa o seu equilíbrio de pesos, mas não fique difícil de lançar ao mar.
Chegamos na Ilha de St. Marteen nos dias da famosa regata “Heineken”, então, ao nosso lado estiveram ancoradas tremendas máquinas de correr.
Fomos recebidos pelo pessoal do Travessura, que gentilmente nos mostrou a área, conhecida por eles até de cabeça para baixo. Também encontramos o Veleiro Luar, e tivemos contato com o Roni, skipper do barco, de saída com um pessoal que chegou do Brasil. Ele é o guru de quem pretende fazer a travessia, faz isso há vários anos, e nem é preciso dizer que ele é safo.
Como na Martinica, o costume daqui é comer lanche na baguette na hora do almoço, com salame, presunto, queijo e outros acompanhamentos. Também aqui, os homens gostam de exibir grossas corrente de ouro no pescoço, um gosto que surgiu não se sabe de onde. As mulheres também usam penduricalhos de ouro, mas menores, e sem pedras ou pérolas.
Voltamos a ter o inglês como língua oficial, o que facilita a vida. Na Martinica, tínhamos que nos virar com gestos para tentar nos comunicar; o povo tenta, é solícito, mas não fala o inglês, e nem se pode eClássicoxigir isso deles, nós é que temos que nos aprimorar na língua local.
Às vezes, bate muitas saudades dos amigos e parentes todos do Brasil, de mainha e painho. São muitos meses fora. É a vida do cruzeirista, não há nada a fazer.
A internet vem piorando com a latitude. Na Martinica tivemos que tirar as atualizações do sistema operacional para que fosse possível conectar a internet no modo atrasado de lá, e aqui não se consegue nem comprar o serviço à distância, precisamos levar a tralha toda para um café com  “wi-fi”. Estamos passando por mal educados, contra a nossa vontade, demorando em responder comentários, e-mails e publicar texto novo. Pedimos paciência a quem nos dá um “voto” de atenção. Afinal, a paciência é uma virtude do navegante.

Catarina

Chegamos em Fort de France sob um vento de 30 nós, com rajadas de 40 e até 45 nós, contra, nas últimas 3 milhas. Com o motor à toda, faziamos 2,5 nós.
A internet aqui é muito lenta, então,  seguem apenas algumas notícias.
A pega da baía é muito boa, apesar do pequeno espaço para ancoragem, que concorre com o ferry de transporte da ilha.
O povo é extremamente simpático e a arquitetura é muito parecida com a que temos no Brasil.
Hoje a língua predominante na baía é o português, pois estamos nós, o Guga Buy, e o Ganhoa, um barco de Açores. Chegarão à tarde o Fat Boy, o Bulimundo e o Flyer. 
Em breve, seguiremos para o Norte.

Acompanhem-nos no SPOT.

Catarina