maio « 2011 « Bem-vindo a bordo!

Archive for maio, 2011

Há uma previsão de mau tempo para a Ilha de Flores nos próximos dias, então, resolvemos adiantar a nossa saída para a Ilha de Faial.
Estimamos fazer a viagem em 1 dia.
A Ilha de Flores é encantadora, contaremos sobre ela depois.
Acompanhem nossa viagem pelo spot.
Catarina

Chegamos ontem, dia 25 de maio, às 17:00 hs UTC. Foram 18 dias e 5 horas de navegação. A viagem foi boa, sem incidentes graves, e sem tempestades (na verdade, com pouco vento). Não ficamos doentes nem passamos mal. Também não passamos por nenhum estresse.Na marina em Flores A provisões foram suficientes e ainda sobraram, de alimentos, água e diesel. Estamos apenas cansados, precisamos colocar o barco em ordem e caminhar um pouco.
Aqui chegando, encontramos os amigos que fizemos em St. Maarten, como os do catamarã holandês Salon, e outros que conhecemos no trajeto, como o Pégasus, o Chelone, o Pinton e o Ka Ora, sendo que esses três últimos chegaram depois de nós . Atracamos ao lado de um barco belga que levou 33 dias para a travessia, com incidentes de quebra de motor, pânico a bordo, falta de provisões e resgates em alto mar, um exemplo claro da falta de planejamento. Para celebrar a vida, os que aqui estavam se reuniram ontem à noite no quiosque da marina, para um churrasquinho de salsicha e peixe.
Só temos a agradecer ao bom tempo, a todos os que nos acompanharamAtlântico Norte e torceram por nós, ao Ronny, do catamarã Luar, pelas informações repassadas durante toda a travessia, ao Bom Jesus dos Navegantes e à Nossa Senhora dos Navegantes, que nos permitiram singrar o mar com segurança.
Nossos especiais agradecimentos ao João Carlos, do veleiro Yahgan, por publicar nossos textos e nos enviar boletins diários com uma acurada previsão do tempo, que nos permitiu tomar decisões acertadas. Ficamos gratos pelas palavras que eles nos dedicou (nossa, acho que não somos tudo aquilo, não…).
Ainda não saímos para conhecer a Ilha, mas já adiantamos que Laje de Flores, por onde demos uma volta, é um misto de vistas espetaculares do mar com o capricho do povo que aqui vive, na jardinagem, na Navegando construção civil, e na culinária. Esse lugar aumenta a nossa admiração pelo povo português, em especial, por aqueles navegantes que descobriram novas terras, numa época com tão poucos recursos tecnológicos para auxiliar na previsão do tempo e na navegação, mas com o conhecimento das forças da natureza que os permitiram ir tão longe. A esses navegantes rendemos nossas homenagens.

Catarina

Flores 1 Flores 2

Uma das praças da Vila de Laje das Flores

Em tempo: Escreveremos mais sobre a travessia. As fotos são só para dar vontade de esperar as próximas publicações.

O veleiro Luthier de Catarina e Dorival está chegando a Ilha das Flores no arquipélago dos Açores. Nos últimos 20 dias acompanhei a sua viagem através dos relatos recebidos por SSB e também pelo envio da previsão de vento e mar. Nos próximos dias eles irão nos contar os detalhes desta travessia. O Dorival certamente vai enfatizar a estratégia usada, o ajuste das velas, o que quebrou, qual equipamento foi indispensável. A Catarina irá relatar a beleza e crueza do atlântico norte, a surpreendente sucessão de imagens do céu, das nuvens, do mar, a lida com o capitão, a alimentação a bordo, os anseios e alegrias. Essa combinação de visões de um mesmo evento é que torna o relato deles neste blog tão interessante.
Acompanho a historia de Catarina + Dorival >> Luthier desde a época da construção do barco em 2007. Aproximou-nos o escritório do projetista dos nossos barcos e a paixão pela construção artesanal. Sempre me impressionei com o cuidado e zelo que dedicavam a construção do barco, a extrema preocupação com o emprego correto dos materiais, a escolha criteriosa de equipamentos. E depois de pronto, essa competência foi transferida para a navegação e para a manutenção do Luthier.
A conclusão da travessia de 2100 milhas com sucesso e segurança é o resultado de toda esta capacidade de navegar o veleiro construído por eles, de aprender sempre, de ser flexível e humilde, de juntar os dois medos a procura de uma coragem.

Parabéns Catarina. Parabéns Dorival. Parabéns Luthier

João

PS: a frase título é de um poema-música de Leila Diniz (1965)

O Luthier navega rápido para a linha de chegada no porto de Lajes das Flores e a tripulação já faz os planos gastronômicos para o instante seguinte ao desembarque.  Segue o relato do dia:

24 de maio de 2011
16:15 UTC

Posição: 37º 55′.55N

                  33º 47′.09W

Navegação:

Rumo  =  55º
Velocidade =  6,0 nós
Distância  em 24h = 140 milhas
Distância p/destino = 151 milhas para Flores

Meteorologia:

Vento = 5 nós de ENE
Ondas = 1,3 mt  de N 11 s
Temp. do ar = 21,0ºC (10:00 local)
Temp da água  = 19,0ºC
Pressão Barométrica = 1028 hPa
Céu claro e mar calmo

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento NE 6 a 11 nós, ondas  S 1 metro

Estratégia: Manteremos o rumo direto para Flores

Comentários: Amanhecemos hoje com uma novidade no cockpit: a roda de leme não estava girando, apesar do piloto automático estar funcionando. A conclusão, na hora, é de que um cabo que aciona a roda de leme estaria quebrado, e o rumo estaria sendo mantido pelo piloto, porque ele aciona o leme diretamente no quadrante. Era isso mesmo: tinha um cabo de aço estourado. Poderíamos chegar assim em Flores, apenas mudando o piloto de uma lado para outro, suficiente para ancorar, mas seria impossível entrar na marina assim. Então, foi uma operação de tirar as coisas de dentro do paiol e o Dorival se enfiar lá dentro. Foi feita uma “gambiarra”, uma emenda no cabo de aço com um cabo de tecido, e a roda de leme voltou a ficar operacional. Já temos serviço para fazer em Faial. Fica a pergunta: como um cabo de aço pode estourar em tão pouco tempo de uso, e em um segmento reto, que não é estressado passando por polias? A quantas anda a qualidade desses materiais?
O vento girou e foi parar na nossa cara, como previsto. Ainda bem que ele é fraco e estamos conseguindo vencê-lo no motor. Ainda bem, também, que deixamos nossa reserva de diesel para isso. Todos que conhecem comentavam que a chegada em Açores poderia ter que ser no motor.
Estamos a 1 dia e mais algumas horas da chegada em Flores. O Luar chegou ontem e nos passou informações. Disse que, se chegarmos com fome, tem um restaurante por perto que serve uma chuleta de vitela maravilhosa. Já podemos sonhar com este e outros pratos, e também com os doces e biscoitos.
Vai faltar sono esta noite, à espera de chegar.
Catarina

Nessa era de abundância de informações a nossa tendência é a de acreditar em (quase) tudo que vem de uma fonte confiável como a NOAA, a Meteo France ou o nosso INPE. De fato, o índice de acerto desses órgãos cresce e sofistica-se a cada ano. O problema é que a previsão mais longa, para quatro ou mais dias, é baseada somente em modelos matemáticos, não tendo a interferência de um meteorologista para analisar os dados. O que os modelos matemáticos as vezes esquecem é de combinar com a Sra Natureza que, de vez em quando, muda tudo radicalmente só para re-afirmar quem manda no planeta.
(a frase título é de uma poesia de Fernando Pessoa)
Segue o relato do dia:

23 de maio de 2011
18:15 UTC

Posição: 36º 38′.31N

                  36º 04′.97W

Navegação:

Rumo  =  55º
Velocidade =  6,5 nós
Distância  em 24h = 135 milhas
Distância p/destino = 285 milhas para Flores

Meteorologia:

Vento = 12 nós de ESE
Ondas = 1,3 mt  de N 10 s
Temp. do ar = 22,3ºC (10:00 local)
Temp da água  = 19,3ºC
Pressão Barométrica = 1027 hPa
Céu parcialmente nublado, mar com ondulações curtas de 1 metro de ESE sobreposta à ondulação de norte

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento SE > ESE 3 a 6 nós, ondas  N 1,2 metros

Estratégia: Manteremos o rumo direto para Flores

Comentários: O canadense Herb, que passa a previsão do tempo em SSB, ouviu um monte (de xingamentos) ontem dos cruzeiristas que mudaram o rumo de seus barcos por conta de uma previsão de tempo ruim que não se confirmou. A defesa do Herb foi de que as condições do tempo nas latitudes por ele informadas não estarão péssimas, mas continuarão muito ruins, pois a depressão que se afastou deixou um rabo de mar e vento altos. Particularmente, não achamos que o Herb é o responsável por termos mudado o nosso rumo e atrasado um pouco a nossa viagem, afinal, havia 4 modelos matemáticos que previam uma coisa horrorosa, ele só fez informar o que estes diziam. Detalhe: o cara faz essas avaliações na boa, sem cobrar nada por isso, está pontualmente na frequência, à disposição dos cruzeiristas, merece respeito.
Hoje amanhecemos com o mar picado, curto, e um vento sueste instável de 15 a 20 nós. Como estamos numa orça apertada para manter o rumo, podemos dizer que a velejada está radical, com ondas quebrando no convés, o tempo todo. Estamos fazendo 7 nós, rizados, para não estressar demais nosso equipamento, afinal, é com ele que pretendemos chegar nos Açores. O Dorival está exausto, ele que passou a madrugada regulando velas.
O nosso vizinho do veleiro Chelone se distanciou de nós, está a 11 milhas atrás. Ainda temos contato com ele pelo VHF, e foi combinada uma frequência em SSB.
Mudamos de horário local, agora estamos a menos duas horas UTC.
O dia da chegada se aproxima. Pretendemos chegar de dia nem que, para isso, tenhamos que atrasar um pouco, pois o lugar é de natureza esplendorosa, e há muito queremos avistar terra.
Esperamos uma chegada punk em Flores, com mar de 2 metros contra, e vento nordeste no nariz. Quanto antes chegarmos, melhores serão as condições de tempo previstas. Mesmo assim, agora a pouco derrubamos a velocidade do barco, para podermos dormir um pouco sem ter que sair correndo para regular ou rizar velas. A tripulação pede arrego.
Catarina

O canadense Herb andou assustando um pouco a flotilha com a notícia relatada ontem pelo Luthier. A análise da carta sinótica de hoje mudou um pouco esse quadro e também a estratégia dos navegadores.
Segue o relato do dia:

22 de maio de 2011
16:45 UTC

Posição: 33º 16′.87N

                  38º 28′.22W

Navegação:

Rumo  =  55º
Velocidade =  6,0 nós
Distância  em 24h = 125 milhas
Distância p/destino = 427 milhas para Flores

Meteorologia:

Vento = 10 nós de ESE
Ondas = 1,0 mt  de N 10 s
Temp. do ar = 23,8ºC (10:00 local)
Temp da água  = 20,5ºC
Pressão Barométrica = 1025 hPa
Céu claro e mar calmo

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento ESE 6 a 11 nós, ondas  N 1,3 metros

Estratégia: Pois é, vamos para onde o vento e o tempo nos manda. A depressão mudou de rumo, nós também. Tivemos 12 horas com o motor ligado e agora estamos velejando em uma orça fechada para Flores. Ir para Horta demandaria muitos bordos

Comentários: Boas notícias, a depressão que nos preocupava está querendo se desviar para a costa de Portugal e estamos velejando com rumo direto para a Ilha de Flores, a 6 nós. Estamos conscientes de que, quanto mais próximos de nosso destino, maiores serão as ondas, e de período mais curto, mas não vamos nos apavorar, pois não vai ser a primeira, nem a última vez que vamos ter que lidar com situações deste tipo.
O veleiro Chelone, de 43 pés, segue a algumas milhas atrás de nós. O seu comandante, que é do Reino Unido, diz que o seu barco não consegue orçar a 35 graus e ele tem que dar bordos para seguir para Açores. Estamos mantendo contato com ele por VHF, de hora em hora, pois ele viaja solitário e contou que andou ouvindo vozes. Mandamos que ele fosse dormir, e ele parece bem melhor agora. Enviamos os e-mails dele do nosso SSB, porque o lap-top que ele usava para enviar as mensagens por Iridium caiu e quebrou, e ele não tem um outro para substituí-lo. Isso é uma grande mancada: um “back-up” é essencial. Nós também damos das nossas. Por fim, a companhia do Chelone também é boa para nós, mais alguém para compartilhas as informações e trocar idéias.
O veleiro Luar está próximo de Flores, deve chegar lá amanhã.
A temperatura tem despencado à noite, nesta madrugada foi a 17º C, é dureza ir lá fora lidar com as velas.
Ontem foi dia de passar a máquina no cabelo do Dorival, aproveitando o vento de proa. À noite, foi mais um dia de desviar de embarcações, o tráfego por aqui é intenso.E hoje é dia de descansar, preparar-se para um marzinho mais chato, e para os turnos da aproximação do destino.
Catarina

Segue o relato do dia:

21 de maio de 2011
15:50 UTC

Posição: 33º 56′.34N

                  40º 27′.21W

Navegação:

Rumo  =  30º
Velocidade =  6,5 nós
Distância  em 24h = 117 milhas
Distância p/destino = 650 milhas para Horta

Meteorologia:

Vento = 6 nós de SE
Ondas = 1,5 mt  de ENE 12 s
Temp. do ar = 24,5ºC (10:00 local)
Temp da água  = 20,9ºC
Pressão Barométrica = 1028 hPa
Céu claro

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento SE 6 a 8 nós, ondas  ENE 1,3 metros

Estratégia: Vamos seguir um rumo mais ao norte, cruzando a calmaria para enfrentar o NE esperado de través na chegada. Orçar contra vento E para chegada pelo sul não estava valendo a pena

Comentários: Uma conversa com outro veleiro por VHF, do qual nos aproximamos no meio da madrugada, mudou nossos planos. Ficamos sabendo que o Herb, um canadense que passa a previsão do tempo por SSB aos cruzeiristas, alertou que dois sistemas de baixa pressão perto dos Açores iam se juntar, ganhar força, e chegar na forma de tempestade na região onde estávamos. Ele teria dado duas opções para fugir do mau tempo iminente: ou subir até 35ºN de latitude, para quem estivesse mais ao norte, ou ir para baixo de 28ºN. Optamos pela primeira, pois já estávamos próximos da latitude 33ºN. O problema associado a esta escolha é a falta de vento na área, por conta disso, estamos tendo que motorar desde então, com a ajuda das velas, a 6 nós. Falamos com o Ronny pela manhã, pelo SSB, que ficou de alertar o Travessura pelo Iridium.
O mar já subiu um pouco, e um vento leste fraco que entrou tem ajudado. O capitão do veleiro vizinho está aliviado por ter companhia, pois viaja solitário. Agora a pouco ele foi tirar uma soneca, ficamos de vigiar o barco para ele.
No mais, pela primeira vez na travessia vimos golfinhos, muitos deles, e uma tartaruga boiando, dormindo. O Luar, que está mais adiante, já passou por cachalotes. Eu nunca vi uma água tão transparente, dá para ver os bichos inteiros lá embaixo. Magnífico!
Por enquanto, seguimos tranquilos, apesar da cara feia do tempo no nosso calcanhar. Xô, mau tempo!
Catarina

Uma vez a caminho de algum destino, passamos a ser comandados pelo mar e pelo vento. Se este sopra forte, vamos mais rápido, a menos que sopre muuuito forte. Se não tem vento, paramos. Se ele muda de direção, somos obrigados a estabelecer um novo rumo. Se a mudança de direção é muito grande, podemos mudar o nosso destino. Partimos com destino ao ponto B e podemos chegar no ponto C. Isto tudo é aceitável porque "esperamos" por isso. Faz parte do "jogo", do divertimento. Ajustar as velas a intensidade e direção do vento, mudar de rumo para tornar a velejada mais confortável. Se não podemos ir direto na direção desejada, vamos em ângulos, navegando 3 milhas para ganhar só duas ou, então, decidimos mudar o nosso objetivo. Velejar desse jeito é muito divertido, relaxante, cheio de surpresas e nunca decepcionante.
Segue o relato do dia:

20 de maio de 2011
17:00 UTC

Posição: 32º 27′.03N

                  42º 27′.60W

Navegação:

Rumo  =  82º
Velocidade =  5,0 nós
Distância  em 24h = 145 milhas
Distância p/destino = 767 milhas – Mudamos o destino objetivo de Flores para Horta

Meteorologia:

Vento = 8 nós de SE
Ondas = 1,5 mt  de ENE 10 s
Temp. do ar = 23,2ºC (10:00 local)
Temp da água  = 21,1ºC
Pressão Barométrica = 1025 hPa
Céu parcialmente nublado, chuvas esparsas
Vento e ondas conforme previsto

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento E > ESE  6 a 9 nós, ondas  NE 1,1 metros

Estratégia: Mudamos nossa referência de Flores para Horta, nosso novo destino. Estamos tentando ganhar E o máximo possível para poder orçar para Horta; se não der, vamos para Flores

Comentários: Este é o nosso 13º dia de viagem. Tem sido a viagem da orça, continuamos nela, que ontem nos proporcionou nossa maior milhagem por dia, desde a nossa saída: 145 Mn.
O vento não tem permanecido estável, exige ajuste de velas e rumo, o tempo todo. Agora à tarde ele caiu um pouco, e a nossa velocidade foi para 4,5 nós. Ainda precisamos nos arrastar um pouco mais antes de tomar a decisão de motorar. Então, hoje é o dia da paciência, e da persistência. Parece que amanhã, também será.
Ontem à noite restabelecemos o contato com o Luar, que deve chegar em Flores na segunda-feira à tarde, motorando para ajudar quando preciso. À noite a propagação é sempre melhor, pudemos até escutar notícias da Hora do Brasil, em AM. O nosso contato com o mundo tem sido, basicamente, por e-mails via rádio SSB.
Durante esta noite, o AIS detectou um veleiro no mesmo rumo que o nosso, a 10 milhas, de nome Zen. Tentamos contato, mas ele não respondeu ao nosso chamado por VHF. Ele ora ligava, ora desligava o AIS. Imaginamos que tenha feito isso para poupar energia, o que tem sido um problema recorrente dos viajantes. O piloto automático, por si só, já consome bastante energia; se somado às luzes de navegação, e ao tempo nublado, exige medidas de reposição. O veleiro Echo optava por desligar a luz de tope à noite, nessas situações de pouca geração, e nos avisava. Ficávamos um pouco apreensivos, pois estávamos no mesmo rumo, a poucas milhas um do outro. Assim, você passa a navegar por si, e pelos outros. Pior são aqueles que apagam tudo, luzes e rádio VHF, e ainda vão dormir. Acreditem, sabemos de gente deste tipo, são os famosos perigos à navegação, que nos deixam de cabelo em pé, e alertas à noite.
Não vemos a hora de ter uma noite inteira de sono. Ela deve acontecer em Faial ou Flores, quem sabe?
Catarina

A travessia segue agora com o vento ESE que passará a ENE influenciado por um sistema mais organizado, gerado por uma alta pressão localizada nos Açores.
Segue o relato do dia:

19 de maio de 2011
18:10 UTC

Posição: 31º 34′.87N

                  44º 44′.47 W

Navegação:

Rumo  =  55º
Velocidade =  6,0 nós
Distância  em 24h = 130 milhas
Distância p/destino = 809 milhas

Meteorologia:

Vento = 10 nós de ESE
Ondas = 1,5 mt  8 s
Temp. do ar = 25,2ºC (10:00 local)
Temp da água  = 22,1ºC
Pressão Barométrica = 1022 hPa estável
Céu parcialmente nublado, chuvas esparsas
Vento e ondas conforme previsto

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento SE  6 a 8 nós, ondas  ENE 1,3 metros

Estratégia: Adotamos um rumo direto para Flores. Está previsto um corredor de vento que nos levará até 35N 43W. A partir dessa posição temos diesel suficiente para chegar em Flores só no motor. Pretendemos velejar, mas essa condição nos deixa mais tranquilos para enfrentar calmarias

Comentários: Hoje é um dia daqueles em que, para beber água, todo cuidado é pouco para não jogar a água na própria cara. O mar está curto, nem tão alto, mas picadinho, com ondas de proa lavando o convés. Continuamos orçando com o mesmo vento SE desde ontem, a uma média de 6 nós, com a mestra e genoa rizadas para o barco bater menos. Navegar com o barco adernado tantos dias é dureza. Nada a reclamar, melhor tudo isso que a calmaria, ou a tempestade.
Perdemos hoje o contato SSB com o Luar, que se afastou de nós; combinamos trocar informações por e-mail. É através de e-mail SSB que mantemos o contato com o Salun, que apostou nas latitudes mais altas para conseguir vento. Não foi o que aconteceu, mas ele tem bastante diesel para se garantir por lá. Também é por e-mail que o Echo tem nos mandado sua posição, bem mais ao sul.
Cabo solto é um perigo. Ontem, o cabo em que hasteamos a bandeira no brandal se soltou e foi se enroscar na escota da genoa, o que só percebemos durante o seu manuseio. Cabos adoram se enroscar no hélice, no leme, na quilha, aonde for. A atenção sobre eles tem que ser total.
Estamos decidindo se vamos direto para a Ilha de Flores, ou para Faial, ambas nos Açores. A famosa Alta dos Açores é que vai pesar na nossa decisão. Estamos indo, qualquer hora dessas chegamos lá. Até lá, fazemos pão. Hoje é dia de pão adernado.
Catarina

“Mas que história?
A história mal dormida de uma viagem”
Invenção de Orfeu – Jorge de Lima

Dorival e Catarina seguem no meio do Atlântico norte “sem nenhuma notícia do mundo”, sem fast-food nem shopping, imersos nos elementos que são percebidos por todos na face da terra desde que o mundo é mundo: a luz do sol, o vento, a água, o movimento das ondas, as nuvens antes de uma tempestade, as estrelas. 
Segue o relato do dia:

18 de maio de 2011
17:45 UTC

Posição: 30º 05′.66 N

                  47º 07′.77 W

Navegação:

Rumo  =  65º
Velocidade =  6,5 nós
Distância  em 24h = 80 milhas (Andamos 140 milhas dando bordos para completar 80 milhas para E)
Distância p/destino = 960 milhas

Meteorologia:

Vento = 10 nós de ESE
Ondas = 1,0 mt  8 s
Temp. do ar = 23,8ºC (10:00 local)
Temp da água  = 22,7ºC
Pressão Barométrica = 1022 hPa estável
Céu nublado, chuvoso
Vento e ondas conforme previsto

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento SE  7 a 11 nós, ondas  ENE 1,5 metros

Estratégia: Continuamos indo mais para leste que o rumo para Flores, pois sabemos que o esperado SE está mais para E que para NE

Comentários: Passamos a noite e a manhã fazendo tack-tack (N.J: a Catarina se refere ao comando de cambar em inglês), orçando a 35º ora para sueste, ora para nordeste, tentando assim ganhar leste. Fomos devagar, entre 3,5 e 5,5 nós, é o que deu para fazer. Algumas vezes, aquartelamos o barco para fazer as refeições. Agora à tarde entrou um vento sueste sustentado e estamos rumando para nordeste a 7 nós. Tomara que a alegria do velejador não dure pouco, e ele fique mesmo depois que a chuva que aqui está passe. Por conta do tempo fechado, e do pouco vento, tivemos que ligar o gerador à gasolina para carregar as baterias.
A observação feita pelo Ronny, do veleiro Luar, é de que este ano há menos vento para a travessia que nos anteriores; por conta disso, a viagem deles deve demorar mais 4 dias além do previsto. Se para eles que são rápidos (estão a 160 milhas na nossa frente) serão mais 4 dias, para nós serão uns bons dias além desses, por certo.
Aqui no Luthier, a tripulação se reveza para descansar assistindo filme no laptop, ler, escutar música, ou simplesmente repor as horas de sono. Está difícil ouvir alguma estação de rádio AM, do Brasil ou de outro país, pela distância em que estamos, e pelos ruídos causados pelo gerador eólico e outros equipamentos. Estamos, assim, sem nenhuma notícia do mundo.
Uma boa distração na viagem é ver estrelas à noite. A Betelgeuses, em Orion, é muito interessante de se ver a olho nu, pois é possível enxergar a luz vermelha que ela emite. Sei identificar bem poucas estrelas, mas estou aumentando a minha coleção.
Catarina