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Archive for junho, 2011

Estou de novo por aqui para re-transmitir os relatos da tripulação do Luthier, agora no rumo do continente, com destino a Lisboa.

Segue o relato do dia:

30 de junho de 2011
15:00 UTC

Posição: 38º 48′.15N

                  26º 18′.12W

Navegação:

Rumo  =  80º
Velocidade =  5,5 nós
Distância  em 8 h = 45 milhas
Distância p/destino = 790 milhas para Lisboa

Meteorologia:

Vento = 9 nós de ESE
Ondas = 1,3 mt  de ESE 10 s
Temp. do ar = 19ºC (10:00 local)
Temp da água  = 20,1ºC
Pressão Barométrica = 1027 hPa
Céu claro e mar relativamente calmo
O vento varia entre 7 e 12 nós e, portanto, nossa velocidade também varia de 4,5 a 6,5 nós. Velejamos orçando com vento aparente de 45º, com todos os panos, desde a saída do porto de Angra do Heroísmo. O rumo de 80º nos levará para E e para latitude de 40ºN. Assim, teremos barlavento para lidar com o forte vento N que sopra na costa nesta época do ano

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento S > SSW 10 nós, ondas  NE 1,3 metros

Estratégia: Manteremos o rumo de 80º até chegar a 40ºN

Comentários: O primeiro dia de viagem é de acomodação do corpo à nova situação, à intensidade da luz, ao balanço, ao movimento, à atenção exigida. Sofre-se um pouco.
O cérebro também tem que achar o seu ponto bom, entre o não saber como serão os dias seguintes no mar, e a vontade de chegar.
A viagem começou com música local, com as rádios FM das Ilhas Terceira e São Miguel. Eis que escuto uma rádio em inglês. Onde estamos? Logo passa um avião cinza pelas nossas cabeças, voando baixo, e um navio também escuro, sem AIS. Não passa nada, é a atuação da base americana na Ilha Terceira, com rádio própria.
Hoje os planos para a chegada são: assistir aos “Piratas do Caribe” no cinema, em um “shopping center”, coisa boa de cidade grande, com lojas de sapatos, para comprar um tênis novo, alguns presentes, uma memória externa para o micro, um novo batom, o da estação. Também visitar um castelo por dia, para dar tempo de conhecer a todos.
Na lembrança, os amigos e os votos de uma senhora na Terceira: “Jesus, Maria, José”, que vocês façam uma boa viagem! Nunca tinha ouvido essa ordem das pessoas. Então, vamos com todos eles.
Amanhã entramos na nossa rotina, e a vida que existe será essa. Nada mau, também.

Catarina

Amanhã, às 8:00 hs UTC, sairemos da Ilha Terceira nos Açores com destino a Lisboa. A navegação deverá durar entre 8 a 10 dias, dependendo das condições de mar e vento que iremos encontrar. Da mesma forma que fizemos durante a travessia entre St. Maarten e Flores, vamos enviar dados de navegação e meteorologia acompanhados de um relato diário da vida a bordo, que serão publicados.
Vamos atualizar nossa posição no SPOT três vezes ao dia e no Winlink uma vez ao dia.

Acompanhem-nos.P6290110

Aproveitamos para agradecer a todos os moradores dessas ilhas dos Açores, que tão bem nos receberam, em especial, à Diretoria do Clube Naval de Horta, e o simpático casal Pedro Pinto e Andréia Aguiar, da Ilha Terceira.

Dorival e Catarina

Definitivamente, a Terceira é a ilha da Festa! Festas de dia e de noite, abertas à população, com programação de primeira, e fartura de comida. Muito provavelmente, esse é o maior motivo para as pessoas longevas do lugar, além do ar puro e do peixe fresco, pois quem participa das festas não deixa espaço para a depressão e a tristeza.
A apresentação das marchas sanjoaninas é a maior prova do padrão de organização das festas. Fecha-se toda uma rua para os blocos passarem, cada qual com sua própria banda. O bloco é formado por casais fantasiados com roupas coloridas, as moças com cabelos arrumados, cheias de brilhos na pele e um sorriso aberto no rosto. Algumas ilhas dos Açores trazem seus blocos para participar, juntando-se aos das freguesias locais.

Marcha de abertura – Festas Sanjoaninas


Poderia-se dizer que as marchas daqui são como as do carnaval do Brasil, mas com temas ligados ao próprio local, e à natureza. Assim é que, a Ilha Graciosa, famosa por suas queijadas, contou na marcha deste ano um pouco sobre a “graça” da ilha, e distribuiu os famosos docinhos Pirataem caixinhas para a população. A Ilha de São Miguel trouxe um bloco de piratas, fazendo um paralelo interessante entre os antigos, que chegavam nos galeões e pilhavam as ilhas, e os atuais, com bons barcos e carros de marca, assim descritos:
Á luz do dia à descarada, passam-te a perna e tu ficas a olhar”.
Vais te queixando, serve de nada, porque os piratas continuam a roubar.”
A má fama continua… Depois aliviam para os do bloco: “Estes piratas, os Micaelenses (da ilha de São Miguel), o seu lema é apenas partilhar a amizade que une as gentes, e os sentimentos que nos fazem melhorar”. Muito giro!
Os miúdos (crianças) também participam levando estandartes, e têm o seu próprio desfile garantido num dia só para eles. Desde cedo fazendo festas…
Durante o dia, a festa é com touros, que são soltos na ruaMiúdos e correm atrás de alguns animadores. A população fica em cima de conteiners (que aqui são contentores) e caminhões, ou em cima de árvores. Diferente da tourada na Espanha, os animais não são mortos, apenas provocados. Às vezes, se entranham entre eles. Contam que, certa ocasião, um touro deu uma chifrada na cabeça de outro, que caiu morto, estatelado. Nada pode ser feito, neste caso, pois são disputas naturais entre machos, que podem acontecer nos campos, inclusive. Não vimos essa paixão pela brincadeira com touros em nenhuma das outras ilhas, é bastante peculiar daqui; há fotos e monumentos de touro para todo lado.
Para nós que vivemos num país de dimensões continentais, as distâncias entre as ilhas é relativamente pequena, se faz de barco em um dia, em muitos casos, mas muitos moradores confessam que nunca saíram de suas próprias ilhas para ir às demais. Flores, então, é uma ilustre Touradadesconhecida da maioria. Talvez por isso, se note algumas diferenças mais pronunciadas entre eles nos hábitos, inclusive alimentares, no linguajar e no sotaque. Aqui se comem caracóis com lesma dentro, um hábito que não vi nas ilhas restantes. O mesmo pão que é chamado de  “flamenco” no Faial, aqui ninguém o conhece com este nome, chamam-no “pão da casa”.
Estamos no cais da marina ao lado de outros portugueses de Faial. Todos nos tratam a pão-de-ló, traduzindo, à cerveja gelada.
As marinas dos Açores têm preços bastante acessíveis. Na da Horta, pagamos 12 euros por dia, o equivalente a R$27,60, por uma vaga no finguer, com água e energia à vontade. Se a estadia for por um mês, há desconto, assim como para os barcos que param no muro, a contrabordo de outros. A água das marinas é transparente, porque o esgoto é tratado, e as ilhas dão para mar aberto. Tourada -1
O linguajar de todas as ilhas às vezes prega peças, na forma como as coisas são chamadas, e no sentido das palavras. Outro dia, um surfista disse na televisão que ia pegar uma onda “engraçada”. Não queria dizer com isso que a onda era “divertida”, mas sim, “interessante”. Quando querem perguntar se você entendeu alguma coisa, dizem “percebeu?” E se eles não entenderam o que você disse, dizem “não percebi…”. Perceber no Brasil está relacionado à percepção sutil de uma determinada situação. Por fim, nos entendemos.
Nos chamam as festas, ou melhor, um jantar na Marina, em comemoração à regata. Vamos prestigiar os nossos amigos.

Catarina

Largamos um pouco atrás dos barcos de Horta e à frente de um sétimo concorrente, que se inscreveu de última hora. Logo na saída, nós tínhamos que decidir entre ir pelo sul da Ilha do Pico ou pelo canal entre a Ilha do Pico e a de São Jorge. Dois barcos decidiram ir pelo sul da Ilha do Pico, nós também, mas a orça estava muito apertada e havia algum mar. Achamos melhor mudar o rumo e ir pelo canal. Fomos bem rápidos mas, mesmo assim, só um barco vermelho ficou atrás de nós. Na entrada do canal, nós e o barco vermelho ficamos sem vento, boiando durante uma hora. Os outros que saíram mais na frente foram em direção à costa da Ilha de São Jorge. Quando o vento entrou, fraco, o barco vermelho seguiu em direção à Ilha de São Jorge e nós decidimos seguir por um caminho perto do Pico e ir cruzando o canal para passar perto da Ilha de São Jorge, já na saída do canal.
No Pico havia uma nuvem baixando que eu imaginei que traria chuva e vento. A chuva veio, mas o vento durou só 5 minutos. Ficamos em uma posição não muito confortável. Sem vento, derivando para a costa do Pico à noite. Aguardamos meia hora e desistimos, ligamos o motor para sair dali. A motor, seguimos até a saída do canal, depois entrou um bom vento que nos levou até perto da linha de chegada. Tentamos avisar a comissão de regatas da nossa desistência, mas não fomos ouvidos no VHF. Decidimos então, na nossa chegada, para deixar claro que usamos o motor, baixar as velas e passar por fora das bóias. Assim, infelizmente, tomamos a caminho errado e ficamos na sombra do vento produzida pela maior montanha de Portugal. Os ilhéus sabiam disso e tiveram mais sorte, pois passaram antes do vento miar. Gostamos de participar.
Demorei em postar esse relato porque logo depois que chegamos fomos à diferentes festas até tarde da noite. Contaremos bastante sobre as festas Sanjoaninas aqui da Ilha Terceira.

Dorival

Hoje, 22 de junho de 2011, às 19:00 hs UTC, largaremos de Horta na Ilha do Faial com destino a Angra do Heroísmo, na Ilha Terceira, ambas do arquipélago dos Açores. Em Angra do Heroísmo haverá no dia 24 uma regata chamada “8 dos Ilhéus” em comemoração às Festas Sanjoaninas que acontecem esta semana na Ilha Terceira.
O Clube Naval de Horta juntamente com o Angra Iate Clube  e uma operadora de telecomunicações organizam uma pequena regata entre as ilhas com os barcos que para lá navegam para participara da regata de comemoração. Fomos especialmente convidados a participar da regata entre as ilhas. São cinco barcos de Horta e o Luthier. Os barcos locais estão muito bem preparados, com velas especiais, tripulação e sem pesos desnecessários a bordo. Não temos chance, mas aceitamos participar com muita honra porque não poderíamos perder a oportunidade de conviver com esse povo amável que tão bem nos recebeu. De Angra do Heroísmo contaremos como foi a brincadeira.

Dorival

Nada emociona mais a dois caipiras do que uma festa rural, com exposição de gado de corte e leite, máquinas agrícolas, concurso de éguas e cavalos, com música e comidas regionais. Assim foi a festa na Quinta de São Leopoldo, no Faial, neste final de semana, aberta ao público. Quinta de São Leopoldo
Chegar até lá foi de carona (“boléia”, como dizem aqui) porque a quinta (fazenda) fica no alto, bem alto, de uma colina.
As éguas que desfilaram mereceram grandes aplausos da platéia, incluindo os nossos, pelo seu porte e marcha. Todas passaram por um banho perfumado, seguido de corte e arrumação da crina e rabo com secador de cabelos, por profissionais do ramo.
A animação da festa, no dia em que fomos, ficou por conta de um grupo de folclore da Freguesia de Pedro Miguel, com música e vestimenta de época, muito “giro”. Então, você já sabe, para dançar à moda antiga dos Açores ponhas as mãos balançando para cima, os pés para frente e para trás, e atenção na coreografia.


Entre as bebidas típicas da festa havia…CAIPIRINHA! Sim, uma barraca especial para ela, elaborada com cachaça “Velho Barreiro”. Mais em casa, impossível! Fomos averiguar e a “barman” era uma açoreana legítima, que diz ter aprendido a arte com o seu irmão, também local, um total mistério de como a receita chegou até aqui. Um pouquinho mais da cachaça e menos gelo, e ela ficaria perfeita.Caipirinha em Horta
A festa tinha muitos doces, mas não os filhoses, que o Dorival segue sem encontrar. Resta-lhe a doce lembrança daqueles feitos por sua avó. Talvez os encontre no continente, se já não caíram de moda.
Nem tudo é festa ou glamour, em se tratando de porto, principalmente. Aqui na marina da Horta estão lacrados dois veleiros que chegaram nos Açores carregados com drogas. Um deles as escondeu em dois botes infláveis, colocados na proa, num total de 500 quilos. Nenhum é de bandeira brasileira, menos mal, mas creio que um deles tenha passado pelo Brasil.
Senhor, tenha piedade dos sabiás de Horta! Os coitadinhos já não têm mais horário para piar, tentando atrair as fêmeas.Exposição de animais Outro dia, acordei para ver um barulho estranho no barco e percebi que estavam cantando às 4 da manhã. E cantam durante o dia, também, incansáveis. Para nós é um deleite, mas sabemos que estão sofrendo como cachorros magros, que judiação!
A nossa correspondência deve chegar amanhã no Centro de Distribuição do Faial, estamos fazendo figa. Se tudo der certo, seguiremos viagem logo.
Vamos nos preparar para a próxima viagem como se fosse a mais difícil, essa é a regra do navegante alerta. Salto alto em barco é tombo na certa!
Se “ocêis” nos permitem, vamos “simbora” atrás de um arraial! E dos filhoses (quem sabe…).

Catarina

Isso mesmo, nós pisamos em um vulcão ativo, o da Ilha do Pico. A ilha se formou a partir de um vulcão que mostra sinais de atividade, com “fumaça” quente saindo pelas fendas de seuFerry cume. De acordo com os estudiosos, este sinal, aliado aos constantes tremores  de terra da ilha, indicam que a energia do vulcão não está sendo acumulada, e que ele não deve entrar em erupção. Assim esperamos.
Fomos para a Ilha do Pico em uma embarcação de transporte de passageiros que aqui eles chamam de “Ferry”. O som da buzina dessa embarcação é igual à do catamarã que faz o percurso entre Niterói e o centro do Rio de Janeiro. Reconhecemos isso na hora, é um mistério a Vulcão da Ilha do Picomemória que temos para as coisas do mar.
Há outros “mistérios”, esses na Ilha do Pico. É como eles denominam as extensas áreas de lavas escorridas do vulcão, constituindo-se de um chão negro e solidificado por aquelas que um dia escoaram a mais de 600ºC, formando o atual terreno. É uma terra em que tudo brota, incluindo as inúmeras videiras, as roças de milho e de verduras, e as flores.
O Pico, o ponto mais alto de Portugal com 2.351m, também serve de referência para todos os habitantes locais Mistérioe os das ilhas próximas para as condições do tempo, pelo formato das nuvens ao redor do seu cume, ou pela cor do céu no fim de tarde, indicando a direção do vento, e a sua intensidade. Serviu de guia, no passado, para os baleeiros saírem para o mar atrás dos cachalotes.
Durante as explicações para a escalada por parte dos responsáveis pelo Parque, nos deram um GPS, para o caso de alguém se “magoar” (machucar-se), e assim poder pedir por socorro, entre outras Mistério e ondafunções do aparelhinho. Haja perna! Não fomos até o cume, num total duas horas e meia de caminhada, paramos na caldeira. Como nada aconteceu com o vulcão na nossa visita por lá, achamos o passeio muito “giro”, que aqui é sinônimo de legal, massa.
No Museu dos Baleeiros, a chave do sucesso das navegações portuguesas: um sextante antigo muito parecido com os atuais. A forma de construção das embarcações de madeira, com muitas seções e cavernas, também não mudou quase nada.
Baleeira Sextante Cumprimos com a tradição, pintamos o muro da Marina da Horta. Foram simples linhas, não exatamente como as da pomba do Picasso, mas suficientes para deixar o nosso recado.Pintura em Horta
Ao lado da marina, chama a atenção um quebra-mar muito giro. Isso porque, antes da parede alta, há uma barreira de pedras que dissipam a energia da onda protegendo o muro, que está perfeito em toda a sua extensão. Nada como a experiência de mar desse povo.
O tempo começa a esquentar. Com dias mais claros, já deu para lavar e guardar parte das roupas de frio, as mais pesadas, e também os tênis usados nas caminhadas. Vamos ver como é a moda de Portugal no verão. Andei olhando as vitrines para a próxima estação e há vestidos coloridos bem curtos, e biquínis muito cavados, estilo moda Rio de Janeiro, nada que ver com aqueles maiôs-shorts das inglesas. Deve ser, sem dúvida, a estação mais feliz para os portugueses admirarem a beleza local.
Aqui é a terra do atum. Nossos vizinhos de marina sempre voltam com peixes de mais de 80 quilos. Sabem exatamente a hora e o local da boa  pesca, mas não revelam o segredo, um verdadeiro mistério!Quebra mar
Também aqui é a terra do coelho, que cruzam as estradas de uma margem para a outra, mas parece que ninguém se interessa por sua carne. Imagino que eles devam ser um problema para as lavouras, porque são muitos, e sabe-se que reproduzem rapidamente; pelo visto, não há predador. Mais interessante é que nos disseram que, na Espanha, a paella tradicional de alguns lugares é feita com carne de coelhos (além de caracóis); talvez sejam de outra espécie.
Fato é que as ilhas, como o Brasil, estão se tornando um imenso pasto para vacas, no lugar de caprinos. As consequências ou os benefícios dessa prática só o tempo dirá.
Notícias do povo: os de Wales resolveram enfrentar o mar gerado pelo Atunsencontro de duas baixas pressões, com ventos de até 40 nós. Como resultado, o piloto elétrico do Chelone abriu o bico, e o seu amigo Dave, do Red Five, teve a jib rasgada numa rajada. Mesmo assim, resolveram aproveitar o vento de popa para chegar o quanto antes, esperando que a tormenta passe logo.
Enquanto isso, nós seguimos esperando uma correspondência que vem dos EUA e chegou ontem em Lisboa. Assim que ela chegar aqui, partimos para outra ilha.

Catarina

* frase extraída de música do Lobão.

Em Faial tem chovido nos últimos 3 dias. Estamos em plena primavera no hemisfério norte e a temperatura durante o dia não tem passado dos 21ºC, o que para o nosso costume já é frio. Pudera, Faial está na latitude equivalente a Nocochea, na Argentina. Chuva em Horta Não queremos subir para além desta latitude, por conta do frio. Antes de ontem, os ventos na marina da Horta chegaram aos 30 nós, deixando tudo ainda mais gelado.
Por conta da estação e da latitude em que estamos os dias têm sido longos. Nesta época, os Açores adotam o horário GMT para economizar energia, ao invés das 2 horas a menos do fuso. Até às 21 horas ainda há luz.
Uma grande parte dos veleiros já partiu de Faial para o continente. Partem hoje o holandês Salon, do Fritz e Maarlen, e os de Wales. Todos já se despediram de nós. Algumas despedidas são mais sentidas que outras, e até tristes, pois sabemos que dificilmente nos veremos novamente.
Os de Wales que conhecemos são ao todo 3 barcos. Vão solitários, preferem isso a ter que dividir o barco com estranhos. Se pensarmos bem, o barco anda sozinho, só precisamos dar-lhe o rumo desejado. Eles confessam que gostariam de encontrar uma mulher para dividir o  espaço, com ou sem experiência de vela; coisas da natureza, perfeitamente compreensível. Vamos acompanhar a viagem tanto dos de Wales como a do Salon, e passar a previsão do tempo se o bicho for pegar.
Países de clima temperados e frios têm costumes diferentes. No Veleiro Chelone, do Reino Unido, a louça suja é lavada toda de uma vez, dentro de uma cuba cheia de água quente. Faz todo oAmigos de Antigua e Wales sentido, porque a água quente facilita a limpeza, quebra a gordura, e a cuba cheia economiza água. Isso explica porque o Jonh, do Chelone, não me deixou lavar a louça do jantar no barco dele, no “modus disperdicium” do brasileiro de lavar uma a uma com sabão, e enxaguar depois em água corrente, fria. Também as máquinas de lavar roupa da marina da Horta vêm com água quente, o que realmente facilita a lavagem, muito embora deva esgarçar os elásticos.
Notamos que os moradores dos países nórdicos dificilmente mudam seus hábitos de alimentação, na visita a outros países. Preferem cozinhar a bordo a comer as comidas locais, e no cardápio sempre há muita salsicha, batata e maionese. Se eles saem para comer, pedem batatas fritas, carne e maionese, nada de experimentar o diferente. Uns poucos fogem a esta regra.
Viajando pelo mundo, presenciamos diferenças culturais o tempo todo. A maior delas, que já vivenciei, foi em relação aos rastafari do Caribe. Tivemos a oportunidade de conversar com um deles aqui em Faial, morador de Antiqua, tripulante de um barco que seguirá para a Noruega. O cara é tranquilo, educado, não é abusado, tudo isso longe de sua comunidade. Nos contou que estava com o coração partido porque Praça em Hortasua mulher (uma das), com quem ele namorou por 10 anos, não conseguiu lhe dar um filho. Que ele só fez três filhos até agora (ele é novo) e que todos na família o censuram por isso, a começar pela sua mãe. Pela sua religião, um homem deve fecundar o maior número possível de mulheres, justamente para aumentar o número de adeptos à  religião. Então, o homem torna-se um garanhão. Incrível isso, nos dias de hoje.
Nos Açores não percebemos diferença cultural acentuada com o Brasil. O linguajar guarda algumas diferenças, mas não são gritantes, e bem compreensíveis se inseridas num contexto. Nós os entendemos, e eles nos entendem, mesmo com a troca de algumas palavras para designar as mesmas coisas. Outro dia, uma senhora nos disse que uma oficina do Faial ardeu durante a noite (e não “pegou fogo”) comentando sobre um incêndio.
A denominação mais diferente que vi, até agora, foi a do “penso”. Se não estivesse com o pacote de pensos nas mãos, não saberia o seu significado. Veja pelas instruções de uso do que se trata: fixá-lo à “roupa interior” (calcinha); fácil de “deitar fora” no lixo (jogar no lixo), e nunca na “sanita” (privada). Procurando no dicionário, penso é “curativo”. Tudo entendido? Traduzindo: trata-se do absorvente higiênico, popular “modess”.Praça
O português que aqui se fala é puro, bem colocado. Até na embalagem de cereais, um produto popular, a propaganda é que eles “dão-lhe vitaminas e cereais”, e que, como tal, são uma boa opção para a sua saúde.
Agora à tarde começou a fazer sol e esquentar. Tudo fica mais bonito. Vale a pena dar um passeio pela praça em frente à marina, apreciar o canto dos sabiás no fim de tarde e tomar uma cerveja com os Prati, os espanhóis que conhecemos no Brasil e marcaram uma despedida antes de seguirem viagem para a sua terra natal. Essa é a nossa vida, de encontros e despedidas.

Catarina

Publicamos uma página especial  com informações técnicas sobre a travessia do Luthier desde St. Maarten até a Ilha de Flores nos Açores. O acesso pode ser feito clicando na “orelha” acima, onde estão outros títulos, ou na coluna Páginas ao lado.
Adiantamos que os vídeos não estão muito bons, nossa câmera tem um áudio ruim e temos pouca experiência na tomada de cenas.

Dorival

É tradição: todos os barcos que chegam no Faial deixam sua marca nos muros da Marina da Horta; quem não o faz ganha má sorte para si, assim dizem, e pode não chegar ao seu destino. Muro na marina de Horta
Há muros dos dois lados da Marina, basta escolher um espaço vago ou apagado pelo tempo. O tempo que tudo apaga, aí mora a questão que nos toca. Se por um lado aqui chegar é um marco na vida de qualquer navegante, também significa um ponto que será deixado para trás, para talvez nunca mais voltar a ser visto.
Num fim de tarde, estávamos batendo papo perto do muro da marina, ao lado de onde a tripulação do veleiro belga Echo fazia a sua pintura. O Edwin, do Echo, estava visivelmente chateado, dizendo que ali era o fim de sua viagem, que ele deveria voltar para a Bélgica em breve para trabalhar, colocar as crianças em uma escola regular, etc… . Uma francesa que conhecemos me dizia que daqui também deveria voltar direto para a França, procurar uma vaga para o seu barco em Marseille e assumir o seu novo emprego; nesse momento, ela já não me via, olhava para o horizonte ou para o nada, visivelmente emocionada. Luthier na Marina de HortaPara os que vêm da Europa aqui é o fim do passeio, só restam a travessia de volta para casa e uma interrogação de como será a vida depois. Compreendi a situação deles, pois nós seremos eles amanhã, quando estivermos em Cabo Verde, última parada antes de voltar para o Brasil.
Dentro de seus muros, a Marina da Horta é um sossego. Estamos em uma boa vaga, com finguer, água e energia. Para almoçar é só atravessar  a rua e comer bem; por 5 euros, se come o prato dia, incluídos o pão, o vinho e a sopa.
Estamos ficando mal acostumados, o vinho é bom e mais barato que o refrigerante. Pedimos sempre o vinho do continente, servido em pequenas jarras, apesar de nos oferecerem também o da Ilha de Pico. Não somos entendedores, mas o vinho do continente é mais seco, do nosso gosto, enquanto que o do Pico é mais frutado.
Amigos de Wales UKAlgumas vezes levamos o nosso amigo Jonh, do veleiro Chelone, para almoçar conosco, na verdade, o empurramos até o restaurante. Ele já emagreceu 15 kg desde o Caribe, e todos os seus amigos estão preocupados. Depois do almoço, sempre tomamos um café expresso, que  aqui é muito bom.
Pisamos pela primeira vez na vida em um vulcão, mas um vulcão extinto, o que deu origem à ilha do Faial, chamado “Caldeira”, hoje uma cratera de 400 m de profundidade, situada a 2.000 metros de altura. Por cima dela sempre paira uma nuvem. Existe uma trilha que dá a volta no vulcão, e nós percorremos quase a metade dela em 1 hora e meia de dura caminhada, por trechos escarpados, e voltamos pedindo arrego. Ainda bem que havia umas moitas para se fazer um “wi wi” (xixi na língua dos de Wales),Caldeira totalmente natural. Ao fundo da cratera havia um lago, cuja água escorreu pelas frestas criadas pelos tremores de terra gerados com a erupção de um outro vulcão, entre 1957/58, o de Capelinhos. A erupção iniciou-se no oceano, chegou à superfície e agregou mais um pedaço de terra à ilha. A paisagem é realmente lunar.
Visitamos os vulcões e outros pontos turísticos a convite de nossos amigos caipiras de Wales, que se atrapalham todo com o português para pedir um simples café, disseram não entender absolutamente nada da língua que aqui se fala. Cratera do Capelinhos
Na volta do “tour”, uma visão crua da história recente: um “bunker” enterrado na colina, de onde os soldados da ilha e os aliados se posicionavam para lutar na segunda guerra mundial.
Na semana que passou fomos prestigiar a festa de rua da Igreja de Nossa Senhora das Angústias. A igreja sofreu com o último cismo ocorrido aqui, mas foi completamente restaurada; o seu teto conserva pinturas dos brasões das famílias. A imagem da Santa data do povoamento da ilha. Tudo está muito bem cuidado, um ambiente bonito de se ver, enfeitado pelas flores e pelas vozes de um coral afinado, enfim, um momento de inspiração para nós.
A festa de rua é uma oportunidade para conhecer as pessoas e os Entrada do Bunker costumes locais. Dá para perceber que os daqui vivem bem, são longevos e têm em torno da igreja a sua vida social. Comemos bifanas de carne e albacora (pão com carne), favas (grandes feijões) e bolos, muitos bolos, que nos disseram que daqui são melhores que os do continente, pois seriam mais úmidos. Apresentaram-se as orquestras filarmônicas flamenca (eles povoaram parte da ilha) e a da própria ilha, a faialense, esta com muitos jovens se apresentando, e um maestro de bem com a vida.
A população da ilha se queixa que ela está sendo “invadida” por ucranianos, logo após a aprovação da comunidade européia, e também por africanos, com hábitos, língua e culturas muito diferentes dos locais. Há também muitos brasileiros, e muitos destes ilegais, alguns procurando o caminho de volta. Igreja Nossa Sra. das Angústias
Não pudemos acompanhar a procissão que levava a santa no domingo, pois o nosso barco estava desmontado, o Dorival com a mão na graxa para trocar os cabos de aço da roda de leme, pois um deles estourou na travessia.
Ainda não procuramos um lugar para fazer a pintura no muro, mas vamos atrás disso, pois vale o ditado “yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay” . Também porque não foi fácil chegar aqui e finalmente pisar num vulcão (extinto).

Catarina