dom 24 jul 2011
TREMOÇO
Escrito por: Catarina
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Podemos dizer que o tremoço, aquela leguminosa amarela com uma casca transparente, está para Portugal assim como o amendoim para o Brasil, acompanhando a cerveja ou chopp gelados. O nosso amigo Rui Silva comprou neste final de semana um saco de tremoços numa barraca de rua em Óbidos. Foi comendo os tremoços enquanto seguia em direção
ao restaurante em que fomos tomar um caldo verde com um imperial (chopp); lá continuou comendo e saiu dali ainda comendo pelas ruas, até que não sobrasse nenhum. Nós o ajudamos a acabar com tudo, porque o tremoço é muito bom.
Fomos a Óbidos para uma festa ao estilo medieval, dentro das muralhas do castelo em que está a vila. Pessoas vestidas a caráter simulavam um mercado medieval com comidas, músicas, roupas e os tipos da época.
A idade média foi a idade das trevas, em que a civilização pouco avançou na ciência, no conhecimento, na medicina e nas relações sociais. Assim, na festa havia leprosos, salteadores, andarilhos de estrada,
encantadores, fadas e bruxas. Para entrar na muralha precisei me vestir de fantasma (assim me chamaram), com uma túnica com o dobro do meu tamanho; as fantasias de nobres e princesas já tinham sido alugadas. E fantasias não faltam nessa hora: o Rui acha que já foi um deles, algum dia; estava vestido de plebe e não quis ser fotografado. O Dorival preferia estar longe dali nessa época, em alguma caravela pelo mar. Eu espero não ter sido fantasma na vida de ninguém, somente.
As ruas estreitas da Vila de Óbidos estavam lotadas, num ambiente um
pouco diferente de alguns anos atrás, em que não havia tantos turistas, nem tantas lojas, nas palavras de quem esteve lá em 1992, o Dorival. Parte das dependências do castelo hoje viraram uma pousada, acessível apenas aos hóspedes, experiência que fizeram também em Salvador num antigo prédio histórico. Continua um lugar de arquitetura de época, que vale a pena visitar.
No caminho entre o estacionamento para os carros e a Vila de Óbidos há uma plantação de pêras do tipo “rocha”, deliciosas. O Rui Silva apanhou algumas delas para nós. Não havia cachorros soltos e as árvores estavam carregadas, certamente não causamos nenhum prejuízo.
O fruto comido no pé é sempre mais saboroso! Aí, Rui, valeu o risco! Fique tranquilo que ninguém viu ou sabe de nada.
Aqui vão bem as pêras, as oliveiras, que se espalham pelas praças e ruas, os figos, que secos são deliciosos, além das muitas variedades de ameixas e, claro, as uvas.
No caminho para Óbidos passamos por Mafra, outra cidade com monumentos históricos. Impressiona o mármore rosa, que brota na terra em Portugal, e a arquitetura da Basílica de Mafra. No Museu da Basílica aprendi que as “sanefas”, usadas nas laterais da popa do barco para proteger dos borrifos de ondas, eram originariamente as saias laterais dos carrinhos de mão usados para levar imagens de santos nas procissões.
O verão entrou com tudo, este fim de semana fez 35 graus célsius em Lisboa. O clima é seco e sair para as ruas só com uma garrafa d’água. A nortada
de fim de tarde alivia a sensação de calor, mas assusta, com ventos de até 30 nós aqui dentro. Alguns lugares têm clima mais fresco, como Sintra, que visitamos esta semana, pela serra e natureza à sua volta, e Mafra, pelo regime de ventos locais.
Lisboa é uma boa cidade: bons serviços públicos, saneamento, atrações, vida noturna. Realmente, se a opção for trabalho e divertimento urbano, esse é o lugar ideal. Consegue-se andar com relativa segurança à noite, assistir a uma apresentação de orquestra ao ar livre ou tomar um chá para começar a aquecer a noite.
Os serviços públicos estão bastante informatizados. Para comprar
bilhetes de trem, metrô, ou pagar pedágios, é tudo por máquina. Acho que as pessoas fazem falta nessas horas, pois nós ficamos meio atrapalhados para comprar bilhetes sozinhos, e fizemos besteira, mas esse é um processo inevitável em todo o mundo, inclusive no Brasil; gera desemprego, mas aumenta a produtividade porque pessoas faltam, ficam doentes, etc…
A legislação náutica de Portugal tem exigências diferentes da brasileira, uma delas é uma escada de acesso. Dizem que a origem dela está no fato de que muitas embarcações já foram encontradas vazias, com marcas de unhas no costado, de um infeliz que tentou, mas não conseguiu subir na
embarcação. Da mesma forma, já foram encontrados náufragos mortos com a braguilha da calça aberta, sinal de que caíram no mar ao urinar (homens, no caso). Outra exigência é o arnês, ou cinto de segurança em forma de cadeirinha.
Esta semana vai ser de preparação do barco, logo partiremos. Turismo náutico é assim, privilegiamos os pontos da costa ao interior.
Um bom planejamento da rota e dos víveres, além do acompanhamento das condições de tempo é um primeiro passo para uma boa viagem. Estudar o fenômeno da “nortada” e os efeitos dos ventos e marés nos Cabos de Portugal também faz parte. Vamos nessa toada.
Catarina
OBS: Nortada é um vento de até 40 nós que, normalmente, se inicia às 16:00 hs e sopra até às 21 horas, todo dia. Para sair de Lisboa ainda faltam encontrar as filhoses e assistir uma tourada. Dorival