agosto « 2011 « Bem-vindo a bordo!

Archive for agosto, 2011

As coisas mudam e mudam muito rápido. De um ano para outro, lugares ricos entram em crise e assim por diante. Por isso, a experiência que aqui relato tem curta validade, esta temporada. Assim como nada tem que ver com a vivida por outros navegantes em anos anteriores.
Dizem que o tráfico de drogas no Algarve e sul da Espanha, usando embarcações, nunca foi tão grande. Apreenderam recentemente um veleiro com 500 kilos de cocaína, outro barco com uma tonelada de drogas e assim vai. Daí a constante vistoria que temos visto por aqui. Nós fomos vistoriados na Espanha assim que chegamos, ficaram um tempão com os nossos passaportes e documentos. Somos azarados com isso, sempre fomos. É como em ancoragens, sempre vem um barco garrando até nós.
Pois é, nosso visto de permanência na Europa venceu dia 30 de agosto. Tínhamos a informação de que era só ir até o Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) e renovar por mais 90 dias, isso em Portugal, e que na Espanha seria muito complicado. Não ficamos lá para ver, viemos para Lagos e fomos atrás da renovação. Decidimos renovar o visto porque gostamos de fazer tudo direitinho e somos azarados. Com essa intensa fiscalização neste ano poderia dar muito problema.
Na marina há um posto do SEF, mas “na alta temporada” os funcionários estão de férias e ele não abre. Fomos informados de que tínhamos que ir a Portimão, não na marina porque lá também não há atendimento no mês de agosto. Não foi possível achar o endereço do posto no “site”, achamos telefones para ligar só que, ligando, se ouve: “o número discado está fora de serviço”. Fácil, vamos mandar uma mensagem. Enviada a mensagem vem a resposta: ligue para os seguintes números para agendar um atendimento (os mesmos que não atendem).
Último dia e resolvemos tomar o trem (comboio) e ir para Portimão. Lá descobrimos onde ficava o posto do SEF. Fomos atendidos às 10:00 hs por um funcionário que nos deu uns formulários para preencher e disse para que retornássemos às 14:00 horas. Assim fizemos, já com os documentos de comprovação de capacidade financeira (cartão de crédito), da embarcação, comprovação de estávamos na marina (se estiver ancorado não tem conversa), preparados e com muita paciência porque no almoço vi pela TV que a polícia em Portugal pode entrar em greve a partir do dia 1 de setembro (será que o SEF é da polícia? Sei lá…).
Depois de algumas reclamações começamos a ser atendidos às 14:30 e, então, o funcionário, simpático, mas sem nenhuma pressa, começa a digitar coisas no computador, e iniciou um procedimento de digitalização de todas, todas mesmo, uma a uma, as páginas dos passaportes, depois nos colocou frente a uma máquina que tira fotos e impressões digitais. Então diz que há um problema de informática e some. Resumindo, às 16:00 hs estava tudo pronto e veio o comunicado de que custava NOVENTA EUROS para cada um, isso mesmo nos custou 180,00 Euros um selo metido a besta nos passaportes e uns carimbos para podermos ficar mais 90 dias em Portugal (não vale para outros países). Parece que para entrar nas Canárias vai nos custar caro também. Perguntado, o funcionário disse que se a polícia entrar em greve eles provavelmente também o farão.
Fazer tudo direitinho dá muito trabalho e custa caro. Na ilha da Madeira vamos ao consulado Espanhol para saber o que fazer, e quanto custa para ir até às Canárias. Será que fomos bobos por termos ido renovar os vistos de permanência nos passaportes?

Dorival

Tivemos uma coleção de peixes na nova isca do Dorival na viagem de Chipiona – Espanha para Portugal. A responsável pelo sucesso da pesca é uma incrível rapala espanhola (na verdade, comprada no “Decathlon”), em tamanho e cores que atraem tanto peixes quanto pássaros (isso mesmo, um pássaro veio querer bicá-la mesmo fora d´água).
Um dos peixes fisgados, um atum, veio na hora certa para nos distrair da viagem um tanto quanto sofrida: foram vinte e duas horas de orça, adernados, batendo nas ondas.
A opção de sair num dia de vento não favorável foi resultado da completa falta de opção. Ou saíamos nessa condição, com o vento poente (W-SW), dando bordos para chegar ao destino e pegar o vento norte de través mais adiante (que tardou a chegar), ou esperávamos o levante (de leste), que nos daria uma boa popa, mas com o inconveniente de vir com muita força nessa época, depois de afunilar para passar no Estreito de Gibraltar, levantando o mar em poucas horas. Rio Guadalquivir
Fomos apresentados ao levante na nossa chegada à Marina de Chipiona, na descida do Rio Guadalquivir. Foi uma verdadeira loucura atracar sem ajuda com ventos que passavam dos 30 nós, trazendo muita areia, que entrava nos olhos, na boca e ardia a pele. Em poucas horas, esse vento já estava na casa dos 40 nós.
Na nossa viagem para Lagos, ao anoitecer constatamos que havia muitos barcos pesqueiros grandes sem identificação pelo AIS. Fato é que, barcos daquele tamanho têm todos os melhores e mais modernos equipamentos, com todos os tipos de sonares e antenas, e certamente eles nos viam (recebiam), mas não se deixavam ver (não transmitiam). Talvez se tratassem de barcos pescando o atum vermelho, quando estes peixes estão entrando para desovar no Estreito de Gibraltar. Nos disseram que os atuns são pescados pelos espanhóis e repassados ali mesmo para barcos japoneses, estes últimos, em geral, de cor vermelha. Não esperam para pescar o atum sem as ovas, voltando do Estreito, pois com elas, e sem se alimentar, o peixe teria uma gordura muito apreciada pelos japoneses. Escondidos do AIS, nenhuma entidade ecológica poderá localizá-los ou perturbá-los. Os espanhóis defendem-se dizendo que é da tradição deles pescar o atum com as ovas, desde o império romano, e que não vão deixar de fazê-lo. Realmente, vimos ovas de atum à venda Cais de espera da Marina de Lagos em bares espanhóis, é mesmo da tradição desse povo consumi-las. Esse é mais um desafio para a comunidade européia, conciliar a tradição com a preservação.
Também é um desafio dar um presente para a própria mãe. Mãe é um caso sério, elas nunca são diretas no que desejam, os filhos têm que adivinhar. Tentei de tudo com a minha. Da última vez, disse que estava levando para ela um leque de Sevilha pintado à mão, e ela respondeu, delicadamente, que usaria como decoração; está certo, pensei, não é do seu costume usar abanos. Não tinha escolhido nada de decoração para ela até agora porque há anos a escuto repetir, quando ganha algo assim: “a casa penhorada agradece”. Eis que ela me manda um e-mail dizendo ter acabado a leitura de 3 livros, e então matei a charada: pronto, ela quer (mas não fala) ganhar um livro. Numa pequena livraria de Lagos escolhi “Memorial do Convento”, de José Saramago, por indicação de uma simpática e culta vendedora. Com esse livro, o autor ganhou o prêmio nobel. Com pai é tudo mais fácil, uma Amigos de Tarifa - Dominique e Florágua de colônia de Sevilha, e uma boina de Portugal  já são suficientes. Presentes não se julgam pelo preço, o que vale é a atenção de quem os dá, o tempo dispendido na procura de algo que agrade (ou tente agradar).
Lagos é uma cidade encantadora. Conserva a característica de cidade pequena, mas tem suporte para receber o turista com qualidade e preços bons. Nessa época, podemos dizer que 80% das pessoas que aqui se vêem falam inglês. Há também muitos espanhóis, valendo-se do valor do euro aqui, pois com o mesmo dinheiro em Portugal se compra muito mais que na Espanha. Aqui se vendem muitos passeios para observação de golfinhos, por diferentes empresas concorrentes, ou para visitas às cavernas que se fAmiga Pata de Sevillaormam nas falésias de frente para o mar. A cidade tem lojas náuticas com bons produtos e um estaleiro com travel lifting. Dizem que em setembro tudo fica vazio, com o fim das férias de verão.
Temos feito amigos por onde passamos. Em Gelves, uma simpática pata virou um bicho de estimação do Dorival. Pena que não temos um cantinho adequado para ela no barco, se não,  a levaríamos embora conosco.
Deixar para trás os amigos que fazemos é outro desafio. É a vida. Ao nos reencontrarmos, será uma festa. E isso sempre acontece, porque o mundo é pequeno para quem navega.

Catarina

É bom que o navegante esteja em dia com a vacina de tétano porque nunca se sabe quando vai topar com um prego ou um pedaço de ferro soltos em um pier. Foi o que aconteceu com o Dorival na chegada a Gelves, quando ele pulou no cais sem chinelo para amarrar o barco.O cais de madeira tem alguns parafusos soltos e ele pisou num deles. Fez um bom corte, aliás, um rombo na pele, agora é que ele está vendo como é dar uma mancada. Como ele é vacinado, nada que um curativo diário e beijinhos não curem.
Guelves tem uma pequena marina para barcos com pouco calado e um píer externo no rio para visitantes, com água e energia. É a única opção atual para quem sobe o Rio Guadalquivil, pois a ponte móvel que dá acesso a Sevilha está em manutenção.
A navegação pelo Rio é trabalhosa porque ele está assoreado, e há muitas curvas. Aqui é essencial um GPS com tracker, um ecobatímetro, além de planejamento do horário da navegação em função das marés na boca do rio e próximo a Sevilha. Há dragagem constante no canal e estacas com pneus nas margens para conter o processo de assoreamento. Jardim do Real Alcázar
A marina de Gelves conta com árvores nas margens que fazem alguma sombra e ajudam a pobre geladeira do barco a enfrentar o calor de 44º C às 15 horas. A temperatura da água do rio vai a 29ºC.
Da marina é fácil pegar um “autobús” com ar-condicionado para Sevilha, que passa a cada 15 minutos nos dias de semana pagando-se 1,35 euros o trecho, que se faz em cerca de 20 minutos.
Há muitos parques na cidade, realmente belos; são extensas áreas verdes irrigadas que deixam o ar mais fresco à sua volta. As fontes de água com motivos que vão dos querubins aos leões também ajudam a amainar o calor, assim como os “helados” (sorvetes), que são muito bons.
O calor faz com que Sevilha seja a cidade dos leques ou “abanicos”, de todos os tamanhos e cores, usados por jovens e senhoras, que podem ser feitos sob encomenda para bodas ou datas comemorativas. Há uma sala Plaza de Españade museu dedicada a eles, desde muito usados pela sociedade local, elaborados com estampas decorativas, pintados à mão, folheados a ouro, etc… Eu já ando com um; realmente, faz toda a diferença aqui.
Algumas construções de época são extremamente frescas por conta do alto pé direito, dos materiais usados e do sistema de ventilação, caso do Real  Alcázar, em parte erigido no séc. X, com elementos góticos eLa Giralda muçulmanos. Há alas fechadas, reservadas para uso atual pela monarquia.
Os mais importantes monumentos de época estão localizados no centro de Sevilha e podem ser visitados a pé, caso da Catedral de Espanha, dito o maior templo gótico do mundo. A poucos metros dela fica o “Arquivo das Índias”, um prédio reformado para abrigar documentos antigos da navegação, incluindo os da viagem de Cristóvão Colombo à América, com réplicas para visualização pelo público; a visitação é gratuita.
Há um Museu de Arqueologia na Praça das Américas, com vasto material sobre o homem pré-histórico e da cidade Itálica, pertencente ao Império Romano, desenvolvida às margens do Rio Guadalquivir. O único senão ao museu é a falta de ar condicionado para as amplas salas sem janelas, ninguém merece.
Atendendo a pedidos, seguem os preços de Sevilha. Os preços de refeições e de alguns produtos estão mais altos que em Portugal. O Big Pátio do Real Alcázar Mac que em Portugal era 2,90 euros aqui sai por 3,55 euros, e o copo de 500 ml de coca-cola a 2,55 euros, sem direito a refil. Não se come por menos de 12 euros por pessoa, vem menos servido, com bebidas e azeite à parte (isso mesmo, se você pede o azeite vem num potinho e é cobrado); em Portugal comíamos uma boa posta de bacalhau com broas, muitas batatas e regado a azeite por 8 euros por pessoa. Os preços de produtos de informática da FNAC estão mais altos que em Portugal, devem contar com um maior poder aquisitivo da população. O serviço particular de ônibus turístico promete mostrar a cidade por 16 euros, mas os principais monumentos estão no centro, o ônibus roda com o ar condicionado desligado e as janelas fechadas, com todos lá dentro a ponto de morrer, e o motorista ou para em cima da faixa de pedestres, ou passa no sinal vermelho, não recomendo. Arquivo das Índias
Exceção de preço é o da marina, a 13 euros por dia para o Luthier, mas é bastante singela, tanto que preferimos tomar banho no barco; tem serviço de internet (lento) e lavanderia.
Aos que adoram consumir, o “El Corte Inglés”, uma grande loja de departamentos, ainda tem liquidações (rebajas) de mudança de estação, e dá o desconto de 10% para estrangeiros, devidamente identificados, na compra de alguns produtos. Há uma loja do Decatlon perto da marina com bons produtos e preços excelentes. Não há milagre, os produtos são feitos na China ou Índia, para as grifes francesas e outras. A mão-de-obra barata desses países mudou o perfil do consumo e definiu o patamar de preços por baixo; a qualidade virou um detalhe a ser Salão do Real Alcázar conferido.
Como em toda cidade grande, há pedintes nas ruas, alguns barracos de madeira em baixo de pontes e consumo e venda de drogas à luz do dia, mas não nos sentimos ameaçados em nenhum momento.
Os moradores de Sevilha são muito expansivos e comunicativos, prestam informação e adoram conversar (nós também).
Estamos esperando uma boa maré (morta) e previsão de tempo adequada para descermos o Rio, provavelmente amanhã. Temos muita água pela frente, são mais de 3.000 milhas para voltar ao Brasil.

Catarina

*A palavra “corazón” é mencionada em 9 de 10 músicas espanholas que tocam nas rádios. Por coincidência, é como eu chamo aquele que anda precisando de chinelos, e beijinhos.

“Vale?”, o “v” com som de “b”, é usado pelos espanhóis a toda hora para conferir se você entendeu uma explicação, ou se concorda com ela; também pode ser afirmativo: “vale!”, para dizerem que concordam com o que foi dito.
É melhor que a comunicação dos brasileiros com os de língua hispânica seja em espanhol, porque se nós os entendemos mais ou menos, eles, pelo contrário, não entendem nada do que falamos, ou nos entendem muito mal. Não é má-vontade por parte deles, o português está mais próximo da língua-mãe, o latim, que o espanhol. Da mesma forma, os italianos nos entendem bem enquanto nós “boiamos” (via de regra) quando eles falam, pois eles falam quase o próprio latim. Por isso a importância de tentar falar a língua local.
“Deixe comigo”, disse ao Dorival, “eu falo o espanhol”, porque muitos dos meus livros de faculdade eram nessa língua e eu precisei fazer um curso rápido na época (tempos idos, há muitos anos).
Praça de Chipiuna
A palavra mágica em qualquer país é obrigada (o), que aqui se diz “gracias”. Então, começamos a ouvir “gracia”, no singular, e o Dorival me disse que eu estava falando errado. Achei estranho e fui consultar uma conhecida de um barco, moradora de Sevilha; veio a explicação: o andaluz (morador de “Andalucía”) corta o final das palavras, mas o correto é “gracias”. Viu, Dorival? Meu espanhol “es perfecto”! Mais que o dos locais! A bem da verdade, até criancinhas de 5 anos me corrigem.
Aqui vemos a cara da crise européia: muitos imóveis à venda, lojas fechadas, inclusive as náuticas próximas à marina, e a marina vazia de visitantes. Apesar disso, Chipiona está lotada por ser uma cidade de praia e por ser temporada de férias na Europa; por conta disso os preços são altos. Em setembro tudo deve voltar ao normal.
Mesmo com a crise, aqui fecham o comércio para a “siesta”, a yoga dos espanhóis. Entrei em uma padaria próximo da uma hora e a dona me disse que já estava “cerrando”. Sem chance de comprar, sai. A “siesta” em parte se explica pelo calor daqui, de 35 a 40º C, só volta a refrescar à noite. O calor é seco, premiado com o vento vindo do Saara que traz junto uma poeira avermelhada. A paisagem é árida.
Talvez por conta do calor, do sol forte, os dois tripulantes do Luthier ficaram meio esquisitos (no sentido dado na lingua portuguesa) esses dias, com o corpo doído e espirrando. Resolvemos tirar uns dias para descansar. Acho que pegamos uma gripe espanhola, exagerei, um vírus espanhol.
O presunto, ou “jabon” aqui não é bom. É MUITO BO
Rua de ChipiunaM, nunca vi coisa igual. A cerveja também, tomada em pé do lado de fora dos bares com “tapas”, petiscos de frutos do mar servidos em pequenos pratos, usados justamente para “tapar” a bebida no passado, assim como aqueles saquinhos de papel nos EUA . Então, o negócio aqui é beber de bar em bar. No fim de tarde na marina há alguns “borrachos”, mas não fazem nada mais além de pegar num violão e baterem palmas ritmadas, enquanto os de vozes mais fortes cantam umas músicas que parecem tristes, ou sofridas, com muitos “ai, ai, ai”, interessantes.
Também são bons aqui o melão, delicioso, e o limão, com muito sumo.
Amam cavalos! Em Sanlúcar de Barrameda, uma cidade a uns 20 minutos de carro de Chipiona, vimos uma aglomeração de pessoas com máquinas fotográficas e filmadoras e fomos conferir: estavam esperando uma corrida de cavalos na praia. Tínhamos esquecido a nossa máquina, que peninha. Há escolas para montaria, apresentações de coreografias de cavalos, etc… Quem tem cavalo sabe que esses bichos enxergam a alma das pessoas, é uma relação muito especial.
Este fim de semana vou render “gracias” ao meu pai. A subida do Rio Guadalquivir no domingo, dia dos pais, vai ser em honra a ele, para quem vai a mensagem: Pai, valeu! A sua filha tenta ser normal, está fazendo até crochê nas horas vagas (viu, mãe?). “Muchos besos”.

Catarina

Saímos da Ilha da Culatra, ontem, bem cedo, velejamos com vento de través muito bom até 25 milhas de chegar. Aí me lembrei das lestadas da costa do Brasil entre o Rio e Búzios. Foram 20 milhas com 25 a 30 nós de vento na cara. No estreito de Gibraltar estava força 8. Nada disso previsto pelos pelos modelos matemáticos. O mar dá para imaginar…
Fomos muito bem recebidos pela lancha da Polícia que me ajudou a entrar no estreito canal da marina, que têm um banco de areia de um lado e uma pedra do outro.
Depois de atracado, fomos fiscalizados até a alma. Passaportes checados, porões revistados e, pela primeira vez fora do Brasil, me pediram a “habilitação de que estou capacitado a navegar em mar aberto” (palavras deles). Foram muito simpáticos e fizeram a obrigação deles. Há muita apreensão de drogas em veleiros na Europa.
Alguma horas após o Luthier estar no seu cantinho na marina, já fomos convidados para tomar cerveja em um barco espanhol. O povo parece muito simpático, aparecem para dizer “ola” e ficam com aquela cara de curiosos, barco de longe aqui não é comum.

Dorival

Um tanque de guerra anfíbio veio para cima do Luthier ontem na Ilha da Culatra. Tínhamos acabado de chegar de terra, o Dorival ainda estava prendendo o bote e eu vi um barco de aço de uns 50 pés vindo em nossa direção. Seguiu-se uma correria para colocar defensas, segurar o tal barco e gritar para o seu comandante acordar; quando ele apareceu, pouco fez, ficou paralizado. A corrente do barco dele estava por cima da nossa. Nada mais a fazer senão pedir para o comandante tentar manobrar primeiro à ré e depois à vante. Deu certo! O gajo foi saindo depressinha, disse apenas “thank you!”, e foi ancorar longe de nós. Não entendemos porque um navegador solitário, que resolve dormir no fim Festa Nossa Senhora dos Navegantes de tarde, quando o vento sempre aperta, não coloca ao menos um alarme de âncora no GPS. Na quarta-feira já tinha havido um festival de barcos garrando na ancoragem da Ilha. Nesse caso, as condições conjuntas da maré vazante e ventos de até 25 nós fizeram o serviço. Ajudaram na bagunça aqueles que ancoram como se estivessem passeando no jardim da infância: jogam o ferro e continuam dar à vante, depois largam o mesmo como se este pudesse fazer o milagre de se enfiar sozinho na areia.
Ficar ancorado é isso, estamos sujeitos às condições do tempo e temos que tomar conta do barco nos horários de pico do vento, por nós e pelos outros. Por outro lado, ficamos filados ao vento, temos privacidade, água limpa em volta (apesar de gelada), e tudo isso sem custo.
Fizemos uma viagem tranquila de Lisboa até aqui, tranquila até demais. Tivemos muito pouco vento até o Cabo de São Vicente, na ponta sul do país. O que nos salvou, novamente, foi a vela gennaker. Exatamente no tal Cabo a situação mudou; do nada, os ventos passaram de 6 para até 30 nós, e o mar ficou picado. Resolvemos parar na primeira enseada depois do Cabo, a de Sagres, esperar o amanhecer para continuar a viagem e enxergar os muitos espinhéis e redes de pesca junto à costa.

Não é mentira, não. Sem ondas com 6 nós de vento real


A costa sul de Portugal tem uma paisagem de falésias muito parecida com as do nordeste do Brasil, mas sem dunas, e com umas cavernas cavadas na terra pela ação do mar, que aqui pega pesado no inverno.
Quando chegamos em Portimão fomos direto para a Marina, mas saímos dali rapidinho para ancorar nas proximidades. O motivo: a diária deFalésias 43,42 euros, preço da temporada de verão. Detalhe, a marina estava vazia, com muitas vagas. Ou querem ganhar no preço alto, ou contam com os turistas que ainda devem chegar para passar as férias de verão em Portugal. Portimão, que aqui pronunciam “Purtimão”, é uma cidade grande, cheia de atrações turísticas, palcos armados para shows na praia, com muito movimento de lanchas e jet-skys. Talvez seja um bom lugar para abastecer o barco antes de retornar para o Brasil, quando terá passado o efeito da temporada.
Hoje na ancoragem da Ilha da Culatra há uns 100 barcos, com cruzeiristas do mundo todo. Aqui temos internet grátis, patrocinada pela cidade de Olhão, mas com a desvantagem de cair a todo o tempo, para Porto de pesca na Ilha da Culatraque ninguém ocupe a rede com “downloads”. A vila da ilha tem alguns pequenos mercados e restaurantes. A água do mar é esverdeada, rica em plâncton, e por isso mesmo há muitos peixes e intensa atividade pesqueira; alías, nunca vi tanta rede de pesca junta num porto. A ilha parece a de Itaparica na Baía, pelas coroas expostas na maré baixa, com a diferença que o ar aqui é muito seco, e a paisagem mais árida. Durante o horário de maior calor o comércio fecha, por duas horas; pudera, do outro lado já está a África e o deserto do Saara. 
Temos sentido a crise na Europa, com notícias de desemprego, corte de salários e gratificações, e aumento da violência urbana em vários países. No Brasil, vivemos crise por muitos anos seguidos, sabemos conviver com elas, mas aqui não estão acostumados. Alguns países tentam culpar os outros da comunidade européia pela situação em que estão. Algumas reações enaltecem o próprio país e o nacionalismo; isso é perigoso, dá espaço à intolerância em lugar de soluções criativas.
Sobre a reforma ortográfica da língua portuguesa: Portugal vive um outro desafio, o de se adaptar à escrita de palavras sem o “c” ou “p” mudos, caso de “actulização, protector, e baptismo”, entre outras. Uma dificuldade a mais, motivo de pegadinhas e testes nos programas de Barcos preparados para procissão televisão. A reforma não vai mudar o uso de denominações diferentes para as mesmas coisas entre os vários países envolvidos na reforma. A língua portuguesa permite vários sinônimos para uma mesma palavra, justamente porque ela é rica, então, o uso de nomes diferentes não pode ser condenado, caso de “privada” para denominar “sanita”, ou “carteirista” para o “batedor de carteira”. Não há o certo nem o errado, há o diferente, porque diversas são as culturas.
Depois de tantos meses, voltamos a usar o bote inflável, o que significa “molhar a bunda” para chegar aos lugares quando venta muito (não tem como). Estávamos com saudades desta vida mais selvagem. 
Hoje é dia de festa da padroeira da ilha: Nossa Senhora dos Navegantes, com procissão marítima e tudo. Vamos participar e render as nossas homenagens, marinheiros que tentamos ser.

Catarina

Finalmente, o Dorival fez o polimento das peças de aço inox do barco, trabalho que ele vinha adiando há meses. O dia escolhido para isso foi o domingo. Lavando a targa
É um trabalho duro, não só pela esfregação, mas porque exige a desmontagem dos equipamentos todos, do bimini aos cabos de serviço. Eu não ia ajudar porque não tenho força para esfregar e porque já tinha que limpar o interior do barco.
Algum tempo depois que ele começou a faxina apareceu o nosso vizinho Rui, do Veleiro Harmony, se oferecendo para ajudar. É prá já! Uma ajuda como essa não se dispensa.
Os moços trabalharam bem, tudo ficou brilhando. Depois de tudo terminado, o prêmio: saíram para velejar no Harmony, um barco de regata premiado em Lisboa. Tinha aquele vento característico daqui, de final de tarde. Pela carinha do Rui na volta, acho que a Saindo para velejar velejada foi boa. Eu e a Lena ficamos no Luthier, ela se recuperando da mão queimada, e eu terminando a minha faxina, com tempo suficiente para a minha aula de crochê.
Queimaduras no barco podem ser graves, mas essa da Lena não foi tanto assim, ainda bem. Ela se “magoou” fazendo um bacalhau para nós e para a família do Rui Silva, servido no Luthier, que abrigou 9 pessoas, incluindo os miúdos do Rui.
Foi uma profusão de queijos, pães e vinhos bons, entre eles um Moscatel servido como aperitivo. Foi a nossa despedida de Lisboa.
Não gostamos de despedidas. É sempre melhor imaginar que voltaremos Despedida no Luthierao porto que ora deixamos, e que vamos rever as pessoas amigas. A segunda parte é verdade, todos vão passar férias no Algarve, ao sul de  Portugal, e é para lá que também vamos amanhã.
A intenção é seguir para Portimão, aproveitando uma pequena janela de tempo, descansar e ir para a Ilha da Culatra. Depois de rever nossos amigos na Ilha da Culatra, pretendemos subir o Rio Guadalquivir até Sevilha, e assim começaremos a voltar para o Brasil, bem devagarzinho.

Catarina