sex 30 set 2011
AS PEDRAS DA MADEIRA
Escrito por: Catarina
[5] Comentários
Não se pode jogar ferro em qualquer lugar na Madeira. A ilha é cercada por pedras, incluindo as praias, formadas por seixos. Em fundos de seixos a tensa não é boa. Nos de seixo e areia daqui também há pedras isoladas, menos mal que podem ser vistas a olho nu com mar calmo, porque a água é transparente.
Apesar de não propiciarem o fundeio, as pedras da ilha formam lugares únicos, bonitos e interessantes, em terra ou para mergulho. Nas praias, é fantástico o som da água do mar escorrendo pelos seixos.
A cidade de Machico trouxe areia do Marrocos para cobrir os seixos. A Ilha de Porto Santo se tornou o destino turístico preferido dos daqui, para veraneio e fins de semana, porque a praia de lá é de areia. Bom para o navio “Lobo Marinho”, que faz diariamente o trajeto Madeira-Porto Santo.
Muitos saíram da marina em que estamos, nesses últimos dias, para as Canárias, justamente porque lá tem como ficar ancorado. Só não entendemos saírem em dias sem vento, e sem previsão de que ele virá; vão motorar por cerca de dois dias, deliberadamente.
Hoje foi dia do Dorival mergulhar nas águas transparentes e geladas daqui (23ºC), aproveitando o tempo aberto e o mar calmo para fazer uma inspeção nos anodos, e no casco. A água gelada tem suas vantagens, não cria as cracas, só umas pequenas e isoladas conchas, que saem ao
toque. A menor quantidade de sal também favorece os anodos, que não precisaram ser trocados.
Estamos preparando o barco para a longa viagem que temos pela frente. Todos os sistemas estão sendo inspecionados, preventivamente. Falta pouco para ficarmos em total paz de espírito.
Acordamos no escuro para trabalhar, pois a ilha segue o horário do continente, de 1 hora UTC a mais, enquanto deveria ser de 1 hora a menos pelo fuso.
O moço deste barco tem trabalhado um bocado. Como mimo, preparei para ele uma comida feita em Portugal: Pimentos recheados ao forno. Desta vez, acho que fui mais feliz.
Para servir o prato, vale regar com qualquer azeite de Portugal. Ao con
trário do que muitos pensam, o azeite com acidez alta, perto dos 2%, é o preferido de muitos em algumas regiões do país; nós não arriscamos.
E a falta de vento, ou o vento contra, têm feito o pessoal da mini transat ficar patinando no lugar. Nem supomos quando poderão chegar. De qualquer forma, a marina de Funchal já está sendo esvaziada, com muitos barcos vindo para cá. Também vêm para esta marina o “Rallie Iles du Soleil”, de cerca de 30 barcos; depois de passarem nas Canárias e em alguns países da África, seguirão para Salvador.
Os cariocas se dariam muito bem por aqui. Na Madeira, como eles, falam com o “s” carregado; por vezes, é difícil entender. Então, “nós” vira “nóSSS”; espelho, eSSSpelho. Até o “x” puxa para o “s”, experiência vira “eSSSSperiência.. Ainda bem que alguns falam uma linguagem voltada especialmente para nós, do interiOR de São Paulo, caso da propaganda da “Worten” (que se pronuncia “Vortem”), uma rede de loja de departamento. O slogan de sua campanha na televisão é “WORTEM SEMPRE!”.
Tomamos conhecimento de dois casos de roubo de barco, anunciados no quadro da marina, ambos neste ano. Uma das ocorrências foi na França, e outra na Grécia. Veja bem, não levaram apenas um cabo, uma defensa, ou um par de óculos largado no convés, levaram o veleir
o todo. O mais triste é o proprietário relatar em quais dos bordos consta o nome do barco, e concluir que este já deve ter sido alterado. Não dá para relaxar, há deliquência em qualquer lugar.
Fim de semana chegando e os trabalhadores deste barco querem mesmo é relaxar. Um passeio no teleférico daqui é uma possibilidade. É preciso só me convencer, pois não gosto de altura, nem de avião. Explico: o mar dá sinais de que o bicho vai pegar, e você se prepara: riza velas, muda o ângulo da embarcação com as ondas, reza, acende uma vela, etc… No ar não há esse tempo. Pensando bem, melhor andar sobre seixos e pedras da Madeira, à beira-mar.
Catarina