setembro « 2011 « Bem-vindo a bordo!

Archive for setembro, 2011

Não se pode jogar ferro em qualquer lugar na Madeira. A ilha é cercada por pedras, incluindo as praias, formadas por seixos. Em fundos de seixos a tensa não é boa. Nos de seixo e areia daqui também há pedras isoladas, menos mal que podem ser vistas a olho nu com mar calmo, porque a água é transparente.Praia de seixos
Apesar de não propiciarem o fundeio, as pedras da ilha formam lugares únicos, bonitos e interessantes, em terra ou para mergulho. Nas praias, é fantástico o som da água do mar escorrendo pelos seixos.
A cidade de Machico trouxe areia do Marrocos para cobrir os seixos. A Ilha de Porto Santo se tornou o destino turístico preferido dos daqui, para veraneio e fins de semana, porque a praia de lá é de areia. Bom para o navio “Lobo Marinho”, que faz diariamente o trajeto Madeira-Porto Santo.
Muitos saíram da marina em que estamos, nesses últimos dias, para as Canárias, justamente porque lá tem como ficar ancorado. Só não entendemos saírem em dias sem vento, e sem previsão de que ele virá; vão motorar por cerca de dois dias, deliberadamente.
Hoje foi dia do Dorival mergulhar nas águas transparentes e geladas daqui (23ºC), aproveitando o tempo aberto e o mar calmo para fazer uma inspeção nos anodos, e no casco. A água gelada tem suas vantagens, não cria as cracas, só umas pequenas e isoladas conchas, que saem ao Lobo Marinho em Porto Santo toque. A menor quantidade de sal também favorece os anodos, que não precisaram ser trocados.
Estamos preparando o barco para a longa viagem que temos pela frente. Todos os sistemas estão sendo inspecionados, preventivamente. Falta pouco para ficarmos em total paz de espírito.
Acordamos no escuro para trabalhar, pois a ilha segue o horário do continente, de 1 hora UTC a mais, enquanto deveria ser de 1 hora a menos pelo fuso.
O moço deste barco tem trabalhado um bocado. Como mimo, preparei para ele uma comida feita em Portugal: Pimentos recheados ao forno. Desta vez, acho que fui mais feliz.
Para servir o prato, vale regar com qualquer azeite de Portugal. Ao conPimentos Recheadostrário do que muitos pensam, o azeite com acidez alta, perto dos 2%, é o preferido de muitos em algumas regiões do país; nós não arriscamos.
E a falta de vento, ou o vento contra, têm feito o pessoal da mini transat ficar patinando no lugar. Nem supomos quando poderão chegar. De qualquer forma, a marina de Funchal já está sendo esvaziada, com  muitos barcos vindo para cá. Também vêm para esta marina o “Rallie Iles du Soleil”, de cerca de 30 barcos; depois de passarem nas Canárias e em alguns países da África, seguirão para Salvador.
Os cariocas se dariam muito bem por aqui. Na Madeira, como eles, falam com o “s” carregado; por vezes, é difícil entender. Então, “nós” vira “nóSSS”; espelho, eSSSpelho. Até o “x” puxa para o “s”, experiência vira “eSSSSperiência.. Ainda bem que alguns falam uma linguagem voltada  especialmente para nós, do interiOR de São Paulo, caso da propaganda da “Worten” (que se pronuncia “Vortem”), uma rede de loja de departamento. O slogan de sua campanha na televisão é “WORTEM SEMPRE!”.
Tomamos conhecimento de dois casos de roubo de barco, anunciados no quadro da marina, ambos neste ano. Uma das ocorrências foi na França, e outra na Grécia. Veja bem, não levaram apenas um cabo, uma defensa, ou um par de óculos largado no convés, levaram o veleirMarina Quinta do Lordeo todo. O mais triste é o proprietário relatar em quais dos bordos consta o nome do barco, e concluir que este já deve ter sido alterado. Não dá para relaxar, há deliquência em qualquer lugar.
Fim de semana chegando e os trabalhadores deste barco querem mesmo é relaxar. Um passeio no teleférico daqui é uma possibilidade. É preciso só me convencer, pois não gosto de altura, nem de avião. Explico: o mar dá sinais de que o bicho vai pegar, e você se prepara: riza velas, muda o ângulo da embarcação com as ondas, reza, acende uma vela, etc… No ar não há esse tempo. Pensando bem, melhor andar sobre seixos e pedras da Madeira, à beira-mar.

Catarina

Não deu certo o nosso bacalhau. Quis fazê-lo com broas, em postas altas. Pedi à pessoa errada para escolher o bacalhau no supermercado: um brasileiro, o Dorival. Só vi o que ele tinha pego quando fui fazer o prato:Farol da Ponta de São Lourenço um bacalhau do Pacífico. Em pleno Atlântico Norte! Absolutamente, não tem o mesmo sabor. Também a pessoa errada comprou a broa: eu mesma. Li “bolo de milho” na embalagem e conclui que, como aqui chamam bolo o que é pão, isso não deveria ser bolo, mas pão, ou “broa”. Não era, era um bolo mesmo, docinho. O que fazer? Fazer assim mesmo! Já tínhamos comprado tudo… Saiu um previsível GRUDE. Não foi o primeiro, nem será o último. Por isso, aviso, se forem convidados para uma bacalhoada no Luthier, declinem.
A Marina em que estamos é distante de tudo, não há qualquer vilarejo na pista, então, o jeito é fazer gororobas. Resolvemos parar uns dias para cumprir as fainas  pendentes do barco, desde lavar a roupa acumulada a resolver problemas como a instalação do botijão de gás, que acabou durante a viagem para cá, e dar uma atenção especial ao motor, que fez aniversário de 1.000 horas, percorridas em dois anos e nove meses.Rua do Funchal
A Marina oferece carona (aqui dizem “boléia”) numa “carrinha” (caminhonete) até os supermercados da cidade de Machico. Também se pode pegar um ônibus na pista para ir até Funchal, que demora cerca de 1 hora e meia para chegar ao destino. A maioria aluga carro, é o que pretendemos fazer para conhecer o outro lado da ilha.
A marca desta ilha, que a distingue dos Açores, é sua alta densidade populacional, concentrada ao sul do território. São muitas as Venda de Flores e Plantas no Funchal construções, de residências, estradas e pontes, mas por outro lado, não se vêem pastagens com gado bovino, nem a produção de laticínios. Então, apesar de ambos os arquipélagos serem de origem vulcânica, o uso que se fez da terra foi completamente diferente.
A Madeira é uma ilha muito grande, que propiciou a construção civil, de primeira linha, aqui se diga. Além do forte turismo, possuem fábricas de calçados, bordados, plásticos, máquinas de costura, e produtos ligados à cana-de-açúcar. Também produzem vinhos, do tipo licoroso, para aperitivo.
O que se nota em qualquer território português é o capricho. Em qualquer pedaço de terra fazem jardins, com rosas e outras plantas, e cultivam hortas. Aqui há a produção de flores variadas, vendidas por pequenos produtores no comércio local. Estão tentando eliminar das matas as hortênsias, que seriam uma espécie invasora na região.
Finalmente, encontramos bananas de produção local. Boas e doces! Mas atenção, não as compre no Mercado dos Lavradores, Funchal quiseram nos cobrar quase 1 euro por banana! Paga quem quer, porque nos supermercados esse é o preço por quilo. Mas, lugares turísticos, como esse se tornou, vivem uma outra realidade. É por estas e outras que procuramos lugares comuns para fazer compras e se alimentar, são melhores e mais baratos.
Aqui é tão turístico que por onde vamos falam conosco em inglês. É a nossa indumentária internacional de cruzeirista “plus” a minha cara, que acham que não é de brasileira; puro desconhecimento, pois o brasileiro tem qualquer cara, é um país de imigrantes e, por isso mesmo, nosso passaporte é tão valorizado internacionalmente, para tretas e falsificações, infelizmente.
Os bordados da ilha são realmente bonitos, mas são para turistas: um lençol de casal bordado com ponto Paris nas bordas sai por 400 euros. Na Casa do Turista, onde também fabricam os bordados, a vendedora questionou o fato de brasileiros estarem procurando bordados: “Mas vocês têm bordados no Brasil!”. Isso mesmo, temos as bordadeiras do nordeste, e de Santa Catarina, que não ficam atrás; assim, por que pagar mais caro?
Aqui é tudo muito calmo, ruas muito limpas, povo educado, é o nosso lPraça em Funchalugar escolhido para descansar e arrumar o barco. As Canárias estão lotadas, todos estão indo para lá.
Não é porque gostamos daqui, e temos muitos amigos portugueses, que vamos deixar de torcer para o Brasil na “Mini Transat 2011”. O favorito é um português, mas nosso representante “Kan Chuh”, da Bahia, já fez bonito ganhando uma prova da competição com o seu veleiro VMAX. O moço diz que não vai fazer loucuras para ganhar a regata, no que está muito certo, mas sabemos que dentro de nós há uma “besta”, que pode acordar nessas horas. Falando sério, o importante é participar, não ganhar, e o Kan Chu é um desportista de primeira, o conhecemos na época da Refeno de 2009 e pudemos constatar. Vamos torcer e esperar por ele em Funchal!

Catarina

O Bolo do Caco é uma especialidade do Arquipélago da Madeira.
“Quem é o Caco?” Saímos perguntando na Ilha de Porto SantBolo do Cacoo. “É uma chapa de ferro”, nos explicaram. Então, o Bolo do Caco é, na verdade, um pão salgado em formato redondo, macio como um bolo, assado numa chapa de ferro, que se corta ao meio para colocação do recheio de manteiga d´alho ou carnes fatiadas.
Comemos do tal bolo no Festival do Colombo, em Porto Santo, e na Festa em homenagem à Nossa Sra. Da Piedade, na Ilha da Madeira, aonde chegamos no sábado.
Enquanto o Festival do Colombo é uma festa pagã, animada por teatros de rua, a de N. Sra. da Piedade é uma festa religiosa dos pescadores da cidade de CaCaravela trazendo Colombo para Festaniçal, que em procissão marítima levam a imagem da Santa de uma igreja para outra.
Na Ilha da Madeira há pesca ativa do atum, com barcos pesqueiros apropriados. São estes barcos e seus marinheiros que fazem a festa, em agradecimento aos bons dias passados no mar.
Talvez tenha sido um atum que tenha levado a nossa rapala grande de pesca, num único puxão, quando nos aproximávamos da Ilha da Madeira. O Dorival colocou, então, uma rapala menor, e fisgou um Dourado, não muito grande, mas que serviu bem para a moqueca do jantar.
Na Madeira atracamos na Marina Quinta do Lord, situada a uns 5 Km de Caniçal, e a uns 40 Km de Funchal. A notícia quAtunzeiros enfeitados para procissãoe tínhamos é a de que a Marina de Funchal, melhor localizada, estava lotada, e que no final deste mês todos os barcos terão que sair de lá para cederem lugar aos da mini-transat. 
No mesmo dia em que saímos de Porto Santo, saíram outros 5 barcos, franceses, holandeses, e ingleses, para aproveitar uma pequena janela de tempo. Estamos com os mesmos vizinhos de lá.
Em Porto Santo, alguns holandeses e franceses queixaram-se de terem tido um tratamento rude por parte dos portugueses. Em nenhum momento pudemos presenciar qualquer falta de cortesia por parte deles, deve ter havido algum problema de comunicação. De qualquer forma, aDouradocho que os portugueses têm lá suas razões para ficarem com o pé atrás. Na marina, nos disseram que alguns cruzeiristas destas nacionalidades costumam sair sem pagar a conta, descumprem regras, aprontam pela cidade, e volta e meia fazem pouco caso dos  portugueses.
Acho que alguns destes estrangeiros estão precisando vestir as sandálias da humildade. Até para cima de nós, brasileiros, vieram posar de bacanas. Um holandês me disse estar inconformado com o que o Brasil faz com a Amazônia, depois de dizer que o seu país adota muitas crianças brasileiras em situação de miséria. Minha resposta: vocês muito fariam pela Amazônia se não comprassem a madeira extraída ilegalmente, além disso, o que vocês fizeram com as suas florestas? Problemas há , mas cada macaco no seu galho. Por fim, sugeri que ele fosse tomar banho (e trocar de roupa), porque o dele estava vencido há muito tempo.
Não estou generalizando, temos bons amigos franceses, que são muito gente fina. Acho até que, se pelo mundo afora tivesse a mesma quantidade de brasileiros velejando, alguns poucos poderiam fazer uma fama ruim, e o restante pagaria.Festa Nossa Senhora da Piedade - Caniçal
Aqui também há muitos barcos que vão compor a ARC, um grupo de 200 barcos que sairão das Canárias com destino à Santa Lucia, no Caribe, em novembro. Se formos fazer a conta da população total embarcada, serão ao menos 400 pessoas. Pergunto: você nadaria em uma baía com duzentos barcos ancorados? A questão ambiental também tem que ser pensada: os peixes que podem se escafedem do local super povoado por humanos, mas o coral, um organismo vivo muito delicado, pode até morrer com essa maciça presença estranha ao meio, e levar muitos anos para se recuperar.
Durante muito tempo, encarei como abusivas as taxas ambientais Festival do Colombo - Porto Santo cobradas em Fernando de Noronha, e mesmo em Abrolhos, mas hoje acho que deve haver limitação ao turismo em massa, e o preço cobrado é uma linguagem que este pessoal entende. Obviamente, essa não pode ser uma medida isolada, nem elitista.
Um nome de barco, que vi por aqui: “Next Chapter”. Resume a vida do cruzeirista, sempre querendo conhecer um novo lugar, ter uma nova estória para contar.

Catarina

Amigos, valeu a pena chegar aqui em Porto Santo. Digo isso porque reclamei de gastar para tirar o visto, e agora mudei de idéia. A ilha é árida, mas é bem interessante. Marina
A navegação desde Lagos até Porto Santo foi muito diferente das outras que fizemos. Saímos sabendo que encontraríamos mar alto logo após o Cabo de São Vicente, e depois de dois dias uma pequena calmaria e algum vento contra até a chegada. Não era uma previsão maravilhosa, mas nas semanas anteriores tinha nada de vento ou nortada, com mar de mais de 3 metros.
Lagos ficou para traz às 8:00 hs UTC. No motor, sem vento, chegamos até o Cabo de São Vicente, onde entrou o NW prometido, e com mar calmo fomos, velejando, enfrentar uma fila de navios que vai e outra que volta navegando, entre 10 e 15 nós, sem a menor intenção de facilitar nossa passagem. Tivemos que parar o Luthier paPonta da Calhetara esperar dois deles passarem. Daí por diante vocês já conhecem a estória. A previsão não se confirmou, especialmente quando estávamos a menos de 100 milhas das ilhas. Há uma espécie de micro clima aqui. Na Ilha da Madeira chove e venta de um lado, enquanto do outro faz  sol sem vento. Em Porto Santo fica tudo nublado e aberto duas vezes ao dia e para azar  deles, chove a 3 milhas a E da ilha. Não há modelo matemático e força computacional que dêem conta disso.
Deu para sentir que as previsões não iam se confirmar. No fim do segundo dia, tivemos ondulações de duas direções distintas, NW com 10s e SW 8s, ambas com 1,5m metros, mais ou menos, só que quando juntavam em fase, formavam paredes de 3 a 4 metros. Uma espécie de Praia Douradapico de água que quebra na crista. Isso acontecia a cada 10 minutos. Eu as via passar distantes do Luthier, porque a largura dessas massas de água não passava de uns 50 metros, ora seguindo para um lado, ora para outro. Duas paredes dessas com uns 2,5 metros passaram por nós. Uma delas, com uns 3 metros, quebrou bem em cima da proa;  só fez barulho, não estragou nada.
Quando a pressão barométrica começou a cair eu achei que o vento previsto ia entrar. Nada, eu só via uma formação de nuvens em rabo de galo como se fosse uma frente fria que estivesse vindo, mas vento que é bom nada, só uma chuva 30 milhas a E da ilha. O mar foi se acalmando. Foram 87 horas de navegação, 40 delas no motor.
Chegamos com mar calmo. Já era noite e a confusão dPorto Santoe luzes dentro do porto, mais um vento que apareceu só para atrapalhar, não me deram confiança para tentar atracar o Luthier em um cais lotado. Assim, decidimos ancorar fora da marina, no abrigo do molhe do porto, para ir até a marina só no dia seguinte. 
No dia seguinte de manhã, a praia dourada, vizinha da marina, estava uma piscina; à tarde, a coisa já era diferente, a ondulação prevista de NW chegou. A praia tem face S, bem protegida, mesmo assim, tinha ondas com tubos quebrando fortemente. Um pescador me contou que do outro lado da ilha tinha ondas de mais de 3 metros.
OndaSanta Marias cruzadas também aprecem na Ponta da Calheta, onde há uma pequena passagem de mar entre a Ilha e o Ilhéu de Baixo.
Colombo viveu aqui 2 anos em um pequeno quarto onde era a casa paroquial. Casou-se com uma local em Lisboa. Durante esses dois anos ele intermediava o comércio de açúcar para a Itália. Apesar dos descobrimentos, no museu soube que ele acabou preso devido às intrigas. Será que ele entregou a mercadoria que vendeu? De qualquer forma, é um personagem da ilha. Hoje, 15 de setembro, começa o  Festival de Colombo. Uma festa de três dias que promete o seu desembarque na praia, trazido por uma réplica da caravela que ele usou, em tamanho real. Teatro e comes e bebes na praça fazem parte da programação.
Agora está chovendo na Ilha, e isso não estava previsto, coisas do micro clima da região.

Dorival

Dorival e Catarina estão chegando a mais um porto desconhecido. A previsão era de um vento favorável, de N e NE, que não se confirmou. Vamos aguardar o relato detalhado.
João

Segue o relato do dia:

10 de setembro de 2011
18:30 UTC

Posição: 33º 20′.05 N 
                  15º 54′.97 W

Navegação:

Rumo  =  225º
Velocidade =  6 nós 
Milhas Navegadas = 120 milhas nas últimas 24 horas
Distância p/destino = 23 milhas para Porto Santo

Meteorologia:

Vento = 2 nós direção variável 
Ondas = 2,5 mt  de WNW 9 s
Temp. do ar = 23ºC (10:00 local)
Temp da água  = 24,3ºC
Pressão Barométrica = 1019 hPa (baixando)
Céu claro e mar com ondulações altas 
Às 00:30 hs UTC de hoje o vento parou, ligamos o motor, meia hora mais tarde o vento voltou com 15 nós SW, e assim ficou até às 8:30 UTC, quando finalmente parou e estamos sem vento até agora. Decidimos motorar na direção da Ilha de Porto Santo porque esse vento diferente do previsto, as ondas aumentando, e muita nebulosidade, indicavam que algo estava diferente do esperado

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento N a NE  5 a 10 nós, ondas  NW 1,9 metros

Estratégia: Seguiremos direto para Porto Santo

Comentários: Voltaram os “swell” altos, vindos de longe; com o balanço trazido por eles, fica mais difícil fazer qualquer coisa. O vento voltou durante a manhã, depois miou.
Durante a madrugada, pedimos a previsão do tempo para um “cargo ship” de bandeira chinesa que passava ao largo. Primeiro, ele negou a informação, disse que não a tinha; depois, deve ter pensado melhor, e nos chamou de volta, informando que no domingo entraria o tempo ruim por aqui, com ondas altas geradas por uma baixa pressão. Já sabíamos da previsão para o domingo e resolvemos não arriscar. Pusemos o barco no rumo e ligamos o motor, para chegar ainda no sábado.
A coisa boa que aconteceu durante esta manhã foi um atum que mordeu a nossa isca. Foi assado com batatas, azeite e alho para o almoço. Os pássaros apareceram não sei de onde, tentando roubá-lo de nós; demos para eles, depois, o rabo e a barrigada.
Agora faz muito calor, 31º C. Depois dessa calmaria de ventos, deve vir a tempestade. Pretendemos chegar antes.

Catarina

ET: Chegada hoje às 22:30 horas UTC. Avistamos terra a 37 milhas de distância

Dois dias navegando em condições mais ou menos desconfortáveis e o velejador já começa a sonhar com batata frita, sorvete, picanha, banho de meia hora, novela na TV. Acontece com todos em maior ou menor escala. Dorival e Catarina seguem chacoalhando um pouco menos, agora com vento contra e ânimo renovado.
João

Segue o relato do dia:

09 de setembro de 2011
19:00 UTC

Posição: 35º 53′.76 N 
                  14º 22′.69 W

Navegação:

Rumo  =  212º
Velocidade =  5 nós 
Milhas Navegadas = 104 milhas nas últimas 24 horas
Distância p/destino = 144 milhas para Porto Santo

Meteorologia:

Vento = 10 nós de WNW 
Ondas = 1 mt  de WNW 9 s
Temp. do ar = 21ºC (10:00 local)
Temp da água  = 22,8ºC
Pressão Barométrica = 1013 hPa (estável)
Céu claro e mar calmo
Vento conforme o previsto e mar mais calmo que o previsto. Durante a noite, o mar e o vento foram se acalmando até que às 6:30 UTC tivemos que ligar o motor por falta total de vento. O vento retornou às 13:00 UTC, com 10 nós vindo de WNW. Desde então, estamos orçando 40º com o vento aparente, com pouco pano para andar no máximo a 5 nós, e adernar 5º apenas. Está muito confortável. Não temos pressa, pois sabemos que amanhã à tarde teremos um vento N para nos levar até Porto Santo

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento NW 10 a 15 nós diminuindo e rondando para N e NNE, ondas  NW 1,5 metros

Estratégia: Vamos continuar orçando devagar até o vento rondar

Comentários: É devagar, é devagar, devagarzinho que chegaremos lá. Pressa para que? Avançamos a 4,5 nós de velocidade, numa orça entre 30º e 40º, rumo SW. É o que temos, e está bom demais; o mar baixou e veio algum vento.
Providências posteriores deverão ser adotadas pela tripulação para alcançarem o destino final, qual seja, a Ilha de Porto Santo, mas essa é outra estória, faz parte de um outro “memorandum” de intenções.
Hoje foi dia de “relax”. Colocar o barco em ordem, tomar um banhão, sem pressa, e fazer uma comidinha com calma. Nossas obrigações foram verificar as velas, o rumo e os 360º à nossa volta; por vezes, surgia uma caixa de fósforos no horizonte, que em pouco tempo se transformava num “motor tanker” ao nosso lado, sem maiores problemas. Tivemos novamente a visita de golfinhos, desta vez, só de passagem. E assim o dia passou.
Já conseguimos pegar as rádios FM das Canárias. Parece um lugar bastante informal, ao melhor estilo latino. Anunciaram o restaurante “Barbacoa”, então, veio a doce lembrança da picanha feita por eles no Brasil, ao ponto, depois de deixar a carne transpirar no sal grosso. Isso existe? Já nem sei mais como é…Temos comido bem, não podemos reclamar, mas picanha boa só no Brasil. Também aceito a da Argentina. Ih, melhor ir parando por aqui, porque o que eu vou comer logo mais é um lanchinho de presunto e queijo. E não está bom?

Catarina

O Luthier segue com um mar desconfortável, um pouco acima do previsto, que deverá diminuir amanhã ao longo do dia. Em compensação, entrará um vento de W, desfavorável. Ainda bem que o comandante está ganhando barlavento o quanto pode para poder arribar amanhã. Enquanto isso, o Marrocos passa e deixa somente o incompreensível linguajar árabe nas rádios FM.
João

Segue o relato do dia:

08 de setembro de 2011
19:50 UTC

Posição: 35º 46′.32 N 
                  12º 26′.38 W

Navegação:

Rumo  =  260º
Velocidade =  5 nós 
Milhas Navegadas = 125 milhas nas últimas 24 horas
Distância p/destino = 248 milhas para Porto Santo

Meteorologia:

Vento = 9 nós de NE
Ondas = 2 mt  de NNW 9 s
Temp. do ar = 21ºC (10:00 local)
Temp da água  = 21,2ºC
Pressão Barométrica = 1015 hPa (baixando)
Céu claro e mar agitado
Vento conforme o previsto. Hoje pela manhã as ondas aumentaram muito e ficaram desencontradas. Optamos por baixar a mestra e a velocidade do barco para 4,5 a 5 nós, velejando só com a genoa. Agora as ondas baixaram e estamos velejando com a mestra e genoa nos segundos rizos

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento W a WNW 5 a 10 nós, ondas  NNW 2 metros

Estratégia: Vamos continuar reservando um pouco de latitude para poder arribar na chegada a Porto Santo, quando o vento previsto será de W ou WNW

Comentários: Foi uma noite de paredões de água vindos em nossa direção, vistos sob a luz da lua. Ultrapassavam o bimini, então, tinham mais de 2,5 metros. De onde teria vindo esse mar? Só pode ser do além… Isso mesmo, de além deste mar, longe daqui, pois não havia um vento local tão forte para gerar tudo aquilo. As ondas de longe se encontraram com as locais e geravam um movimento de fazer “milk-shake”.
Passam por este trecho muitos navios que seguem para a América do Norte, Inglaterra e países nórdicos, e os que voltam destes lugares, gerando um intenso tráfego, que nos fez ficar alertas a noite toda. Muitos asiáticos usavam o canal 16 para fazer brincadeiras (de mau gosto), e nem alertados por outros deixavam de fazê-lo .
Nas primeiras horas do amanhecer, tiramos a mestra, para derrubar a velocidade e bater menos; seguimos com um pedacinho de genoa a 5 nós de velocidade, em média.
Por tudo isso, estamos exaustos. O tempo vai melhorar, já pressentimos, aquelas 3 grandes ondas que aparecem juntas de vez em quando, estão rareando.
Epa! Em árabe não dá! Não dá para entender uma palavra das que as rádios FM estão anunciando, diretamente do Marrocos. A África é logo ali! Então, falta pouco para chegar no Arquipélago de Madeira, menos mau.
Como ontem, hoje tivemos um lindo por do sol.

Catarina

“Saudade, esse sentimento que os portugueses fizeram caber numa palavra”

O Luthier deixou o continente europeu hoje pela manhã. Estou de novo por aqui para re-transmitir o seu diário de bordo agora no rumo do Brasil com passagem pelas ilhas atlânticas.
Apesar de nunca ter pisado em Portugal, sinto saudades antecipadas dessa terra tal como Catarina e Dorival. A convivência virtual, a sua descrição dos costumes e lugares, o Google Earth, tudo isso permitiu-me essa experiência moderna. No título, um trecho da música de Chico Buarque.
João

Segue o relato do dia:

07 de setembro de 2011
19:00 UTC

Posição: 36º 33′.0 N
                  09º 51′.91W

Navegação:

Rumo  =  245º
Velocidade =  6 nós 
Milhas Navegadas = 65 milhas nas últimas 12 horas
Distância p/destino = 376 milhas para Porto Santo

Meteorologia:

Vento = 15 nós de ENE
Ondas = 3 mt  de NNW 9 s
Temp. do ar = 21ºC (10:00 local)
Temp da água  = 21,2ºC
Pressão Barométrica = 1020 hPa
Céu claro e mar agitado
Vento conforme o previsto. A ondas estavam conforme previsto, mas aumentaram bastante no fim da tarde

Previsão do Tempo: (próx. 24 horas): vento NNE 10 a 15 nós, ondas  NNW 2 metros

Estratégia: Vamos tentar reservar um pouco de latitude para poder arribar na chegada a Porto Santo, quando o vento previsto será de WNW

Comentários: Frustrando todas as expectativas, no cardápio de hoje não tivemos peixe.
Nas proximidades do Cabo de São Vicente tivemos que recolher a isca por conta do ataque de pássaros, que acompanhavam um grupo de golfinhos numa frenética caçada.
Muitos golfinhos vieram examinar o nosso barco, e nós pudemos examiná-los também: eram de um tom cinza claro com o dorso branco, com cerca de um metro de comprimento.
Mais à frente, avistamos outro grupo de golfinhos caçando, e os pássaros juntos.
Logo adiante, toda a nossa atenção foi voltada para a passagem de navios pelo “Canhão de São Vicente” (passagem organizada de navios). Mesmo navegando à vela, por duas vezes tivemos que parar o barco para dar prioridade aos navios.
Navegamos com ondas de lado, que judiam da tripulação. O capitão decidiu pegá-las mais de proa, ao invés de alheta, para ter água para correr quando o vento virar de proa, na sexta-feira. Reduzimos os panos para priorizar o conforto. Em síntese: o mar está bem chato.
O cardápio de hoje foi fusilli ao pesto (macarrão parafuso ao molho pesto).

Catarina

O título é apelativo: “Ilhas sob tormenta”. A narrativa é um lugar comum: a estória de uma mulher cujo marido, que ela supunha conhecer, e com quem viveu uma lua de mel numa ilha paradisíaca da Inglaterra, morre em consequência de um atropelamento; ela passa a tomar conhecimento da atuação profissional do marido, enquanto seus Praia em Lagos passos são seguidos por um homem de cabelos ruivos. A polícia prefere a tudo ignorar. Em jogo, a informação sobre minas inexploradas de metais preciosos. Quem resiste a um livro de bolso (previsível) enquanto espera a roupa lavar? Esse é um hábito nas lavanderias de marina de Portugal, desde Faial, nos Açores: uma estante com livros usados, deixados por  cruzeiristas na lavanderia. Não devem ser a melhor literatura, senão, ninguém os deixaria para trás, mas dá para se distrair enquanto a máquina faz o serviço por nós.
A Marina em Lagos é a primeira onde encontrei uma máquina de lavar com serviço exemplar: a roupa chacoalha durante uma hora, com água quente opcional, e há pré-lavagem. Sai por 3 euros, com o sabão incluído, e lava uns 6 quilos de roupa, uma pechincha.
Não é preciso limitar-se aos livros de marina, os de livraria aqui são Forte em Lagosmuito mais em conta que no Brasil. Muitos são feitos com papel reciclável, o que barateia o custo. Outra vantagem dessas livrarias é achar títulos na língua original, o que faz a diferença no entendimento, por mais que a leitura fique mais lenta, por conta do vocabulário. Encontrei aquele famoso livro do “Ken Follet”, “Os Pilares da Terra”, em inglês, num único volume, por 10 euros; no Brasil, dividem a obra em 3 livros e cobravam (não sei quanto está agora) cerca de R$30,00 cada; nem imagino o quanto sairia em inglês.Muralha em Lagos
O movimento em Lagos caiu a menos da metade com o fim das férias; os preços também. Continuam por aqui os muitos ingleses e alemães aposentados que elegeram Portugal para viver; fazem fila para ler anúncios de imóveis nas imobiliárias, com dizeres em inglês. O que atraem essas pessoas é certamente o clima, com um inverno menos rigoroso, o custo de vida mais baixo, e a discrição dos portugueses, que nada perguntam sobre a vida alheia, e pouco falam (até começarem a falar).
Foi uma inglesa, moradora daqui, que nos convidou a assinar um abaixo assinado para que não construam um resort que fechará uma das praias de Lagos. Contribuímos com nossa assinatura, afinal, a Europa já construiu demais na orla, quase não resta canto nenhum sem construção.
Tomamos uma decisão: depois de algumas reações não muito receptivas, paramos de oferecer ajuda nas atracagens no cais. No Brasil, somos orientados pela Marinha a ajudar na atracação, caso estejamos Rui e Lena em Lagos disponíveis, e é assim também por hábito cultural. Aqui os comandantes estranham essa ajuda. Uma pessoa nos explicou que ficar de prontidão para pegar cabos ou empurrar o barco a eles soa como uma interferência, ou como se estivéssemos a dizer que eles não são capazes de fazer a manobra sozinhos.
Os portugueses, por trás da fachada de durões, são uns corações moles, umas manteigas, se derretem todo com crianças, animais, ou com uma conversa sobre o mar. Falam mal de seus políticos como nós no Brasil, diferente dos nórdicos, que amam seus reis e rainhas, mas consideram que esses são problemas internos, que não dizem respeito a estrangeiros.
Em Portugal, veleiro usado é muito barato, e é fácil encontrar um em bom estado. Há muitos estaleiros na Europa, e aliado a isso, há mais veleiros em Portugal que em todo o Brasil, incrementando a oferta. Pena que não seja permitido internar um barco usado no Brasil.Ria de acesso para Marina em Lagos
Apesar de amantes da vela, os portugueses não costumam se arrojar em travessias na mesma proporção, nem adotar o barco como morada.
Estamos sem o Meclin (medicamento para enjôo), para os casos de necessidade. As farmácias daqui e da Espanha não o vendem, nem com receita médica, simplesmente, não há. Vendem apenas, para o mareio, o velho Dramim.
Não se compara uma farmácia daqui a uma drogaria no Brasil, com aquela gama de remédios e perfumaria à disposição, o que pode ser uma desvantagem nossa, pelo que pode significar o fácil acesso aos medicamentos. Aqui não se vêem produtos de higiene e beleza norte-americanos a que estamos acostumados; ou não são fabricados aqui, ou são barrados por algum tipo de protecionismo.
Ainda não dá para sair para Madeira, o tempo não deixa: vento contra na saída e/ou ventão na chegada, baixas pressões fazendo a festa. Resta esperar mais alguns dias. Enquanto isso, nós revemos o equipamentoObra - Av. dos Descobrimentos - Lagos , incluindo uma vela de temporal, que bem sabemos, pode ser útil na passagem entre Canárias – Cabo Verde e Brasil. O Dorival está gastando umas horas para arrumar o nosso lap-top, que cansado de balançar abriu o bico; é muito desaforo para um giroscópio (disco rígido), mas nada que o Dr. John Charles não dê jeito à distância, com os seus super softwares de ressuscitação.
O final do livro atormentado: não terminei ainda, este domingo é dia de lavar roupa, vou me inteirar.

Catarina

Amigos leitores

No texto abaixo “BOBOS E AZARADOS”, em alguns computadores, dependendo da configuração do “firewall”, a palavra “número” aparece em outra cor e sublinhada, tendo associada a ela  um link que oferece para você entrar um número de telefone e ganhar um Ipod 4. Obviamente, é uma armadilha externa. Não colocamos esse link no texto, nem ele está no servidor da Veleiro.net.

Não temos nada que ver com isso. Não  sei como isso é feito. Quando colocamos um link indicamos no texto claramente para que ele serve e o que você vai ver nele.

Esse link pirata aparece somente em um dos meus computadores.

Caso apareça no seu, não clique nele, não sei quais serão as consequências.

Dorival

OBS: talvez a palavra “número” neste texto também apareça como link.