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Caramba! Já tínhamos esquecido o quanto esse lugar é bonito! O mangue intacto, as coroas de areia expostas na maré baixa, as árvores frondosas espalhadas pela orla, o mar morno convidando ao banho, a rica vida marinha: essas são as paisagens da costa oeste da Ilha de Itaparica.
Itaparica 1 Pensamos em parar aqui por uns dois dias para mergulhar, verificar o fundo do barco, e seguir viagem para Morro de São Paulo e Porto Seguro, onde amigos nos esperam. Mas, as coisas não são bem assim na Baía de Todos os Santos, é difícil deixar qualquer lugar daqui para trás. Já foi um drama a despedida de Salvador; apesar de sofrida, a cidade continua com seus muitos encantos. E cantos, porque vive e respira a música.
Mas, estava na hora de tomar um banho de mar, nadar em volta do barco, ver o pôr do sol no horizonte, as estrelas à noite do cockpit do barco, e explorar um outro lugar.
Nessa época do ano o vento é menos intenso Itaparica 2na baía, então, a vinda para Itaparica foi à base da paciência, do “tac-tac” e da troca de lados das velas. Qualquer oportunidade que temos, velejamos, sempre aprendemos alguma coisa (mais eu),  praticamos e nos divertimos. Acreditem, achamos mais difícil velejar com pouco que com muito vento; realmente, aí reside uma arte.
A ancoragem nesta face da ilha está com menos embarcações que há cerca de dois anos, quando estivemos aqui nesta mesma época, por conta do menor número de embarcações estrangeiras (leia-se CRISE internacional). Há alguns Coroa e mangueveleiros de bandeira brasileira, convivendo com embarcações de pesca, lanchas potentes e outras menores, além de pequenos saveiros e canoas.
O desembarque é no cais da Marina da Ilha, onde, diferente do Caribe, ninguém prende o bote com cadeados e correntes. Ao lado da marina é mantida a fonte de água mineral da ilha, de acesso gratuito. Da ancoragem conseguimos acessar a internet wi-fi aberta da marina. Tudo isso não é um luxo?
Numa volta pela cidade de Itaparica, notamos que a ela está mais arrumada e limpa, com varredores de rua logo pela manhã, sinal de que faz diferença a atuação da administração local; continua singela, como uma cidade do interior, mas bonita. A igreja centenária foi pintada e, pelo visto, recuperada. Continua vagando pelas ruas uma senhora argentina que mora na praça, levando suas Luxo tralhas e seu gato por onde anda; certamente, foi acolhida pelo povo da ilha, não sobreviveria sozinha.
Saímos da rotina de cais de marina para viver com a nossa própria energia. Também deixamos de contar com o conforto da cidade, com lavanderias à disposição, então, o jeito é lavar roupa a bordo, atacando de vez o problema, para não acumular.
Como é que faz, já tem frente fria chegando no Rio de Janeiro. Será que esse ano essa estória vai antecipar? Logo, logo, bem sei, teremos que ir. Mas, aqui está tão bom. Não tenho vontade de ir embora, não.

Catarina

“Marinheiro, não deixe a barca virar!” É um ditado popular, bem anterior ao GPS e aos alarmes de segurança de última geração das grandes embarcações. Lembra da responsabilidade daquele que está no comando da embarcação.
Nos contava o Décio, do Veleiro Hot Day, que estava subindo a costa para Cabedelo em seu barco, fazendo um bom progresso na travessia, com as velas ajustadinhas, quando avistou os tripulantes de uma embarcação pesqueira fazendo sinais com as mãos. Chamou-a pelo VHF No Pelourinhoe… nada. E agora? Poderia ser uma armadilha, um falso pedido de socorro; além de tudo, teria que mudar o seu rumo para alcançá-la. Mas, a obrigação de homem do mar falou mais alto. Recolheu a genoa, ligou o motor, e foi em direção à embarcação. Ao se aproximar, ouviu dos tripulantes que o cigarro deles tinha acabado. Depois de quase xingar a mãe dos sujeitos, passou uns maços de cigarro para eles e voltou ao seu rumo. Estava sozinho, e teve que lidar com o medo, o cansaço e o imprevisto.
Ser um homem do mar é coisa séria. As decisões são difíceis, e devem ser tomadas com rapidez, por pessoas com preparo para o comando.
O acidente com o navio de cruzeiro na Itália tem causado muitas reflexões sobre comandantes e embarcações. Uma delas, o mito de que quanto maior, mais segura é a embarcação. Existe, obviamente, um tamanho mínimo para que a embarcação saia de águas abrigadas para mar aberto; o projeto da embarcação deve ser compatível para o que se propõe, ter autorização da marinha para tanto, tripulantes habilitados, e cumprir as normas de segurança. No mais, não há embarcação grande o suficiente para o tamanho do mar.
Não gosto da idéia de grandes aglomerações humanas, o que, por si só, podem ser um problema num momento de evacuação.
Em Salvador, temos visto destes navios de cruzeiro encostarem com frequência no Porto. Os comerciantes dizem que eles trazem poucos recursos à cidade, pois os passageiros se hospedam e fazem as refeições no navio, e nas compras, se limitam às lembrancinhas, pois ainda terão muitas prestações da viagem para pagar.
Quem procura, acha. O nosso barco só ia tomar um banho, daqueles

detalhados, com polimento do aço inox, lavagem de redes e cabos, eis que, ao desmontarmos a bóia salva-vidas, descobrimos que o seu cabo estava em estado não adequado, apesar de relativamente novo. Ao tirar a balsa salva-vidas do lugar, vimos que o peso dela estava marcando a pintura do barco, e expondo o epóxi ao sol. Também tivemos a idéia de colocar a segunda âncora do barco junto à outra, no lançante, só faltava um cabo forte para prender o apoio da corrente. A necessidade destas providências, e de mais algumas, adiaram a nossa saída de Salvador. Queremos sair nos trinques.
O acarajé é uma comida boa, mas, às vezes, damos azar de pegar uma barraca que vacilou na higiene ou na conservação dos alimentos. O Dorival foi uma vítima delas na última terça-feira à noite, quando fomos com uns amigos assistir ao show do Gerônimo no Pelourinho.
Até ele ficar bem, vamos dar um tempinho. Afinal, ele é que é o capitão, no comando da nossa embarcação.

Catarina

O Ensaio do Gerônimo acontece todas as terças-feiras, no Pelourinho. É de graça, bastante popular e informal, mas é muito bem produzido. Muita gente se acomoda na escadaria do Paço, aquela em frente à igreja onde foi filmado “O Pagador de Promessas”.

Dorival

Bateria femininaO dia da lavagem das escadarias da Igreja do Bonfim começou cedo. Às 7:30 da manhã, helicópteros de redes de televisão já passavam sobre as ruas da cidade baixa, e pessoas se concentravam em frente à Igreja de  N.SRA. da Conceição da Praia, de onde sairia a procissão às 10:00 horas da manhã. Em frente à igreja, montou-se um altar com a imagem de  Nossa Senhora, de onde seria celebrada uma missa. Coisas da Bahia: uma procissão puxada por baianas de vários candomblés, Gaitastrazendo água perfumada preparada em seus terreiros, com participação da igreja católica. Cada um na sua. O importante é pedir a proteção de Nosso Senhor do Bonfim, aquele que, segundo a crença, salva náufragos, cura doentes, e afasta, de última hora, as lâminas de punhais assassinos.
E de última hora, a nossa vizinha Rúbia, do Veleiro “Hot Day”, resolveu participar da festa; fomos atrás de camiseta e pulseira para ela, que se revelou uma ótima companhia, uma Baianasfesteira de primeira. O gerente da marina já tinha vindo nos chamar para o agito, ele que ia no meio da multidão, sem participar de bloco nenhum.
Quem não podia participar olhava com cara de desalento, afinal, este é um dia sagrado para muitos baianos; um dos que tinha que trabalhar nos disse, chateado: “é, meu amigo, o sistema é bruto”, parodiando um apresentador de programas policiais.
Filhos de GandhySaímos às 8:30 e o nosso bloco já estava nas ruas, depois de uma série de exercícios de alongamento feitos em frente à Marina, e uma oração.
Passando pelo Mercado Modelo, pudemos ver várias barracas montadas com comidas, e algumas pessoas comendo feijão com farinha, um prato reforçado para aguentar a caminhada.
Ao som da batucada das mulheres do bloco, e das gaitas tocadas por Beijinhohomens, fomos caminhando pelas ruas de acesso à igreja, antes das baianas; a intenção da organização era fugir do tumulto, chegando primeiro no Bonfim. Muitas barracas de ambulantes estavam montadas pelas ruas, com bebidas geladas, tabuleiros com acarajé, abará, cocada,  bolinhos de estudante, e mais delícias; os que não podiam sair de seus pontos de venda tiravam fotos do cortejo.
Não sei como seria ir no meio da multidão, mas o fato é que o bloco conta Chegandocom pessoas que tomam conta do movimento, isolam carros e pessoas alheias, e isso traz tranquilidade e segurança para curtir a festa. De estranhos, entravam no bloco os cachorros de rua, que desfilavam abanando o rabo, acostumados às festas e às multidões da Bahia. De qualquer forma, havia tantos policiais, em palanques e pelas ruas, que acho difícil que alguma ocorrência mais grave acontecesse. 
Assistindo a chegada Muitas pessoas acompanhavam das sacadas das casas, acenavam, e o Dorival até ganhou um beijo soprado por de uma senhora de cabelos brancos.
Passamos pela casa da imaculada Irmã Dulce, sentindo o cheirinho dos pães fabricados no local. Nos esperavam num portão diversas crianças com necessidades especiais, e o bloco parou para saúda-las. Tenho guardado comigo as fitinhas em branco e azul, distribuídas por uma irmã da casa; vão ser Cortejopenduradas na roda de leme do barco.
E foi assim, dançando, conversando, que nem vimos os quilômetros passarem; quando nos demos conta já estávamos a dois ou três de chegar. 
A emoção foi grande quando avistamos a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, cercada por uma multidão de branco.
Neste ponto, já estávamos extasiados com o cheiro de dendê onde os Igreja do Bonfim acarajés estavam sendo fritos, e como estávamos adiantados, paramos para comer numa tenda.
Não pudemos chegar perto das escadarias, a igreja é pequena para a  multidão estimada em um milhão de pessoas, com os lugares privilegiados para os políticos, os clérigos, e as próprias baianas, além da tropa de policiais. Então, fizemos o nosso pensamento, pedimos por todos e pelo nosso planeta, que já vimos, não é tão grande assim para aguentar tanto desaforo dos homens.
ConfraternizaçãoA festa continuou à beira da praia, onde sentamos com amigos e pessoas que ali conhecemos para tomar uma cerveja super gelada.
Aqueles que tinham vindo para a igreja de escuna, ou outra condução,  sofreram críticas do grupo, afinal, “quem tem fé, vai a pé”.
Foi um bom dia, de boa companhia, bom tempo, e bom astral. Um dia para ficar na memória.

Catarina

Festa? Que nada! Para que pequenos problemas não se tornem PROBLEMAS, resolvemos encarar a lista das fainas pendentes do barco. Foi uma semana de trabalho duro. Poderíamos adiar tudo para resolver depois, no sudeste, mas as coisas sempre podem se complicar no caminho.
A nossa lista começou pelo costado, para tirar a meleca dos decalques de regatas, principalmente, a de Horta à Terceira, nos Açores. As outras pendências: reparo no gerador eólico, que se negou a funcionar em determinada posição, dependendo da direção do vento; o nosso bote inflável, que precisava de acabamentos para que a madeira em que vai preso o motor não estragasse com o atrito; limpeza dos nossos tanques de água, que estavam com barro no fundo, mesmo com o nosso cuidado Lelê da Catarinade
filtrar a água na entrada. Etc, etc, etc…
Os serviços sempre demoram além do planejado porque em barco tudo é mais complicado, até para achar o material apropriado, como parafusos de aço inox. As instalações também nunca são triviais, precisamos fazer um contorcionismo que toma tempo.
As fainas do lado de fora têm sido sofridas, por conta do sol escaldante. Diferente do sudeste, que recebe chuvas pesadas nesta época, aqui acontece uma chuvinha de 10 minutos, e o céu torna a ficar totalmente aberto.
Em Salvador, tivemos uma boa surpresa: há internet wi-fi grátis, e de qualidade, bancada pela Prefeitura do Município.
Notamos que os preços dos produtos aqui variam muito de um supermercado para o outro. Os preços praticados por um atacadista próximo à Marina não são ruins, mas há muitos produtos no limite da data de vencimento. Em um outro supermercado, de varejo, tudo é mais caro, caso de um simples balde a R$38,00; por conta disso, chamamos a rede de “mau preço”. Nessa mesma rede, o serviço prestado é ruim, incluindo o açougue, que não faz cortes das carnes. Até o taxista que faz ponto no local criticou o estabelecimento; gosto da sinceridade do baiano. Nos resta tentar um terceiro supermercado antes de partir daqui.
Não entendi o preço da castanha do Pará em Salvador, de R$70,00 o quilo, no próprio país que as produz, se em Portugal eu pagava o equivalente a R$33,00. Era para as tais castanhas estarem em liquidação, depois que um famoso seriado sobre casos médicos, que meus pais assistem na TV, relatou uma intoxicação fictícia por selênio, nelas contido. No seriado, um paciente estaria às raias da morte por ter comido muito dessas castanhas, apresentando sintomas como se tivesse tomado uma forte radiação de selênio; nunca soube de um caso destes no Brasil. Tudo é estatisticamente possível, até discos voadores visitando nosso planeta, entretanto, nestes anos de viagem pelo mar, observando atentamente o céu à noite, nada vimos além de astros, estrelas cadentes e aviões. 
Também por estes dias recebemos a visita das irmãs francesas que aqui conhecemos há dois anos. Elas e seus amigos reclamaram do tempo que podem permanecer no Brasil, dizendo que o nosso governo é mau para com os velejadores. Não é bem assim, o governo brasileiro reduziu a permanência deles no Brasil em reciprocidade à mesma redução imposta aos brasileiros na França. Por conta desta medida, tem muito francês aqui escondido no Rio Paraguaçu, longe dos olhos da imigração.
Encontrei o lelê, aquele meu doce preferido, que vai bem com um cafezinho. Não paro de comer nem para posar para a foto.
Há uma febre na cidade de um brinquedo de duas bolinhas presas por um cabo, e o lance é bater uma bola na outra. As crianças, e até os adultos, andam pelas ruas batendo essas bolinhas.

Se for para se divertir, temos um convite para ir à lavagem das escadarias do Bonfim nesta quinta feira, no bloco do Gerônimo, que abre a procissão. Isso significa andar 3 km até a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, sendo que o lema é “quem tem fé vai a pé”. A amiga que nos convidou recomendou: “dinheiro, só na calcinha”. Ô loco! Isso não pode ser! Então, que vá na cueca!
Nosso Senhor do Bonfim é Oxalá, pelo sincretismo religioso.
Já compramos o ingresso que dá direito à camiseta e à volta ao Comércio de escuna. Com fé em Deus, estaremos lá.

Catarina

Vão dizer que em todos os lugares em que chegamos tem festa, assim foi em Portugal. Em Salvador, não poderia ser diferente. Todo o dia primeiro de cada ano acontece a procissão marítima de Bom Jesus dos Navegantes. É uma festa de devoção, em que a imagem do Bom Jesus é transportada da Capitania dos Portos até a Igreja de Boa Viagem, pela Galeota Gratidão do Povo, há 120 anos. Contam que tudo começou pelas mãos de capitães que transportavam mercadorias da África para o Brasil e queriam pedir proteção contra a pirataria, em meados do séc. XIX. AGaleota Gratidão do Povo procissão tem foguetório, barcos enfeitados, pessoas acompanhando em terra a imagem, realmente, um conjunto de passos emocionante de se ver.
O dia anterior, às vésperas do ano-novo, também foi de festa, porque viemos para uma vaga com água e energia na marina, e porque eu voltei para o Luthier.
Todo marinheiro é um observador perspicaz, até para coisas que nada tem que ver com a navegação. Assim, todos, mas todos da marina, da administradora à moça da lavanderia, vieram me falar que notaram a minha ausência, e que o Dorival estava cabisbaixo. Será que me contariam se ele não estivesse nesse estado de ânimo? Aí, já duvido, porque para esses assuntos impera a lei do silêncio.
O moço é bonzinho, eu sei. Só não encontrou nada do que eu deixei para ele na geladeira ou nos paióis, nem comprou frutas no Comércio; a cerveja, sim, ele encontrou e até colocou mais para gelar.
Para osMainha e Painho meus pais, a minha presença também foi uma festa, modéstia à parte. Eles se sentiram aliviados com o término de minha travessia.
Foram os meus primeiros dias dormindo em terra, na casa de meus pais, depois de mais de um ano balançando. Na hora de fazer as refeições, escolhi um prato fundo, sem pensar, e minha mãe me corrigiu, disse só se usava aquele prato para sopa, mas eu fiquei com a sensação de que ali a comida ia escorregar. No mais, o de sempre, “mainha” acha que eu estou em idade de crescimento, e preciso me alimentar.
Em Salvador, notamos que o Comércio, bairro em que está localizada a marina pública, na região central da cidade, está mais pobre, com mais lojas fechadas, ao lado dos imóveis abandonados. Mas, isso tem acontecido em várias cidades do país, com o advento dos “shopping centers”. Dizem que há um projeto de revitalização para as cercanias do Em Salvador porto, no Comércio, a exemplo do que foi feito em Lisboa, na Marina de Alcântara. Também há uma verba prometida para a marina pública, por conta da Copa do Mundo, ela que está com um cais em frangalhos, por conta do último inverno.
A temporada de verão chegou na cidade: há filas para tomar o Elevador Lacerda, muita gente nas ruas, muito calor, muita água de coco vendida como gelada em estado de morna, e preços em alta. Talvez seja a hora de se preparar para sair da cidade para um dos paraísos da Baía de Todos os Santos. Atrás de festas, pois!

Catarina