março « 2012 « Bem-vindo a bordo!

Archive for março, 2012

“Vocês são assim, meio indigentes, né?…” Foi como a atendente da empresa de telefonia celular nos definiu, quando dissemos que não tínhamos comprovante de endereço para contratar o serviço de internet 3G. Para nós, isso não foi ofensa nenhuma, até rimos. Se a nossa “casa” é o barco, o nosso endereço é o oceano em que estamos, mas isso, poucos entendem. Eu não tinha uma fatura do cartão de crédito, nem de contas a pagar, porque deixei tudo digital e em débito automático antes de sair do país, enviando o que assim não fosse para o endereço de mainha, que toma conta de tudo.
Rio de Janeiro Tivemos que contratar uma internet porque os nossos amigos do Brasil têm milissegundos de paciência com aqueles que não a tem, e ficam dando bronca por demorarmos a responder e-mails ou atualizar a nossa página na web. Para eles, a internet é como a cafeína, uma cachaça que cai na corrente sanguínea e vira necessidade. Depois de passarmos até 20 dias no mar sem ela, realmente, a internet não se torna um item de primeira necessidade.
Por motivos parecidos, compramos um chip da telefonia local. O brasileiro virou um fanático por celular, apesar (e talvez por isso) da ligação no país ser caríssima, comparada à de Portugal, e à de outros países da Europa.
Para resumir, somos os E.T.´s da nave branca, recém chegados em terra.
Nós, os marcianos, fizemos uma excelente viagem de Búzios ao Rio, aproveitando o vento ENE antes da frente fria. A chegada ao Rio é sempre deslumbrante, mesmo à noite. O arranjo harmônico dos morros, as luzes da cidade, o desenho da baía, tudo é fascinante. De dia, podemos confirmar a beleza do lugar, da mata que resiste nos morros, de árvores frondosas favorecidas pelo clima, apesar do avanço das construções. A única pena é a água tingida de marrom, um efeito qualquer causado por algas, pela saturação de matéria orgânica e poluição, um problema que chateia os fluminenses, e que poderia ser resolvido, a exemplo do que foi feito em outros países, mas exige a tal vontade política, além da educação do povo. Eu creio: ainda vai aparecer algum E.T. que vai rasgar a camisa por esse mar!
Viemos para o Rio Yacht Clube – Sailing, a convite da diretoria, o que Sailing muito nos honra, porque os daqui são realmente amantes da vela, desportistas e vencedores, inclusive medalhistas olímpicos, em várias categorias.
E se antes em todo o lugar que chegávamos havia FESTA popular, agora há GREVE. Aqui é a do transporte, que tem causado transtornos no trânsito. Para piorar a nossa situação, não podemos alugar um carro, estamos sem carteira de habilitação, que está vencida. Vamos de táxi, pegando trânsito.
Justiça seja feita, aqui teve festa, sim, e das boas, pelo pessoal do clube que conhecemos em uma situação não muito comum, na Refeno de 2010. O nosso encontro foi no próprio dia em que chegamos, no meio da semana, um esforço para eles, que são trabalhadores. É um pessoal gente boa, interessado em mar, em natureza, em uma sociedade melhor para criar seus filhos, em andar de barco de um lado para o outro, em competir de forma saudável, e em celebrar a vida. Ficamos com saudades deles só de pensar que a nave branca vai partir, e vamos ficar longe. Mas, atenção, a nave vai voltar, acreditem, trazendo os marcianos de volta para encontrar o que a vida tem de melhor: os amigos unidos pelo mar.

Catarina

Se os amigos têm milissegundos de paciência, não existe unidade para medir o tempo que tive para atender à determinação: “EU QUERO UMA SOLUÇÃO PARA INTERNET, HOJE!”, que recebi da Catarina. Missão cumprida, agora tenho milissegundos para publicar este texto.

Dorival

Desde que navegamos, nunca passamos por uma situação como a que vivemos ontem à noite, de total impotência perante as forças da natureza, e de total falta de controle da situação.
Estamos em uma poita do Iate Clube de Búzios, onde chegamos na última sexta-feira. Durante a viagem, ouvimos avisos-rádio informando a ocorrência de ventos fortes ao sul da área “charlie”. Nas proximidades de Campos-RJ, já avistávamos nuvens pesadas e muitos clarões de raios no céu, na região de terra. Por segurança, abortamos a ida à cidade do Rio de Janeiro, com receio de que a frente avançasse rapidamente e nos pegasse. Já tínhamos vivido uma situação de pré –frente nessa região, numa ocasião em que descíamos a costa e, na altura do Rio de Janeiro, o vento mudou de direção, o mar também, os pelos do meu braço arrepiaram, o barômetro caiu 3 mb rapidamente; entramos às pressas em Niterói e, assim que acabamos de amarrar o barco no cais do Charitas, chegou uma ventania de até de 40 nós que sacudiu tudo, cais e barcos, e que, depois soubemos, derrubou o palco em que o Guns And Roses ia se apresentar, causou desabamentos e queda de energia por toda a cidade. Mais que a chuva e a ventania, nessas ocasiões tememos os raios; em mar aberto, sem morro por perto, somos os pontos mais altos, os prováveis alvos.
Na sexta-feira aqui em Búzios, tivemos uma chuvarada e ventos de cerca de até 35 nós às 3 da manhã. Ligamos o motor, preparados para ancorar caso a poita arrebentasse, tudo sob nosso controle. Achamos que aquele tinha sido o efeito da frente no local, e que tinha passado. “Acho” não serve para nada. No final da tarde de sábado, muitos clarões de raios começaram a surgir ao largo, um destes caiu bem perto do nosso barco e alarmou a CPU de um dos nossos equipamentos eletrônicos, mas não houve danos. A partir daí, começamos a nos preparar para a chuvarada: chave do motor na ignição, âncora solta, controle do guincho ligado, maiôs, etc… Eis que a chuva chegou e, com ela, ventos que começaram em 10 nós, e rapidamente foram a 20, 30, 40, 50 e pasmem… 75 nós!!! O barco girava e adernava descontroladamente. As coisas dentro do barco caiam. O barulho do vento e os clarões de raios lá fora eram de arrepiar. Nos demos conta que nos esquecemos de tirar uma lona, que batia como louca, servindo de vela para mais confusão; o Dorival passou uma faca nos cabos, às pressas, e conseguiu tirá-la. Nada conseguiríamos com o motor, pois nada víamos sob a intensa chuva e o vento, e nada poderíamos fazer contra eles; caso a poita se rompesse, iríamos sair batendo nos outros barcos até parar na praia.
Pudemos ver a vela de um veleiro ao nosso lado se abrir e se desfazer, adotando a forma de um soutien. A loucura durou cerca de meia hora.
Chamamos o Weber do Veleiro Acauã pelo rádio, que contou seu drama: foi parar na praia. Ele estava no ferro. Além de tudo, quando seu barco adernou sob a ação do vento, embarcou água. Ele conseguiu desencalhar e foi ancorar mais distante. Nesse meio tempo, viu as velas de um outro barco se abrirem e rasgarem.
Hoje é dia de consertos. Ao nosso lado, há uma escuna com toldos rasgados e mastro caído. No clube, há lanchas viradas. Já vimos que a nossa antena de TV e a do Pasárgadas, ao nosso lado, ficaram tortas. Temos que reparar os cabos e o zíper da capa. Até que, com tudo, nosso prejuízo foi pouco, principalmente porque estamos bem.
Nem no Caribe presenciamos uma coisa destas. Por lá pegamos ventos de até 45 nós, mas estávamos navegando. Pode ser que nosso medidor de vento tenha ficado besta, que tenha medido a mais, mas que foi a maior ventania que pegamos, ah foi.
Isso é adrenalina pura, na veia, ou o quê?

Catarina

Era para termos ido embora na última terça-feira e, depois, na quinta, mas o patrão não deixou, avisou que estava mandando uma frente fria que iria nos alcançar antes de chegarmos ao Rio de Janeiro. Os nossos amigos daqui comemoraram, disseram que vamos ficar para a Páscoa; aí não, é muito tarde, não vamos ter a aprovação do patrão.
LUTHIER na Ponta do Mutá O distrito de Ponta do Mutá entrou em “férias” dos turistas. Muitas pousadas, como a dos nossos amigos Sheila e Vili (ela mineira, ele suíço), fecham nesta época do ano, porque não vale a pena abrir para poucos. Abriram para nós, para oferecer um almoço tailandês, para relaxar e falar de barcos e vela, pois ele é um aficionado, instrutor de “kite-surf” nas horas vagas. Parte dos restaurantes também passou a fechar aos finais de semana.
O que mais se vê nos comércios daqui são mineiros, paulistas e estrangeiros. Nos restaurantes, ainda não vimos a típica comida baiana, como o vatapá, o caruru, o bobó de camarão, etc… Nem as baianas do acarajé, nem a música axé. Então, é Bahia, mas não é. Querem agradar ao paladar dos turistas do sudeste, como nos explicou o dono de um restaurante, e educam as cozinheiras locais para isso; assim, a feijoada é ao estilo carioca, em que primeiro fritam a cebola e o alho, depois vão colocando os ingrediente um por vez, e não tudo de uma vez, como fariam os baianos. Sobre esse tema, o da cozinha, a verdade é que tudo é bom desde que feito com amor, mas, indiscutivelmente, no quesito Pendurando roupa lavada FEIJOADA, o amor da carioca é com MAIS AMOR, que me perdoem todos os santos.
Temos visto muita propaganda enganosa nas praias do Mutá. Os ambulantes locais estão passando com dezenas, quiçá, centenas de soutiens de biquínis com bojos equivalentes ao forro isolante térmico do nosso barco. Ora, amigos, dão a falsa impressão de que ali há uma comissão de frente que, de fato, não existe. Tem outro problema: esses apetrechos inflam quando nadamos, e querem sair flutuando, não prestam para o mar. Também atrapalham para vestir a roupa de mergulho, ficam sobrando e se amassando. Como eu sei? Bem, eu tive que comprar um destes, porque não há outro tipo à venda no mercado atual, entende?
Mudando de assunto, não bastasse a minha mãe achar que estamos em fase de crescimento, agora encontramos pela frente a Elina, esposa do João-construtor. Ela não só prepara bolos gostosos e variados para o ELINAcafezinho que serve em sua casa, como separa merenda para levarmos, com bolo e pão de queijo. Além disso, nos cede a internet, e conta muitos “causos” de suas peripécias pela vida, como a criação de uma fábrica de sorvetes que espantou a Kibon do lugar, e trouxe progresso e delícias  para a região. Foi ainda cachaceira das boas em Minas Gerais, digo, fazendeira de cana e engenho. É tão gente boa que se ofereceu para lavar as nossas roupas em sua máquina, ao que eu agradeci, mas declinei, pois na falta de uma lavanderia à mão, a poucos metros do barco, apelo para o tanquinho que tenho a bordo, o Dorival.
É por estas e outras boas surpresas que encontramos pelo caminho que vale a pena essa vida de cruzeiristas. Vamos curtindo, enquanto o tempo deixar.

Catarina

Estamos na Ponta do Mutá, distrito de Porto Seguro, numa pequena enseada cercada por recifes. Fizemos uma boa viagem, com vento durante o tempo todo, então, nada tínhamos a reclamar. Mas, eu Aguaceiro chegandoreclamei bastante, do calor. Foi uma travessia para lá de quente e seca, em que alcançamos o nosso recorde de temperatura dentro do barco, de 36º C, e 41º C no convés. Passamos os dias do lado de fora, até que o astro-rei se pusesse. “Vá descansar!”, desejava eu à bola de fogo. “Não é à toa que dizem que o inferno é quente”, pens