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Praia na Ilha GrandeA praia no Brasil é pública, certo? Sim, mas muitas vezes, a faixa de areia fica espremida pelos alambrados que cercam as propriedades particulares. Mesmo as passagens de servidão são interrompidas por cercas, por onde só se passa com autorização do proprietário, após a garantia de que os animais de guarda estão trancados. Podemos entender as preocupações de segurança dos proprietários, mas, como  fica o direito de ir e vir? Por sorte, essa não é a regra em Ilha Grande, onde ainda há muitas praias em que os donos do terreno dispensam o alambrado e o cachorro bravo.
Luís e Teresa - Veleiro AvisraraO Brasil realmente começa depois do carnaval. Temos passado sozinhos nas ancoragens, com um ou outro estrangeiro por perto, regra quebrada apenas nos finais de semana; no último, veio o Veleiro AvisRara, de Teresa e Luís, e com eles demos uns bordos pela ilha, fomos a umas praias especiais, de água transparente entre as pedras, convidando para mergulhar.
Na nossas caminhadas pela mata sempre aparecem cachorros mansos, que nos acompanham pelo trajeto. Em geral, eles correm na direção do Dorival, pressentindo que ele gosta de bichos, como bom aluno que foi Luthier no Sítio Fortede  colégio de padres franciscanos. Assim, dispensamos os “pet” a bordo, os nossos bichos estão soltos pelo caminho.
Para navegar na Ilha Grande, toda atenção deve ser dispensada aos troncos de árvores na água, pois se a embarcação estiver a motor eles podem bater no hélice. Também os sacos plásticos nas proximidades dos portos são um perigo, desviar deles é aconselhável para não tamparem a entrada de água de refrigeração do motor. Incrível, o alto mar não exige tanta atenção.
Amigos na trilha em Ilha GrandeO rádio VHF tem sido nossa melhor fonte de informação sobre previsão do tempo, atividades na área, contato com outros navegantes, etc… Algumas vezes, há palhaçadas, mas nada muito sério ou que atrapalhe.  Depois de insistentes chamados: bote …. aqui TelemarAngra, alguém repicou e rimou: “homem bêbado no fim da noite só PEGA BARANGA”.
Desde que cheguei, todos observam que meu bronzeado deixa a desejar, para quem está há anos a bordo. Normal a observação, esse é o padrão de beleza do brasileiro, e mais ainda do carioca. Acontece que eu não fico jacarezando no sol, porque tenho fobia à luz. Já ouvi dizer que, no mar, Mais um amiguinhotubarão é menos perigoso que sol; é fato, a radiação cumulativa é a causa de muitos carcinomas. Logo, logo, vamos fazer nosso “check-up”, incluindo a visita a um dermatologista.
Mais um feriado, mais chuva a caminho, com previsão de ventos fortes. Nada de ir para o lado de fora da Ilha. Antes da chuva, vamos aproveitar para mergulhar numas pedras aqui perto, visitar umas tartarugas e umas lígias que vivem por lá. Enfim, aproveitar o paraíso particular. Alguém sabe se a renovação do título de eleitor, com o  cadastro eletrônico do dedão, pode esperar?

Catarina

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A enseada do Sítio forte, na Ilha Grande, Baía de Ilha Grande é um lugar especial, mesmo. Me disse um pescador daqui que os golfinhos vêm atrás de um cardume de lulas. 
Eram 8:30 da manhã quando ouvimos um forte barulho de respiração bem ao lado do barco, uma dúzia deles fazia muita algazarra. O tempo que demoramos para pegar a filmadora foi suficiente para que eles se afastassem um pouco. Fiz o melhor que pude com a maquininha que tenho.
Agora fiquei com vontade de comprar uma filmadora de verdade.

Dorival

Nos pediram notícias, lá vão: estamos voltando, mas devagarzinho, para evitar o choque. Paramos na Enseada de Sítio Forte, de onde saímos uns dias para rever os amigos do Bracuhy.
Logo que chegamos, os espanhóis dos veleiros Prati e La Peregrina nos  convidaram para um “cocido”, um prato típico da região da Galícia, que Cocido de Galícia diferente do nosso cozido, onde todos os legumes e carnes ficam num caldo único, este é servido com todos os ingredientes em separado (a
batata, o espinafre, o chouriço, o grão-de-bico e as carnes), e o caldo que se formou no cozimento é tomado à parte. “Estupendo”! O almoço foi ao som de canções típicas da Espanha, cantadas por eles. Então, era um tal de “bailates Carolina, bailates sí señor”, além de outras sobre barcos e alguma coisinha mais, que não entendemos o que é. Contaram que há muitos anos, quando viveram uma forte crise na Espanha e mal tinham o que comer, a forma de relaxar depois de dias

duros de trabalho era sair à noite para cantar, conservando o hábito até hoje. Eta, povo animado! Difícil era acompanhá-los na bebida. Pelo que mais contaram, deu vontade de conhecer o norte da Espanha, e de Portugal também, por mar; esse dia virá.
Churrasco no Bracuhy
A região da Ilha Grande propicia o relaxamento, por conta da paisagem de morros altos, de diferentes altitudes, que com a luz difusa da manhã ficam em vários tons diferentes de verde e azul. E foi com essa paisagem que saímos velejando daqui do nosso cantinho até Bracuhy, até que o vento miou nas últimas 2 milhas.
Tivemos churrasco de boas vindas, sim, senhor, preparado pela turma que não víamos há exatos dois anos. Além de paparicos e apoio total do João Carlos e DorivalJoão Carlos, do Veleiro Yahgan, que até no dentista me levou. As intruções do dentista: “DE REPENTE, hoje é melhor não tomar gelado.” Eu olhava para ele, sem entender. O que o “de repente” acrescenta à recomendação? Nada, penso eu, é pura gíria.
Já voltamos para nosso cantinho na Tapera. É muito especial o anoitecer nesse lugar: silêncio total, depois vem o som dos pássaros se recolhendo, dos grilos e bichos na mata, dos golfinhos caçando, fazendo eco no casco, de pescadores de lulas e olho de cão conversando na praia. No amanhecer, escutamos a conversa dos pescadores no canal 68, contando o resultado da pescaria, em que muitos agradecem a Deus pela fartura da noite, com voz de sono, muito legal!
Baía de Ilha GrandeAntes de cuidar da vida em terra, vamos essa semana fazer as trilhas na mata de Ilha Grande, tudo muito ecológico e saudável, com lanchinhos de cenoura ralada e atum, suco de laranja em garrafinhas, que antecedem o churrasco da noite, em grande estilo.
Amigos, façam logo o imposto de renda e demais burocracias do mês, para sobrar um tempinho para a Ilha Grande, nós recomendamos. Não fiquem aí enfurnados no trabalho; sem vocês não tem festa. Estamos esperando, com canções nossas, sinceramente executadas em nosso DVD, do interiOR do país.

Catarina

Eu vou trazer um espantalho da roça para colocar na popa do barco. Vou fixar o chapéu de palha com sicaflex, colocar pesos de mergulho no enchimento de pano, prender o boneco com braçadeiras de inox, tudo para afastar os pássaros marinhos que vêm roubar a nossa rapala. Ô praga! Durante toda a nossa travessia de Niterói para Ilha Grande, era só colocar a isca na água que eles apareciam, vindos não se sabe de onde. Sítio Forte - Tapera Numa das vezes, tive que afugentar um deles com o croque estendido, enquanto o Dorival recolhia a isca.
O mais intrigante é que tinha comida na água para eles, pois por mais de uma vez vimos bandos de golfinhos caçando, e mesmo um tubarão, que passou pelo nosso barco com sua barbatana ameaçadora para fora.
O peixe da sexta-feira santa vai sair do paiol, um autêntico atum em lata.
Saímos de Niterói na madrugada de quinta-feira, depois do jantar-despedida do pessoal do Sailing, que prometeu nos encontrar em Ilha Grande, se conseguirem se desvencilhar de um polvo onde eles se enrolam, com tentáculos diferentes para as obrigações, família e TRABALHO. Logo, logo, vamos lembrar como esse bicho pega.
Antes de sair, nos despedimos de um de nossos amigos “Ricardo”, porque essa é a terra deles, há muitos com esse nome, e por isso mesmo, um remete a fama que tem ao outro. Dele ganhamos duas canecas de metal, uma verde, outra vermelha, uma para cada um, para serem Ricardo I usadas nas viagens, o símbolo maior da riqueza-pobreza que é viver em barco, com limitações de água para lavagem da louça, entre outras tantas. Já nos estapeamos aqui para ficar com a de boreste, o lado nobre do barco. Valeu, Ricardo-I!
Foi uma boa oportunidade para conhecermos melhor Niterói, um lugar que tem ares de cidade do interior, com pessoas tranquilas e simpáticas pela rua, passeando pela orla. Nos ciceroneou o Ricardinho, do Veleiro Seachegue. Ele nos ofereceu duas opções de almoço, uma em um restaurante com ar-condicionado, e outra num pé-sujo. O que é um PÉ-SUJO? Queremos conhecer!! Imaginei ser um programa como comer pão com mortadela no Mercado Municipal de São Paulo, ou um pastel de feira com coca-cola no interior de São Paulo. Por fim, apesar da simplicidade, foi o melhor feijão que comemos em Niterói. Justiça seja feita, ele também nos levou a bares badalados da noite, onde todos o conhecem. Conte essa estória direito, Ricardinho!
A nossa viagem para cá foi com o freio de mão puxado, o barco não andava por conta das cracas adquiridas em menos de 10 dias na Baía de São Francisco. Pelo menos, as algas de lá mataram as de Porto Seguro, Pé sujo que ainda estavam no fundo do barco, formando uns cabelos verdes compridos, que do mesmo jeito empatam a velocidade. Temos serviço a fazer, facilitado pela água transparente, onde agora estamos.
Na chegada, ouvimos gritos de “Luthier!”. Quando localizamos, vinham dos “Prati”, uns espanhóis de um Catana 50, que conhecemos na Refeno de 2010, e que encontramos o ano passado no Caribe e, depois, nos Açores, onde fomos jantar juntos no Peter´s, na Ilha de Faial. Estão na segunda temporada no Brasil. Precisa explicar o porquê? É só olhar à volta.
Também nos recepcionou, pelo VHF, o João Carlos, do Yahgan, dando graças a Deus que voltamos, e ele não vai mais precisar se preocupar com onde estamos, e com as condições do tempo à nossa volta.

Estamos voltando.

Catarina