maio « 2015 « Bem-vindo a bordo!

Archive for maio, 2015

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Ninguém aqui é supersticioso. Mas, a urucubaca existe, não se pode negar, e todo mundo sabe que há lugares que concentram uma energia ruim.

Fomos para Abraão Pequeno, em Ilha Grande, aguardar um bom momento para a nossa saída, tendo como única pendência a troca de um anodo. Um entre cinco anodos dão problema, é a estatística aceita; nós estávamos nela.

A ancoragem lá não é muito espaçosa, quer dizer, já está bastante ocupada por escunas, barcos comerciais, barcos abandonados, enfim, barcos para todo gosto e de todo jeito.

Jogamos ferro no começo da manhã, esperando preparar o barco durante o dia. Logo notamos um movimento de pequenas embarcações levando pessoas de um lado para o outro, em alta velocidade, passando a um metro e meio, no máximo, do nosso costado, fazendo uma p. marola. Uma super recepção! Mergulhar ali seria impossível.

Começou uma outra movimentação: pequenas embarcações puxando uma pessoa na prancha, que da mesma forma, passavam rente ao nosso barco, pior, o condutor nem olhava para frente; um das vezes passou tão rente, que o cabo que levava por pouco não se enroscou no nosso leme. Ainda fiquei temendo pela pessoa na água, de se acidentar no meio dos taxi-boat.

Eis que surge na enseada uma lancha rebocada, com apenas parte do costado para fora, suportada por boias, com mergulhadores na proa.

Existe coisa mais desgraçada do que um barco a pique? Talvez,  caso da doença sem cura. Porém, continua sendo uma desgraça, não importa que a causa do desastre tenha sido uma besteira, uma sequência delas, ou uma irresponsabilidade.

Eu nem gosto de mergulhar em barcos afundados, sempre dá aquela sensação de que algo ruim aconteceu. Uma vez, mergulhando no Pinguino, aqui em Ilha Grande, senti (vi) que a cor alaranjada no ambiente revelava algo: uma forte oxidação do casco soçobrado.

No meio da tarde, começou a ventar mais forte, como previsto. Ficávamos olhando alguns barcos com aspecto de abandonado, talvez mal fundeados, meio apreensivos. Por incrível que pareça, foi só aí que o movimento sossegou, por conta do mau tempo, e resolvemos descansar por ali.

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Pela manhã, a lancha estava na praia, quase toda coberta por água, afundada de vez. A previsão de tempo estava totalmente desfavorável para subir a Costa. O final de semana se aproximava com a perspectiva de mais barcos na ancoragem; ótimo do ponto de vista do turismo local, do nosso, algo dizia que era melhor sair dali.

Catarina

Tenho estudado formas de repelir pragas, dentre elas, os mosquitos do Paraíso.

A Enseada Sítio Forte, em Ilha Grande, onde estamos, é uma pintura: mata, água limpa, fontes de água doce e, além disso tudo, fundo de boa tensa. Mas, há mosquitos, especialmente uns diminutos, que passam pelas telas mosquiteiras. Gostam de picar logo pela manhã e à tardinha, preferencialmente nos pés e nas pernas, não se arriscam para cima.

Quando cheguei, depois de um longo estágio no asfalto, ficava com umas bolotas enormes na pele, por conta das picadas, e com o Dorival não acontecia nada. Decidi criar resistência, deixei vir o ataque. Deu certo, hoje não fico com mais que uma irritação no local, depois da picada.

Fiquei contente ao ver que, num fim de tarde na praia, eles atacaram com frenesi os gringos que estavam conosco, mesmo os caras usando repelente, e me esqueceram. Sinal de que deu certo a técnica da resistência. Para ajudar, tenho usado óleo nas pernas, nas incursões pela mata e pela praia, eles definitivamente não gostam da meleca!

Eu amo pássaros. Representam a liberdade, o total domínio do meio em que vivem, o viver com pouco, a harmonia do cantar. Tudo isso é verdade longe do veleiro. Quando resolvem se empoleirar nas cruzetas e nas peças do mastro, no mínimo, lá vem sujeira! Ou, pior, resolvem se apoiar na biruta de vento, e numa dessas lá se foi a nossa! Consequência: vamos subir a costa sem ela, não conseguimos nada em Angra, nem por encomenda.

Existem uns repelentes de pássaros que nada mais são que uma meleca, não lhes faz mal, apenas eles não gostam de pousar nas partes besuntadas. Vi isso num artigo náutico, tem deste produto lá fora.

Também há a possibilidade de gravar o barulho de gaviões e colocar o som bem alto lá fora, para afugentá-los.

Não temos problema com outra praga por aqui: os ataques de humanos, armados com faca, coisa cada vez mais recorrente nos centros urbanos. Nesse caso, para repelir o ataque não vale a pena colocar a mão na frente, e com isso deixar à mostra todo o abdome, para ser estocado. Talvez aproveitar a mão para meter no nariz do cara, com o dorso, se souber fazer isso e for rápido na reação. Melhor mesmo, se estiver na rua, é entregar tudo e “pernas para que te quero”; um bom par de tênis ajuda, e treinar uma corridinha de vez em quando também. Realidade de difícil solução.

Estamos estudando…

Catarina

O certo é deixar uma roupa à mão para vestir nas emergências náuticas noturnas. Deixar na cabine em que se dorme, porque são preciosos os poucos segundos de tempo gastos na sua procura.

Eu já tinha aprendido essa lição quando o Luthier garrou em Santo André – BA, por volta da meia noite, e saímos pelados na correria, os dois, para fazer o que fosse possível lá fora. Detalhe: era carnaval, e o restaurante em frente à ancoragem estava lotado de gente.

Mas, você não imagina ter correria no meio da noite quando se está atracado no cais de uma marina superabrigada, como a do Bracuhy. Porém, “achar” alguma coisa não serve para nada, e me dei mal novamente.
Foi por volta da 1 da manhã da segunda que o nosso barômetro eletrônico deu um alarme, o que está programado para acontecer quando a pressão atmosférica cai mais de 4 milibares em meia hora. Como ele não parava de apitar, e não respondia a nenhum comando, além do que o tempo lá fora estava completamente calmo, “achamos” que ele estava em “loop”; o Dorival tirou as pilhas e fomos dormir.

Então, já deitados, senti um bafo quente entrar pela gaiuta, achei estranho e tirei a coberta de cima de nós; em seguida, veio o zunido de vento forte.

Acordei o Dorival e saí procurando roupa para vestir. Peguei uma qualquer para ele, que saiu ainda zonzo, sem camisa, e eu logo atrás, com qualquer coisa. De cara, tivemos que empurrar uma lancha duas vezes a largura e três a altura do convés do Luthier, que vinha para cima de nós.

Faltou pegar um prendedor para o cabelo, que se esfregava nos meus olhos e na boca, com a ventania de mais de trinta nós.

Ainda bem que nos dias anteriores andamos tirando a maioria das lonas, pois o clima já está bem mais fresco. Só tinha uma na popa, e deu certo tirar na hora, sem problemas.

Depois de uma meia hora arrumando defensas, cabos, e empurrando o monstro, o vento finalmente rondou para SW, e a lancha foi bater em outro. Foi a hora de acudir aos outros barcos nos cais, ajudar a enrolar as genoas que se soltaram, e se batiam em forma de sutiã.

Na falta de rum, tomamos um chazinho com torradas, depois que tudo acalmou.

Incrível como o barco não gosta de ficar preso. Tenho a impressão de que no mar, lá fora, não teria este problema todo, seria o caso só de rizar velas.

Mas, ele não deve ficar mais muito tempo amarrado, logo sairemos. Estamos pensando em comer uns doces de ovos, de uma certa Confeitaria Nacional, para lá dos Açores, em outro continente. Trajados.

Catarina