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É revoltante. Como podem dizer que “aquilo” é uma embalagem de alguma coisa? Foi afinando, afinando, e hoje, a lata de cerveja mais parece uma folha de papel, que se dobra por qualquer coisa.

Aconteceu que uma lata de cerveja ficou rolando dentro da nossa  geladeira, na travessia entre Caravelas e Salvador, se batendo aqui e alí e pronto! Rachou e vazou. Vendo a meleca lá dentro, deu vontade de chorar. Não é fácil fazer limpeza no meio do mar, com as ondas de leste batendo a todo tempo, tendo que se segurar. Não adiantava reclamar, falha minha, afinal, as coisas não são feitas para resistir ao balanço do mar.

O melhor era relaxar e olhar as baleias lá fora. Havia muitas, soltando borrifos,  dando saltos, com as nadadeiras de lado para amamentar. Nos acompanharam de Abrolhos até  Salvador.

Essas ondas de leste tem trazido muita chuva ao nordeste do país. Dificultam a visibilidade na navegação, mesmo durante o dia. Mas, era a nossa janela de tempo, o cavalo selado que estávamos esperando, sabendo que depois ia piorar. Hoje há previsão de ondas de 4 metros lá fora, em média.

Mesmo com chuva pesada, e algum mar, havia  muitos pescadores no mar. Ficavam discutindo pelo rádio VHF, no meio da noite, entre eles, a colocação de suas redes; declaravam suas posições, para que os outros não invadissem os seus espaços. Hoje em dia, avançam para as profundidades de mais de mil metros, não se limitam à costa, para conseguir o peixe raro; usam uns espinhéis flutuantes, em cabos de muitas milhas, chamados espinhéis boiadeiros, que são arrastados.

Durante o dia, ouvimos o chamado de um pescador a um navio “vermelho”, para que desviasse de seu material, que se estendia por 4 milhas. Pelo AIS, vimos que era um navio de bandeira estrangeiro, que não devia nem estar entendendo  o que era falado (às vezes, nós mesmos não entendemos o que eles falam, por conta do forte sotaque, e do nome que dão para o seu material). Fizemos a ponte com o navio, que mais que depressa desviou; ninguém quer 4 milhas de cabos enroscados nos seus hélices, mesmo uma máquina daquele tamanho.

Passando pelo Banco Royal Charlotte, um pescador nos chamou (Veleiro! Veleiro!). Olhamos e não vimos nada. Perguntamos onde ele estava e ele disse “90 graus” (em relação a quê? Não era do norte verdadeiro, já que não o víamos). Ele acendeu a sua luz, e pudemos vê-lo. Reclamou que estaríamos passando sobre o seu material. Gelamos. Olhamos à volta e não vimos nada. Não havia nenhuma sinalização de material. Por sorte, passamos sem pegar o seu cabo boiadeiro. Por fim, ele nos convidou para comer um dourado no seu barco (como? Estávamos a mais de 1000 metros de profundidade…). Agradecemos, dizendo ter pressa para chegar.

Com baleias, você fica cuidadoso, mas relaxado com a beleza e a vida que elas proporcionam. Já os pescadores, estes estressam.

Depois de tantos dias no mar, incluindo os parados em Caravelas, onde não desembarcamos, ficamos sem imunidade aos vírus de terra. Não deu outra, chegamos e pegamos um resfriado.

O Luthier está em um porto seguro. Vamos deixá-lo nanando sobre o mar da Bahia de Todos os Santos, e voar para o sudeste. Ele não parece triste  nesta parada.

Catarina