Desde Cabo Verde até Salvador percorremos 2.150 milhas náuticas em 19 dias. Foi a viagem mais lenta do Luthier; desenvolvemos, em média, 5 nós de velocidade. Dava desânimo relatar as milhas navegadas no relatório do dia. Os responsáveis: o mar alto, com ondas de período Com nordeste de 20 nós curto, ou desencontrado, e as tempestades tropicais.
Foi uma viagem segura, sem acidentes ou incidentes. O mar mexido sempre deixa uma preocupação com quedas ou queimaduras a bordo, já vimos muitos acidentados graves chegarem em portos e serem transportados em maca. Felizmente, não entramos nesta estatística. É muito importante sempre manter uma mão segurando em apoios firmes no barco, e o uso de cintos de segurança para as fainas no convés; a qualquer momento, uma onda mais alta pode tirar o nosso equilíbrio.
Não tivemos avarias nos equipamentos. Contou para isso rizar o velame com antecedência, mesmo que, desta forma, perdêssemos em velocidade. Também não tivemos nenhum dano no casco ou nos móveis internos, não houve nenhuma porta quebrada ou rachadura no casco pelo esforço da embarcação.
Quase não usamos motor. O fizemos na região dos doldrums, para carregar baterias, e na chegada sem vento a Salvador. No total, foram Ventilação Forçada100 litros. Voltamos com o tanque cheio.
Com os instrumentos eletrônicos de baixo consumo que temos, e os painéis solares, o gerador eólico, e o gerador à gasolina, pudemos manter o conforto a bordo com o uso da geladeira e do dessalinizador.
Os víveres foram suficientes e sobraram, como é a regra dos terços. Não conseguimos adquirir muitos produtos frescos na nossa última parada, em Cabo Verde, mas tínhamos um bom estoque de alimentos industrializados em conserva, grãos, frutas secas e castanhas.
A pesca foi um item importante para o moral da tripulação e para o suprimento de boa proteína a bordo. Fazer pão dá trabalho, mas o resultado traz satisfação e ocupa a tripulação.Albacora
Contribuiu para o ânimo a bordo o contato com o mundo externo e, para isso, o rádio SSB foi essencial.
Constatação: diferente do que ocorreu o hemisfério norte, no hemisfério sul os navios tomavam a iniciativa de manobrar assim que avistavam o Luthier no AIS, a cerca de 8 milhas; depois de nos passar, retornavam à sua rota original.
Para uma viagem tão longa, é muito importante manter o bom humor, a tranquilidade, e os pensamentos positivos. Ouvir música, assistir a um filme ou ler alguma coisa de seu interesse são atividades que distraem, e não deixam que o desânimo tome conta. Vale a pena tirar algumas horas por dia para simplesmente admirar o mar, o céu, e a vida lá fora, pois mesmo bravo o mar é bonito.
Aqui terminamos uma viagem para a qual nos preparamos durante toda a construção do barco, que nos deu a oportunidade de conhecê-lo e sermos capazes de fazer as manutenções que ele exige. A construção foi um período de estudo e de habilitação para as travessias. A paciência, a observação da situação, e o hábito de fazer uma coisa por vez são habilidades que se adquire com ela, e que são cruciais para a navegação.
Esperamos que nossos relatos diários tenham divertido a quem os leu, e que sirvam de parâmetro para quem se interessa em fazer algo semelhante, de forma segura.

Um bom Natal, feliz ano novo para todos.

Catarina e Dorival

 

Um parêntese para as mancadas:

Não é fácil orçar durante dias em mar alto, e fazer a rota que fizemos de forma segura; sem falsa modéstia, exige preparação, conhecimento e equipamento. Isso não significa que não tenhamos dado furos, bobeiras ouPão da travessia mancadas, como queiram chamar.
A mais grave, a do gás de cozinha. Quem é responsável por seu controle, aquele que cuida do combustível a bordo ou quem cozinha? Cachorro de dois donos passa fome, foi o que aconteceu. Contribuiu para o lapso a  carga de gás do botijão novo, comprado no Caribe: a conceituada empresa que nos vendeu fez o serviço e nos cobrou por 8 KG, mas em Cabo Verde viemos a saber que ali só cabem 6 KG; são os piratas do Caribe, que estão em outros lugares também (aliás, em todos). A mancada continua sendo nossa, de não dimensionar os recursos por outros meios.
Os coletes voadores: sim, voaram do cockpit para o mar, com luzes e tudo, assim que se soltaram da rede em que estavam presos. A causa do vôo foi o vento mais forte ou o nó mais folgado da rede. “Who knows?”.
A faca deslizante: ganhamos o peixe e perdemos a faca (o Dorival,  aprendiz de pescador).
A vasilha que baba: uma dessas vasilhas de plástico cuja tampa não é assim tão vedada tombou na geladeira com leite de coco, e fez a maior meleca, difícil de limpar. Por que eu não jogo fora essas tranqueiras?
Por fim, o tira-umidade que eu achei que estava devidamente preso e que tombou sobre os estofados na proa, deixando uma mancha com química que era quente, sobre o seu forro. Eu não aprendo…

Acho que já deu…

Catarina