Estamos na Ponta do Mutá, distrito de Porto Seguro, numa pequena enseada cercada por recifes. Fizemos uma boa viagem, com vento durante o tempo todo, então, nada tínhamos a reclamar. Mas, eu Aguaceiro chegandoreclamei bastante, do calor. Foi uma travessia para lá de quente e seca, em que alcançamos o nosso recorde de temperatura dentro do barco, de 36º C, e 41º C no convés. Passamos os dias do lado de fora, até que o astro-rei se pusesse. “Vá descansar!”, desejava eu à bola de fogo. “Não é à toa que dizem que o inferno é quente”, pensava. Pela descortesia a quem nos dá vida (e calor), dois dias depois da viagem o tempo fechou, e caiu um aguaceiro na Ponta do Mutá, o dia todo, parecendo um castigo. 
Ao contrário do que muitos nos disseram, sobre os perigos dos recifes na região, a entrada na enseada foi tranquila, seguindo os way-points passados pelo Ronny, nosso amigo meio-gaúcho, meio-baiano, skipper  do catamarã Luar. Baixamos a velocidade do barco durante a noite para chegar com a luz do Escola de Vela Oceanoamanhecer, porque não conhecíamos a região.
O fundo da enseada é de areia, de boa tensa. Estamos em uma poita da Escola de Vela Oceano, que fica em frente. A água é da cor verde-bala-de-hortelã, bastante transparente na maré alta, e o melhor, está quentinha nesta época do ano, com 29ºC de temperatura.
O desembarque nosso é na praia, de preferência, na maré baixa; na maré alta, o melhor é ir de maiô, para o caso de se molhar com a arrebentação. Os jet-skys são proibidos na área, propiciando o sossego para a prática da vela.
Caminhando pela praia ou pela rodovia que a margeia, em pouco tempo Muta 020 se chega à Coroa Vermelha, distrito de Santa Cruz Cabrália, onde está fincada a cruz do descobrimento, e onde a história do Brasil começou.
Aqui já moravam os indígenas Pataxós, que ainda hoje vivem na região. Os homens índios se diferenciam por não terem barba no rosto, apesar de serem fortes e musculosos. Gostam de usar pulseiras largas com motivos geométricos, e têm as orelhas perfuradas para o uso de brincos. Dentro da mata que ainda resta na região, alguns tentam manter os seus costumes, como nos contou um cacique que conhecemos; fica na aldeia quem quer, todos são livres para sair. Quem dera a nossa sociedade civilizada pudesse ter caciques colocados na função pela confiança dos demais em suas qualidades, e não pela força do marketing e do dinheiro que há por trás.
Os “Pataxós” tinham como característica não guerrear com o inimigo quando atacados, mudavam a aldeia de lugar; de certa forma, nós fazemos o mesmo ao cruzeirar: se a região ou a vizinhança não estão boas, temos a oportunidade de levantar ferro e vazar. É uma forma de liberdade.
Helô e seus alunos Aqui nos sentimos em casa, cercados de malucos por barcos, caso do Ronny e seus amigos “Seu” João e Décio. A turma se reúne para trabalhar sem trégua na construção de um catamarã, feito no capricho. Não! Tem trégua para o cafezinho da esposa do João, que dá a maior força para a obra. O churrasco da virada é esperado para breve.
Dentre os insanos, está a Helô, da escola de vela, que me disse que eu não saio daqui sem saber remar de pé na prancha (stand-up), e que este será o seu desafio pessoal. Eu sei que a moça tem didática e preparo, que seus alunos saem com os olhinhos brilhando das aulas, mas daí a eu sair remando, não sei, não…. Qual será a melhor foto de recordação da aula, aquela em que eu estou caindo, ou a em que eu estou me desequilibrando e…caindo?
Estamos na Bahia, e sábado é dia de festa, que será na praia, no lual da Escola de Vela Oceano, com música ao vivo e tudo. Dia de relaxar das fainas de barcos, falando neles.

Catarina