Bem-vindo a bordo!

Praia na Ilha GrandeA praia no Brasil é pública, certo? Sim, mas muitas vezes, a faixa de areia fica espremida pelos alambrados que cercam as propriedades particulares. Mesmo as passagens de servidão são interrompidas por cercas, por onde só se passa com autorização do proprietário, após a garantia de que os animais de guarda estão trancados. Podemos entender as preocupações de segurança dos proprietários, mas, como  fica o direito de ir e vir? Por sorte, essa não é a regra em Ilha Grande, onde ainda há muitas praias em que os donos do terreno dispensam o alambrado e o cachorro bravo.
Luís e Teresa - Veleiro AvisraraO Brasil realmente começa depois do carnaval. Temos passado sozinhos nas ancoragens, com um ou outro estrangeiro por perto, regra quebrada apenas nos finais de semana; no último, veio o Veleiro AvisRara, de Teresa e Luís, e com eles demos uns bordos pela ilha, fomos a umas praias especiais, de água transparente entre as pedras, convidando para mergulhar.
Na nossas caminhadas pela mata sempre aparecem cachorros mansos, que nos acompanham pelo trajeto. Em geral, eles correm na direção do Dorival, pressentindo que ele gosta de bichos, como bom aluno que foi Luthier no Sítio Fortede  colégio de padres franciscanos. Assim, dispensamos os “pet” a bordo, os nossos bichos estão soltos pelo caminho.
Para navegar na Ilha Grande, toda atenção deve ser dispensada aos troncos de árvores na água, pois se a embarcação estiver a motor eles podem bater no hélice. Também os sacos plásticos nas proximidades dos portos são um perigo, desviar deles é aconselhável para não tamparem a entrada de água de refrigeração do motor. Incrível, o alto mar não exige tanta atenção.
Amigos na trilha em Ilha GrandeO rádio VHF tem sido nossa melhor fonte de informação sobre previsão do tempo, atividades na área, contato com outros navegantes, etc… Algumas vezes, há palhaçadas, mas nada muito sério ou que atrapalhe.  Depois de insistentes chamados: bote …. aqui TelemarAngra, alguém repicou e rimou: “homem bêbado no fim da noite só PEGA BARANGA”.
Desde que cheguei, todos observam que meu bronzeado deixa a desejar, para quem está há anos a bordo. Normal a observação, esse é o padrão de beleza do brasileiro, e mais ainda do carioca. Acontece que eu não fico jacarezando no sol, porque tenho fobia à luz. Já ouvi dizer que, no mar, Mais um amiguinhotubarão é menos perigoso que sol; é fato, a radiação cumulativa é a causa de muitos carcinomas. Logo, logo, vamos fazer nosso “check-up”, incluindo a visita a um dermatologista.
Mais um feriado, mais chuva a caminho, com previsão de ventos fortes. Nada de ir para o lado de fora da Ilha. Antes da chuva, vamos aproveitar para mergulhar numas pedras aqui perto, visitar umas tartarugas e umas lígias que vivem por lá. Enfim, aproveitar o paraíso particular. Alguém sabe se a renovação do título de eleitor, com o  cadastro eletrônico do dedão, pode esperar?

Catarina

Clique nas fotos para vê-las em tamanho maior.

A enseada do Sítio forte, na Ilha Grande, Baía de Ilha Grande é um lugar especial, mesmo. Me disse um pescador daqui que os golfinhos vêm atrás de um cardume de lulas. 
Eram 8:30 da manhã quando ouvimos um forte barulho de respiração bem ao lado do barco, uma dúzia deles fazia muita algazarra. O tempo que demoramos para pegar a filmadora foi suficiente para que eles se afastassem um pouco. Fiz o melhor que pude com a maquininha que tenho.
Agora fiquei com vontade de comprar uma filmadora de verdade.

Dorival

Nos pediram notícias, lá vão: estamos voltando, mas devagarzinho, para evitar o choque. Paramos na Enseada de Sítio Forte, de onde saímos uns dias para rever os amigos do Bracuhy.
Logo que chegamos, os espanhóis dos veleiros Prati e La Peregrina nos  convidaram para um “cocido”, um prato típico da região da Galícia, que Cocido de Galícia diferente do nosso cozido, onde todos os legumes e carnes ficam num caldo único, este é servido com todos os ingredientes em separado (a
batata, o espinafre, o chouriço, o grão-de-bico e as carnes), e o caldo que se formou no cozimento é tomado à parte. “Estupendo”! O almoço foi ao som de canções típicas da Espanha, cantadas por eles. Então, era um tal de “bailates Carolina, bailates sí señor”, além de outras sobre barcos e alguma coisinha mais, que não entendemos o que é. Contaram que há muitos anos, quando viveram uma forte crise na Espanha e mal tinham o que comer, a forma de relaxar depois de dias

duros de trabalho era sair à noite para cantar, conservando o hábito até hoje. Eta, povo animado! Difícil era acompanhá-los na bebida. Pelo que mais contaram, deu vontade de conhecer o norte da Espanha, e de Portugal também, por mar; esse dia virá.
Churrasco no Bracuhy
A região da Ilha Grande propicia o relaxamento, por conta da paisagem de morros altos, de diferentes altitudes, que com a luz difusa da manhã ficam em vários tons diferentes de verde e azul. E foi com essa paisagem que saímos velejando daqui do nosso cantinho até Bracuhy, até que o vento miou nas últimas 2 milhas.
Tivemos churrasco de boas vindas, sim, senhor, preparado pela turma que não víamos há exatos dois anos. Além de paparicos e apoio total do João Carlos e DorivalJoão Carlos, do Veleiro Yahgan, que até no dentista me levou. As intruções do dentista: “DE REPENTE, hoje é melhor não tomar gelado.” Eu olhava para ele, sem entender. O que o “de repente” acrescenta à recomendação? Nada, penso eu, é pura gíria.
Já voltamos para nosso cantinho na Tapera. É muito especial o anoitecer nesse lugar: silêncio total, depois vem o som dos pássaros se recolhendo, dos grilos e bichos na mata, dos golfinhos caçando, fazendo eco no casco, de pescadores de lulas e olho de cão conversando na praia. No amanhecer, escutamos a conversa dos pescadores no canal 68, contando o resultado da pescaria, em que muitos agradecem a Deus pela fartura da noite, com voz de sono, muito legal!
Baía de Ilha GrandeAntes de cuidar da vida em terra, vamos essa semana fazer as trilhas na mata de Ilha Grande, tudo muito ecológico e saudável, com lanchinhos de cenoura ralada e atum, suco de laranja em garrafinhas, que antecedem o churrasco da noite, em grande estilo.
Amigos, façam logo o imposto de renda e demais burocracias do mês, para sobrar um tempinho para a Ilha Grande, nós recomendamos. Não fiquem aí enfurnados no trabalho; sem vocês não tem festa. Estamos esperando, com canções nossas, sinceramente executadas em nosso DVD, do interiOR do país.

Catarina

Eu vou trazer um espantalho da roça para colocar na popa do barco. Vou fixar o chapéu de palha com sicaflex, colocar pesos de mergulho no enchimento de pano, prender o boneco com braçadeiras de inox, tudo para afastar os pássaros marinhos que vêm roubar a nossa rapala. Ô praga! Durante toda a nossa travessia de Niterói para Ilha Grande, era só colocar a isca na água que eles apareciam, vindos não se sabe de onde. Sítio Forte - Tapera Numa das vezes, tive que afugentar um deles com o croque estendido, enquanto o Dorival recolhia a isca.
O mais intrigante é que tinha comida na água para eles, pois por mais de uma vez vimos bandos de golfinhos caçando, e mesmo um tubarão, que passou pelo nosso barco com sua barbatana ameaçadora para fora.
O peixe da sexta-feira santa vai sair do paiol, um autêntico atum em lata.
Saímos de Niterói na madrugada de quinta-feira, depois do jantar-despedida do pessoal do Sailing, que prometeu nos encontrar em Ilha Grande, se conseguirem se desvencilhar de um polvo onde eles se enrolam, com tentáculos diferentes para as obrigações, família e TRABALHO. Logo, logo, vamos lembrar como esse bicho pega.
Antes de sair, nos despedimos de um de nossos amigos “Ricardo”, porque essa é a terra deles, há muitos com esse nome, e por isso mesmo, um remete a fama que tem ao outro. Dele ganhamos duas canecas de metal, uma verde, outra vermelha, uma para cada um, para serem Ricardo I usadas nas viagens, o símbolo maior da riqueza-pobreza que é viver em barco, com limitações de água para lavagem da louça, entre outras tantas. Já nos estapeamos aqui para ficar com a de boreste, o lado nobre do barco. Valeu, Ricardo-I!
Foi uma boa oportunidade para conhecermos melhor Niterói, um lugar que tem ares de cidade do interior, com pessoas tranquilas e simpáticas pela rua, passeando pela orla. Nos ciceroneou o Ricardinho, do Veleiro Seachegue. Ele nos ofereceu duas opções de almoço, uma em um restaurante com ar-condicionado, e outra num pé-sujo. O que é um PÉ-SUJO? Queremos conhecer!! Imaginei ser um programa como comer pão com mortadela no Mercado Municipal de São Paulo, ou um pastel de feira com coca-cola no interior de São Paulo. Por fim, apesar da simplicidade, foi o melhor feijão que comemos em Niterói. Justiça seja feita, ele também nos levou a bares badalados da noite, onde todos o conhecem. Conte essa estória direito, Ricardinho!
A nossa viagem para cá foi com o freio de mão puxado, o barco não andava por conta das cracas adquiridas em menos de 10 dias na Baía de São Francisco. Pelo menos, as algas de lá mataram as de Porto Seguro, Pé sujo que ainda estavam no fundo do barco, formando uns cabelos verdes compridos, que do mesmo jeito empatam a velocidade. Temos serviço a fazer, facilitado pela água transparente, onde agora estamos.
Na chegada, ouvimos gritos de “Luthier!”. Quando localizamos, vinham dos “Prati”, uns espanhóis de um Catana 50, que conhecemos na Refeno de 2010, e que encontramos o ano passado no Caribe e, depois, nos Açores, onde fomos jantar juntos no Peter´s, na Ilha de Faial. Estão na segunda temporada no Brasil. Precisa explicar o porquê? É só olhar à volta.
Também nos recepcionou, pelo VHF, o João Carlos, do Yahgan, dando graças a Deus que voltamos, e ele não vai mais precisar se preocupar com onde estamos, e com as condições do tempo à nossa volta.

Estamos voltando.

Catarina

“Vocês são assim, meio indigentes, né?…” Foi como a atendente da empresa de telefonia celular nos definiu, quando dissemos que não tínhamos comprovante de endereço para contratar o serviço de internet 3G. Para nós, isso não foi ofensa nenhuma, até rimos. Se a nossa “casa” é o barco, o nosso endereço é o oceano em que estamos, mas isso, poucos entendem. Eu não tinha uma fatura do cartão de crédito, nem de contas a pagar, porque deixei tudo digital e em débito automático antes de sair do país, enviando o que assim não fosse para o endereço de mainha, que toma conta de tudo.
Rio de Janeiro Tivemos que contratar uma internet porque os nossos amigos do Brasil têm milissegundos de paciência com aqueles que não a tem, e ficam dando bronca por demorarmos a responder e-mails ou atualizar a nossa página na web. Para eles, a internet é como a cafeína, uma cachaça que cai na corrente sanguínea e vira necessidade. Depois de passarmos até 20 dias no mar sem ela, realmente, a internet não se torna um item de primeira necessidade.
Por motivos parecidos, compramos um chip da telefonia local. O brasileiro virou um fanático por celular, apesar (e talvez por isso) da ligação no país ser caríssima, comparada à de Portugal, e à de outros países da Europa.
Para resumir, somos os E.T.´s da nave branca, recém chegados em terra.
Nós, os marcianos, fizemos uma excelente viagem de Búzios ao Rio, aproveitando o vento ENE antes da frente fria. A chegada ao Rio é sempre deslumbrante, mesmo à noite. O arranjo harmônico dos morros, as luzes da cidade, o desenho da baía, tudo é fascinante. De dia, podemos confirmar a beleza do lugar, da mata que resiste nos morros, de árvores frondosas favorecidas pelo clima, apesar do avanço das construções. A única pena é a água tingida de marrom, um efeito qualquer causado por algas, pela saturação de matéria orgânica e poluição, um problema que chateia os fluminenses, e que poderia ser resolvido, a exemplo do que foi feito em outros países, mas exige a tal vontade política, além da educação do povo. Eu creio: ainda vai aparecer algum E.T. que vai rasgar a camisa por esse mar!
Viemos para o Rio Yacht Clube – Sailing, a convite da diretoria, o que Sailing muito nos honra, porque os daqui são realmente amantes da vela, desportistas e vencedores, inclusive medalhistas olímpicos, em várias categorias.
E se antes em todo o lugar que chegávamos havia FESTA popular, agora há GREVE. Aqui é a do transporte, que tem causado transtornos no trânsito. Para piorar a nossa situação, não podemos alugar um carro, estamos sem carteira de habilitação, que está vencida. Vamos de táxi, pegando trânsito.
Justiça seja feita, aqui teve festa, sim, e das boas, pelo pessoal do clube que conhecemos em uma situação não muito comum, na Refeno de 2010. O nosso encontro foi no próprio dia em que chegamos, no meio da semana, um esforço para eles, que são trabalhadores. É um pessoal gente boa, interessado em mar, em natureza, em uma sociedade melhor para criar seus filhos, em andar de barco de um lado para o outro, em competir de forma saudável, e em celebrar a vida. Ficamos com saudades deles só de pensar que a nave branca vai partir, e vamos ficar longe. Mas, atenção, a nave vai voltar, acreditem, trazendo os marcianos de volta para encontrar o que a vida tem de melhor: os amigos unidos pelo mar.

Catarina

Se os amigos têm milissegundos de paciência, não existe unidade para medir o tempo que tive para atender à determinação: “EU QUERO UMA SOLUÇÃO PARA INTERNET, HOJE!”, que recebi da Catarina. Missão cumprida, agora tenho milissegundos para publicar este texto.

Dorival

Desde que navegamos, nunca passamos por uma situação como a que vivemos ontem à noite, de total impotência perante as forças da natureza, e de total falta de controle da situação.
Estamos em uma poita do Iate Clube de Búzios, onde chegamos na última sexta-feira. Durante a viagem, ouvimos avisos-rádio informando a ocorrência de ventos fortes ao sul da área “charlie”. Nas proximidades de Campos-RJ, já avistávamos nuvens pesadas e muitos clarões de raios no céu, na região de terra. Por segurança, abortamos a ida à cidade do Rio de Janeiro, com receio de que a frente avançasse rapidamente e nos pegasse. Já tínhamos vivido uma situação de pré –frente nessa região, numa ocasião em que descíamos a costa e, na altura do Rio de Janeiro, o vento mudou de direção, o mar também, os pelos do meu braço arrepiaram, o barômetro caiu 3 mb rapidamente; entramos às pressas em Niterói e, assim que acabamos de amarrar o barco no cais do Charitas, chegou uma ventania de até de 40 nós que sacudiu tudo, cais e barcos, e que, depois soubemos, derrubou o palco em que o Guns And Roses ia se apresentar, causou desabamentos e queda de energia por toda a cidade. Mais que a chuva e a ventania, nessas ocasiões tememos os raios; em mar aberto, sem morro por perto, somos os pontos mais altos, os prováveis alvos.
Na sexta-feira aqui em Búzios, tivemos uma chuvarada e ventos de cerca de até 35 nós às 3 da manhã. Ligamos o motor, preparados para ancorar caso a poita arrebentasse, tudo sob nosso controle. Achamos que aquele tinha sido o efeito da frente no local, e que tinha passado. “Acho” não serve para nada. No final da tarde de sábado, muitos clarões de raios começaram a surgir ao largo, um destes caiu bem perto do nosso barco e alarmou a CPU de um dos nossos equipamentos eletrônicos, mas não houve danos. A partir daí, começamos a nos preparar para a chuvarada: chave do motor na ignição, âncora solta, controle do guincho ligado, maiôs, etc… Eis que a chuva chegou e, com ela, ventos que começaram em 10 nós, e rapidamente foram a 20, 30, 40, 50 e pasmem… 75 nós!!! O barco girava e adernava descontroladamente. As coisas dentro do barco caiam. O barulho do vento e os clarões de raios lá fora eram de arrepiar. Nos demos conta que nos esquecemos de tirar uma lona, que batia como louca, servindo de vela para mais confusão; o Dorival passou uma faca nos cabos, às pressas, e conseguiu tirá-la. Nada conseguiríamos com o motor, pois nada víamos sob a intensa chuva e o vento, e nada poderíamos fazer contra eles; caso a poita se rompesse, iríamos sair batendo nos outros barcos até parar na praia.
Pudemos ver a vela de um veleiro ao nosso lado se abrir e se desfazer, adotando a forma de um soutien. A loucura durou cerca de meia hora.
Chamamos o Weber do Veleiro Acauã pelo rádio, que contou seu drama: foi parar na praia. Ele estava no ferro. Além de tudo, quando seu barco adernou sob a ação do vento, embarcou água. Ele conseguiu desencalhar e foi ancorar mais distante. Nesse meio tempo, viu as velas de um outro barco se abrirem e rasgarem.
Hoje é dia de consertos. Ao nosso lado, há uma escuna com toldos rasgados e mastro caído. No clube, há lanchas viradas. Já vimos que a nossa antena de TV e a do Pasárgadas, ao nosso lado, ficaram tortas. Temos que reparar os cabos e o zíper da capa. Até que, com tudo, nosso prejuízo foi pouco, principalmente porque estamos bem.
Nem no Caribe presenciamos uma coisa destas. Por lá pegamos ventos de até 45 nós, mas estávamos navegando. Pode ser que nosso medidor de vento tenha ficado besta, que tenha medido a mais, mas que foi a maior ventania que pegamos, ah foi.
Isso é adrenalina pura, na veia, ou o quê?

Catarina

Era para termos ido embora na última terça-feira e, depois, na quinta, mas o patrão não deixou, avisou que estava mandando uma frente fria que iria nos alcançar antes de chegarmos ao Rio de Janeiro. Os nossos amigos daqui comemoraram, disseram que vamos ficar para a Páscoa; aí não, é muito tarde, não vamos ter a aprovação do patrão.
LUTHIER na Ponta do Mutá O distrito de Ponta do Mutá entrou em “férias” dos turistas. Muitas pousadas, como a dos nossos amigos Sheila e Vili (ela mineira, ele suíço), fecham nesta época do ano, porque não vale a pena abrir para poucos. Abriram para nós, para oferecer um almoço tailandês, para relaxar e falar de barcos e vela, pois ele é um aficionado, instrutor de “kite-surf” nas horas vagas. Parte dos restaurantes também passou a fechar aos finais de semana.
O que mais se vê nos comércios daqui são mineiros, paulistas e estrangeiros. Nos restaurantes, ainda não vimos a típica comida baiana, como o vatapá, o caruru, o bobó de camarão, etc… Nem as baianas do acarajé, nem a música axé. Então, é Bahia, mas não é. Querem agradar ao paladar dos turistas do sudeste, como nos explicou o dono de um restaurante, e educam as cozinheiras locais para isso; assim, a feijoada é ao estilo carioca, em que primeiro fritam a cebola e o alho, depois vão colocando os ingrediente um por vez, e não tudo de uma vez, como fariam os baianos. Sobre esse tema, o da cozinha, a verdade é que tudo é bom desde que feito com amor, mas, indiscutivelmente, no quesito Pendurando roupa lavada FEIJOADA, o amor da carioca é com MAIS AMOR, que me perdoem todos os santos.
Temos visto muita propaganda enganosa nas praias do Mutá. Os ambulantes locais estão passando com dezenas, quiçá, centenas de soutiens de biquínis com bojos equivalentes ao forro isolante térmico do nosso barco. Ora, amigos, dão a falsa impressão de que ali há uma comissão de frente que, de fato, não existe. Tem outro problema: esses apetrechos inflam quando nadamos, e querem sair flutuando, não prestam para o mar. Também atrapalham para vestir a roupa de mergulho, ficam sobrando e se amassando. Como eu sei? Bem, eu tive que comprar um destes, porque não há outro tipo à venda no mercado atual, entende?
Mudando de assunto, não bastasse a minha mãe achar que estamos em fase de crescimento, agora encontramos pela frente a Elina, esposa do João-construtor. Ela não só prepara bolos gostosos e variados para o ELINAcafezinho que serve em sua casa, como separa merenda para levarmos, com bolo e pão de queijo. Além disso, nos cede a internet, e conta muitos “causos” de suas peripécias pela vida, como a criação de uma fábrica de sorvetes que espantou a Kibon do lugar, e trouxe progresso e delícias  para a região. Foi ainda cachaceira das boas em Minas Gerais, digo, fazendeira de cana e engenho. É tão gente boa que se ofereceu para lavar as nossas roupas em sua máquina, ao que eu agradeci, mas declinei, pois na falta de uma lavanderia à mão, a poucos metros do barco, apelo para o tanquinho que tenho a bordo, o Dorival.
É por estas e outras boas surpresas que encontramos pelo caminho que vale a pena essa vida de cruzeiristas. Vamos curtindo, enquanto o tempo deixar.

Catarina

Estamos na Ponta do Mutá, distrito de Porto Seguro, numa pequena enseada cercada por recifes. Fizemos uma boa viagem, com vento durante o tempo todo, então, nada tínhamos a reclamar. Mas, eu Aguaceiro chegandoreclamei bastante, do calor. Foi uma travessia para lá de quente e seca, em que alcançamos o nosso recorde de temperatura dentro do barco, de 36º C, e 41º C no convés. Passamos os dias do lado de fora, até que o astro-rei se pusesse. “Vá descansar!”, desejava eu à bola de fogo. “Não é à toa que dizem que o inferno é quente”, pensava. Pela descortesia a quem nos dá vida (e calor), dois dias depois da viagem o tempo fechou, e caiu um aguaceiro na Ponta do Mutá, o dia todo, parecendo um castigo. 
Ao contrário do que muitos nos disseram, sobre os perigos dos recifes na região, a entrada na enseada foi tranquila, seguindo os way-points passados pelo Ronny, nosso amigo meio-gaúcho, meio-baiano, skipper  do catamarã Luar. Baixamos a velocidade do barco durante a noite para chegar com a luz do Escola de Vela Oceanoamanhecer, porque não conhecíamos a região.
O fundo da enseada é de areia, de boa tensa. Estamos em uma poita da Escola de Vela Oceano, que fica em frente. A água é da cor verde-bala-de-hortelã, bastante transparente na maré alta, e o melhor, está quentinha nesta época do ano, com 29ºC de temperatura.
O desembarque nosso é na praia, de preferência, na maré baixa; na maré alta, o melhor é ir de maiô, para o caso de se molhar com a arrebentação. Os jet-skys são proibidos na área, propiciando o sossego para a prática da vela.
Caminhando pela praia ou pela rodovia que a margeia, em pouco tempo Muta 020 se chega à Coroa Vermelha, distrito de Santa Cruz Cabrália, onde está fincada a cruz do descobrimento, e onde a história do Brasil começou.
Aqui já moravam os indígenas Pataxós, que ainda hoje vivem na região. Os homens índios se diferenciam por não terem barba no rosto, apesar de serem fortes e musculosos. Gostam de usar pulseiras largas com motivos geométricos, e têm as orelhas perfuradas para o uso de brincos. Dentro da mata que ainda resta na região, alguns tentam manter os seus costumes, como nos contou um cacique que conhecemos; fica na aldeia quem quer, todos são livres para sair. Quem dera a nossa sociedade civilizada pudesse ter caciques colocados na função pela confiança dos demais em suas qualidades, e não pela força do marketing e do dinheiro que há por trás.
Os “Pataxós” tinham como característica não guerrear com o inimigo quando atacados, mudavam a aldeia de lugar; de certa forma, nós fazemos o mesmo ao cruzeirar: se a região ou a vizinhança não estão boas, temos a oportunidade de levantar ferro e vazar. É uma forma de liberdade.
Helô e seus alunos Aqui nos sentimos em casa, cercados de malucos por barcos, caso do Ronny e seus amigos “Seu” João e Décio. A turma se reúne para trabalhar sem trégua na construção de um catamarã, feito no capricho. Não! Tem trégua para o cafezinho da esposa do João, que dá a maior força para a obra. O churrasco da virada é esperado para breve.
Dentre os insanos, está a Helô, da escola de vela, que me disse que eu não saio daqui sem saber remar de pé na prancha (stand-up), e que este será o seu desafio pessoal. Eu sei que a moça tem didática e preparo, que seus alunos saem com os olhinhos brilhando das aulas, mas daí a eu sair remando, não sei, não…. Qual será a melhor foto de recordação da aula, aquela em que eu estou caindo, ou a em que eu estou me desequilibrando e…caindo?
Estamos na Bahia, e sábado é dia de festa, que será na praia, no lual da Escola de Vela Oceano, com música ao vivo e tudo. Dia de relaxar das fainas de barcos, falando neles.

Catarina

Hoje, 1º de março, iniciamos nossa viagem para o Sul. Vamos fazer uma escala em Santa Cruz Cabrália no sul da Bahia. Acompanhe nossa viagem pelo SPOT. Estaremos no rádio SSB em 13.983 khz às 20:00 e às 21:00 hs UTC.

Dorival

As navegações por mais de 15 dias têm características especiais. Os primeiros dias são mais difíceis, o estômago e o cérebro estão se acostumando com o balanço do mar e uma insegurança em relação à viagem está sempre presente. As tarefas de bordo ainda não estão rotineiras e o sono fora de hora causa cansaço. O lugar novo para onde se vai, ou o retorno para casa, ainda inundam os pensamentos com expectativas, saudades e a inevitável contagem do número de dias para chegar.
Com o passar dos dias, a rotina de ajuste de velas, planejamento da navegação em função da meteorologia, fazer comida, pão, etc., ajudam a estabelecer um novo modo de viver. Você deve estar imaginando que o casco do barco parece o muro de uma prisão, apesar de proteger e abrigar o navegante. Porém, os espetáculos da natureza, desobstruídos de poluição química e visual, encantam, e junto com os e-mails diários e os longos papos no rádio com amigos, velejadores e radioamadores, dão uma sensação de liberdade próxima do ideal.
Dependendo do vento e dos recursos a bordo, o navegante vai se arrumando e se acostumando. Alguns momentos se tornam especiais, um deles é o banho, que renova os ânimos, e outro é quando se consegue pescar ou aparecem golfinhos para saldar nossa passagem.
A partir de conversas com outros navegantes percebo que, sendo um casal, o espaço a bordo é um problema menos importante. Muitos deles dizem que sou um homem de sorte por ter uma mulher para compartilhar essas navegadas. Sou mesmo. Claro que às vezes rola uma briguinha, mas dura pouco, mesmo porque, em geral é por bobagem. Exceto pelo número de ovos na receita de pão, e a abertura de gaiutas durante a navegação (nunca permito isso), sempre concordamos. Afinal, estamos juntos 24 horas por dia há mais de três anos.
Já não se contam mais os dias para chegar, as prioridades na navegação passam a ser a segurança, o conforto e só então a velocidade. A busca pelo vento se torna obsessão, precisamos dele porque não temos diesel para toda a travessia. Por isso que comemoramos quando atingimos o ponto onde temos autonomia para chegar.
Além de conversar sobre a meteorologia, rumo, regulagem de velas, o cardápio do almoço e o que postar no blog, sobra tempo para relembrar os lugares por onde passamos e sonhar com que faremos quando chegarmos ao destino. A duração da viagem faz com que o assunto vá mudando, passando para comentários sobre as notícias que ouvimos no rádio, nosso futuro, saudade dos amigos, família e por aí vai.
De repente, estamos chegando, faltam “apenas” 250 milhas, ou dois dias. Não muda nada, continuamos na mesma toada até o destino, tanto faz se demorar um dia a mais, estamos totalmente adaptados.
A chegada a Salvador foi preguiçosa. Perto de amanhecer optamos por passar por fora do banco de areia que fica em frente ao farol da barra. O banco em si não é problema para o calado do Luthier, mas ali há muitas canoas com pescadores, e esperar para entrar na Baía de Todos os Santos de dia vale a pena.
Já que estamos falando em conforto e segurança, alguns ítens bem baratos fizeram a diferença: pratos e tigelas antiderrapantes, saco plástico para fazer gelo, dosador  para torneiras de água pressurizada e mangueira com válvula para transferência de diesel.  As imagens valem mais que palavras.

Dorival

Em Tempo: O saldo do carnaval em Salvador foi de um dente meu quebrado, comendo amendoim, e uma infecção de garganta na Catarina. Isso atrasou nossa viagem para o Sul por alguns dias.

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