Hoje, 1º de março, iniciamos nossa viagem para o Sul. Vamos fazer uma escala em Santa Cruz Cabrália no sul da Bahia. Acompanhe nossa viagem pelo SPOT. Estaremos no rádio SSB em 13.983 khz às 20:00 e às 21:00 hs UTC.

Dorival

As navegações por mais de 15 dias têm características especiais. Os primeiros dias são mais difíceis, o estômago e o cérebro estão se acostumando com o balanço do mar e uma insegurança em relação à viagem está sempre presente. As tarefas de bordo ainda não estão rotineiras e o sono fora de hora causa cansaço. O lugar novo para onde se vai, ou o retorno para casa, ainda inundam os pensamentos com expectativas, saudades e a inevitável contagem do número de dias para chegar.
Com o passar dos dias, a rotina de ajuste de velas, planejamento da navegação em função da meteorologia, fazer comida, pão, etc., ajudam a estabelecer um novo modo de viver. Você deve estar imaginando que o casco do barco parece o muro de uma prisão, apesar de proteger e abrigar o navegante. Porém, os espetáculos da natureza, desobstruídos de poluição química e visual, encantam, e junto com os e-mails diários e os longos papos no rádio com amigos, velejadores e radioamadores, dão uma sensação de liberdade próxima do ideal.
Dependendo do vento e dos recursos a bordo, o navegante vai se arrumando e se acostumando. Alguns momentos se tornam especiais, um deles é o banho, que renova os ânimos, e outro é quando se consegue pescar ou aparecem golfinhos para saldar nossa passagem.
A partir de conversas com outros navegantes percebo que, sendo um casal, o espaço a bordo é um problema menos importante. Muitos deles dizem que sou um homem de sorte por ter uma mulher para compartilhar essas navegadas. Sou mesmo. Claro que às vezes rola uma briguinha, mas dura pouco, mesmo porque, em geral é por bobagem. Exceto pelo número de ovos na receita de pão, e a abertura de gaiutas durante a navegação (nunca permito isso), sempre concordamos. Afinal, estamos juntos 24 horas por dia há mais de três anos.
Já não se contam mais os dias para chegar, as prioridades na navegação passam a ser a segurança, o conforto e só então a velocidade. A busca pelo vento se torna obsessão, precisamos dele porque não temos diesel para toda a travessia. Por isso que comemoramos quando atingimos o ponto onde temos autonomia para chegar.
Além de conversar sobre a meteorologia, rumo, regulagem de velas, o cardápio do almoço e o que postar no blog, sobra tempo para relembrar os lugares por onde passamos e sonhar com que faremos quando chegarmos ao destino. A duração da viagem faz com que o assunto vá mudando, passando para comentários sobre as notícias que ouvimos no rádio, nosso futuro, saudade dos amigos, família e por aí vai.
De repente, estamos chegando, faltam “apenas” 250 milhas, ou dois dias. Não muda nada, continuamos na mesma toada até o destino, tanto faz se demorar um dia a mais, estamos totalmente adaptados.
A chegada a Salvador foi preguiçosa. Perto de amanhecer optamos por passar por fora do banco de areia que fica em frente ao farol da barra. O banco em si não é problema para o calado do Luthier, mas ali há muitas canoas com pescadores, e esperar para entrar na Baía de Todos os Santos de dia vale a pena.
Já que estamos falando em conforto e segurança, alguns ítens bem baratos fizeram a diferença: pratos e tigelas antiderrapantes, saco plástico para fazer gelo, dosador  para torneiras de água pressurizada e mangueira com válvula para transferência de diesel.  As imagens valem mais que palavras.

Dorival

Em Tempo: O saldo do carnaval em Salvador foi de um dente meu quebrado, comendo amendoim, e uma infecção de garganta na Catarina. Isso atrasou nossa viagem para o Sul por alguns dias.

“Tá” cansado? SAI DO CHÃO, AÍ !!! Quem não pula depois de um grito assim, vindo de um carro de som?
O carnaval de Salvador é para todos, de todas as idades, de bebês de colo fantasiados até senhoras e senhores bem comportados. É uma festa
familiar. E de amor, muito amor entre os casais.

Participamos na “pipoca”, na base do “sem bloco” e sem compromisso. Íamos ao Pelourinho e à Praça Castro Alves, onde passavam os trios que vinham do circuito do Campo Grande. Com vários palcos espalhados, tinha atração para o dia e para a noite. Duro é aguentar tanto agito, teve um dia que pedimos arrego e nem saímos.
Filho de Gandhy Por ser uma festa de rua, você tem que ir limpo; mesmo assim, vimos pessoas passarem com filmadoras e outros equipamentos, e nada acontecer; também não presenciamos nenhuma briga. Havia muito policiamento, e muitos guias turísticos.
Saímos para folia com quem queria. Então, conosco foram gringos e baianos.
O principal para curtir a festa é ir com o espírito de folia porque, o tempo todo, jogam água de umas “armas” de plástico, além de um spray de espuma de sabão, confete, e até cerveja, que escapa do copo de algum bebum.
Quando batia o cansaço, sentávamos em torno de uma mesa de bar no Bonecos no Pelourinho Pelourinho, que tem um carnaval mais calmo, ao estilo antigo, de pequenos blocos e bandas. De lá assistimos à saída do Olodum. Pouco antes, subiu a mesma ladeira um bloco de argentinos que tentava fazer a mesma batida; neste caso, o que importa não é o resultado, é a diversão.
Também assistimos à saída dos Filhos de Gandhy, e à cerimônia em que pedem paz, jogando milho para Oxalá, e soltando pombas brancas. No desfile deles, o branco das roupas deixa um tapete dessa cor pelas ruas. A tranquilidade do bloco, e a alfazema que jogam pelo ar, criam uma clima de paz. E de azaração, porque é carnaval. Beijava quem queria, em troca de um colar. É um bloco só de homens, então, criaram Fantasia uma forma de prender os colares com uma fita bem amarrada, para que a esposa ou namorada tenham certeza de que seus homens voltaram com o mesmo número que saíram. Só que fita não é cadeado, e há muitos colares à venda, então… acredita quem quiser, ou quem confia.
Nem todas as mulheres são anjos. Vi uma lavando os braços no banheiro de um restaurante. A explicação: nem seu pai nem seu marido podiam saber que ela saiu na Timbalada, que faz pintura de branco na pele. Eu perguntei se ela também tinha um colar de Gandhy. O que vocês acham?
Filhos de Gandhy Meu voto neste Carnaval é para a banda Tomate: ótimos som, equipamentos, voz e repertório. Continuam nossos queridinhos a Banda Eva, com o gracinha do Saulo de vocalista, e a insuperável Ivete, na voz e simpatia.
É isso pessoal, a nossa ausência foi por falta de tempo de parar quietos.
Agora já deu o nosso tempo de Salvador, vamos descer nos próximos dias. Como diz a música: “Tchau, I have to go now, I have to go now, Tchau” Salvador, até próximo carnaval.

Catarina

Enfim o baiano vendeu acarajé, abará, cuscuz de tapioca, salgadinhos, cocadas, frutas, água com gás, sem gás, de coco, refrigerante, cerveja, cantou, pulou e … SORRIU.

Dorival

PS: Estou me superando nos videos, cada vez piores.

 

É muito triste ver o baiano triste. Assim eles ficaram a semana toda que passou. No lugar do sorriso no rosto, a preocupação com a segurança. Foi fraco o movimento no comércio e no turismo; poucos se arriscavam a sair para os passeios de escuna, pela cidade baixa ou pela orla. Por fim, todos perderam.
Em meio à onda de insegurança, houve arrombamento da Casa de Yemanjá, mantida por pescadores, com roubo de moedas doadas. Dizem por aqui que quem vai resolver esta questão não é só a polícia, não, é a própria mãe das águas. Não se pode violar os lugares sagrados, nem ofender os orixás; por isso mesmo, o primeiro gole da bebida é sempre para Exu, um respeitado bagunceiro.
A religião é coisa séria na Bahia. Muitas escunas executam o Hino à Nosso Sr. do Bonfim antes de sair para mar, ensinado às crianças desde muito pequeninas.
Por conta da insegurança, passamos boa parte da semana na marina, e nossa interação foi com os estrangeiros que aqui chegam, entre eles, um italiano, pela terceira vez nosso vizinho de bordo. Desta vez, ele já tinha se despedido de todos e seguia para o Caribe, solitário, mas voltou depois de zanzar por dois dias tentando encarar um nordeste e uma corrente de dois nós contra. O motor pediu arrego. Essa nossa costa não é fácil, e ele desconhecia a tal corrente contra, que não consta de suas cartas piloto americanas. A tal corrente está claramente representada nas cartas piloto brasileiras.

Vivemos com o sol nesta latitude. É muito calor e céu claro, sem nenhuma nuvem para aliviar. Já um amigo nosso, da Suíça, andou chateado porque sua casa ficou cheia de água após estourar um cano congelado. Menos mal que está voltando para a Nova Zelândia, onde ficou seu veleiro. É um casal na faixa dos 70 anos, bem dispostos, a maior prova de que à vela se pode ir longe.
Está decidido, não cumprimento mais com “boa tarde!”. A resposta é sempre o “boa!”, apenas. Então, agora também economizo nas palavras, e mando um “boa!”, que às vezes respondem com um “boa! boa!”, vai entender…
Vale tudo, desde que o baiano volte a sorrir. Inegavelmente, é uma terra linda, mas o melhor da Bahia é o baiano, feliz, como eles merecem.
Presenciei a secretária de um consultório soletrando uma sigla pelo telefone. Ela dizia “A”, de amor; “F”, de felicidade; falou o que vai no coração dos daqui.
E o carnaval, como fica? Sabe como é, já que estamos em Salvador, aqui ficaremos para o carnaval. Com recomendações, é claro, minhas amigas baianas deram muitas. Uma: disseram não ser o meu caso, mas concluíram que é melhor passar o carnaval sem o namorado. Outra, que vale para mim: não aceitar o colar oferecido pelos Filhos de Gandhy, pois em troca podem pedir um beijo. Ai, não! Seria uma confusão! Não, só vamos ver a abertura dos blocos, na boa, na Paz, e depois contamos mais.

Catarina

Resolvi escrever ao mesmo tempo sobre navegação, comunicação e meteorologia porque essas coisas estão intimamente ligadas. Na minha opinião, não existe uma data boa, específica, para travessia em mar aberto ou navegação costeira, existe uma época do ano adequada e estratégias para lidar com as forças da natureza. Certamente, não se deve ir contra elas; no mínimo, é desconfortável, e poderá causar danos desnecessários à embarcação.
Estamos acostumados com datas para eventos, pagamentos, início das férias, etc… Uma coisa comum que observei nessa viagem foram os cruzeiros organizados com suas datas imutáveis. O Illes du Soleil, por exemplo, saiu de Salvador na data marcada de 15 de janeiro, com destino a Cabedelo, com previsão de vento de 20 nós NE, ou seja, na cara. Se esperassem 3 dias, teriam vento SE.


Costumo dizer que ter uma data de vôo marcada, seja para embarque ou para encontrar alguém que desembarca em algum lugar, dá azar. Pois é, conheci experientes navegantes que tiveram que enfrentar mar ruim e vento contra só porque um passageiro a bordo tinha que embarcar em um determinado lugar, em um determinado dia.
Sei que todo mundo tem esse problema com datas, e que é muito difícil lidar com isso.
O Luthier é livre, digo isso porque saímos e chegamos nos lugares que queremos, quando queremos, e quando a previsão meteorológica é favorável. Então, como decidimos a data de saída?
Há muita informação sobre as épocas boas para travessias em livros e na internet. As informações dos livros são importantes, mas deve-se tomar cuidado porque o clima está sempre mudando e os livros podem estar desatualizados. Na internet, o cuidado deve ser redobrado, porque além de desatualizada, a informação pode estar errada. Não é porque está na internet que está certo. Já vi absurdos escritos na internet, gente garantindo que o fim do mundo será em determinada data ou que haverá um tsunami monstro, e que isso está comprovado por cientistas, e assim vai.
Conversar com os locais, com outros navegantes, com “skippers” profissionais, reunir toda a informação disponível e então olhar com muito cuidado a previsão meteorológica, é fundamental. Se assim for, você provavelmente decidirá sair no mesmo dia que muitos outros sairão.
Navegantes que saíram de Cabo Verde duas semanas antes de nós encontraram ventos mais favoráveis quando chegaram junto à costa do Brasil, o SE girou para NE. Um deles me avisou para que não me preocupasse, que não era necessário orçar forte com SE porque o vento iria rondar para NE.

Mar de popa entre Cabo Verde e a ZCIT

Nós preferimos não contar com isso e, desde Cabo Verde até sairmos da ZCIT, adotamos um rumo mais para leste, para poder orçar mais tranquilo com o SE. No meio do caminho, fomos percebendo que o SE não ia rondar, e não rondou. O vento só começou a ficar mais favorável abaixo de 6ºS. É isso mesmo, as condições meteorológicas mudam em alguns dias. Qual a mágica? Como sabíamos disso? O Luthier recebe e envia e-mail sem limite de caracteres via SSB. Como radioamador, faço isso sem custos. Para quem não é, existem duas empresas que prestam esse serviço a preços razoáveis. Recebemos “Weather Fax” e mapas de vento e ondas para áreas grandes. O João Carlos, do Veleiro Yahgan, nos ajudou muito, porque em terra ele tem muito mais fontes de informação e prepara a previsão que recebemos por e-mail, via SSB.
A previsão meteorológica, quando feita usando os resultados de diferentes modelos matemáticos, considerando os relatórios e cartas do NOAA, Meteofrance e Meteomarinha do Brasil, fica muito boa. Toda vez que não tive as condições previstas, elas aconteceram algumas horas mais cedo ou mais tarde, ou um ou dois graus mais adiante.
Saímos da ZCIT em 5ºN 23ºW, onde encontramos um bom vento SE. Um dia depois, tivemos ventos de mais de 30 nós, mar todo branco. Ficamos à capa por algumas horas, e tudo voltou ao normal, vento SE de 20 nós. Esse é um bom exemplo de efeito local. Essas ocorrências, que não aparecem na previsão, duram pouco tempo.
O Transponder AIS (sistema com transmissão) é muito útil. Os navios identificavam o Luthier à 8 milhas de distância, o que é suficiente para que possam manobrar de forma que o PMA (CPA em inglês), ponto de maior aproximação, seja de mais de 1 milha.
O principal uso do radar foi para identificar pirajás durante a noite, porém, infelizmente, ele identificou também enormes pesqueiros que navegam com tudo desligado, luzes, AIS, etc.. Não respondem a chamadas no VHF, e não manobram. O VHF do Luthier ficou ligado o tempo todo no canal 16. Monitorar o 72 também é uma boa idéia, os pesqueiros se comunicam em espanhol e japonês nessa frequência. O VHF foi muito usado para comunicação com navios.
Veleiros também são perigos à navegação. Totalmente apagados por problemas de geração de energia e armazenamento (bateria), normalmente navegam sem tripulante na vigia, ou este está dormindo.
Se não tivéssemos o radar, não saberíamos dos barcos de pesca e veleiros apagados. Talvez tivéssemos que correr para lidar com velas por conta de um pirajá noturno.
Se não tivéssemos o AIS, teríamos que manobrar porque os navios não teriam tempo de fazê-lo porque só nos veriam à 2 ou 3 milhas.
Sem a comunicação e o acompanhamento da previsão do tempo para decidir o melhor rumo, não teríamos feito uma viagem confortável e sem danos à embarcação.
Junto com o Luthier saiu de Mindelo um motorsailing de 52 pés. Durante os primeiros dias, eu passava para eles a meteorologia pelo VHF, e depois pelo SSB, porque como eles usavam o motor o tempo todo, adotaram um rumo direto para Fernando de Noronha e, por isso, fomos nos afastando. Quando estávamos em 8ºN, perdemos o contato pelo SSB, a transmissão deles ficou fraca demais.
Soube depois que logo que eles saíram da ZCIT, o eixo do hélice se partiu próximo ao motor, menos mal porque assim não embarcou água. Sem motor ficou muito difícil vencer o SE e, por isso, ficaram 90 milhas ao norte de Fernando de Noronha. O próximo equipamento que quebrou foi o leme de vento; logo depois, o estai de proa não aguentou e arrebentou. Por sorte, o “baby-stay” conseguiu segurar o mastro. Foram rebocados pela Marinha do Brasil para Fernando de Noronha. Essa tripulação tem história para contar.
Não temos heroísmos para contar, tudo correu bem nessa viagem. Claro que, durante toda essa volta pelo Atlântico tivemos algumas pequenas avarias e tivemos que fazer pequenos reparos, mas isso eu conto num próximo post da série.

Dorival

Passamos a semana em Gamboa do Morro, um povoado próximo do famoso “Morro de São Paulo”, ambos pertencentes ao Município de Cairu, na Bahia. É um lugarejo bastante simples, formado por poucas Gamboa do Morro - 1ruas. Parte da orla está tomada por algumas casas singelas, ao lado de um cais de desembarque de concreto com intenso movimento de embarcações e pessoas.
Quando chegamos, havia um único veleiro além do nosso, numa ancoragem distante, e muitas pequenas embarcações ao largo. A primeira dúvida que surgiu para lá permanecermos foi quanto à segurança, pois tínhamos a informação de que estava sendo iniciada uma greve de policiais na Bahia. Apesar da simplicidade, o distrito de Gamboa do Morro nos pareceu tranquilo, pacato, com origem numa pequena vila de pescadores que hoje vive, também, do turismo. Todas as vezes que íamos prender o bote inflável com cadeado no cais, nos diziam, quase ofendidos, que ali não precisava daquilo, que ninguém iria “bulir” com ele.Gamboa do Morro
É um lugar arborizado, que mantém grande parte da vegetação natural de mangues e matas baixas, a perder de vista, com praias limpas, de água transparente. A jóia do lugar é a Coroa do Meio, com piscinas de água morna na maré baixa, ou melhor, de água quente, porque a temperatura média tem sido de 29º C.
Há muitas poitas em frente à praia, logo após o cais de desembarque, para as embarcações de passageiros, de pesca, lanchas e canoas. Ficamos em uma delas, cedida por um amigo. Ali o mar rola um pouco, principalmente por conta do grande tráfego das embarcações, fazendo marolas, e pelo movimento das marés.
Os catamarãs com destino a Morro de São Paulo, partindo de Salvador,  também param nessas poitas. Soubemos que estas embarcações gastam, a cada viagem, cerca de 100 sacos para vômitos, fornecidos aos Coroa do Meiopassageiros. Elas andam muito rápido, e batem bastante no mar quando este está pouco mais alto, daí os passageiros chamarem o “Raul”. São lavadas a cada viagem de ida e volta. Ave-Maria! Imagine só quanta inspiração num só lugar, em dia de mar alto, tanto auditiva quanto olfativa!
Em Gamboa não há caixa eletrônico de banco, para sacar dinheiro tivemos que ir até Morro de São Paulo com o nosso bote inflável. Ali chegando, nos deparamos com um portal de pedra, que compõe a estrutura de uma fortaleza centenária, o que deu a idéia aos governantes locais de cobrarem R$12,00 por turista que por lá passe, a título de “taxa de turismo”. Falamos que queríamos apenas sacar dinheiro, a Morro de São Paulo poucos metros dali, e nos deixaram passar sem pagar. É uma medida ao menos antipática, sendo que deve haver formas mais criativas de se angariar dinheiro junto aos turistas.
A internet em Gamboa esteve fora do ar, e só no último dia conseguimos um acesso wi-fi, que dá mais conforto para rodar os aplicativos que estão em nosso próprio computador. Consultamos as previsões de tempo e vimos que entraria um vento contra para descer a costa; resolvemos adiar a nossa ida.
 
Voltamos para Salvador. Na viagem para cá, ouvimos os avisos-rádios para assistir ou informar quanto a 3 tripulantes desaparecidos de uma lancha que bateu nos recifes nas proximidades de Itaparica, no último Ponta do Curral dia 24 de janeiro. Na nossa viagem até Morro estivemos olhando atentamente, procurando por eles, sem sucesso. Foi um acidente ocorrido numa área abrigada de uma baía, num dia de tempo bom; independentemente das causas, revela a seriedade da navegação, pois um simples passeio pode se transformar num transtorno, e   numa tragédia.
Em Salvador, vamos aguardar uma condição de tempo favorável para partir, além de buscar umas peças de reposição e dar um jeito no nosso eólico, que está falhando, ele que é essencial para a nossa geração de energia à noite, em travessia. E quem disse que é preciso um motivo para voltar a Salvador? A onda de insegurança vai passar.

Catarina

Caramba! Já tínhamos esquecido o quanto esse lugar é bonito! O mangue intacto, as coroas de areia expostas na maré baixa, as árvores frondosas espalhadas pela orla, o mar morno convidando ao banho, a rica vida marinha: essas são as paisagens da costa oeste da Ilha de Itaparica.
Itaparica 1 Pensamos em parar aqui por uns dois dias para mergulhar, verificar o fundo do barco, e seguir viagem para Morro de São Paulo e Porto Seguro, onde amigos nos esperam. Mas, as coisas não são bem assim na Baía de Todos os Santos, é difícil deixar qualquer lugar daqui para trás. Já foi um drama a despedida de Salvador; apesar de sofrida, a cidade continua com seus muitos encantos. E cantos, porque vive e respira a música.
Mas, estava na hora de tomar um banho de mar, nadar em volta do barco, ver o pôr do sol no horizonte, as estrelas à noite do cockpit do barco, e explorar um outro lugar.
Nessa época do ano o vento é menos intenso Itaparica 2na baía, então, a vinda para Itaparica foi à base da paciência, do “tac-tac” e da troca de lados das velas. Qualquer oportunidade que temos, velejamos, sempre aprendemos alguma coisa (mais eu),  praticamos e nos divertimos. Acreditem, achamos mais difícil velejar com pouco que com muito vento; realmente, aí reside uma arte.
A ancoragem nesta face da ilha está com menos embarcações que há cerca de dois anos, quando estivemos aqui nesta mesma época, por conta do menor número de embarcações estrangeiras (leia-se CRISE internacional). Há alguns Coroa e mangueveleiros de bandeira brasileira, convivendo com embarcações de pesca, lanchas potentes e outras menores, além de pequenos saveiros e canoas.
O desembarque é no cais da Marina da Ilha, onde, diferente do Caribe, ninguém prende o bote com cadeados e correntes. Ao lado da marina é mantida a fonte de água mineral da ilha, de acesso gratuito. Da ancoragem conseguimos acessar a internet wi-fi aberta da marina. Tudo isso não é um luxo?
Numa volta pela cidade de Itaparica, notamos que a ela está mais arrumada e limpa, com varredores de rua logo pela manhã, sinal de que faz diferença a atuação da administração local; continua singela, como uma cidade do interior, mas bonita. A igreja centenária foi pintada e, pelo visto, recuperada. Continua vagando pelas ruas uma senhora argentina que mora na praça, levando suas Luxo tralhas e seu gato por onde anda; certamente, foi acolhida pelo povo da ilha, não sobreviveria sozinha.
Saímos da rotina de cais de marina para viver com a nossa própria energia. Também deixamos de contar com o conforto da cidade, com lavanderias à disposição, então, o jeito é lavar roupa a bordo, atacando de vez o problema, para não acumular.
Como é que faz, já tem frente fria chegando no Rio de Janeiro. Será que esse ano essa estória vai antecipar? Logo, logo, bem sei, teremos que ir. Mas, aqui está tão bom. Não tenho vontade de ir embora, não.

Catarina

“Marinheiro, não deixe a barca virar!” É um ditado popular, bem anterior ao GPS e aos alarmes de segurança de última geração das grandes embarcações. Lembra da responsabilidade daquele que está no comando da embarcação.
Nos contava o Décio, do Veleiro Hot Day, que estava subindo a costa para Cabedelo em seu barco, fazendo um bom progresso na travessia, com as velas ajustadinhas, quando avistou os tripulantes de uma embarcação pesqueira fazendo sinais com as mãos. Chamou-a pelo VHF No Pelourinhoe… nada. E agora? Poderia ser uma armadilha, um falso pedido de socorro; além de tudo, teria que mudar o seu rumo para alcançá-la. Mas, a obrigação de homem do mar falou mais alto. Recolheu a genoa, ligou o motor, e foi em direção à embarcação. Ao se aproximar, ouviu dos tripulantes que o cigarro deles tinha acabado. Depois de quase xingar a mãe dos sujeitos, passou uns maços de cigarro para eles e voltou ao seu rumo. Estava sozinho, e teve que lidar com o medo, o cansaço e o imprevisto.
Ser um homem do mar é coisa séria. As decisões são difíceis, e devem ser tomadas com rapidez, por pessoas com preparo para o comando.
O acidente com o navio de cruzeiro na Itália tem causado muitas reflexões sobre comandantes e embarcações. Uma delas, o mito de que quanto maior, mais segura é a embarcação. Existe, obviamente, um tamanho mínimo para que a embarcação saia de águas abrigadas para mar aberto; o projeto da embarcação deve ser compatível para o que se propõe, ter autorização da marinha para tanto, tripulantes habilitados, e cumprir as normas de segurança. No mais, não há embarcação grande o suficiente para o tamanho do mar.
Não gosto da idéia de grandes aglomerações humanas, o que, por si só, podem ser um problema num momento de evacuação.
Em Salvador, temos visto destes navios de cruzeiro encostarem com frequência no Porto. Os comerciantes dizem que eles trazem poucos recursos à cidade, pois os passageiros se hospedam e fazem as refeições no navio, e nas compras, se limitam às lembrancinhas, pois ainda terão muitas prestações da viagem para pagar.
Quem procura, acha. O nosso barco só ia tomar um banho, daqueles

detalhados, com polimento do aço inox, lavagem de redes e cabos, eis que, ao desmontarmos a bóia salva-vidas, descobrimos que o seu cabo estava em estado não adequado, apesar de relativamente novo. Ao tirar a balsa salva-vidas do lugar, vimos que o peso dela estava marcando a pintura do barco, e expondo o epóxi ao sol. Também tivemos a idéia de colocar a segunda âncora do barco junto à outra, no lançante, só faltava um cabo forte para prender o apoio da corrente. A necessidade destas providências, e de mais algumas, adiaram a nossa saída de Salvador. Queremos sair nos trinques.
O acarajé é uma comida boa, mas, às vezes, damos azar de pegar uma barraca que vacilou na higiene ou na conservação dos alimentos. O Dorival foi uma vítima delas na última terça-feira à noite, quando fomos com uns amigos assistir ao show do Gerônimo no Pelourinho.
Até ele ficar bem, vamos dar um tempinho. Afinal, ele é que é o capitão, no comando da nossa embarcação.

Catarina

O Ensaio do Gerônimo acontece todas as terças-feiras, no Pelourinho. É de graça, bastante popular e informal, mas é muito bem produzido. Muita gente se acomoda na escadaria do Paço, aquela em frente à igreja onde foi filmado “O Pagador de Promessas”.

Dorival

Bateria femininaO dia da lavagem das escadarias da Igreja do Bonfim começou cedo. Às 7:30 da manhã, helicópteros de redes de televisão já passavam sobre as ruas da cidade baixa, e pessoas se concentravam em frente à Igreja de  N.SRA. da Conceição da Praia, de onde sairia a procissão às 10:00 horas da manhã. Em frente à igreja, montou-se um altar com a imagem de  Nossa Senhora, de onde seria celebrada uma missa. Coisas da Bahia: uma procissão puxada por baianas de vários candomblés, Gaitastrazendo água perfumada preparada em seus terreiros, com participação da igreja católica. Cada um na sua. O importante é pedir a proteção de Nosso Senhor do Bonfim, aquele que, segundo a crença, salva náufragos, cura doentes, e afasta, de última hora, as lâminas de punhais assassinos.
E de última hora, a nossa vizinha Rúbia, do Veleiro “Hot Day”, resolveu participar da festa; fomos atrás de camiseta e pulseira para ela, que se revelou uma ótima companhia, uma Baianasfesteira de primeira. O gerente da marina já tinha vindo nos chamar para o agito, ele que ia no meio da multidão, sem participar de bloco nenhum.
Quem não podia participar olhava com cara de desalento, afinal, este é um dia sagrado para muitos baianos; um dos que tinha que trabalhar nos disse, chateado: “é, meu amigo, o sistema é bruto”, parodiando um apresentador de programas policiais.
Filhos de GandhySaímos às 8:30 e o nosso bloco já estava nas ruas, depois de uma série de exercícios de alongamento feitos em frente à Marina, e uma oração.
Passando pelo Mercado Modelo, pudemos ver várias barracas montadas com comidas, e algumas pessoas comendo feijão com farinha, um prato reforçado para aguentar a caminhada.
Ao som da batucada das mulheres do bloco, e das gaitas tocadas por Beijinhohomens, fomos caminhando pelas ruas de acesso à igreja, antes das baianas; a intenção da organização era fugir do tumulto, chegando primeiro no Bonfim. Muitas barracas de ambulantes estavam montadas pelas ruas, com bebidas geladas, tabuleiros com acarajé, abará, cocada,  bolinhos de estudante, e mais delícias; os que não podiam sair de seus pontos de venda tiravam fotos do cortejo.
Não sei como seria ir no meio da multidão, mas o fato é que o bloco conta Chegandocom pessoas que tomam conta do movimento, isolam carros e pessoas alheias, e isso traz tranquilidade e segurança para curtir a festa. De estranhos, entravam no bloco os cachorros de rua, que desfilavam abanando o rabo, acostumados às festas e às multidões da Bahia. De qualquer forma, havia tantos policiais, em palanques e pelas ruas, que acho difícil que alguma ocorrência mais grave acontecesse. 
Assistindo a chegada Muitas pessoas acompanhavam das sacadas das casas, acenavam, e o Dorival até ganhou um beijo soprado por de uma senhora de cabelos brancos.
Passamos pela casa da imaculada Irmã Dulce, sentindo o cheirinho dos pães fabricados no local. Nos esperavam num portão diversas crianças com necessidades especiais, e o bloco parou para saúda-las. Tenho guardado comigo as fitinhas em branco e azul, distribuídas por uma irmã da casa; vão ser Cortejopenduradas na roda de leme do barco.
E foi assim, dançando, conversando, que nem vimos os quilômetros passarem; quando nos demos conta já estávamos a dois ou três de chegar. 
A emoção foi grande quando avistamos a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, cercada por uma multidão de branco.
Neste ponto, já estávamos extasiados com o cheiro de dendê onde os Igreja do Bonfim acarajés estavam sendo fritos, e como estávamos adiantados, paramos para comer numa tenda.
Não pudemos chegar perto das escadarias, a igreja é pequena para a  multidão estimada em um milhão de pessoas, com os lugares privilegiados para os políticos, os clérigos, e as próprias baianas, além da tropa de policiais. Então, fizemos o nosso pensamento, pedimos por todos e pelo nosso planeta, que já vimos, não é tão grande assim para aguentar tanto desaforo dos homens.
ConfraternizaçãoA festa continuou à beira da praia, onde sentamos com amigos e pessoas que ali conhecemos para tomar uma cerveja super gelada.
Aqueles que tinham vindo para a igreja de escuna, ou outra condução,  sofreram críticas do grupo, afinal, “quem tem fé, vai a pé”.
Foi um bom dia, de boa companhia, bom tempo, e bom astral. Um dia para ficar na memória.

Catarina

Festa? Que nada! Para que pequenos problemas não se tornem PROBLEMAS, resolvemos encarar a lista das fainas pendentes do barco. Foi uma semana de trabalho duro. Poderíamos adiar tudo para resolver depois, no sudeste, mas as coisas sempre podem se complicar no caminho.
A nossa lista começou pelo costado, para tirar a meleca dos decalques de regatas, principalmente, a de Horta à Terceira, nos Açores. As outras pendências: reparo no gerador eólico, que se negou a funcionar em determinada posição, dependendo da direção do vento; o nosso bote inflável, que precisava de acabamentos para que a madeira em que vai preso o motor não estragasse com o atrito; limpeza dos nossos tanques de água, que estavam com barro no fundo, mesmo com o nosso cuidado Lelê da Catarinade
filtrar a água na entrada. Etc, etc, etc…
Os serviços sempre demoram além do planejado porque em barco tudo é mais complicado, até para achar o material apropriado, como parafusos de aço inox. As instalações também nunca são triviais, precisamos fazer um contorcionismo que toma tempo.
As fainas do lado de fora têm sido sofridas, por conta do sol escaldante. Diferente do sudeste, que recebe chuvas pesadas nesta época, aqui acontece uma chuvinha de 10 minutos, e o céu torna a ficar totalmente aberto.
Em Salvador, tivemos uma boa surpresa: há internet wi-fi grátis, e de qualidade, bancada pela Prefeitura do Município.
Notamos que os preços dos produtos aqui variam muito de um supermercado para o outro. Os preços praticados por um atacadista próximo à Marina não são ruins, mas há muitos produtos no limite da data de vencimento. Em um outro supermercado, de varejo, tudo é mais caro, caso de um simples balde a R$38,00; por conta disso, chamamos a rede de “mau preço”. Nessa mesma rede, o serviço prestado é ruim, incluindo o açougue, que não faz cortes das carnes. Até o taxista que faz ponto no local criticou o estabelecimento; gosto da sinceridade do baiano. Nos resta tentar um terceiro supermercado antes de partir daqui.
Não entendi o preço da castanha do Pará em Salvador, de R$70,00 o quilo, no próprio país que as produz, se em Portugal eu pagava o equivalente a R$33,00. Era para as tais castanhas estarem em liquidação, depois que um famoso seriado sobre casos médicos, que meus pais assistem na TV, relatou uma intoxicação fictícia por selênio, nelas contido. No seriado, um paciente estaria às raias da morte por ter comido muito dessas castanhas, apresentando sintomas como se tivesse tomado uma forte radiação de selênio; nunca soube de um caso destes no Brasil. Tudo é estatisticamente possível, até discos voadores visitando nosso planeta, entretanto, nestes anos de viagem pelo mar, observando atentamente o céu à noite, nada vimos além de astros, estrelas cadentes e aviões. 
Também por estes dias recebemos a visita das irmãs francesas que aqui conhecemos há dois anos. Elas e seus amigos reclamaram do tempo que podem permanecer no Brasil, dizendo que o nosso governo é mau para com os velejadores. Não é bem assim, o governo brasileiro reduziu a permanência deles no Brasil em reciprocidade à mesma redução imposta aos brasileiros na França. Por conta desta medida, tem muito francês aqui escondido no Rio Paraguaçu, longe dos olhos da imigração.
Encontrei o lelê, aquele meu doce preferido, que vai bem com um cafezinho. Não paro de comer nem para posar para a foto.
Há uma febre na cidade de um brinquedo de duas bolinhas presas por um cabo, e o lance é bater uma bola na outra. As crianças, e até os adultos, andam pelas ruas batendo essas bolinhas.

Se for para se divertir, temos um convite para ir à lavagem das escadarias do Bonfim nesta quinta feira, no bloco do Gerônimo, que abre a procissão. Isso significa andar 3 km até a Igreja de Nosso Senhor do Bonfim, sendo que o lema é “quem tem fé vai a pé”. A amiga que nos convidou recomendou: “dinheiro, só na calcinha”. Ô loco! Isso não pode ser! Então, que vá na cueca!
Nosso Senhor do Bonfim é Oxalá, pelo sincretismo religioso.
Já compramos o ingresso que dá direito à camiseta e à volta ao Comércio de escuna. Com fé em Deus, estaremos lá.

Catarina

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