Bem-vindo a bordo!

O Luthier avança para o Caribe e, como eu, muita gente acompanha com interesse e ansiedade os relatos diários que mostram a rotina de bordo, os incidentes, as angústias e principalmente as pequenas conquistas. O Dorival lembra hoje da nossa mais importante leitora da viagem passada, a mãe da Catarina, que nos deixou no início deste ano. Recebi dela um sincero elogio num comentário. Saudades da Dona Ady.
João

Boa Noite amigos,

Posição: 0°37,61S 041°07.4W
Rumo: 315° verdadeiros
Velocidade: 5,5 nós

Vento: 12 nós ESE verdadeiro, variando ao longo do dia até E
Ondas: 1,8 metros

O Vento e ondas têm se comportado como previsto, e o calor não nos larga. Improvisei uma entrada de ar forçada no dorade, mas não ajudou muito.

Infelizmente, na noite passada, um pássaro se deixou pegar pela hélice do gerador eólico. Com a asa direita toda arrebentada, não teve jeito de salvar.

Nossa performance está caindo, mas essa é a vida de cruzeirista; dependemos do vento e do mar. O vento médio está cada vez menor. Até agora estamos velejado somente com a Genoa. Com vento E amanhã vou levantar a Mestra também.

A Catarina tomou posse definitiva e exclusiva do nosso e-reader (um lev da Saraiva). Vamos ter que comprar outro.

Depois de 5 anos e mais de 500 ciclos de carga e descarga, em média de 50% da capacidade, as baterias do Luthier estão começando a perder capacidade. Fiz um teste hoje e elas estão segurando apenas 80% da capacidade especificada.

Na nossa viagem anterior, nossos relatos eram acompanhados pela Dona Ady, minha sogra, que sempre tinha comentários inteligentes e alegres. Ela se foi em abril deste ano, aos 85 anos bem vividos. Dedico esta viagem a ela.

Abraço,

Dorival

Boa Noite amigos,

Posição: 1°48,6S 039°15.3W
Rumo: 315° verdadeiros
Velocidade: 5,5 nós

Vento: 12 nós ESE verdadeiro
Ondas: 1,5 metros

A noite passada tivemos bastante vento (conforme previsto). Pela manhã acalmou e ficou em torno dos 12 a 15 nós o dia todo. Ou seja, 6 a 7 nós aparente. Consequencia disso, morremos de calor. Não temos como usar o ar condicionado velejando, aliás, desligamos o motor assim que passamos a última boia do canal de Natal e velejamos até agora.
Para dar um jeito no calor, fizemos água (temos dessalinizador) até encher os tanques e, então, festa dois banhos ao dia só com água doce. Vai ter que ser.
Também resolvemos que a refeição do almoço será gelada, salada com queijo, maçã, passas, grão de bico e carne desfiada. Refeição quente só à noite depois que refresca. Sim, à noite a temperatura na cabine cai para confortáveis 28 graus. Você pensou ai, ai, e de dia, 32 graus.
Ainda não pescamos, estamos gastando a comida congelada que a Catarina preparou antes de sairmos. Ainda temos para três dias, depois comida fesca só se eu pescar alguma coisa.

Abraço,

Dorival

O veleiro Luthier está navegando no rumo do Caribe. Estarei reproduzindo aqui nos próximos dias as mensagens recebidas do Dorival e Catarina através do SSB mail. Boa navegada.
João

Boa Noite amigos,

Posição: 3°17,5S ; 037°18.06W
Rumo:312° verdadeiros
Velocidade:6 nós

Vento: 15 nós ESE
Ondas: 1,5 metros

O Luthier está equipado com Transponder AIS classe B. AIS é um sistema automático de identificação que utiliza dois canais do VHF marítimo para transmissão da posição, rumo, velocidade, bem com, nome e características da embarcação.

Com o AIS fico sabendo de todos os navios e embarcações equipadas com o sistema que estão até 20 milhas à minha volta. Com os dados das embarcações, o OpeNCPN, sistema de navegação gráfico que utilizo, calcula o ponto máximo de aproximação e a hora que ele acontecerá.

Tenho observado que os navios quando identificam a possibilidade de colisão com o LUTHIER manobram quando ainda estão pelo menos 10 milhas de distância. A capacidade de manobra desses navios é limitada e lenta daí a vantagem e segurança que eu tenho por eles saberem do LUTHIER com bastante antecedência, permitindo as manobras. Às vezes falamos pelo VHF para combinar quem faz o que.

Digo isso porque nem todos da lista conhecem esse sistema. O mais interesante é que é muito bom saber que que os navios estão por perto. Desde que saímos de Natal sempre temos de 3 a 5 navios ao nosso redor.

Nossa navegação está muito tranquila, mar baixo e ventos entre 15 e 20 nós sem rajadas. O Céu limpo ajuda os painéis solares a carregar as baterias. O eólico faz muito pouco quando o vento é de alheta. O unico incoveniente tem sido o calor, estamos com 32 graus C.

Esse calor alterou um pouco nossa rotina a bordo, como o horário do banho, mas isso e outras pequenas coisas que se tornam importantes em uma navegação a vela contarei em outros e-mails.

Abraço,

Dorival

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Que pescador mentia eu já sabia, para aumentar o tamanho do peixe. Para diminuir o feito, foi novidade.

Estávamos a cerca de 10 milhas de Natal e escutamos conversas no VHF de que a pesca estava fraca, que não dava nada, ou só uns peixinhos. Pensamos: se eles que conhecem o lugar não estão pegando nada, imaginem nós! Melhor tirar a isca da água.

Na chegada ao Iate Clube de Natal, percebemos que a coisa não era bem assim… O pessoal descia das lanchas com cavalas e bonitos de mais de um metro. Estavam chegando de um campeonato de pesca. A mentira no rádio fazia todo o sentido.

Por fim, fomos convidados pelo Fernando (da Marta), membro do grupo     dos mentirosos, digo, pescadores, para comer no Clube o peixe pescado.

Fizemos uma excelente viagem de Salvador para Natal, embora com pouco vento, seguido pela correria com a ventania dos pirajás, quando não era possível deles desviar.

Também houve uma ocorrência de terrorismo a bordo, provocado por uma cafeteira italiana, que resolveu borrifar café por todo o lado, insatisfeita com o balanço do mar.

Tivemos o prazer de reencontrar o pessoal do Iate Clube do Natal, e os barcos que fizeram a Regata Noronha-Natal, povo super festeiro, que devemos reencontrar no Caribe, e na nossa volta.

De festa em festa, aconteceu a do aniversário do Dorival, junto com o Felipe do Carapitanga, e da Paula do Andante. Com direito a bolo e brigadeiro maravilhosos, feitos pela Elaine do Catamarã Pura Vida (doceira de primeira) e pela Marta do Fernando (como todo mundo a chama aqui, que por sinal é médica e dona de suas próprias opiniões). 

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No mesmo dia de aniversário, um super presente: um almoço no Navio Patrulha Macau, da Marinha do Brasil, a convite de seu Comandante, que conhecemos na Refeno de 2010, no comando do Navio Patrulha Graúna.

Agora chega de Festa. Estamos nos preparando para a próxima viagem. O Luthier está pesado com o estoque que fizemos de provisões, incluindo o feijão-preto e a farinha de mandioca, nossos queridinhos do dia-a-dia, difíceis de encontrar fora daqui.

Verdade seja dita: estamos levando também umas cachaças. Nada de mentira, afinal, ninguém aqui é pescador, só velejador.

Catarina

Aviso aos navegantes desta página: estamos praticamente sem internet. Com a internet pré-paga VIVO desconectado, e a do clube funciona mal. Conseguimos alguma coisa, de vez em quando, para baixar e-mails e previsão do tempo.

Em tempo: Velejadores, mergulhadores, caçadores, etc.. também mentem, ou seja, todo mundo mente (como diz o Dr. House, do famoso seriado de mesmo nome). CLIQUE NAS FOTOS PARA UMA MELHOR VISUALIZAÇÃO. DORIVAL

Liguei para a minha amiga Sandra, baiana “da gema”, para combinar uma visita. Ela tinha sido operada, e eu queria saber se ela precisava de alguma coisa, e o que eu poderia levar. Ela me advertiu para não levar nada  XXXMOSO (???) – Cremoso, Sandra?,  perguntei, e ela respondeu: “XXXMOSO”. Xinguei a operadora de celular, que faz tudo parecer som de lata, e avisei ao Dorival: – A Sandra não quer nada cremoso.

Levei biscoitinhos secos, bolo sem recheio, pãezinhos. Quando cheguei, logo falei que não tinha nada cremoso. Ela me corrigiu: REMOSO! Acontece que eu nunca tinha ouvido esta palavra, que existe, está no dicionário, e se refere a todo alimento que pode prejudicar a cicatrização ou  a recuperação de um doente, como camarão, frutos do mar, coisas gordas, e até o chocolate. Depois de muita risada, ela continuou o baianês, falou que um sujeito era moderninho (quer dizer “jovem”), e que o médico tinha sido “ligeiro” na consulta.

Para tristeza da minha amiga, a tia dela, a gracinha da Stella, nos convidou para uma feijoada (remosa) na casa dela. De primeira, e com feijão preto, ao gosto dos paulistas e cariocas.

Outro dia, o Serginho da Marina perguntou ao Dorival se ele tinha resolvido aquela “ZOADA” no motor. Ele se referia a um “barulho” no motor, cuja origem o Dorival estava procurando.

Não falo mais nada. Outro dia, um gringo perguntou como ele poderia sair na rua sem parecer como tal, vestir-se como os locais, como indicado nos seus manuais. Simples, eu disse, com mais colorido na roupa. E não é que ele sai com uma bermuda horrorosa, com retângulos vermelhos e cinzas, um tênis verde-limão  e uma pochete azul?  Ok, é colorido, mas precisa ornar! Ele deveria trajar uma bermuda rosa e camiseta verde, por exemplo, como faço eu. Questão de bom gosto.

Estamos com um pé na estrada. Estamos fazendo tudo  bem devagarzinho, mas bem feito, o que pode retardar um pouco mais a nossa saída.

Os nossos amigos do Andante, Carapitanga e Safo já foram embora por conta da REFENO. Vamos torcer por eles, e reencontrá-los em Natal.

Sem pressa…

Catarina

Em tempo: texto sem fotos porque a Internet daqui está sem pressa também.

Justiça seja feita! Não é só o ônibus para Siribinha que abastece  com combustível depois de embarcar os passageiros, o avião de Campinas para Salvador também! A única diferença é o aviso do Comandante do avião pelo sistema de som.

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Se na viagem para Siribinha a expectativa era o contato com natureza, para Campinas era o estresse de voar (compensado pelo fato de rever a família e amigos), e as inevitáveis visitas  aos shoppings centers.

Numa dessas incursões consumistas, topamos com um livro eletrônico (um e-book). O hábito de ler é uma regra entre os cruzeiristas, é lazer e informação garantidos onde a internet e o cinema não chegam.

O e-book é uma facilidade, pois guarda muita informação, que não vai pesar no barco, nem vai amarelar como o papel. A dúvida era se seria cômodo para ler, e se poderíamos ler os arquivos em PDF. Não temos mais dúvidas. O que compramos, em promoção, é bom demais! Já baixamos todos os livros da Marinha do Brasil, temos um monte de memória restante, pudemos baixar vários livros de domínio público (“epub”), a bateria dura um tempão, e agora estamos disputando quem vai usar.

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A viagem foi também nossa oportunidade de fazer um “check-up” médico antes de seguir a viagem. Por sorte, temos médicos gracinhas, de confiança, o Dr. Eson da Fonseca e o Dr. Lísias Nogueira Castilho, especialistas que vêem o todo.

Têm também aqueles que brincam com o perigo, como o dermatologista que prometeu tirar umas pintas minhas, no consultório mesmo, sem anestesia e, supostamente, sem dor. Coisa nenhuma! O Dr. disse não entender como eu ficava tão nervosa com o procedimento, mas enfrentava o mar. Deixe ele, inocente, não sabe que agora os nossos amigos são o Quebra Osso, o Pezão, o Orelha, o Cabaça (apelidos de capoeiristas), e tantos mais.

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Eu sou corajosa. Só desmaiei com a vacina de tétano. Voltamos a Salvador e fomos tomar vacina na Faculdade de Medicina, a mais antiga do Brasil, localizada num prédio maravilhoso no Pelourinho.  Encarei bravamente a segunda dose da vacina contra Hepatite B, sem chorar.

Na volta a Salvador, a realidade da nossa vida náutica: o Dorival segue sem pescar. Na última tentativa, perdeu a lula artificial para um dourado. Tem um amigo baiano prometendo sair com ele no próximo final de semana para ensinar a arte. Vamos ver o resultado…

Catarina

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Fomos convidados para uma excursão a Siribinha, um povoado de pescadores situado a 180 km ao norte de Salvador, onde aconteceria um encontro internacional de capoeira.

Não somos capoeiristas, mas era uma oportunidade de conhecer a Bahia não turística, já que o lugar não tem internet, nem lojas, comércio ou caixa eletrônico, não passa cartão de débito ou crédito, e a ligação por celular só é concluída se feita  de um “pier” de madeira sobre o Rio que corta a Península.

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Chegar de veleiro ali é possível apenas no verão, com mar calmo, maré alta e sem vento, rezando para que o motor não pare de funcionar de repente.

A saída da excursão estava marcada para às 13:00 horas de uma quarta-feira, do Pelourinho, IMPRETERIVELMENTE, como dizia um aviso afixado na Academia. Saímos às 14:30, rumo à Baixa do Sapateiro, para pegar os ônibus. (Só na Bahia! O ônibus embarca todos os passageiros e só depois vai abastecer. Dorival)

Na excursão foram grupos de russos e poloneses, canadenses, americanos e japoneses, cujos mestres capoeiristas são baianos.

Próximo à Siribinha, o ônibus parou por conta de uma manifestação de moradores contra a Prefeitura, reivindicando obras para barrar a invasão da água do Rio sobre as ruas. Os baianos do ônibus questionaram a motivação de tanta “lentitude”, mas logo viram uma oportunidade de fazer uma roda de capoeira em frente a uma igreja, enquanto outros iam negociar a passagem.

Tudo passa, e chegamos à noite em Siribinha. Alguns estrangeiros vieram se queixar para nós, por conta dos atrasos e contratempos. Para nós, estava tudo bom, mas eles são mais estressados com horários e “performances”, não costumam ver o resto.

O que se viu no encontro foi que os grupos de nacionalidade diferentes se mantinham separados dos demais, na hora de comer, conversar e se divertir. Se houve choque de culturas? Claro que sim! Um caldeirão. Na nossa modesta opinião, a globalização é puramente comercial, não integra culturas. Mesmo os baianos, ficavam juntos entre si, e comiam em local diferente.

Nós já estamos acostumados a não sermos de lugar nenhum, não sermos reconhecidos pelo grupo local. Vamos atrás de natureza, de coisa diferente, e vimos! Vimos tartarugas nascerem em ninhos na praia, vimos o encontro do Rio com o Mar – a barra, e ouvimos um pouco da opinião de cada tribo.

Interessante que alguns estrangeiros se queixaram de ter que treinar com outros menos experientes. De onde viemos, isso faz parte. Até na capoeira, para se tornar mestre, a exigência é ter alunos. A noção do corpo e do próprio desempenho é coisa complicada… Tem gente que não tem noção!

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Deu para se divertir e aprender alguma coisa da capoeira. Até participamos da “emboscada”, brincadeira séria em que o capoeirista é surpreendido em quebradas na rua. Não levei nenhuma bordoada de chicote de palmeira, porque protegi o abdome; quem resolveu proteger só o rosto, se deu mau.

Comemos a melhor cocada do mundo, acreditem! Saídas do forno, com o puro coco da região. E conhecemos um pouquinho mais da Bahia. Não vai ser fácil, o dia de sair daqui.

Catarina

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É revoltante. Como podem dizer que “aquilo” é uma embalagem de alguma coisa? Foi afinando, afinando, e hoje, a lata de cerveja mais parece uma folha de papel, que se dobra por qualquer coisa.

Aconteceu que uma lata de cerveja ficou rolando dentro da nossa  geladeira, na travessia entre Caravelas e Salvador, se batendo aqui e alí e pronto! Rachou e vazou. Vendo a meleca lá dentro, deu vontade de chorar. Não é fácil fazer limpeza no meio do mar, com as ondas de leste batendo a todo tempo, tendo que se segurar. Não adiantava reclamar, falha minha, afinal, as coisas não são feitas para resistir ao balanço do mar.

O melhor era relaxar e olhar as baleias lá fora. Havia muitas, soltando borrifos,  dando saltos, com as nadadeiras de lado para amamentar. Nos acompanharam de Abrolhos até  Salvador.

Essas ondas de leste tem trazido muita chuva ao nordeste do país. Dificultam a visibilidade na navegação, mesmo durante o dia. Mas, era a nossa janela de tempo, o cavalo selado que estávamos esperando, sabendo que depois ia piorar. Hoje há previsão de ondas de 4 metros lá fora, em média.

Mesmo com chuva pesada, e algum mar, havia  muitos pescadores no mar. Ficavam discutindo pelo rádio VHF, no meio da noite, entre eles, a colocação de suas redes; declaravam suas posições, para que os outros não invadissem os seus espaços. Hoje em dia, avançam para as profundidades de mais de mil metros, não se limitam à costa, para conseguir o peixe raro; usam uns espinhéis flutuantes, em cabos de muitas milhas, chamados espinhéis boiadeiros, que são arrastados.

Durante o dia, ouvimos o chamado de um pescador a um navio “vermelho”, para que desviasse de seu material, que se estendia por 4 milhas. Pelo AIS, vimos que era um navio de bandeira estrangeiro, que não devia nem estar entendendo  o que era falado (às vezes, nós mesmos não entendemos o que eles falam, por conta do forte sotaque, e do nome que dão para o seu material). Fizemos a ponte com o navio, que mais que depressa desviou; ninguém quer 4 milhas de cabos enroscados nos seus hélices, mesmo uma máquina daquele tamanho.

Passando pelo Banco Royal Charlotte, um pescador nos chamou (Veleiro! Veleiro!). Olhamos e não vimos nada. Perguntamos onde ele estava e ele disse “90 graus” (em relação a quê? Não era do norte verdadeiro, já que não o víamos). Ele acendeu a sua luz, e pudemos vê-lo. Reclamou que estaríamos passando sobre o seu material. Gelamos. Olhamos à volta e não vimos nada. Não havia nenhuma sinalização de material. Por sorte, passamos sem pegar o seu cabo boiadeiro. Por fim, ele nos convidou para comer um dourado no seu barco (como? Estávamos a mais de 1000 metros de profundidade…). Agradecemos, dizendo ter pressa para chegar.

Com baleias, você fica cuidadoso, mas relaxado com a beleza e a vida que elas proporcionam. Já os pescadores, estes estressam.

Depois de tantos dias no mar, incluindo os parados em Caravelas, onde não desembarcamos, ficamos sem imunidade aos vírus de terra. Não deu outra, chegamos e pegamos um resfriado.

O Luthier está em um porto seguro. Vamos deixá-lo nanando sobre o mar da Bahia de Todos os Santos, e voar para o sudeste. Ele não parece triste  nesta parada.

Catarina

Estamos presos em Vitória. Primeiro, foi o vento nordeste que entrou; depois, uma frente fria de passagem rápida, e agora,  uma frente que levantou o mar para de 3 a 4 metros .

Não é preciso ir lá fora para confirmar o que os Avisos dizem, basta ver o mar e o vento, que entram com tudo no “piscinão” para visitantes do Iate Clube.

Nossos amigos de Salvador vão ter que esperar um pouquinho mais. Eles mesmos contam que por lá o mar está “punk”, com casos de resgate no mar, e chove a cântaros.

Esperando as ordens do Tempo, nosso patrão, assim como nós, está a tripulação de um barco de UK, ancorado lá fora, com a diferença que eles estão descendo, e nós, subindo. Por incrível que possa parecer, acho que eles vão embora antes de nós, em pleno inverno.

Outro dia, fomos convidados por eles para um jantar. No cardápio, Pizza! Disso,  gente de São Paulo entende, e gosta. Com um detalhe, a pizza deles é servida com salada de batatas e maionese. Como explicaram, isso é comum no Reino Unido, e eles mantém a prática. Contaram que aqui, quando saem para comer fora, dispensam o arroz e a farofa, e pedem as batatas.

Ao servirem a pizza, nos advertiram para tomar cuidado com “pedras” na comida. Meu Deus! Vamos ter que separar pedras agora, pensei eu…. Santa Ignorância, as pedras (“stones”) se referem aos “caroços” das azeitonas, os coitadinhos não têm na língua deles esta palavra.

Fato é que a pizza estava uma delícia, a sobremesa ainda mais, e as batatas foram a maior prova de que o que eles queriam fazer era agradar, com o que sabem.

A cidade de Vitória nos surpreendeu. Está bem cuidada, mais policiada, e não parece ter sofrido como o Rio com a crise da Petrobrás. Daqui do Clube se tem acesso a tudo a pé, o que é uma facilidade. Mas, é uma capital, com os problemas de poluição decorrentes da exportação de ferro, o chamado “pó preto”, atualmente objeto de uma CPI na Câmara dos Deputados Estaduais, que devem propor ações compensatórias pelas empresas poluentes.

E dá-lhe pó preto no barco!

Catarina

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Foi o pior mar que nós já pegamos. Não foi o mais alto, mas o mais curto, e desconfortável.

Estava prevista a entrada de uma frente fria, com mar de 2 metros, em média, vento de 20 nós, e chuva, nada demais. Não havia nenhum aviso de ressaca ou mar grosso para a área.

Saímos de Búzios ao amanhecer, esperando por ventos mais fortes perto do meio dia, com mar de sul. Aos primeiros sinais de aumento de vento, rizamos as velas.

Tudo ia como o previsto, exceto pela novidade de uma entrada de água no compartimento do motor, mesmo desligado. O Dorival estava procurando a causa.

O vento foi aumentando, as ondas também, de uma forma que, a 10 milhas do Cabo de São Tomé, as ondas eram de 2 a 3 metros (medidas pela altura do bimini), vindas de sul, com tempo estimado de 6 segundos entre elas. Vinham também ondas de nordeste.

O barco chegou a ficar com a proa enfiada em uma onda, e a popa no cavado de outra. Com as pancadas laterais, inclinava até 35 graus. Coisas que nunca aconteceram antes: as portas da cabine de popa e do armário do banheiro abriam a cada pancada, e elas tem trancas parrudas; caiam objetos dos buracos para guardar coisas; era impossível esquentar alguma coisa no fogão.

A noite se aproximava e o Dorival já tinha drenado água para fora, mais de uma vez. Não parecia que o barco ia ser inundado, nem sequer a bomba de porão tinha sido acionada, mas esse é o tipo de coisa que deixa a gente estressado.

A noite prometia. Fizemos a tradicional vigília em turnos, por conta dos barcos de pesca. Ocorre que não tinha nenhum barco de pesca, ninguém se arriscando na área. Pelo rádio, ouvimos que estavam suspensos os serviços de transporte para as plataformas.

Ao amanhecer, o vento sul foi miando; o mar, não. Estávamos em dúvida se o nordeste ia ganhar força. Também estávamos intrigados com a água entrando no barco; e se começasse a entrar mais? Resolvemos desviar a rota original para Vitória.

O barco chegou inteirão, nós acabados. No dia seguinte, entrou um aviso de mar grosso para a área, e o vento nordeste. A água que entrava era decorrente de um problema de efeito sifão na mangueira de saída da bomba do porão do motor, o que nunca ocorreu antes.

Por ora, estamos atracados no Iate Clube do Espírito Santo, cuidando da amarração do barco para a entrada de outra frente fria, prometendo mar de 3,5 metros lá fora. Mas amanhã é dia de competição internacional de canoagem, já vimos alguns ensaios, e feirinha de quitutes na Praça dos Namorados; por enquanto, vamos ficando por aqui.

Catarina

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