Bem-vindo a bordo!

Desde que navegamos, nunca passamos por uma situação como a que vivemos ontem à noite, de total impotência perante as forças da natureza, e de total falta de controle da situação.
Estamos em uma poita do Iate Clube de Búzios, onde chegamos na última sexta-feira. Durante a viagem, ouvimos avisos-rádio informando a ocorrência de ventos fortes ao sul da área “charlie”. Nas proximidades de Campos-RJ, já avistávamos nuvens pesadas e muitos clarões de raios no céu, na região de terra. Por segurança, abortamos a ida à cidade do Rio de Janeiro, com receio de que a frente avançasse rapidamente e nos pegasse. Já tínhamos vivido uma situação de pré –frente nessa região, numa ocasião em que descíamos a costa e, na altura do Rio de Janeiro, o vento mudou de direção, o mar também, os pelos do meu braço arrepiaram, o barômetro caiu 3 mb rapidamente; entramos às pressas em Niterói e, assim que acabamos de amarrar o barco no cais do Charitas, chegou uma ventania de até de 40 nós que sacudiu tudo, cais e barcos, e que, depois soubemos, derrubou o palco em que o Guns And Roses ia se apresentar, causou desabamentos e queda de energia por toda a cidade. Mais que a chuva e a ventania, nessas ocasiões tememos os raios; em mar aberto, sem morro por perto, somos os pontos mais altos, os prováveis alvos.
Na sexta-feira aqui em Búzios, tivemos uma chuvarada e ventos de cerca de até 35 nós às 3 da manhã. Ligamos o motor, preparados para ancorar caso a poita arrebentasse, tudo sob nosso controle. Achamos que aquele tinha sido o efeito da frente no local, e que tinha passado. “Acho” não serve para nada. No final da tarde de sábado, muitos clarões de raios começaram a surgir ao largo, um destes caiu bem perto do nosso barco e alarmou a CPU de um dos nossos equipamentos eletrônicos, mas não houve danos. A partir daí, começamos a nos preparar para a chuvarada: chave do motor na ignição, âncora solta, controle do guincho ligado, maiôs, etc… Eis que a chuva chegou e, com ela, ventos que começaram em 10 nós, e rapidamente foram a 20, 30, 40, 50 e pasmem… 75 nós!!! O barco girava e adernava descontroladamente. As coisas dentro do barco caiam. O barulho do vento e os clarões de raios lá fora eram de arrepiar. Nos demos conta que nos esquecemos de tirar uma lona, que batia como louca, servindo de vela para mais confusão; o Dorival passou uma faca nos cabos, às pressas, e conseguiu tirá-la. Nada conseguiríamos com o motor, pois nada víamos sob a intensa chuva e o vento, e nada poderíamos fazer contra eles; caso a poita se rompesse, iríamos sair batendo nos outros barcos até parar na praia.
Pudemos ver a vela de um veleiro ao nosso lado se abrir e se desfazer, adotando a forma de um soutien. A loucura durou cerca de meia hora.
Chamamos o Weber do Veleiro Acauã pelo rádio, que contou seu drama: foi parar na praia. Ele estava no ferro. Além de tudo, quando seu barco adernou sob a ação do vento, embarcou água. Ele conseguiu desencalhar e foi ancorar mais distante. Nesse meio tempo, viu as velas de um outro barco se abrirem e rasgarem.
Hoje é dia de consertos. Ao nosso lado, há uma escuna com toldos rasgados e mastro caído. No clube, há lanchas viradas. Já vimos que a nossa antena de TV e a do Pasárgadas, ao nosso lado, ficaram tortas. Temos que reparar os cabos e o zíper da capa. Até que, com tudo, nosso prejuízo foi pouco, principalmente porque estamos bem.
Nem no Caribe presenciamos uma coisa destas. Por lá pegamos ventos de até 45 nós, mas estávamos navegando. Pode ser que nosso medidor de vento tenha ficado besta, que tenha medido a mais, mas que foi a maior ventania que pegamos, ah foi.
Isso é adrenalina pura, na veia, ou o quê?

Catarina

Era para termos ido embora na última terça-feira e, depois, na quinta, mas o patrão não deixou, avisou que estava mandando uma frente fria que iria nos alcançar antes de chegarmos ao Rio de Janeiro. Os nossos amigos daqui comemoraram, disseram que vamos ficar para a Páscoa; aí não, é muito tarde, não vamos ter a aprovação do patrão.
LUTHIER na Ponta do Mutá O distrito de Ponta do Mutá entrou em “férias” dos turistas. Muitas pousadas, como a dos nossos amigos Sheila e Vili (ela mineira, ele suíço), fecham nesta época do ano, porque não vale a pena abrir para poucos. Abriram para nós, para oferecer um almoço tailandês, para relaxar e falar de barcos e vela, pois ele é um aficionado, instrutor de “kite-surf” nas horas vagas. Parte dos restaurantes também passou a fechar aos finais de semana.
O que mais se vê nos comércios daqui são mineiros, paulistas e estrangeiros. Nos restaurantes, ainda não vimos a típica comida baiana, como o vatapá, o caruru, o bobó de camarão, etc… Nem as baianas do acarajé, nem a música axé. Então, é Bahia, mas não é. Querem agradar ao paladar dos turistas do sudeste, como nos explicou o dono de um restaurante, e educam as cozinheiras locais para isso; assim, a feijoada é ao estilo carioca, em que primeiro fritam a cebola e o alho, depois vão colocando os ingrediente um por vez, e não tudo de uma vez, como fariam os baianos. Sobre esse tema, o da cozinha, a verdade é que tudo é bom desde que feito com amor, mas, indiscutivelmente, no quesito Pendurando roupa lavada FEIJOADA, o amor da carioca é com MAIS AMOR, que me perdoem todos os santos.
Temos visto muita propaganda enganosa nas praias do Mutá. Os ambulantes locais estão passando com dezenas, quiçá, centenas de soutiens de biquínis com bojos equivalentes ao forro isolante térmico do nosso barco. Ora, amigos, dão a falsa impressão de que ali há uma comissão de frente que, de fato, não existe. Tem outro problema: esses apetrechos inflam quando nadamos, e querem sair flutuando, não prestam para o mar. Também atrapalham para vestir a roupa de mergulho, ficam sobrando e se amassando. Como eu sei? Bem, eu tive que comprar um destes, porque não há outro tipo à venda no mercado atual, entende?
Mudando de assunto, não bastasse a minha mãe achar que estamos em fase de crescimento, agora encontramos pela frente a Elina, esposa do João-construtor. Ela não só prepara bolos gostosos e variados para o ELINAcafezinho que serve em sua casa, como separa merenda para levarmos, com bolo e pão de queijo. Além disso, nos cede a internet, e conta muitos “causos” de suas peripécias pela vida, como a criação de uma fábrica de sorvetes que espantou a Kibon do lugar, e trouxe progresso e delícias  para a região. Foi ainda cachaceira das boas em Minas Gerais, digo, fazendeira de cana e engenho. É tão gente boa que se ofereceu para lavar as nossas roupas em sua máquina, ao que eu agradeci, mas declinei, pois na falta de uma lavanderia à mão, a poucos metros do barco, apelo para o tanquinho que tenho a bordo, o Dorival.
É por estas e outras boas surpresas que encontramos pelo caminho que vale a pena essa vida de cruzeiristas. Vamos curtindo, enquanto o tempo deixar.

Catarina

Estamos na Ponta do Mutá, distrito de Porto Seguro, numa pequena enseada cercada por recifes. Fizemos uma boa viagem, com vento durante o tempo todo, então, nada tínhamos a reclamar. Mas, eu Aguaceiro chegandoreclamei bastante, do calor. Foi uma travessia para lá de quente e seca, em que alcançamos o nosso recorde de temperatura dentro do barco, de 36º C, e 41º C no convés. Passamos os dias do lado de fora, até que o astro-rei se pusesse. “Vá descansar!”, desejava eu à bola de fogo. “Não é à toa que dizem que o inferno é quente”, pensava. Pela descortesia a quem nos dá vida (e calor), dois dias depois da viagem o tempo fechou, e caiu um aguaceiro na Ponta do Mutá, o dia todo, parecendo um castigo. 
Ao contrário do que muitos nos disseram, sobre os perigos dos recifes na região, a entrada na enseada foi tranquila, seguindo os way-points passados pelo Ronny, nosso amigo meio-gaúcho, meio-baiano, skipper  do catamarã Luar. Baixamos a velocidade do barco durante a noite para chegar com a luz do Escola de Vela Oceanoamanhecer, porque não conhecíamos a região.
O fundo da enseada é de areia, de boa tensa. Estamos em uma poita da Escola de Vela Oceano, que fica em frente. A água é da cor verde-bala-de-hortelã, bastante transparente na maré alta, e o melhor, está quentinha nesta época do ano, com 29ºC de temperatura.
O desembarque nosso é na praia, de preferência, na maré baixa; na maré alta, o melhor é ir de maiô, para o caso de se molhar com a arrebentação. Os jet-skys são proibidos na área, propiciando o sossego para a prática da vela.
Caminhando pela praia ou pela rodovia que a margeia, em pouco tempo Muta 020 se chega à Coroa Vermelha, distrito de Santa Cruz Cabrália, onde está fincada a cruz do descobrimento, e onde a história do Brasil começou.
Aqui já moravam os indígenas Pataxós, que ainda hoje vivem na região. Os homens índios se diferenciam por não terem barba no rosto, apesar de serem fortes e musculosos. Gostam de usar pulseiras largas com motivos geométricos, e têm as orelhas perfuradas para o uso de brincos. Dentro da mata que ainda resta na região, alguns tentam manter os seus costumes, como nos contou um cacique que conhecemos; fica na aldeia quem quer, todos são livres para sair. Quem dera a nossa sociedade civilizada pudesse ter caciques colocados na função pela confiança dos demais em suas qualidades, e não pela força do marketing e do dinheiro que há por trás.
Os “Pataxós” tinham como característica não guerrear com o inimigo quando atacados, mudavam a aldeia de lugar; de certa forma, nós fazemos o mesmo ao cruzeirar: se a região ou a vizinhança não estão boas, temos a oportunidade de levantar ferro e vazar. É uma forma de liberdade.
Helô e seus alunos Aqui nos sentimos em casa, cercados de malucos por barcos, caso do Ronny e seus amigos “Seu” João e Décio. A turma se reúne para trabalhar sem trégua na construção de um catamarã, feito no capricho. Não! Tem trégua para o cafezinho da esposa do João, que dá a maior força para a obra. O churrasco da virada é esperado para breve.
Dentre os insanos, está a Helô, da escola de vela, que me disse que eu não saio daqui sem saber remar de pé na prancha (stand-up), e que este será o seu desafio pessoal. Eu sei que a moça tem didática e preparo, que seus alunos saem com os olhinhos brilhando das aulas, mas daí a eu sair remando, não sei, não…. Qual será a melhor foto de recordação da aula, aquela em que eu estou caindo, ou a em que eu estou me desequilibrando e…caindo?
Estamos na Bahia, e sábado é dia de festa, que será na praia, no lual da Escola de Vela Oceano, com música ao vivo e tudo. Dia de relaxar das fainas de barcos, falando neles.

Catarina

Hoje, 1º de março, iniciamos nossa viagem para o Sul. Vamos fazer uma escala em Santa Cruz Cabrália no sul da Bahia. Acompanhe nossa viagem pelo SPOT. Estaremos no rádio SSB em 13.983 khz às 20:00 e às 21:00 hs UTC.

Dorival

As navegações por mais de 15 dias têm características especiais. Os primeiros dias são mais difíceis, o estômago e o cérebro estão se acostumando com o balanço do mar e uma insegurança em relação à viagem está sempre presente. As tarefas de bordo ainda não estão rotineiras e o sono fora de hora causa cansaço. O lugar novo para onde se vai, ou o retorno para casa, ainda inundam os pensamentos com expectativas, saudades e a inevitável contagem do número de dias para chegar.
Com o passar dos dias, a rotina de ajuste de velas, planejamento da navegação em função da meteorologia, fazer comida, pão, etc., ajudam a estabelecer um novo modo de viver. Você deve estar imaginando que o casco do barco parece o muro de uma prisão, apesar de proteger e abrigar o navegante. Porém, os espetáculos da natureza, desobstruídos de poluição química e visual, encantam, e junto com os e-mails diários e os longos papos no rádio com amigos, velejadores e radioamadores, dão uma sensação de liberdade próxima do ideal.
Dependendo do vento e dos recursos a bordo, o navegante vai se arrumando e se acostumando. Alguns momentos se tornam especiais, um deles é o banho, que renova os ânimos, e outro é quando se consegue pescar ou aparecem golfinhos para saldar nossa passagem.
A partir de conversas com outros navegantes percebo que, sendo um casal, o espaço a bordo é um problema menos importante. Muitos deles dizem que sou um homem de sorte por ter uma mulher para compartilhar essas navegadas. Sou mesmo. Claro que às vezes rola uma briguinha, mas dura pouco, mesmo porque, em geral é por bobagem. Exceto pelo número de ovos na receita de pão, e a abertura de gaiutas durante a navegação (nunca permito isso), sempre concordamos. Afinal, estamos juntos 24 horas por dia há mais de três anos.
Já não se contam mais os dias para chegar, as prioridades na navegação passam a ser a segurança, o conforto e só então a velocidade. A busca pelo vento se torna obsessão, precisamos dele porque não temos diesel para toda a travessia. Por isso que comemoramos quando atingimos o ponto onde temos autonomia para chegar.
Além de conversar sobre a meteorologia, rumo, regulagem de velas, o cardápio do almoço e o que postar no blog, sobra tempo para relembrar os lugares por onde passamos e sonhar com que faremos quando chegarmos ao destino. A duração da viagem faz com que o assunto vá mudando, passando para comentários sobre as notícias que ouvimos no rádio, nosso futuro, saudade dos amigos, família e por aí vai.
De repente, estamos chegando, faltam “apenas” 250 milhas, ou dois dias. Não muda nada, continuamos na mesma toada até o destino, tanto faz se demorar um dia a mais, estamos totalmente adaptados.
A chegada a Salvador foi preguiçosa. Perto de amanhecer optamos por passar por fora do banco de areia que fica em frente ao farol da barra. O banco em si não é problema para o calado do Luthier, mas ali há muitas canoas com pescadores, e esperar para entrar na Baía de Todos os Santos de dia vale a pena.
Já que estamos falando em conforto e segurança, alguns ítens bem baratos fizeram a diferença: pratos e tigelas antiderrapantes, saco plástico para fazer gelo, dosador  para torneiras de água pressurizada e mangueira com válvula para transferência de diesel.  As imagens valem mais que palavras.

Dorival

Em Tempo: O saldo do carnaval em Salvador foi de um dente meu quebrado, comendo amendoim, e uma infecção de garganta na Catarina. Isso atrasou nossa viagem para o Sul por alguns dias.

“Tá” cansado? SAI DO CHÃO, AÍ !!! Quem não pula depois de um grito assim, vindo de um carro de som?
O carnaval de Salvador é para todos, de todas as idades, de bebês de colo fantasiados até senhoras e senhores bem comportados. É uma festa
familiar. E de amor, muito amor entre os casais.

Participamos na “pipoca”, na base do “sem bloco” e sem compromisso. Íamos ao Pelourinho e à Praça Castro Alves, onde passavam os trios que vinham do circuito do Campo Grande. Com vários palcos espalhados, tinha atração para o dia e para a noite. Duro é aguentar tanto agito, teve um dia que pedimos arrego e nem saímos.
Filho de Gandhy Por ser uma festa de rua, você tem que ir limpo; mesmo assim, vimos pessoas passarem com filmadoras e outros equipamentos, e nada acontecer; também não presenciamos nenhuma briga. Havia muito policiamento, e muitos guias turísticos.
Saímos para folia com quem queria. Então, conosco foram gringos e baianos.
O principal para curtir a festa é ir com o espírito de folia porque, o tempo todo, jogam água de umas “armas” de plástico, além de um spray de espuma de sabão, confete, e até cerveja, que escapa do copo de algum bebum.
Quando batia o cansaço, sentávamos em torno de uma mesa de bar no Bonecos no Pelourinho Pelourinho, que tem um carnaval mais calmo, ao estilo antigo, de pequenos blocos e bandas. De lá assistimos à saída do Olodum. Pouco antes, subiu a mesma ladeira um bloco de argentinos que tentava fazer a mesma batida; neste caso, o que importa não é o resultado, é a diversão.
Também assistimos à saída dos Filhos de Gandhy, e à cerimônia em que pedem paz, jogando milho para Oxalá, e soltando pombas brancas. No desfile deles, o branco das roupas deixa um tapete dessa cor pelas ruas. A tranquilidade do bloco, e a alfazema que jogam pelo ar, criam uma clima de paz. E de azaração, porque é carnaval. Beijava quem queria, em troca de um colar. É um bloco só de homens, então, criaram Fantasia uma forma de prender os colares com uma fita bem amarrada, para que a esposa ou namorada tenham certeza de que seus homens voltaram com o mesmo número que saíram. Só que fita não é cadeado, e há muitos colares à venda, então… acredita quem quiser, ou quem confia.
Nem todas as mulheres são anjos. Vi uma lavando os braços no banheiro de um restaurante. A explicação: nem seu pai nem seu marido podiam saber que ela saiu na Timbalada, que faz pintura de branco na pele. Eu perguntei se ela também tinha um colar de Gandhy. O que vocês acham?
Filhos de Gandhy Meu voto neste Carnaval é para a banda Tomate: ótimos som, equipamentos, voz e repertório. Continuam nossos queridinhos a Banda Eva, com o gracinha do Saulo de vocalista, e a insuperável Ivete, na voz e simpatia.
É isso pessoal, a nossa ausência foi por falta de tempo de parar quietos.
Agora já deu o nosso tempo de Salvador, vamos descer nos próximos dias. Como diz a música: “Tchau, I have to go now, I have to go now, Tchau” Salvador, até próximo carnaval.

Catarina

Enfim o baiano vendeu acarajé, abará, cuscuz de tapioca, salgadinhos, cocadas, frutas, água com gás, sem gás, de coco, refrigerante, cerveja, cantou, pulou e … SORRIU.

Dorival

PS: Estou me superando nos videos, cada vez piores.

 

É muito triste ver o baiano triste. Assim eles ficaram a semana toda que passou. No lugar do sorriso no rosto, a preocupação com a segurança. Foi fraco o movimento no comércio e no turismo; poucos se arriscavam a sair para os passeios de escuna, pela cidade baixa ou pela orla. Por fim, todos perderam.
Em meio à onda de insegurança, houve arrombamento da Casa de Yemanjá, mantida por pescadores, com roubo de moedas doadas. Dizem por aqui que quem vai resolver esta questão não é só a polícia, não, é a própria mãe das águas. Não se pode violar os lugares sagrados, nem ofender os orixás; por isso mesmo, o primeiro gole da bebida é sempre para Exu, um respeitado bagunceiro.
A religião é coisa séria na Bahia. Muitas escunas executam o Hino à Nosso Sr. do Bonfim antes de sair para mar, ensinado às crianças desde muito pequeninas.
Por conta da insegurança, passamos boa parte da semana na marina, e nossa interação foi com os estrangeiros que aqui chegam, entre eles, um italiano, pela terceira vez nosso vizinho de bordo. Desta vez, ele já tinha se despedido de todos e seguia para o Caribe, solitário, mas voltou depois de zanzar por dois dias tentando encarar um nordeste e uma corrente de dois nós contra. O motor pediu arrego. Essa nossa costa não é fácil, e ele desconhecia a tal corrente contra, que não consta de suas cartas piloto americanas. A tal corrente está claramente representada nas cartas piloto brasileiras.

Vivemos com o sol nesta latitude. É muito calor e céu claro, sem nenhuma nuvem para aliviar. Já um amigo nosso, da Suíça, andou chateado porque sua casa ficou cheia de água após estourar um cano congelado. Menos mal que está voltando para a Nova Zelândia, onde ficou seu veleiro. É um casal na faixa dos 70 anos, bem dispostos, a maior prova de que à vela se pode ir longe.
Está decidido, não cumprimento mais com “boa tarde!”. A resposta é sempre o “boa!”, apenas. Então, agora também economizo nas palavras, e mando um “boa!”, que às vezes respondem com um “boa! boa!”, vai entender…
Vale tudo, desde que o baiano volte a sorrir. Inegavelmente, é uma terra linda, mas o melhor da Bahia é o baiano, feliz, como eles merecem.
Presenciei a secretária de um consultório soletrando uma sigla pelo telefone. Ela dizia “A”, de amor; “F”, de felicidade; falou o que vai no coração dos daqui.
E o carnaval, como fica? Sabe como é, já que estamos em Salvador, aqui ficaremos para o carnaval. Com recomendações, é claro, minhas amigas baianas deram muitas. Uma: disseram não ser o meu caso, mas concluíram que é melhor passar o carnaval sem o namorado. Outra, que vale para mim: não aceitar o colar oferecido pelos Filhos de Gandhy, pois em troca podem pedir um beijo. Ai, não! Seria uma confusão! Não, só vamos ver a abertura dos blocos, na boa, na Paz, e depois contamos mais.

Catarina

Resolvi escrever ao mesmo tempo sobre navegação, comunicação e meteorologia porque essas coisas estão intimamente ligadas. Na minha opinião, não existe uma data boa, específica, para travessia em mar aberto ou navegação costeira, existe uma época do ano adequada e estratégias para lidar com as forças da natureza. Certamente, não se deve ir contra elas; no mínimo, é desconfortável, e poderá causar danos desnecessários à embarcação.
Estamos acostumados com datas para eventos, pagamentos, início das férias, etc… Uma coisa comum que observei nessa viagem foram os cruzeiros organizados com suas datas imutáveis. O Illes du Soleil, por exemplo, saiu de Salvador na data marcada de 15 de janeiro, com destino a Cabedelo, com previsão de vento de 20 nós NE, ou seja, na cara. Se esperassem 3 dias, teriam vento SE.


Costumo dizer que ter uma data de vôo marcada, seja para embarque ou para encontrar alguém que desembarca em algum lugar, dá azar. Pois é, conheci experientes navegantes que tiveram que enfrentar mar ruim e vento contra só porque um passageiro a bordo tinha que embarcar em um determinado lugar, em um determinado dia.
Sei que todo mundo tem esse problema com datas, e que é muito difícil lidar com isso.
O Luthier é livre, digo isso porque saímos e chegamos nos lugares que queremos, quando queremos, e quando a previsão meteorológica é favorável. Então, como decidimos a data de saída?
Há muita informação sobre as épocas boas para travessias em livros e na internet. As informações dos livros são importantes, mas deve-se tomar cuidado porque o clima está sempre mudando e os livros podem estar desatualizados. Na internet, o cuidado deve ser redobrado, porque além de desatualizada, a informação pode estar errada. Não é porque está na internet que está certo. Já vi absurdos escritos na internet, gente garantindo que o fim do mundo será em determinada data ou que haverá um tsunami monstro, e que isso está comprovado por cientistas, e assim vai.
Conversar com os locais, com outros navegantes, com “skippers” profissionais, reunir toda a informação disponível e então olhar com muito cuidado a previsão meteorológica, é fundamental. Se assim for, você provavelmente decidirá sair no mesmo dia que muitos outros sairão.
Navegantes que saíram de Cabo Verde duas semanas antes de nós encontraram ventos mais favoráveis quando chegaram junto à costa do Brasil, o SE girou para NE. Um deles me avisou para que não me preocupasse, que não era necessário orçar forte com SE porque o vento iria rondar para NE.

Mar de popa entre Cabo Verde e a ZCIT

Nós preferimos não contar com isso e, desde Cabo Verde até sairmos da ZCIT, adotamos um rumo mais para leste, para poder orçar mais tranquilo com o SE. No meio do caminho, fomos percebendo que o SE não ia rondar, e não rondou. O vento só começou a ficar mais favorável abaixo de 6ºS. É isso mesmo, as condições meteorológicas mudam em alguns dias. Qual a mágica? Como sabíamos disso? O Luthier recebe e envia e-mail sem limite de caracteres via SSB. Como radioamador, faço isso sem custos. Para quem não é, existem duas empresas que prestam esse serviço a preços razoáveis. Recebemos “Weather Fax” e mapas de vento e ondas para áreas grandes. O João Carlos, do Veleiro Yahgan, nos ajudou muito, porque em terra ele tem muito mais fontes de informação e prepara a previsão que recebemos por e-mail, via SSB.
A previsão meteorológica, quando feita usando os resultados de diferentes modelos matemáticos, considerando os relatórios e cartas do NOAA, Meteofrance e Meteomarinha do Brasil, fica muito boa. Toda vez que não tive as condições previstas, elas aconteceram algumas horas mais cedo ou mais tarde, ou um ou dois graus mais adiante.
Saímos da ZCIT em 5ºN 23ºW, onde encontramos um bom vento SE. Um dia depois, tivemos ventos de mais de 30 nós, mar todo branco. Ficamos à capa por algumas horas, e tudo voltou ao normal, vento SE de 20 nós. Esse é um bom exemplo de efeito local. Essas ocorrências, que não aparecem na previsão, duram pouco tempo.
O Transponder AIS (sistema com transmissão) é muito útil. Os navios identificavam o Luthier à 8 milhas de distância, o que é suficiente para que possam manobrar de forma que o PMA (CPA em inglês), ponto de maior aproximação, seja de mais de 1 milha.
O principal uso do radar foi para identificar pirajás durante a noite, porém, infelizmente, ele identificou também enormes pesqueiros que navegam com tudo desligado, luzes, AIS, etc.. Não respondem a chamadas no VHF, e não manobram. O VHF do Luthier ficou ligado o tempo todo no canal 16. Monitorar o 72 também é uma boa idéia, os pesqueiros se comunicam em espanhol e japonês nessa frequência. O VHF foi muito usado para comunicação com navios.
Veleiros também são perigos à navegação. Totalmente apagados por problemas de geração de energia e armazenamento (bateria), normalmente navegam sem tripulante na vigia, ou este está dormindo.
Se não tivéssemos o radar, não saberíamos dos barcos de pesca e veleiros apagados. Talvez tivéssemos que correr para lidar com velas por conta de um pirajá noturno.
Se não tivéssemos o AIS, teríamos que manobrar porque os navios não teriam tempo de fazê-lo porque só nos veriam à 2 ou 3 milhas.
Sem a comunicação e o acompanhamento da previsão do tempo para decidir o melhor rumo, não teríamos feito uma viagem confortável e sem danos à embarcação.
Junto com o Luthier saiu de Mindelo um motorsailing de 52 pés. Durante os primeiros dias, eu passava para eles a meteorologia pelo VHF, e depois pelo SSB, porque como eles usavam o motor o tempo todo, adotaram um rumo direto para Fernando de Noronha e, por isso, fomos nos afastando. Quando estávamos em 8ºN, perdemos o contato pelo SSB, a transmissão deles ficou fraca demais.
Soube depois que logo que eles saíram da ZCIT, o eixo do hélice se partiu próximo ao motor, menos mal porque assim não embarcou água. Sem motor ficou muito difícil vencer o SE e, por isso, ficaram 90 milhas ao norte de Fernando de Noronha. O próximo equipamento que quebrou foi o leme de vento; logo depois, o estai de proa não aguentou e arrebentou. Por sorte, o “baby-stay” conseguiu segurar o mastro. Foram rebocados pela Marinha do Brasil para Fernando de Noronha. Essa tripulação tem história para contar.
Não temos heroísmos para contar, tudo correu bem nessa viagem. Claro que, durante toda essa volta pelo Atlântico tivemos algumas pequenas avarias e tivemos que fazer pequenos reparos, mas isso eu conto num próximo post da série.

Dorival

Passamos a semana em Gamboa do Morro, um povoado próximo do famoso “Morro de São Paulo”, ambos pertencentes ao Município de Cairu, na Bahia. É um lugarejo bastante simples, formado por poucas Gamboa do Morro - 1ruas. Parte da orla está tomada por algumas casas singelas, ao lado de um cais de desembarque de concreto com intenso movimento de embarcações e pessoas.
Quando chegamos, havia um único veleiro além do nosso, numa ancoragem distante, e muitas pequenas embarcações ao largo. A primeira dúvida que surgiu para lá permanecermos foi quanto à segurança, pois tínhamos a informação de que estava sendo iniciada uma greve de policiais na Bahia. Apesar da simplicidade, o distrito de Gamboa do Morro nos pareceu tranquilo, pacato, com origem numa pequena vila de pescadores que hoje vive, também, do turismo. Todas as vezes que íamos prender o bote inflável com cadeado no cais, nos diziam, quase ofendidos, que ali não precisava daquilo, que ninguém iria “bulir” com ele.Gamboa do Morro
É um lugar arborizado, que mantém grande parte da vegetação natural de mangues e matas baixas, a perder de vista, com praias limpas, de água transparente. A jóia do lugar é a Coroa do Meio, com piscinas de água morna na maré baixa, ou melhor, de água quente, porque a temperatura média tem sido de 29º C.
Há muitas poitas em frente à praia, logo após o cais de desembarque, para as embarcações de passageiros, de pesca, lanchas e canoas. Ficamos em uma delas, cedida por um amigo. Ali o mar rola um pouco, principalmente por conta do grande tráfego das embarcações, fazendo marolas, e pelo movimento das marés.
Os catamarãs com destino a Morro de São Paulo, partindo de Salvador,  também param nessas poitas. Soubemos que estas embarcações gastam, a cada viagem, cerca de 100 sacos para vômitos, fornecidos aos Coroa do Meiopassageiros. Elas andam muito rápido, e batem bastante no mar quando este está pouco mais alto, daí os passageiros chamarem o “Raul”. São lavadas a cada viagem de ida e volta. Ave-Maria! Imagine só quanta inspiração num só lugar, em dia de mar alto, tanto auditiva quanto olfativa!
Em Gamboa não há caixa eletrônico de banco, para sacar dinheiro tivemos que ir até Morro de São Paulo com o nosso bote inflável. Ali chegando, nos deparamos com um portal de pedra, que compõe a estrutura de uma fortaleza centenária, o que deu a idéia aos governantes locais de cobrarem R$12,00 por turista que por lá passe, a título de “taxa de turismo”. Falamos que queríamos apenas sacar dinheiro, a Morro de São Paulo poucos metros dali, e nos deixaram passar sem pagar. É uma medida ao menos antipática, sendo que deve haver formas mais criativas de se angariar dinheiro junto aos turistas.
A internet em Gamboa esteve fora do ar, e só no último dia conseguimos um acesso wi-fi, que dá mais conforto para rodar os aplicativos que estão em nosso próprio computador. Consultamos as previsões de tempo e vimos que entraria um vento contra para descer a costa; resolvemos adiar a nossa ida.
 
Voltamos para Salvador. Na viagem para cá, ouvimos os avisos-rádios para assistir ou informar quanto a 3 tripulantes desaparecidos de uma lancha que bateu nos recifes nas proximidades de Itaparica, no último Ponta do Curral dia 24 de janeiro. Na nossa viagem até Morro estivemos olhando atentamente, procurando por eles, sem sucesso. Foi um acidente ocorrido numa área abrigada de uma baía, num dia de tempo bom; independentemente das causas, revela a seriedade da navegação, pois um simples passeio pode se transformar num transtorno, e   numa tragédia.
Em Salvador, vamos aguardar uma condição de tempo favorável para partir, além de buscar umas peças de reposição e dar um jeito no nosso eólico, que está falhando, ele que é essencial para a nossa geração de energia à noite, em travessia. E quem disse que é preciso um motivo para voltar a Salvador? A onda de insegurança vai passar.

Catarina

Caramba! Já tínhamos esquecido o quanto esse lugar é bonito! O mangue intacto, as coroas de areia expostas na maré baixa, as árvores frondosas espalhadas pela orla, o mar morno convidando ao banho, a rica vida marinha: essas são as paisagens da costa oeste da Ilha de Itaparica.
Itaparica 1 Pensamos em parar aqui por uns dois dias para mergulhar, verificar o fundo do barco, e seguir viagem para Morro de São Paulo e Porto Seguro, onde amigos nos esperam. Mas, as coisas não são bem assim na Baía de Todos os Santos, é difícil deixar qualquer lugar daqui para trás. Já foi um drama a despedida de Salvador; apesar de sofrida, a cidade continua com seus muitos encantos. E cantos, porque vive e respira a música.
Mas, estava na hora de tomar um banho de mar, nadar em volta do barco, ver o pôr do sol no horizonte, as estrelas à noite do cockpit do barco, e explorar um outro lugar.
Nessa época do ano o vento é menos intenso Itaparica 2na baía, então, a vinda para Itaparica foi à base da paciência, do “tac-tac” e da troca de lados das velas. Qualquer oportunidade que temos, velejamos, sempre aprendemos alguma coisa (mais eu),  praticamos e nos divertimos. Acreditem, achamos mais difícil velejar com pouco que com muito vento; realmente, aí reside uma arte.
A ancoragem nesta face da ilha está com menos embarcações que há cerca de dois anos, quando estivemos aqui nesta mesma época, por conta do menor número de embarcações estrangeiras (leia-se CRISE internacional). Há alguns Coroa e mangueveleiros de bandeira brasileira, convivendo com embarcações de pesca, lanchas potentes e outras menores, além de pequenos saveiros e canoas.
O desembarque é no cais da Marina da Ilha, onde, diferente do Caribe, ninguém prende o bote com cadeados e correntes. Ao lado da marina é mantida a fonte de água mineral da ilha, de acesso gratuito. Da ancoragem conseguimos acessar a internet wi-fi aberta da marina. Tudo isso não é um luxo?
Numa volta pela cidade de Itaparica, notamos que a ela está mais arrumada e limpa, com varredores de rua logo pela manhã, sinal de que faz diferença a atuação da administração local; continua singela, como uma cidade do interior, mas bonita. A igreja centenária foi pintada e, pelo visto, recuperada. Continua vagando pelas ruas uma senhora argentina que mora na praça, levando suas Luxo tralhas e seu gato por onde anda; certamente, foi acolhida pelo povo da ilha, não sobreviveria sozinha.
Saímos da rotina de cais de marina para viver com a nossa própria energia. Também deixamos de contar com o conforto da cidade, com lavanderias à disposição, então, o jeito é lavar roupa a bordo, atacando de vez o problema, para não acumular.
Como é que faz, já tem frente fria chegando no Rio de Janeiro. Será que esse ano essa estória vai antecipar? Logo, logo, bem sei, teremos que ir. Mas, aqui está tão bom. Não tenho vontade de ir embora, não.

Catarina

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