O Barco Polinésio   Wharram  cat Tiki 21'

 

Foram 16 anos sonhando com um barco que possibilitasse morar a bordo com o atelier e navegar pelo mundo. Desde que vi o Aleixo Belov construir o seu "Três Marias" para dar uma volta ao mundo.

Até realizar este sonho muitas águas rolaram. Viajei de ônibus, moto, carona, navio, veleiro, avião. Fui ao Caribe e conheci praticamente todo o Brasil, realizando exposições de pintura e escultura. Aprendi a navegar, tornei-me marinheiro profissional, depois imediato (mate) e comandante de veleiros e lanchas de pesca oceânica.

Entre Fevereiro de 1999 e novembro de 2000, construímos, no quintal de nossa casa, em Recife, o Tiki 21' "Polinésio". Um projeto do designer inglês James Wharram, já testado inclusive em viagens de volta ao mundo. Um barco barato, que cabia no nosso orçamento, de construção fácil e robusta em madeira/compensado naval, fibra de vidro e resina epóxi. Meu mestre - Fernando Godoy, foi quem escolheu e me convenceu que "um catamarã vai a todos os lugares que for um monocasco, com a vantagem de navegar em águas rasas, chegar até à praia e jamais ir pro fundo, por ter flutuação positiva. E mais, catamarãs de Wharram não capotam.".

E assim, costurado e colado com epóxi, sem pregos ou parafusos, nasceu a canoa dupla polinésia, com cascos em "V" profundo, dupla proa lançada e relação de comprimento/boca na linha d'água de 12/1. Marinheira e insubmergível. Essencialmente um barco à vela

                

Cada peça recebeu no mínimo 2 demãos de resina impregnante epóxi antes de serem coladas uma a outra.

Durante a construção, o Pedro era o único ajudante assíduo. Com 3 a 4 anos estava sempre no estaleiro brincando, testando a sua futura cabine e muitas vezes ajudando efetivamente.

Muitas vezes tive que parar a obra para ganhar o dinheiro necessário para os materiais. Viajava fazendo delliveries em veleiros pela costa entre Natal e Paranaguá, levando lanchas para pescar em Fernando de Noronha ou fazendo manutenção em outros veleiros. Ao retornar, mergulhava no trabalho com afinco, desde o amanhecer até a madrugada seguinte. Dedicava muitas horas ao estudo do projeto, em inglês britânico, e sonhava navegar...

O Projeto foi seguido à risca até o final, quando, ainda em casa, comecei as eternas adaptações às nossas necessidades. Pois ele foi projetado como um barco costeiro para weekends, ou no máximo para férias de verão e nós sabíamos que iríamos morar a bordo.

Em 20 de novembro de 2000, levamos as canoas e demais peças para a praia (a 200 m de nossa casa), na mão mesmo, contando com a ajuda dos irmãos de Dandô, alguns amigos e, claro, o Godoy - meu mestre. Lá as canoas foram amarradas às travessas com cabo de poliéster pré-estirado, seguindo o projeto, no melhor estilo polinésio.

Às 16 h. flutuou e lá fomos nós, com os amigos Ronaldo, Adriana e Godoy, para o Cabanga Iate Clube, onde receberíamos a inspeção da Marinha dois dias depois. O barco navegava como esperávamos, rápido e confortável. Descobrimos que um copo não derrama.

Dormimos a bordo (ainda sem a tenda/cabine central) na primeira noite, que era a festa de inauguração. Na noite seguinte também. E quando nos demos conta, já estávamos morando a bordo. Dormíamos junto com o Pedro alternadamente, nas estreitas cabines. Depois, usamos uma tenda tipo igloo, armada na plataforma. A tenda (do projeto) só seria feita três meses depois. Aí o Polinésio virou um barcão.

E o Godoy tinha mesmo razão. Ainda hoje, mais de cinco anos depois continuamos satisfeitos com o nosso barco.

  

Assim é o interior da nosso barco hoje:

À esquerda, a cabine de Pedro com a mesa de navegação, painel elétrico e instrumentos no primeiro plano, no casco de boreste. Na cabine/tenda central temos mesa e cozinha, à noite colchonetes transformam essa área em cama de casal. No casco de bombordo está o wc e mais um leito de solteiro (a "suíte" da imediata).

Ao longo desses anos foram muitas as adaptações e modificações para acomodar a nossa família... e ainda não terminaram! Tanto que às vezes o barco é chamado de "Polinésio 22', a evolução do Tiki 21'" ou simplesmente Wharram modified.

Acima de tudo o Polinésio é um veleiro feliz, que segue levando a sua tripulação com eficiência e segurança, pelos mais belos lugares do mundo.