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Clique aqui para conhecer a história do veleiro Luthier e sua tripulação

Versão da Catarina

Fomos parar aonde o tempo parou: em São Francisco do Paraguaçu, às margens do Rio Paraguaçu, que deságua na Bahia de Todos Canos-no-Rio-Paraguaçuos Santos. O local foi indicado por nossos padrinhos do mar, que acertaram na recomendação.
Não me lembro de uma ancoragem tão tranquila; apesar da correnteza, não há solavancos, nem marolas de embarcações. Dormia com o barulho de golfinhos caçando, nada mais, total silêncio. São muitos os golfinhos, que vemos cruzando o canal durante o dia, de dorso claro, quase branco. No início da manhã, éramos acordados por pescadores, recolhendo redes, em canoas compridas, feitas de um único tronco de árvore. Ao nosso redor, muita vegetação e poucas construções, estas ao lado de  um convento, hoje em ruínas.
O povoado não tem internet via celular, nem supermercado. Muitos produtos ainda chegam à região por saveiros antigos. Para se
Convento-de-Santo-Antôniocomprar frutas, tem que ir atrás de um moço que passa pelas ruas com um carrinho de mão, com pacotes de feijão, mel, algumas cebolas e tomates miúdos e, às vezes, alguma fruta. Há uma padaria simples, e se consegue peixe, que são marinhos, porque a água ali é bem salgada, inclusive, tem a cor esverdeada do mar.
Como bem definiu o padeiro, ali é a “roça”. Na roça do interior de São Paulo, quando você deseja boa tarde, o caipira economiza nas palavras para responder, e diz: Tarde! Na Bahia, eles também economizam, mas respondem:
Boa!
As pessoas vivem da pesca, de pequenas roças, e da espera pelo título da terra, e bem aí começa o problema. Pode-se dizer que, ali, a convivência humana está marcada pelo desentendimento, e pela disputa por terra, desde a colonização. Acho até que o lugar merecia uma benzedeira, para acabar com a urucubaca reinante: já teve guerra com indígena, invasão holandesa, prisão de escravos, perseguição aos frades franciscanos e, atualmente, disputa entre os que se dizem quilombolas, e os outros. 
No dia seguinte à nossa chegada, apareceu por lá o barco de duas irmãs francesas, que conhecemos no Tenab, uma delas professora de matemática aposentada, e a outra, pintora de aquarelas. Com elas, fomos passear pelo povoado, e conhecer o que sobrou do convento: pouca coisa, além de dois sinos, da estrutura em si, de alguns
São-Francisco-do-Paraguaçu- azulejos, e de resquícios das pilhagens no local.
À noite, fomos convidados para um jantar no barco das “meninas”, sim, porque barco só de mulher é todo diferente, a começar pelo tapete no fundo do bote, e os enfeites espalhados pelo interior do barco, com organização de primeira.  O jantar foi muito bom e, desta vez, eu que tenho que morder a língua, pois o vinho branco era excelente, nem parecia branco. Teve entrada, prato principal com atum, que elas trouxeram de Cabo Verde, em conserva feita por elas próprias, e sobremesa; considerando-se as limitações de um barco, um luxo! Ficamos lisonjeados com tanto paparico… Elas quiseram entender a briga dos quilombolas, e achei engraçado confundirem desinfetante vendido em garrafa PET, como é costume nas localidades mais pobres, com suco de frutas; ai se elas
São-Francisco-do-Paraguaçutivessem provado a química!
Voltamos para Itaparica, onde está cada vez mais complicado ancorar: puseram um monte de poitas, sabe-se lá de quem são, e se tem autorização da Marinha. E acho que tudo vai piorar quando construírem a ponte ligando a Ilha diretamente a Salvador, pode crer!
Dias desses, estava nadando em volta do barco, em Itaparica, e vi uma água-viva. Afastei-me do bicho e gritei pelo Dorival, que estava embaixo do casco, mergulhando; quando ele apareceu, me falou para sair da água, imediatamente. Babaca que eu fui; fiquei paralisada como uma lagartixa! Minhas reações alérgicas costumam ser horrorosas, por isso, vou nadar de roupa de neoprene, nesses tempos.
O pessoal que vem da Europa conta que, no Mediterrâneo, as medusas estão fora de controle, um desequilíbrio ecológico causado pela falta do predador, a tartaruga; acho que eu não gostaria de ir a um lugar assim, sem poder nadar nunca.
Tenho uma dica gastronômica para as festas deste fim de ano: é o Pão Delícia, tradição na Bahia, consumido nos lanches da tarde, ou no “café da noite”, como chamam aqui. É um pão leve, fofinho, com cobertura de queijo ralado e manteiga. Para fazer, é assim: você pega R$3,00 (um pouco mais, ou, um pouco menos), um chinelo, vai até a padaria ou supermercado mais perto, na Bahia, e é certeza encontrá-lo. Falei bobagem só para relaxar do estresse de fim de ano! Você perdeu o seu tempo em ler, e eu, o meu de escrever, então, estamos quites.
Agora vou falar sério: o pão é bom mesmo, e tem a vantagem de ficar pronto em apenas 15 minutos de forno, o que é ideal para o barco, pois economiza gás, e não esquenta o ambiente. Pegue a receita na Internet; se quiser passar um tempão amassando e esperando a massa crescer; tem uma boa no “site” do Jornal Hoje, da Rede Globo.
Nos próximos dias, muito trabalho conjunto no barco, correria de epóxi e sikaflex, lavação de roupa, do próprio barco, etc… Depois, vamos explorar o Canal de Itaparica. É a programação baiana, por ora. Ah, e procurar bandeirinhas para enfeitar o barco, para as festas todas que virão.

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Versão do Dorival

Saímos de Salvador logo após o meio dia, com destino a Itaparica para, no outro dia, iniciar um passeio pelo Rio Paraguaçu. Sua foz fica na Baia de Todos os Santos. Nesse dia, chegaram mais de 20 saveiros para participar de uma regata. Saveiro-no-TENABUm deles ficou com a adriça da vela presa em um moitão, impedindo baixá-la. O espaço entre os cais do Tenab é pequeno. Rapidamente, vários homens mergulharam e levaram cabos para prender o saveiro aos outros barcos e ao cais, enquanto um subia muito rápido e,  sem qualquer ajuda de cabo ou cadeirinha, chegou ao topo do mastro para soltar a vela. Gostei muito de ver como eles tratam, uns aos outros, com cordialidade e respeito, apesar de serem concorrentes na regata e no trabalho do dia a dia, transportando todo tipo de coisa entre as pequenas localidades situadas na da Baia de Todos os Santos, em suas ilhas ou nos rios que nela deságuam.
Velejamos até a nossa primeira ancoragem no rio, atrás da Ilha de Monte Cristo. Um lugar muito calmo e tranquilo; nem a correnteza incomoda quando a maré está vazando. A ancoragem é tão calma quanto na Ilha da Cotia, em Paraty, e no Bracuhy, em Angra dos Reis.
No dia seguinte, seguimos para São Francisco do Paraguaçu. A comunidade é pequena, 1.500 habitantes. Todas as casas ocupam Luthier--no-Rio-Paraguaçuterrenos de dimensões parecidas, tendo suas portas e janelas bem próximas à rua, sem varandas ou jardins.
Ancorado próximo ao Luthier estava o veleiro de duas irmãs francesas, que viajam pelo mundo desde 1992. É a segunda vez que passam pela costa do Brasil. Da primeira vez não tinham visto de entrada, e não puderam desembarcar. Agora, o visto não é mais necessário. Elas foram conosco visitar a comunidade e o Convento de Santo Antônio.
A igreja do convento está parcialmente restaurada. A moradora da localidade que nos levou para visitá-lo disse que a reforma parou em 2002, ficando o lado externo e os alojamentos sem restauro. O interior está quase todo vazio, as imagens foram re tiradas e quase todos os azulejos foram removidos. A história do convento está relacionada com os problemas atualmente vividos pelos moradores.
Andando pelas ruas, reparamos que muitas casas têm um cartaz colado com os dizeres: “Não somos quilombolas, não”. Conversamos com moradores que acham que são quilombolas, e os que não. Não pretendo discutir quem tem razão, mesmo porque, o assunto está na justiça e de cada parte há argumentos, fraudes e violências comprovadas. É só procurar por “São Francisco do Paraguaçu” no “Google”, que você irá achar bastante informação, até uma reportagem que foi veiculada no Jornal Nacional.
O que de fato me impressionou foi ver as casas marcadas. Isso me lembrou passagens históricas da época dos romanos, citações bíblicas e, mais recentemente, as casas dos judeus marcadas na Alemanha, pouco antes da segunda guerra, e a KKK nos EUA.Casas-marcadas Em todos os casos, sempre há disputas de terra, e muita violência se sucede a partir disso. Em São Francisco do Paraguaçu também. Em agosto deste ano, violência de ambas as partes envolvidas acabou ferindo pessoas, destruindo mata nativa e torturando animais. 
Ouvi falar de moradores que um grupo de empresários pretende usar o que restou do convento e da igreja para montar um hotel, nos moldes do que foi feito no Carmo, em Salvador.
A Baia de Iguape, banhada pelo Rio Paraguaçu, é um ponto de passagem de Saveiros. Todo dia se vêem vários deles. Tudo é muito lindo. As margens estão bem preservadas. Espero que, seja lá qual for a decisão em relação à comunidade, isso não resulte em desmatamento e destruição da natureza, que é o maior bem que eles têm.
Antes de voltar para Itaparica, pensamos muito em subir o rio até Cachoeira e São Félix. Velejadores baianos vão lá com frequência. Convento-de-Santo-Antônio--Tínhamos os “waypoints” para fazer o cruzamento da Baia de Iguape e subir o Rio, mas com a maré morta, não tive coragem de passar em lugares com apenas 2 metros, na maré cheia. O Luthier cala 1,6 metros.
Voltamos para Itaparica sem vento, no motor. Há algumas novidades em Itaparica: muitas casas  estão sendo pintadas para a temporada; a padaria cor de rosa foi pintada de branco; há um posto da Polícia Militar instalado em uma sala da marina; e a senhora argentina, meio maluca, que morava no coreto, agora mora debaixo de uma árvore, em uma praça próxima à Delegacia de Polícia.
O ancoradouro está mais ocupado. Tinham me dito que os baianos adoram ancorar muito próximos. É verdade, assusta um pouco. Antes de explorar o canal de Itaparica, tenho que aproveitar a ancoragem e instalar alguns acessórios no convés. Dia de meleca com Sikaflex.

2 Responses to “Luthier – No Rio Paraguaçu”

  1. Ivan e Egle disse:

    Belo passeio esse pelo Rio Paraguaçu. Temos boas recordações. As querelas presentes pelas terras entre quilombolas e não-quilombolas são entretanto uma novidade (triste) para nós. É mesmo muito difícil manter-se a harmonia e a pureza de espírito das comunidades quando começa a haver valorização das áreas onde vivem. Será o preço do progresso ? Será que isso é inevitável ? Será que vale a pena ?

    O próximo passeio anunciado por vocês também é “massa”. Aguardamos as estórias sobre o canal de Itaparica, a Fonte do Tororó e as localidades de Catu e Caixa-Prego (cuidado com a navegação além de Catu, se forem se arriscar por lá; há muitas coroas e muita correnteza de maré).

    Bons ventos e Boas Festas

    Ivan e Egle (TAAI-FUNG II)

  2. Dorival e Catarina disse:

    Olá Ivan e Egle,

    Disputas são coisas normais no dia-a-dia da sociedade. A justiça deveria ser menos morosa. A violência entre as partes envolvidas é que assusta. Não temos respostas para suas perguntas. De qualquer forma, achamos o rio bem preservado.
    Estamos em Catu, um local muito interesante. Não pretendemos seguir além.
    Daqui, voltaremos devagar,visitando os pontos que observamos no caminho.

    Boas festas para vocês também.

    Abraço

    Dorival e Catarina

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